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18 de maio de 2022

Construções emblemáticas

[Bruxelles, KBR, Ms. 10308, fol. 1]

         Autre Nauray –  Tant Que Je Vive           

Rezam as divisas registadas em francês na emblemática ducal de Dijon que Philippe le Bon (1396-1467) teria como lema pessoal Aultre naray (port. «não terei outra»), ao que Isabel de Portugal (1397-1471) lhe respondia com Tant que je vive (port. «enquanto eu viver»). Ela é nem mais nem menos do que o único membro feminino da Ínclita Geração de Altos Infantes, ele é o todo poderoso representante do ramo borguinhão da Casa Capetíngia de Valois.

Esta declaração de amor eterno e originalidade duvidosa terá sido dita noutras ocasiões por outras entidades de sangue azulado, o que não impediu o autoproclamado Grand duc d'Occident de a dedicar à sua terceira e derradeira consorte, a única filha de Dom João I de Avis e Dona Filipa de Lencastre, que terá correspondido como era espectável. A aliança resumida no monograma PY ficava assim garantida para a eternidade, a provar que a noblesse oblige.

A Duquesa Portuguesa sobreviveu ao Duque Borgonhês quatro anos. Protegida pela paliçada do corpo da divisa, ignorou os devaneios extraconjugais sofridos e os diz-que-diz das más-línguas que a cercavam. Desdenhou o facto do Tosão de Ouro criado em sua honra que trazia ao pescoço moreno fizesse lembrar ao marido os caracóis louros da amante flamenga. Deitou tudo às ortigas e seguiu em frente como uma Avis-Lencastre de gema que era e se gabava de ser.

[Bibliothèque royale de Belgique, ms. 9242]

23 de março de 2015

Motes e motejos reais com pegas, rosas, ligas de meias e tosões de ouro...

SALA DAS PEGAS
PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA

Existe no paço real de Sintra um teto de madeira decorado com 136 pegas. Seguram numa pata uma rosa vermelha e no bico uma tarja com a frase «Por Bem». A imagem associa num único emblema o corpo e a alma das divisas reais de D. Filipa de Lencastre e de D. João I de Portugal. Diz-se por aí que o fundador da dinastia de Avis, aquele a quem a história deu o cognome de O de Boa Memória, teria sido apanhado a beijar uma aia da mulher. -lo-ia feito por bem. AfirmouA desculpa terá sido depois repetida por todas as damas da corte. Tantas quantas as mandadas pintadas pela rainha na sala onde o petit affaire amoroso do rei terá decorrido. O episódio parece ter inspirado a soberana, que não se inibiu de escolher como lema pessoal a declaração algo provocatória de «Il me plaît».

Acontece que a esposa amantíssima do Mestre de Avis, a educadora da Ínclita Geração de Infantes, a filha do poderoso João de Gante, era também neta de Eduardo III de Inglaterra, de quem se conta uma história semelhante, protagonizada por si e pela condessa de Salisbúria. Segundo se diz, esta terá perdido a sua liga azul durante um baile. O rei apressou-se a recolocá-la no devido lugar e a responder aos sorrisos de cumplicidade consentida dos nobres: «Honi soit qui mal y pense». No dia seguinte, terá fundado a Ordem da Jarreteira, a mais antiga e prestigiada do sistema de honras britânico. A frase tornou-se proverbial, transformando-se num dos lemas do país, com direito a ser estampada na bandeira, a par do «Dieu et mon droit», como brasão de armas do Reino Unido.

Acrescentemos uma terceira história igualmente exemplar. Contam os anais oficiais que Filipe III da Borgonha, dito O Bom, criou em Bruges a Ordem do Tosão de Ouro, por ocasião do seu casamento com a infanta D. Isabel de Portugal, filha de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, bisneta, portanto, de Eduardo III de Inglaterra. Oficialmente, tê-lo-á feito em homenagem à Virgem Maria e a Santo André, com a divisa «Pretium laborum non vile». Tudo muito inócuo até ao momento. Todavia, dizem as más línguas habituais que o duque, ao olhar para o carneiro de ouro no colo da mulher morena, se lembraria dos caracóis louros da amante flamenga. Calúnias. Está mais que visto, que Plantagenetas, Avises e Borgonhas não podem ser tidos como gente de poucas vergonhas.