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2 de junho de 2020

Roberto Bolaño e os dissabores do verdadeiro polícia


«¿Y qué fue lo que aprendieron los alumnos de Amalfitano? Aprendieron a recitar en voz alta. Memorizaron los dos o tres poemas que más amaban para recordarlos y recitarlos en los momentos oportunos: funerales, bodas, soledades. Comprendieron que un libro era un laberinto y un desierto. Que lo más importante del mundo era leer y viajar, tal vez la misma cosa, sin detenerse nunca. Que al cabo de las lecturas los escritores salían del alma de las piedras, que era donde vivían después de muertos, y se instalaban en el alma de los lectores como en una prisión mullida, pero que después esa prisión se ensanchaba o explotaba. Que todo sistema de escritura es una traición. Que la poesía verdadera vive entre el abismo y la desdicha y que cerca de su casa pasa el camino real de los actos gratuitos, de la elegancia de los ojos y de la suerte de Marcabrú. Que la principal enseñanza de la literatura era la valentía, una valentía rara, como un pozo de piedra en medio de un paisaje lacustre, una valentía semejante a un torbellino y a un espejo. Que no era más cómodo leer que escribir. Que leyendo se aprendía a dudar y a recordar. Que la memoria era el amor.»
Roberto Bolaño, Los sinsabores del verdadero policía (2011)
O fascínio que certos fabuladores exercem na minha sensibilidade estética é incontornável. Contam-se pelos dedos das mãos, mas, apesar do seu número reduzido, compensam largamente todos os restantes que entretanto vou visitando assiduamente. Roberto Bolaño encontra-se representado nesse número restrito de eleitos. Sempre que me deparo com um texto seu desconhecido de dimensão variável, não resisto a pegar-lhe e trazê-lo comigo para casa. Leitura talvez difícil mas sempre estimulante na aventura da descoberta. A última aquisição trouxe-a da Casa del Libro de Sevilha. Fala-nos d'Os dissabores do verdadeiro polícia (2011), uma proposta descritiva desafiante para começar e desenvolver logo de início uma história empenhada em prometer muitos enigmas de percurso nem sempre simples de decifrar ou de confirmar.

A edição que segui é precedida pelo «Prólogo: Entre el abismo y la desdicha», assinado pelo académico e crítico literário Juan Antonio Masoliver Ródenas, e encerra com uma «Nota editorial» preparada por Carolina López, viúva do novelista. As informações neles veiculados são preciosas para compreender as particularidades específicas dum romance publicado postumamente, o terceiro a gozar deste estatuto, num corpus literário ainda longe de estar esgotado. Uma das revelações mais curiosas prende-se aos hipotéticos significados escondidos no título escolhido. Sem nos fazer desesperar muito pela sua descodificação, todos os mistérios são descartados ab initio pelo próprio autor em declarações pessoais por si lavradas, elucidando-nos que o verdadeiro polícia ali registado se refere ao leitor que busca em vão ordenar uma novela endemoninhada, feita de labirintos e desertos, num contínuo processo de gestação inacabada. A ideia será reiterada a páginas tantas do livro (IV.5) e poderá aplicar-se, grosso modo, a todas as obras de ficção por si gizadas.

A compilação e cotejo de todos os documentos encontrados nos arquivos pessoais do malogrado escritor chileno, tanto os deixados em estado manuscrito como os datilografados numa máquina de escrever elétrica ou processados em suporte digital no computador, serviram de base à reconstituição do produto final dado à estampa pelos herdeiros literários e para deleite dos leitores. Deste exercício de fixação definitiva do texto, surgiram cinco secções de dimensão variável, com as quais as histórias cruzadas dos principais intervenientes se vão fazendo de modo fragmentário e com final irremediavelmente suspenso. Tudo começa com uma simbólica queda do muro de Berlim e termina com a referência aos assassinos de Sonora. Pelo meio ficam diversos apontamentos referentes a Amalfitano e Padilla, a Rosa Amalfitano e a J. M. G. Arcimboldi, protagonistas por excelência deste grande puzzle narrativo e que, para quem conhece minimamente a obra do seu obreiro, já os terá encontrado tanto n'Os detetives selvagens como no 2666. Parece que também num ou noutro conto das Chamadas telefónicas, coletânea a visitar um dia destes quando a oportunidade se apresentar.

As deambulações dum professor universitário chileno de 50 anos, desde Barcelona até Santa Teresa no México, são o pretexto para traçar a linha condutora da intriga. Faz-se acompanhar duma filha de 17 anos e de todos os fantasmas do passado em que a temática da homossexualidade e da sida são recorrentes, num contínuo de episódios dispersos que nem sempre cabem numa sequência única, seguida e coerente. Repartem-se por muitos flashes enunciativos carentes dum princípio e dum final claros. Ficam a pairar na sua incompletude programática. Apontamentos esboçados de destinos diferentes. Lacunas ocasionais ou estratégicas dum estratega das palavras ditas e por dizer. Jogo de gato e rato ou, se preferirmos, de polícia e ladrão, para dar jus ao título que o resume. Questões afloradas sem o remate esperado que uma leitura ingénua exigiria, deixadas em suspenso como acontece com a própria vida, cheia de segredos nunca revelados, que nunca farão parte da nossa experiência e que se encarregará de levar inevitavelmente consigo quando o derradeiro dia chegar.

24 de janeiro de 2019

Roberto Bolaño: os poetas de ferro e a pista de gelo

«La tranquilicé explicándole que el mexicano era un poeta y la recepcionista contestó que su novio, el peruano, también lo era y no se comportaba así. Como un zombi. No quise contradecirla. Menos aún cuando dijo, mirándome las uñas, que la poesía no daba nada. Tenía razón, en él planeta de los eunucos felices y los zombis, la poesía no daba nada.»
Roberto Bolaño, La pista de hielo (1993)
Roberto Bolaño tornou-se nos tempos conturbados em que vivemos num dos escritores de culto com mais adeptos em todos os quadran-tes geográficos aonde os seus livros já chegaram. O sucesso deste autor de referência obrigatória e presença imperiosa em todas as bibliotecas públicas e privadas tem sido feita tanto a partir da versão original castelhana com ressaibos chileno-mexicanos, como das tra-duzidas para um número crescente de línguas. Situação a todos os títulos invulgar, dado aplicar-se a um criador que teve de morrer para se tornar célebre à escala global, sem para esse efeito ter entrado no clube restrito dos fabricantes encartados de fantasias gratuitas, dos vendedores de sonhos baratos convertidos em bestsellers de leitura superficial e inócua, expressamente feita para consumir e deitar fora. 

Encetei o regresso inevitável à magia do inventor do infrarrealismo literário através d’A pista de gelo (1993), a primeira obra em prosa que deu à estampa com a forma de romance e um dos derradeiros títulos a ser divulgado entre nós. O prazer do reencontro foi imediato. Mais uma vez o fascínio repetiu-se. A vontade firme de novos encontros saiu reforçada. Assim o baú do efabulador continue a abrir-se e a revelar-nos postumamente os textos que razões desconhecidas mantiveram inéditos até à presente data. Assim o fundo dessa arca de tesouros escondidos atinja uma dimensão abissal, para que os nossos convívios com o universo imagético da escrita aconteçam e os diálogos com o seu arquiteto se refaçam ciclicamente. 

Os temas, assuntos e motivos desta obra inaugural serão retomados exaustivamente na produção novelesca editada em datas poste-riores. Contudo, a hipotética suspeita de iteração abusiva não se instala no horizonte de receção dos leitores. Tudo se passa à boa maneira barroca da arte da fuga, em que o caráter contrapontista, polifónico e imitativo das melodias em confronto se associam para criar a sensação de unidade e diversidade da própria existência humana, ancorada na perseguição e evasão duma ideia central e plasmada indiferentemente numa pauta de música ou numa página de livro. As harmonias alcançadas são o produto catalisador da própria variação. Por outras palavras, todas as histórias estão dentro doutras histórias, as pretéritas e as vindouras, num contínuo narrativo de fragmentos soltos unidos pela mestria da composição.

Exige o senso comum regulador das boas práticas da resenha literária que a partilha das leituras feitas nunca revele o mistério das leituras projetadas. O desvendar de enigmas é um processo estético que só funciona em toda a sua plenitude mágica se for efetuado em primeiríssima mão. O argumento possível desta pista de gelo encontra-se registado na contracapa do exemplar visitado. Refere tratar-se de três versões distintas dum mesmo crime perpetrado numa localidade anónima da costa espanhola. Avança com outros pormenores que um pudor pessoal me impede precisar. Quem quiser saber mais dos enredos equacionados pela narrativa que se fique pela capa ou viaje pelo interior do livro. Hipótese que defendo vivamente. A experiência da descoberta vale o esforço. 

Os fragmentos de vida vivida pelos poetas de ferro que dão corpo à fábula espelham, em grande medida, o percurso de vida vivida pelo poeta-narrador que os retratou, em episódios feitos e refeitos ao sa-bor da pena que os traçou. O autor e as personagens confundem-se entre si, visto fazerem parte duma mesma verdade, a real e a ima-ginada. Andarilhos, marginais, exilados, boémios, famintos. Pícaros desajustados nesta era de pós-modernidade consumada no res-caldo de guerras frias travadas dos dois lados do muro da vergonha também apelidado cortina de ferro. Protagonismos indesejados de acontecimentos recentes convocados à colação do leitor para memória futura. Razão tem Roberto Bolaño para defender, através do testemunho oportuno duma personagem, que se o perdido está perdido, o melhor mesmo é olhar em frente. A frase com que A pista de gelo termina tem um outro alinhamento de palavras. A ideia que a enforma permanece todavia inalterada, com toda a força premonitória de aviso ou prevenção que o nosso engenho e arte lhe consiga outorgar…

NOTA
Trazido do Pátio de Letras para este recanto de histórias, porque nunca é de mais ler/reler Roberto Bolaño.

22 de janeiro de 2018

Roberto Bolaño, sombras, desertos & enigmas dos detetives selvagens

«He sido cordialmente invitado a formar parte del realismo visceral. Por supuesto, he aceptado. No hubo ceremonia de iniciación. Mejor así.»
Roberto Bolaño, Los detectives salvajes (1998)
Os grandes marcos da criação literária assentam invariavelmente em motivos triviais traçados na mais perfeita simplicidade argumentativa. A cólera de Aquiles, a loucura do don Quijote, a magia do doutor Faus-to, o idealismo do rei Artur, a lascívia do don Juan inspiraram gerações de leitores ávidos de estímulos estéticos feitos de palavras ditas, des-ditas e reditas. Gilgamech persegue a imortalidade, Édipo conhece-se a si mesmo, Ulisses regressa a casa e vinga-se dos pretendentes de Penélope, Lazarilho tenta saciar a fome e singrar na vida, Romeu e Julieta perpetuam o amor que o destino lhes ajustou através da morte. Os exemplos podiam multiplicar-se até esgotarem os leitmotiv mais imitados pelas belas-letras universais. Umberto Eco exuma o segundo livro da Poética de Aristóteles numa biblioteca conventual com nome de rosa e entrega-o às chamas purificadoras dum incêndio providencial. José Saramago refaz a história do cerco de Lisboa com a mera troca dum sim por um não e problematiza o papel desempenhado pelos cruzados na conquista da cidade. Roberto Bolaño preenche as 600 páginas d'Os detectives selvagens (1998) com o rasto duma poetisa mexicana que publicou um único poema visual em toda a sua existência, feito com uma palavra, duas sílabas e três desenhos. Genial, apetece dizer.

Frequento o novelista chileno há relativamente pouco tempo. O boom editorial do 2666 foi o culpado. Por vezes, o ruído causado pelos bestsellers globais acaba por ser proveitoso. Não resistimos ao apelo publicitário e embarcamos na aventura peregrina da descoberta da obra-prima anunciada. Depois, damo-nos conta que a qualidade também pode conviver com a quantidade e passamos à exploração sistemática dos restantes títulos dos autores bafejados pelo sucesso, para que o prazer experimentado uma vez se volte a repetir ad æternum. Lidos os livros, a sensação que nos invade é a de que quem lê um lê todos. Curiosamente, fica-se com a vontade de ter um outro mais ali à mão, para recomeçar tudo de novo, à cata dum final decisivo para todas as histórias inacabadas que povoam cada um dos romances já publicados ou em vias de o serem. Pura ilusão. O segredo da escrita do arquiteto do infrarrealismo reside sobretudo no caráter lacunar dos relatos, na incapacidade de lhes dar um desfecho tranquilizador, porque cada um deles está ancorado na realidade quotidiana que nos envolve, modelo matricial de todos os heróis/anti-heróis imaginados pela ficção, até que a morte nos liberte e dê a possibilidade de vislumbrar a perfeição.

Juan García Madero ingressa no universo imagético do realismo visceral e regista nas páginas dum diário pessoal as impressões dessa experiência peculiar. Tem 17 anos e a vida toda pela frente. Fá-lo enquanto mexicano perdido na imensidade da capital do México, entre 2 de novembro e 31 de dezembro de 1975, e nos desertos de Sonora, entre 1 de janeiro e 15 de fevereiro de 1976. A balizar as efemérides documentadas nos dois períodos de espaço-tempo referidos, o leitor depara-se com 26 blocos de fragmentos narrativos, repartidos por 96 testemunhos individuais dispersos, proferidos nos quatro cantos do mundo, entre 1976 e 1996, por 53 personagens diferentes, a pedido dum número indeterminado de pesquisadores ou detetives selvagens. Nesses vinte anos de diligências ininterruptas, encontramos Arturo Belano e Ulisses Lima a rastrearem as pisadas da mítica Cesárea Tinajera e a serem também eles investigados, alternadamente, não se sabe muito bem por quem, por quê ou para quê. Sombras, desertos e enigmas selecionados a adensarem o conjunto de mistérios insondáveis, labirínticos, sinuosos que os microrrelatos coligidos nunca chegam a esclarecer cabalmente e que os leitores avisados deixaram de questionar ou se habituaram a ver como episódios soltos, isolados, singulares, expostos ao sabor da pena ou dos caprichos da fortuna.

Em síntese, trata-se de um extenso metadiscurso sobre a literatura latino-americana atual, uma sátira cerrada à república das letras e à sua relação utópica com a política, um olhar crítico à demanda assídua das portas do paraíso, aquelas que se abrem ao reconhecimento público almejado por todos os artistas e dão acesso aos passeios duma fama desejada e raras vezes alcançada. Bolaño aproveita a boleia e mergulha a fundo na fábula. Põe a máscara duma ou outra personagem e converte-se no detetive selvagem por excelência dos seus próprios percursos pelos domínios da escrita: aventureiro, andarilho, exilado, boémio, libertino, novelista e poeta. Ingredientes essenciais para dar sabor a uma vida breve e auspiciar sucesso a uma obra celebrada, paradigma de eternidade a muito poucos concedida, apanágio de seres privilegiados habituados a jogar às cartas com os deuses e a ganharem.

NOTA
De repente apeteceu-me voltar aos universos da escrita de Roberto Bolaño e trazer para este espaço as palavras que em tempos registei no Pátio de Letras sobre Os detetives selvagens. Tarefa pensada, tarefa efetuada.

13 de fevereiro de 2017

Roberto Bolaño, o terceiro reich e os demais jogos de guerra

«– Ese tablero, como puedes apreciar, es el mapa de Europa. Es un juego. También es un desafío. Y es parte de mi trabajo.»
Roberto Bolaño, El Tercer Reich (2010)
Lidos os livros de que gostamos, só nos resta voltar a abri-los mais uma vez para uma nova visita ou fechá-los por uns tempos e encetar um longo diálogo silencioso com as ideias que despertaram em nós. Se a conversa for frutuosa e a quisermos preservar para uma memória futura, podemos sempre confiar excertos dessa amena cavaqueira a uma folha de papel. Para ser mais preciso neste admirável mundo novo de virtualidades digitais, transformar as palavras escritas com tinta em impulsos elétricos de uma página word com carateres escolhidos de acordo com a inspiração do instante e o assunto tratado.

Roberto Bolaño tem essa rara aptidão de cativar o leitor, de o desafiar a trocar confidências com as personagens dos universos por si inventados, à sombra de casos de vida real com que se cruza todos os dias sem lhe prestar uma atenção especial, tão banais lhe parecem. Pessoalmente, já havia saboreado essa sensação com o 2666 (2004), o último romance de romances ou novelas que nos ofertou já a título póstumo e lhe abonou o passaporte para um muito justo reconhecimento internacional. O mesmo efeito de captura total voltou a ocorrer com O Terceiro Reich (2010), também ele deixado inédito, apesar de ter sido arquitetado por volta de 1989, no início da sua fulgurante carreira de artesão de relatos em prosa. Ignoramos as razões que o terão levado a deixá-lo esquecido, talvez incompleto ou abandonado, no meio de outros manuscritos em boa hora descobertos, que os fiéis depositários literários têm vindo a converter em letra de forma e a confiar ao convívio de todos nós. A partilha tem sido preciosa.

O argumento é fácil de traçar. Centra-se numas breves férias de verão que um jovem casal de alemães, na casa dos 25 anos, goza na Costa Brava espanhola. As peripécias que marcaram a estada no hotel Del Mar, os encontros e desencontros com turistas e nativos, as aventu-ras e desventuras experienciadas por todos, as conhecidas e as ima-ginadas, estão meticulosamente registadas no diário do protagonista, que constitui, em suma, o romance que temos entre mãos. Como relato de primeira pessoa que é, a sua descoberta proporciona o mistério, a dúvida, a hesitação. Um cheirinho policial a estimular o enredo. A subjetividade de informação impera. O ponto de vista do narrador a alternar aqui e ali com fragmentos de discursos proferidos em direto pelos restantes intervenientes da intriga. As certezas de uns a colidirem com as incertezas de outros. A fronteira entre amigos e inimigos muito difícil de traçar. Sobretudo quando se sentam em lugares opostos duma mesa de jogo, com um tabuleiro hexagonal e muitas fichas de permeio, quando se transmudam em estrategas rivais dum wargame que dá pelo nome provocador de Terceiro Reich, quando se convencem que o destino dos homens pode ser vivido duas vezes e de forma diferente. Os combates travados por ambas as partes pela vitória chegam a assumir o contorno duma luta de vida e morte. A imagem dos dois jogadores de xadrez filmados por Ingmar Bergman n’O sétimo selo a pairar insistentemente no meu imaginário particular, mas com um desfecho menos dramático. No final da contenda, o derrotado não é incorporado na procissão de flagelados como o cruzado medieval. Limita-se a regressar à Alemanha natal duas vezes vencida pelas forças aliadas, no palco real da II Guerra Mundial e no cenário fingido dum jogo de guerra social. O bélico e o lúdico lado a lado a comentarem as efemérides dum passado recente.

Mais do que uma incursão de nos meandros do defunto império germânico dos mil anos anunciados, duma apologia ou anátema aos princípios que nortearam a sua criação, abrigo e queda, este texto quase inaugural de Roberto Bolaño convida-nos a pisar as tábuas do teatro europeu contemporâneo e a rever os dramas que nele se representaram em meados do Séc. XX. Alerta-nos para a impossibilidade de reescrever a nosso belo prazer a História, de não estar ao alcance de nós a faculdade de comutar os desastres em triunfos ou de disfarçar os erros em sucessos. Afirma-nos que o destino das nações não se joga aos dados nem ao sabor dos caprichos da sorte e do azar, que os logros e malogros dos heróis e anti-heróis da gesta dum povo não podem ser refeitos por nenhuma vontade humana ou divina. Pensar o contrário é como se fôssemos fantasmas dum estado-maior fantasma a exercitar-se continuamente sobre tabuleiros de wargames, como se fôssemos sombras sobre sombras, oficiais de faz de conta a zombar da legalidade dos factos feitos por homens de carne e osso. Esta a realidade nua e crua imposta à imaginação, mesmo quando posta ao serviço dos labirintos insondáveis da literatura.

NOTA
Os jogos de guerra andam por aí. Estão na moda. Imagina-se um determinado conflito mundial resolvido pela lei do mais forte e reequacionam-se novas estratégias, como alterar arbitrariamente a listagem dos vencedores e vencidos. Roberto Bolaño fê-lo muito à sua maneira n'O Terceiro Reich, texto que comentei há precisamente seis anos no Pátio de Letras. Lembrei-me de o trazer para aqui para uma releitura feita à luz do contexto bélico de palavras que agora se vão vivendo... 

27 de outubro de 2015

Roberto Bolaño, 2666 e o número da besta apocalíptica

«Pero ella se preguntaba (y de paso les preguntaba a ellos) hasta qué punto alguien puede conocer la obra de outro.»
Roberto Bolaño, 2666 (2004)
O mundo não acabou em 666, nem em 1666 e ninguém pode afirmar, no seu perfeito juízo, que terminará em 2666. Em nenhuma das 1100 páginas do 2666 (2004), que Roberto Bolaño nos deixou para publicação póstuma, se refere essa cifra mágica. Salvo no título da obra que dá unidade a este romance de novelas, nalguns casos meros contos ou arremedo fragmentário. As interpretações que o editor dos manuscritos dispersos do texto nos fornece são engenhosas, mas nunca passarão de meras conjeturas à espera duma confirmação mais consistente. A leitura atenta das dezenas de histórias que compõem este labirinto de palavras remete-nos sempre para o tal número da besta. O apocalíptico. O abismo a atrair-nos fatalmente para o precipício.

Das cinco novelas independentes imaginadas pelo autor, resultou um volume único repartido por cinco partes autónomas orquestrado pelos herdeiros. Lido o livro, ficamos com a sensação de ter sido uma medida acertada. A ordem escolhida nem parece arbitrária. Tudo começa e acaba em Beno von Arcimboldi. O escritor misterioso procurado em vão por quatro professores e críticos de literatura alemã, o inventor de histórias alheias a revelar-nos, no final do relato, a história verdadeira da sua própria existência. A ficção disfarçada de factual. Os alicerces programáticos do infrarrealismo poético transferidos para as sinuosidades específicas da prosa. Pelo meio, fica-nos ainda um punhado considerável de episódios centrados na figura do filósofo chileno e refugiado político Amalfitano e na do jornalista afro-americano e ativista político Fate. As nótulas descritivas das 110 mulheres assassinadas em série completam a trama. A cidade de Santa Teresa, situada na fronteira do México com os Estados Unidos, a convocar todos os intervenientes dos eventos narrados para um espaço cénico único, para um local de encontro/desencontro do homem com o seu próprio destino, para um palco do mundo em que todos nós somos, simultaneamente, os espetadores e atores dum mesmo drama de vida e morte.

O lançamento do romance conheceu um sucesso imediato mas meteórico nos meios cultos circundantes deste nosso cantinho atlântico. No curto período de tempo que atravessou as altas esferas siderais, iluminou tudo em seu redor. Depois extinguiu-se completamente sem deixar rastro atrás de si. As causas deste fenómeno não estão apuradas mas são fáceis de deduzir. A fama de obra-prima que os mass media lhe conferiu precedeu a sua publicação efetiva entre nós. Se a revista Time já afirmara tratar-se do «acontecimento literário da década», lá teria as suas razões bem fundadas em propagar essa nova por toda a parte, qual bênção papal urbi et orbi no início de cada ano. Confrontado com a monumentalidade da fábula, o vulgo assustou-se. Leu as primeiras páginas, saltou outras e evitou as restantes. A falta de tempo, entretanto aduzida, continua a ser um argumento de peso. Categórico, eficaz, tranquilizador.

Pessoalmente, li o 2666 de fio a pavio, sem hesitações e com muito prazer. Sobretudo porque não admite sínteses nem continuações. Por vezes fui obrigado a interromper a leitura, mas nunca procurei desculpas esfarrapadas para deixar de o fazer. Trata-se dum texto fascinante que só peca por ter um fim anunciado. Sinal de que a opinião abalizada de alguns críticos ainda pode merecer o nosso crédito. O universo académico das conferências, congressos e simpósios alterna com o universo policial dos homicídios, violações e estrangulamentos. O mundo dos enigmas, segredos e mistérios atravessa toda a tessitura discursiva a um ritmo alucinante. O terror erótico e onírico a concorrer com o anedótico grotesco e repulsivo. Tudo isto protagonizado por dezenas de figurantes representantes de todos os estratos e camadas sociais, dispersas pelo velho e novo continentes. As figuras politicamente corretas não abundam, são todas elas banalíssimas nas suas estranhezas. Tal como nós, personagens da vida real. Este talvez seja o grande segredo que Roberto Bolaño conseguiu imprimir à sua obra magna. Essa a razão do magnetismo poético das palavras que empresta ao discurso e oferece aos leitores. Todos nós nos vemos retratados nesse entrecruzar eclético de experiências imperfeitas. Sem uma solução de vida expectável que não seja a própria morte. Inexoravelmente certeira nos seus desígnios.

NOTA
Descobri Bolaño há cerca de cinco anos, altura em que escrevi estas linhas sobre o 2666 e as publiquei no Pátio de Letras. Trago-o agora para aqui, com alguns pequenos retoques editoriais, porque nunca é de mais dar visibilidade aos textos que merecem escapar às leis nem sempre compreensíveis do ostracismo.