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22 de março de 2022

Tchaikovsky e as nove musas de Apolo

Baldassare Peruzzi - Apollo e le Muse (1514-23)
[
Galleria Palatina - Palazzo Pitt - Firenze]

ταῦτ᾽ ἄρα Μοῦσαι ἄειδονὈλύμπια δώματ᾽ ἔχουσαι,
ἐννέα θυγατέρες μεγάλου Διὸς ἐκγεγαυῖαι,
Κλειώ τ᾽ Εὐτέρπη τε Θάλειά τε Μελπομέενη τε
Τερψιχόρη τ᾽ Ἐρατώ τε Πολύμνιά τ᾽ Οὐρανίη τε
Καλλιόπη θ᾽ δὲ προφερεστάτη ἐστὶν ἁπασέων.       

Ησίοδος, Θεογονία (c. séc. Ⅶ AEC, 76-79) 


Ecos do Templo das Musas...
No início dos anos 70, um colega ofereceu-me uma gravação do Concerto para piano e orquestra N.º 1 de Tchaikovsky, interpretado por Emil Gilels e pela Orquestra do Teatro Bolshoi de Moscovo, dirigida por Samuel Samosud. Comprara-o nas vésperas da sua partida para a frente guineense da guerra colonial, como prova de amizade e memória futura de contornos desconhecidos. Fizera-o na TÁLIA, uma papelaria, livraria e discoteca com nome da Musa da Comédia, o que o terá salvaguardado dos desígnios de MELPÓMENE, a Musa da Tragédia, e dos horrores causados pelo conflito africano.

Ainda hoje guardo esse 33 rotações por minuto, um LP vinil com qualidade hi-fi stereo garantida na capa, produzido nos estúdios da Musidisc, a documentar a simbiose perfeita criada pelo universo musical russo-soviético então no seu apogeu e que o salazarismo-caetanismo da época se limitava a tolerar. Há muito que o deixei de ouvir num gira-discos adequado que EUTERPE, a Musa da Música, se encarregou de substituir por outros meios mais apropriados de se fazer escutar. Nos dias que correm, a Net e o YouTube funcionam às mil maravilhas. Conquistas fulminantes de CLIO, a Musa da História.

Vemos, ouvimos e lemos, todos os dias e a toda a hora, nas televisões, nas rádios e nos jornais impressos ou divulgadas on-line pela Net as atualizações ao minuto da agressão russa à nação ucraniana. As sanções económicas do mundo ocidental à superpotência invasora não têm cessado de seguir as instruções possantes de CALÍOPE, a Musa da Epopeia. Ultimamente, a condenação internacional passou a virar-se para as sanções culturais, medidas que têm merecido a reprovação unânime de todas as companheiras de Apolo, expressa sobretudo de modo firme e relutante por ÉRATO, a Musa da Lírica.

A Filarmónica de Cardiff removeu peças de Tchaikovsky do seu reportório. TERPSÍCORE, a Musa da Dança, tremeu de espanto, temendo que depois da Abertura 1812, a censura se voltasse a breve trecho para O Quebra-Nozes, O Lago dos Cisnes ou A Bela Adormecida. Foi acompanhada neste movimento de indignação por POLÍMNIA, a Musa dos Hinos Sagrados, já que a purga começou a sentir-se noutros quadrantes geográficos situados nos dois lados da fronteira bélica instalada em terras europeias e nas restantes áreas da expressão artística e literária representativos de todo o mundo.

Com os fones postos, oiço os três andamentos do Concerto para piano e orquestra N.º 1 de Tchaikovsky  Allegro ma no troppo, Andante semplice, Allegro con fuoco  e pergunto a URÂNIA, a Musa da Astronomia-Astrologia, se esta Opus 23 em si bemol menor do grande criador russo do século ⅩⅨ se voltará a executar em todo o mundo livre de guerras e em paz. É que de todas as divindades veneradas no Mouseion, o Templo das Musas, parece ser a mais capaz para ler as mensagens emanadas dos astros e fazer descer a harmonia celestial sobre a terra. Continuo à espera duma resposta. Sentado.

EPÍGRAFE
Isso cantavam, naturalmente, as Musas que ocuparam as moradias olímpicas, as nove filhas do grande Zeus, Clio, Euterpe, Tália, Melpómene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia e Calíope. Esta é a mais destacada de todas, pois acompanha os veneráveis reis. 
Hesíodo, Teogonia (76-79)

22 de outubro de 2021

Os olhares da Medusa olhados por Michelangelo Merisi da Caravaggio

CARAVAGGIO
Scudo con testa di Medusa (ca. 1598-1599)
Φόρκυϊ δ᾽ αὖ Κητὼ Γραίας τέκε καλλιπαρῄους ἐκ γενετῆς πολιάς, τὰς δὴ Γραίας καλέουσιν ἀθάνατοί τε θεοὶ χαμαὶ ἐρχόμενοί τ᾽ ἄνθρωποι, Πεμφρηδώ τ᾽ ἐύπεπλον Ἐνυώ τε κροκόπεπλον, Γοργούς θ᾽, αἳ ναίουσι πέρην κλυτοῦ Ὠκεανοῖο ἐσχατιῇ πρὸς Νυκτός, ἵν᾽ Ἑσπερίδες λιγύφωνοι, Σθεννώ τ᾽ Εὐρυάλη τε Μέδουσά τε λυγρὰ παθοῦσα. μὲν ἔην θνητή, αἳ δ᾽ ἀθάνατοι καὶ ἀγήρῳ, αἱ δύο: τῇ δὲ μιῇ παρελέξατο Κυανοχαίτης ἐν μαλακῷ λειμῶνι καὶ ἄνθεσιν εἰαρινοῖσιν. τῆς δ᾽ ὅτε δὴ Περσεὺς κεφαλὴν ἀπεδειροτόμησεν, ἔκθορε Χρυσαωρ τε μέγας καὶ Πήγασος ἵππος.

Garantem-nos os mitos ancestrais, repetidos de geração em geração pelas lendas etiológicas e recriados pelos fabulistas ao longo dos tempos regidos por Cronos, ter tido a infeliz Medusa a veleidade de se achar mais bela do que a divina Atena. A ousadia saiu-lhe cara, porque a filha olímpica de Zeus e Métis não deixou de punir a filha marinha de Fórcis e Ceto. Converteu os longos cabelos da rival em monstruosas serpentes, alongou-lhe os dentes como se fossem presas de javali e substituiu a macieza das mãos e dos pés pela aspereza do bronze. Dotou-a ainda dum olhar penetrante com o poder de reduzir a pedra quem os olhasse de frente se fazem se pagam. E ainda bem que assim foi, pois caso contrário Michelangelo Merisi de Caravaggio não teria podido pintar o destino trágico da Górgona degolada.

Tema insólito ao gosto maneirista pela exibição pintada dum vulto menor do panteão helénico e ecos nítidos no latino, este olhar gélido cristalizado para a eternidade num escudo de torneio representa a fixação barroca dum ápice único, o mais dramático da sua existência, o último esgar de vida do monstro decapitado. Um olhar sem vida que deixou de olhar quem o está a olhar, por ter provado os estertores da morte. Um verdadeiro paradoxo do olhar. Aquele que em vida petrificava homens e deuses com o olhar, depois da morte passou a atrair multidões para ser olhado. O horror, espanto, choque duma cabeça viperina de olhar sinistro outrora vivo, transformou-se numa cabeça sangrenta, incapaz de voltar a olhar quem a quiser olhar numa superfície polida, sem temor, seguindo o exemplo de Perseu.

Medusa, a sinistra irmã de Esteno e Euríala, a única Górgona mortal que se tornou imortal depois de morta, traduz um percurso imagético singular que lhe outorga o estatuto de anti-heroína atípica, criado pela vontade involuntária dos deuses e voluntária dos homens, ou o de heroína inesperada, por ter sido seduzida ou violada por Poseidon, o supremo deus dos mares e eterno inimigo da fundadora da cidade ática de Atenas. A magia do olhar, pintado a óleo numa tela colada sobre uma rodela de madeira de choupo, há mais de quatrocentos anos pelo mestre lombardo do tenebrismo, nascido em Caravaggio, uma aldeia até então insignificante do norte da Italia, situada nas imediações de Bérgamo, representa um marco invejável na história das artes figurativas ocidentais executada a duas dimensões. 

Quando a visitei na cidade das flores, a olhei por cima das muitas cabeças vivas que olhavam a cabeça morta da mãe de Criasor e Pégaso, um gigante e um cavalo-alado. Sorte a minha ser alto e ter logrado olhá-lo no meio da sala da Galleria degli Uffici di Firenze que lhe deu o nome. Bem podia chamar-se de Caravaggio, se de facto se provar a suspeita do rosto grotesco da Górgona Medusa ser o do próprio Michelangelo Merisi, que lhe teria servido de modelo ideal, autorretratando-se a fazer uma carantonha refletida num espelho. Brincadeiras do grande mestre das trevas italiano. Ironias dos olhares dum dos mais enigmáticos pintores dos séculos de ouro da cultura pós-tridentina católico-romana. Uma obra-prima para olhar enquanto se é olhado com um olhar que há muito deixou de olhar.  

EPÍGRAFE
Por sua vez, Ceto gerou com Fórcis as Greias de belo semblante, com os cabelos grisalhos desde o nascimen-to, a quem os deuses imortais e os homens que andam pela terra chamam anciãs; a Penfredo de formoso peplo; a Énio, com uma capa açafroada; e as Górgonas, que vivem do outro lado do famoso Oceano à beira da Noite junto às Hespérides de voz harmoniosa: Esteno, Euríala e a infeliz Medusa. Esta era mortal, mas as outras duas eram imortais e isentas de velhice. Com ela só se deitou o do cabelo azul [Poseidon] no suave prado entre flores primaveris. Quando Perseu lhe cortou a cabeça, o emergiram o gigante Criasor e o cavalo Pégaso.
Hesíodo, Teogonia (c. séc. Ⅶ AEC, 270-282)

23 de fevereiro de 2020

As serpentinas coloridas do Rei Momo

M  O  M  O
"The Fool"
[from an 18th century minchiate playing card deck].
Γένος Νύκτας
Νὺξ δ᾽ ἔτεκεν στυγερόν τε Μόρον καὶ Κῆρα μέλαιναν καὶ Θάνατον, τέκε δ᾽ Ὕπνον, ἔτικτε δὲ φῦλον Ὀνείρων· - οὔ τινι κοιμηθεῖσα θεὰ τέκε Νὺξ ἐρεβεννή, - δεύτερον αὖ Μῶμον καὶ Ὀιζὺν ἀλγινόεσσαν Ἑσπερίδας θ᾽, ᾗς μῆλα πέρην κλυτοῦ Ὠκεανοῖο χρύσεα καλὰ μέλουσι φέροντά τε δένδρεα καρπόν.
Ησίοδος - Θεογονία (211-216)

Contam-nos os mitos helénicos registados pela tradição escrita e oral ser Momo a personificação do Sarcasmo. Hesíodo diz na Teogonia tratar-se duma divindade primordial dos escritores e poetas, filha da Noite e irmã das Hespérides, as fiéis guardiãs do jardim dos pomos de ouro ou dos Imortais. Luciano lembra no Hermotimus a avaliação trocista proferida contra as criações de Atena, Poseidon e Hefesto na qualidade de jurado dum concurso de deuses. Filóstrato ridiculariza nas Epístolas as infidelidades de Zeus para com Hera, pelo que se viu exilada do Monte Olimpo.

Um dos lances mais marcantes da sua faceta etiológica situa-se entre duas querelas armadas mítico-lendárias do mundo antigo: a Guerra de Tebas e a Guerra de Troia. Sem se ter batido em nenhuma delas, criticou a primeira e causou a segunda. Aconselhou Zeus a abandonar o plano de fulminar os mortais através dum contínuo bélico artificial. Para diminuir o excesso de população, bastava criar uma mulher muito bela que levasse as nações a baterem-se pela sua posse e assim se destruírem. Helena de Argos nasceu e preparou a entrada de Menelau e Páris em cena.   

Quando o mais belo soldado romano passou a desfilar nas Saturnais, com uma coroa na cabeça, uma máscara a tapar-lhe o rosto e um boneco na mão a simbolizar a loucura, a subida do Rei Momo ao trono das folias acabava de surgir. As festividades rituais dedicadas a Saturno, o deus das colheitas, resistiram aos caprichos do tempo e converteram-se aos poucos nas atuais batalhas de flor do Entrudo. Na sua aparição anual, empunha o cetro do poder real e brinda-nos com mãos-cheias de serpentinas coloridas de papel a celebrar o efémero reinado de três dias.

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A realeza portuguesa foi mandada para o caixote de lixo da História na primeira década de novecentos. A coisa pública que lhe sucedeu só guardou no seu calendário de festividades toleradas quatro cabeças coroadas dum reino fingido de faz-de-conta. Tolera-as em duas únicas ocasiões e sem direito a feriado civil ou religiosoOs Reis Magos em janeiro e o Rei Momo em fevereiro/março. O ouro, incenso e mirra da tríade natalícia foi substituída pelos confetti do monarca carnavalesco. Tudo muito q.b. Noblesse oblige. E assim a lenda se fez fábula e o mito contramito.

31 de maio de 2018

Bifurcações do tudo e do nada em final de linha...

 John William Waterhouse 

Hypnos and Thanatos: Sleep and His Half-Brother Death (1874)

«To die, to sleep; | To sleep, perchance to dream – ay, there's the rub...»
William Shakespeare, Hamlet, Prince of Denmark (1599-1602: III, ii, 64-65)
«Demeure ; il faut choisir, et passer à l'instant | De la vie à la mort, ou de l'être au néant...»
Voltaire, Lettres philosophiques (1734: xviii, 1-2)
Acabei o ano escolar a falar de Thánatos, de Hypnos e Morfeu. Diz Hesíodo, na Teogonia (séc. VIII AEC), serem filhas da deusa Nyx, a Noite, e personificações da Morte, do Sono e dos Sonhos. Uma trindade divina que Shakespeare associou no mais conhecido monólogo do Hamlet (1599-1602), quiçá a sua mais famosa tragédia. Uma tradução livre de dois dos seus versos remeter-nos-ia para algo como: morrer é dormir, sonhar talvez.

Essa aula funcionou também como a última lição duma carreira académica de quatro décadas e picos, dedicada à arte das palavras faladas, escritas, lidas e relidas. Foi nesse contexto de cultura literária alargada que a conversa com alunos, colegas, funcionários e amigos decorreu. Debatia-se então na Assembleia da República a despenalização da morte assistida, cujo resultado imprevisível andara nas bocas inquietas dos fazedores de opinião.

Com toda a liberdade que me foi dada nesse preciso momento, desenvolvi de improviso uma reflexão sobre o livre-pensamento, a livre-escolha e o livre-arbítrio. As figuras inevitáveis da eutanásia e da distanásia fizeram parte do elenco discursivo. Inseri-as no âmbito das visões greco-romana e judaico-cristã de encarar a vida e a morte. As fontes matriciais que dão corpo ao modus operandi ocidental são muitas claras na definição do tudo e do nada.

A minha memória de leituras distantes sussurou-me aos ouvidos uma máxima que Jean-Paul Sartre registou no L'être et le néant (1943): «L'homme est condamné à être libre». A liberdade que tenho de pensar dá-me a liberdade de ser o que sou. Sobretudo quando chega a altura de enfrentar a passagem para a outra margem do Estige. Liberdade de optar pelo prolongamento artificial da vida ou pelos chamamentos libertadores da morte.

18 de novembro de 2014

Tocata e fuga do organista...

«No princípio era a música. Tenho a ideia de que o início das coisas é a beleza absoluta. E aí era o instrumento da beleza absoluta. A música é a arte evanescente, a que está no cimo da pirâmide»
No princípio era o Caos. Depois Gea entrou em cena e fez o resto. Assim concebia Hesíodo o nascimento ordenado de tudo aquilo que existe a que dá o nome de Cosmos. Fê-lo em grego arcaico, na Teogonia (750-650 AEC), provavelmente influenciado pela tradição multissecular de fenícios, babilónios, hurritas e hititas, habituados a viajar pelo insondável à procura da harmonia.

Para os hebreus, herdeiros da cultura dos povos mesopotâmicos, no princípio era o vazio. Depois Yahvé acordou do seu marasmo intem-poral e iniciou a tarefa de criar o mundo em seis dias, reservando o sétimo para um descanso merecido. Tudo isto aparece registado no Génesis (900-800 AEC), o livro bíblico das origens, seguido pela convicção monoteísta de judeus, cristãos e muçulmanos.

As mais antigas cosmogonias devem-se aos sumérios, os inven-tores da escrita, história e civilização. Para eles, no princípio havia o mar primordial que produziu a montanha cósmica, composta pelo céu e pela terra. Da união destes dois, nasceria o nosso mundo. Assim se diz nas lendas épicas de Gilgamesh (2330-2200 AEC), o rei de Uruk que queria conhecer os mistérios da morte.

Lídia Jorge pega nestas visões milenares das origens do espaço e do tempo que nos envolve - ou faz tábua rasa de todas elas - e afirma-nos que no princípio havia um órgão, com quatro mil tubos de metal e quatro fileiras de teclas, com que acabou com a monotonia abissal em que o vazio vivia, por não possuir coisa nenhuma dentro de si. Assim inicia o conto a que chamou O Organista (2014).

A fábula da criação continua. Depois do vazio e do órgão, vieram o homem, a mulher, o canto e a música. Em sétimo lugar surgiu o Criador, o pai do nada e do tudo. O primeiro elemento, bem vistas as coisas. Atraído pelo som, o senhor da invenção e da revelação apoderou-se do instrumento e compôs a partitura de tudo quanto existe, tal qual nós o conhecemos nos nossos dias.

«Quando os deuses ainda eram homens» (Atramhasis, 1800 AEC), reservaram aos mortais o trabalho, separando-os assim do destino dos imortais. O organista da fábula age doutro modo. Imita a melodia celestial ideada pelos homens e põe-se a escutar Tocata e Fuga à luz das estrelas, em louvor da União do sublime universal. O toque musical que faz a diferença e dá sentido à criação.