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22 de julho de 2025

Pós-modernidades exemplares

Human Body Shaped from Fresh Fruits and Vegetables

Por keshia

Canibalismo Vegano
Muitos críticos gostariam de ser ditadores da literatura…

Não deverá haver mais romances em que um livro de pessoas, isoladas pelas circunstâncias, «voltem à condição natural» do homem, se tornem criaturas essenciais, pobres, nuas. Tudo isso pode ser escrito num conto, o último do género, a rolha da garrafa. Vou escrevê-lo eu por vocês. Um grupo de viajantes vítima de um naufrágio ou de um desastre de avião está algures numa ilha. Um deles, um homem grande, poderoso, desagradá-vel, tem uma arma. Obriga todos os outros a viver num buraco que eles próprios tiveram de cavar. De vez em quando tira um dos prisioneiros, mata-o com um tiro e come o cadáver. A comida sabe bem e ele engorda. Depois de matar e comer o último prisioneiro, começa a preocupar-se com o que fará para arranjar comida; mas felizmente chega um hidroavião e salva-o. Ele conta ao mundo que foi o único a escapar do desastre e que sobreviveu alimentando-se de bagas, folhas e raízes. O mundo maravilha-se com a sua ótima condição física, e um cartaz com a sua fotografia é exposto nas montras das lojas de comida ve-getariana. Nunca é descoberto.

Vê como é fácil escrever, como é divertido? É por isso que eu proibia o género?

Julian Barnes, O Papagaio de Flaubert (1984)
[edição comemorativa. 40 anos da primeira edição]
Lisboa: Quetzal. 2025 (pp. 148, 149-150)

10 de janeiro de 2023

Visita ao senhor diretor numa entrada por saída com duas latadas pelo meio


HISTÓRIA EXEMPLAR

Entrei.
– Tire o chapéu – disse o Senhor Diretor.
Tirei o chapéu.
– Sente-se – determinou o Senhor Diretor.
Sentei-me.
– O que deseja? – investigou o Senhor Diretor.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Diretor.
Saí. 

 Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic (1973)

Obs.:
No centenário de Mário-Henrique Lisboa (2.01.1923 - 9.01.1980)

6 de dezembro de 2022

Vuyazi, a princesa insubmissa

Niketche. Dança do amor,  do sol e da lua, dança do vento e da chuva,  da criação... 

História exemplar

Era uma vez uma princesa. Nasceu da nobreza mas tinha o coração de pobre-za. Às mulheres sempre se impôs a obrigação de obedecer aos homens. É a natureza. Esta princesa desobedecia ao pai e ao marido e fazia o que queria. Quando o marido repreendia ela respondia. Quando lhe espancava, retribuía. Quando cozinhava galinha, comia moelas e comia coxas, servia ao marido o que lhe apetecia. Quando a primeira filha fez um ano, o marido disse: vamos desmamar a menina, e fazer outro filho. Ela disse que não. Queria que a filha mamasse dois anos como os rapazes para que crescesse forte como ela. Recu-sava-se a servi-lo de joelhos e a aparar-lhe os pentelhos. O marido cansado da insubmissão, apelou à justiça do rei, pai dela. O rei, magoado, ordenou ao dragão para lhe dar um castigo. Num dia de trovão, o dragão levou-a para o céu e a estampou na lua, para dar um exemplo de castigo ao mundo inteiro. Quando a lua cresce e incha, há uma mulher que se vê no meio da lua, de trouxa à cabeça e bebé nas costas. É Vuyazi, a princesa insubmissa estampada na lua. É a Vuyazi, estátua de sal, petrificada no alto dos céus, num inferno de gelo. É por isso que as mulheres do mundo inteiro, uma vez por mês apodrecem o corpo em chagas e ficam impuras, choram lágrimas de sangue, castigadas pela insubmissão de Vuyazi.

Paulina Chiziane, Niketche - Uma história de poligamia (2002)

5 de agosto de 2022

Uma tisana com máquina de escrever

Ana Hatherly - Autorretrato

TISANA 29

Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina estava a escrever à máquina. Fiquei num grande estado de perplexidade e por isso perguntei o que estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina apontou com o chispe para o papel convidando-me a ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha retirado a fita da máquina para a enrolar na sua encaracolada cauda que nesse momento agitava com prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao mergulho na metafísica. Por isso sem dizer nada dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos talheres. Tirei a grande faca do estojo do trinchante. Acendi o lume e pus a grelha a aquecer. Dirigi-me de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O suficiente para uma bela refeição. Cortei também um pedaço de fita para enfeitar a travessa.

Ana Hatherly, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997) 


UMA TISANA METAFÍSICA EM DIA DE ANIVERSÁRIO

(Ana Hatherly: Porto, 8 de maio de 1929 – Lisboa, 5 de agosto de 2015)

8 de julho de 2022

Fábula do rei oriental

 Baswan - Jardim de Rosas
Cena da corte do Gulistan de Sadi, 1596
A história do homem e do sentido da vida
Ao pensar em Cronshaw, Philip lembrou-se do tapete persa que o poeta lhe dera, dizendo que ele oferecia uma resposta à sua pergunta sobre o sentido da vida. E, de súbito, a resposta ocorreu-lhe. Soltou uma risada. Agora que a tinha, era como um desses quebra-cabeças que nos obcecam até que alguém nos mostra a solução; ficamos então a imaginar como aquilo nos pôde esca-par. A resposta era evidente. A vida não tem sentido. Sobre a Terra, satélite dum astro que viaja velozmente pelo espaço, seres vivos surgiram sob a influ-ência de condições criadas pela história do planeta. E, tendo assim havido um começo de vida na Terra, sob a influência de outras condições haverá um fim. O homem, que não é mais importante do que as outras formas de vida, não surgiu como o ponto culminante da criação, mas como uma reação física ao meio ambiente. Philip lembrou-se da fábula do rei oriental que, desejando co-nhecer a história do homem, recebeu de um sábio quinhentos volumes; atare-fado com os assuntos do governo, solicitou-lhe que os condensasse. Passados vinte anos, o sábio voltou e a sua história não tinha agora mais de cinquenta volumes; mas o rei, demasiado velho então para ler tantos e tão maçudos tomos, rogou-lhe que abreviasse uma vez mais a história. Passaram-se mais vinte anos e o sábio, velho e encanecido, trouxe um único livro, no qual se continha a ciência que o rei procurava. Mas o rei jazia no seu leito de morte e não lhe sobraria tempo para ler nem aquele volume. O sábio, então, narrou-lhe a história do homem numa simples linha. Era esta: nasceu, sofreu e morreu. A vida não tem nenhum sentido. E, vivendo, o homem não cumpre finalidade alguma. É indiferente que ele nasça ou não nasça, viva ou deixe de viver. A vida é insignificante e a morte sem consequência. Philip exultou como exul-tara na infância, quando o peso da crença em Deus lhe fora tirado dos ombros. Parecia-lhe que alijava agora a última carga de responsabilidade. E, pela primeira vez, sentiu-se livre. A sua insignificância transformava-se em força e ele sentia-se de súbito um igual do destino cruel que parecia persegui-lo. Porque se a vida não tem sentido, o mundo fica despojado da sua crueldade. O que fizesse ou deixasse de fazer nada significava. O malogro não tinha importância e o êxito redundava em nada. Era a criatura mais insignificante naquela massa pululante da humanidade que, por breve espaço, ocupa a superfície da Terra. E era todo-poderoso porque arrancara ao caos o segredo da sua inanidade. Os pensamentos atropelavam-se-lhe no cérebro excitado. Philip aspirava o ar profundamente, com jubilosa satisfação. Tinha vontade de pular e cantar. Havia meses que não se sentia tão feliz.

 

2 de agosto de 2021

História comovedora do gato vegetariano e do rato simplório

『ふたつの月-1-』さくら さん

   FÁBULA PÓS-MODERNA   

com a verdade me enganas

«– A propósito, conheces a história do gato vegetariano e do rato?
– Não, confesso que nunca ouvi essa história.
– Queres que ta conte?
– Claro que sim.

– Um rato pequeno deu de caras com um gato enorme no meio de um sótão e foi por ele perseguido, sem conseguir encontrar escapatória, até ficar encur-ralado numa esquina. A tremer, o rato disse-lhe: “Por favor, senhor Gato, não me coma. Tenho de voltar para a minha família. Os meus filhos estão à minha espera, cheiinhos de fome. Peço-lhe por tudo que me deixe partir.” Respon-deu-lhe o gato: “Não te preocupes, pois não está nos meus planos comer-te. Para ser honesto, ainda que não ande para aí a gritá-lo aos quatro ventos, sou vegetariano. Não consumo qualquer espécie de carne. Foi uma sorte teres topado comigo por acaso.” Ao que o rato lhe respondeu: “Ah, que dia maravilhoso! Que rato mais sortudo que eu sou, por ter encontrado no meu caminho um gato vegetariano!” Palavras não eram ditas e, no segundo seguinte, o gato saltou para cima do rato, fincou-lhe as garras e imobilizou-o, cravando-lhe em seguida os dentes afiados no pescoço. O rato, agonizante, perguntou então ao gato, com as últimas forças que lhe restavam: “Mas o senhor Gato não me tinha dito que era vegetariano e que não costumava comer carne? Estava a mentir?” O gato, lambendo os beiços, disse: “É verdade que não como carne. Não estava a mentir. Por isso, vou levar-te na boca, para minha casa, e trocar-te por uma alface.

Aomame ficou a cismar na história.
– Qual é a moral da história?
– Não há nenhuma em especial. Veio-me de repente à cabeça, ainda há pouco, quando falávamos da sorte. Mais nada. Claro que tu podes tirar daí a conclusão que quiseres.
– Uma história comovedora.»
Harukami Murakami, 1Q84-2 (Lx: CdL, 5, 101-102)

1 de dezembro de 2017

Histórias antigas com história dentro

General George Washington riding a white horse holding a sword
(Painted wood board)
[De Young Museum, San Francisco, California, USA]

Primeiro de Dezembro de 1640

Uma vez, fui passear com três amigos.
Fomos para o campo e chegámos lá e sentámo-nos. E um disse assim: - Conta uma história mas que seja verdadeira.
E eu comecei: - Lembram-se quando cá estavam os espanhóis?
- Lembramo-nos muito bem.
- Pois isto foi no 1.º de Dezembro quando nasceu a liberdade. Eu estava mesmo em frente do palácio real. Às nove horas da manhã abriram as portas do palácio e os conjurados entraram por ali dentro que não foi brincadeira. Mataram os soldados que estavam de guarda ao palácio. Um soldado pegou numa faca e ía dar uma facada a um conjurado. Eu vi aquilo e peguei logo na minha espada de pau feita do cabo da vassoura e fui muito devagarinho por detrás dele e dei-lhe uma cacetada na cabeça que ele até desmaiou. E o conjurado disse-me: - Olá! Então tu salvaste-me a vida? Espera lá fora que eu já te recompenso. E ele foi lá para dentro e eu entrei pela porta da cozinha e dei um chuto no cozinheiro que logo se arrumou para o lado. Então, cheguei lá dentro e vi o senhor Vasconcelos a tomar o pequeno-almoço. E eu disse-lhe: - Olá! Já sabe que hoje acabou a paródia? E ele disse que não sabia e então escondeu-se à pressa no armário dos livros e eu perdi-o de vista.
E já estava tudo derrotado e só faltava esse fulano e a prima do Rei. Então, chamei os conjurados e como vi o armário a mexer, disse: - Está ali dentro!
Eles foram, tiraram-no cá para fora e veio um conjurado à varanda e diz: - Liberdade! Liberdade! Viva El-Rei D. João IV!...
Atiraram o senhor Miguel para a rua e já só faltava a prima. Então, estava ela a ler a Crónica Feminina e eu peguei no livro e espetei-lho na cara. Ela disse: - Quem é que me está a faltar ao respeito? E um conjurado disse: - Se a senhora não quiser sair pela porta, sai pela janela. E ela disse: - Tão amável!... E saiu pela porta mas foi presa.
E os conjurados disseram então: - Viva este rapazinho que nos ajudou tanto e me salvou a vida!
Depois deram-me um cavalo de pau e uma espada de verdade. E a minha espada de pau está agora num museu.
E os meus amigos bateram palmas e disseram: - Foi verdade que fizeste isso tudo? E eu disse: - É. E então fomos para casa muito contentes. E eu disse: - Agora que venham cá chatear mais esses senhores espanhóis que eu lhes digo o que faço: dou um biqueiro em cada um que até andam de asa.

João Manuel – 10 anos
IN Maria Rosa Colaço, A criança e a vida (Lisboa: ITAU, 1960)

18 de outubro de 2017

Surrealismos duma admiração interrogativa

DISCUSSÃO

– Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes, camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os mesmos direitos. Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer, era outra coisa. Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos. Acho um snobismo.
– Eu sou democrático – rugi entre dentes, como resposta. – Tenho amigos no exílio, todos democráticos. Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem, ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático. Eras capaz de fazer isso?
– Não sou democrático.
Não havia resposta a dar. Nenhuma. Ele não era democrático, não sabia de democracia.
Eu sim, sou democrático, até quis ir à América, que me afirmaram que lá é que é a democracia. Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista! Viram isto!?
Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic (1973)

13 de julho de 2017

A agenda semanal do confessor

Sante Scaldaferri

Deus e o Diabo na Terra do Sol

(1995)

Era uma vez um vigário...

Num lugar que ninguém sabe, pela praia ou pelo mato, pela ilha ou pela terra, era uma vez um vigário. Era uma vez a freguesia desse vigário, era uma vez sua igreja, era uma vez o povo que nesse sítio morava, onde havia muitas beatas e muita gente misseira e benigna. O vigário, antes da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar. Depois da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar, e então o padre não fazia outra coisa que cuidar das desobrigas daquele povo carolo. Aí o padre pensou, pensou, pensou e chegou num resultado, que foi fazer por escrito um ror de coisas, ror esse que preparou para ler na missa. Quando chegou a missa, o padre pegou do ror e leu da seguinte maneira: minhas prezadas devotas, povo desta freguesia, já estou ficando velho e cansado e não tenho mais tempo e sustança para tanta confissão todo dia. Por isso que doravante vamos obedecer à seguinte disposição, que eu mesmo pensei muito bem pensado e escrevi muito bem escrito, estando tudo muito bem ajuizado: no domingo, eu confesso as preguiçosas e as que não têm asseio; na segunda, as que furtam e as que mentem; na terça, as que bebem; na quarta, as que enganam o marido ou pecam ao contubérnio; na quinta, as crocas e as maldizentes; na sexta, as feiticeiras, as mandingueiras e as treiteiras; no sábado, as comilonas e as invejosas. Que quando o vigário terminou de dizer isso, ninguém disse nada na hora, mas toda a gente se olhou assim, e daquele dia em diante não teve mais beata que quisesse confissão naquela freguesia e o vigário descansou à larga com seu bom vinho de missa, pé de pato mangalô três vez.

João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro (1984)

24 de junho de 2017

O espião moscovita disfarçado de garrafa de gin


INTERVALO

Sobe ordenou o senador Spiralgold ao seu piloto privativo.
O helicóptero zumbiu e tomou altura, oscilando levemente.
Acelera! disse apressado o senador para o piloto atento.
O piloto carregou no botão. O fundo abriu-se e o senador Spiralgold esbor-rachou-se no solo, com eficácia.
Coisas que acontecem comentou para o piloto o espião moscovita dis-farçado de garrafa de gin.
Mário-Henrique Leiria, Contos do gin-tonic (1973)
Obs.:
No primeiro sábado do verão, que dizem ser o Dia Nacional do Gin Tónico...

1 de junho de 2017

A Casa das Bonecas

Casa di bambola della famiglia Bäumler di Norimberga (c. 1650-1700)[Spielzeugmuseum - Nürnberg, Deutschland]

BRINCAR ÀS CASINHAS...

Mas também eu tive um tempo de Casa das Bonecas. Chamávamos-lhe então brincar às casinhas. Não havia bonecas. Boneco era eu e a outra. Uma vizinha afoita que me pegava na mão e no mais que lhe pudesse dar. E tínhamos uma corte. Era a corte dos porcos. Acabada a escola, feitos os deveres, nós íamos brincar para o pátio da vizinha. Maridinho e mulher. Um casal perfeito. Fazia-se o jantarinho em pedaços de barro, com ervas e restos de chouriço cru. Fruta de escolha, guardada para os animais. E fazíamos filhos, com os porcos ali ao lado, vizinhos e camaradas. Só que os adereços dos nossos aposentozinhos eram quase sempre imaginados. Não havia cómodas, bibelots, tapetes. Tapete era uma velha saca de ráfia, que fora antes de adubo, e que chegada a hora passava a ser também lençol de cama. Recordo um alqueire que fazia as vezes de mesa de jantar. E tudo, tudo tão silencioso, para além do amistoso resfolegar dos porcos. A maior parte do tempo era passada na cama. Alguém berrava dentro da casa e nós bem quietinhos, mornos, colados um ao outro. Um cão ao longe ladrava, uma galinha espreitava de cabeça no ar e crista rubra como uma bandeira. Os dois, abraçadinhos, morríamos de medo de que o nosso casamento fosse um dia desfeito, descoberto. A dona de casa era uma velha de buço a quem eu ajudava a deitar a urina dos bacios nuns grandes potes de barro que havia junto do chiqueiro. A velha engraçava comigo, e a minha mulherzinha era a neta dela. Sabíamos os dois que estávamos guardados por aquela leoa gasta, toda vestida de preto, com o seu farto bigode e o seu trovão de voz que espantava os gatos. Que beijos e abraços, que lento esse despir que não dava pelo frio. E os dois, em movimentos mansos, procurávamos reproduzir a reprodução.
Tivemos muitos filhos de trapos.
E éramos felizes.
Armando Silva de Carvalho
[Óbidos, 28.03.1938 – Caldas da Rainha, 1.06.2017]
O Livro do Meio (2006: 51-52)
Romance epistolar composto com Maria Velho da Costa

9 de janeiro de 2017

Livros de novelas e de cavalarias

Óscar Alves - As Meninas - Qualquer outra personagem - 2004

Contos exemplares à maneira barroca

Juro a V. M. que toda a vida me enfadárão as damas dos livros de Cavalerias, porque sempre as achava acompanhadas de cachorros, de leoẽs, e de enãos. Taõ inimigo sou destas taes sevandilhas, que nẽ em livros mentirosos as sofro; veja V. M. que será nas cousas verdadeiras? Mas o que he humor, ou capricho meu, não he razaõ que se assente por regra géral. Seja advertido para quem tiver outro tão mao gosto...

Ainda fico com escrupulo sobre a lição em que muitas se ocupaõ. O melhor livro he a almofada, e o bastidor; mas nem por isso lhe negarei o exercicio delles. Estas que sempre querem ler comedias, e que sabem romances dellas de còr, e os dizem às vezes entoados, não gabo. Outras saõ mortas por livros de novellas; taes pellos de cavallarìas. Aqui he mais perigosa a affeição, que o uso. Bem vejo que se lhes pòde permitir este desenfado; mas seja com maior cautela a aquellas que excessivamẽte se lhe entregarem: visto que podemos temer se ama nelle antes a semelhança dos pensamentos, que a variedade da lição. Não quizera que ninguem gostasse senão de aquillo de que era justo que tivesse gosto. Contarei a V. M. hũa cousa que a meu pesar me lembra.

Caminhava por Espanha, e entrando em hũa pousada bem cheo de neve, não houve algum remedio para que a hospeda, ou suas filhas, que eraõ duas, me quizessem abrir hum aposento, em que recolherme; e quanto eu mais apertava, me desenganavão melhor de que nenhũa se levantaria donde estava, sem acabar deouvir ler certa novella, cuja historia hia muito gostosa, e enredada. E tal era a sofreguidão cõ que ouvião, que nem ameaçãdoas com que iria a outra pousada, quizerão desistir de seu exercicio, antes me convidavão que ouvisse os lindos requebros, que Cardenio estava dizendo a Estefania: que tudo isto rezava a boa da novella. Emfim eu me fui apear a outra parte, e voltando em breve tempo por aquelle lugar, e perguntando pella curiosa leitora, e ouvintes, me disserão que muito poucos dias despois as novellas foraõ tanto adiãte, que cada hũa das filhas de aquella estalajadeira fizera sua novella, fugindo com seu mancebo do lugar, como boas aprendizes da doutrina, que tão bem estudáraõ.

Dom Francisco Manuel de Melo, Carta de guia de casados, 1650

6 de janeiro de 2017

Os magos do Oriente e o dia de Reis

GRÃO VASCO
«Adoração dos Reis Magos» (c. 1501-1506)

[Museu Nacional Grão Vasco - Viseu]
«Tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: "Onde está o rei dos Judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo." Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: "Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vi sair o Príncipe que há de apascentar o meu povo de Israel." Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exatas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: "Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrades, vinde comunicá-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem." Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; a, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.»
(Mt 2, 1-12)
A história é antiga e vem registada no Evangelho de São Mateus, com que abre o Novo Testamento. Em mais nenhum local do livro sagrado do monoteísmo cristão volta a ser referida. Mas como quem conta um conto acrescenta um ponto, os magos vindos do Oriente passaram a ser três, foram elevados à categoria de reis e começaram a chamar-se Gaspar, Melchior e Baltasar. Com o passar dos tempos, o mitologia católica finaliza a quadra natalícia com este episódio simbólico, celebrado no dia 6 de janeiro de todos os anos. 

Tão pouco nos é revelado o país de onde eram oriundos o que não inibiu a tradição de lhes atribuir uma etnia diferente. Dois  brancos e um negro. Afinal, África era tão ou mais exótica do que a própria Ásia. A imaginação renascentista de Grão Vasco (c1475 - c1542), deslocou um desses adoradores do menino para a terra há pouco descoberta dos Pataxó brasileiros, esse admirável mundo novo da América já rendido à nova fé messiânica. Assim urgia propagar aos quatro ventos para memória futura. E assim o foi e sem delongas...

21 de outubro de 2016

Saramago: sete histórias com cães

CANE

Bibbia di Borso d'Este

[Modena, Biblioteca Estense Universitaria, Mss. Lat. 422 and Lat.423]

1. CONSTANTE: uma história de perdizes...

Constante, era esse o nome do animal, corre na direção da perdiz, pensou se calhar que ela tinha sido ferida, por meio dos tojos, que ali o mato era cerrado como poucas vezes se tem visto, e havia umas pedras grandes que tapavam a vista, foi o caso que se me sumiu o cão, e por mais que eu chamasse Constante, Constante, e assobiasse, não apareceu, que ainda foi vergonha maior voltar para casa sem o animal, para não falar do desgosto, que o bicho só lhe faltava conversar. [...] Passados dois anos calhou ir para aqueles lados [...] e então veio-me à lembrança o sucedido, meti-me pelo meio das pedras, foi o cabo dos trabalhos, não sei que ideia é que me levava, parecia que alguém me estava a aconselhar, não desistas, Sigismundo Canastro, e de repente que é que eu vejo, o esqueleto do meu cão ali de pé a marrar o esqueleto da perdiz, e estavam naquilo há dois anos, cada qual em sua firmeza, parece que o estou a ver, o meu cão Constante, com o focinho esticado, a pata levantada, não houve vento que o deitasse abaixo nem chuva que lhe soltasse os ossos.
Levantado do chão (1980)

2. ARDENT | CONSTANTE: os nomes do cão… 

Quis José Anaiço lançar água na fervura dos risos que a sugestão de Maria Guavaira levantara, e propôs que fosse dado ao cão o nome de Constante, tinha lembrança de haver lido esse nome num livro qualquer, Agora não me lembro, mas Constante, se entendo bem a palavra, contém todas as que foram sugeridas, Fiel, Piloto, Fronteiro, Combatente, e até Anjo-da-Guarda, porque se nenhum destes for constante perde-se a fidelidade, desorienta-se o piloto, o fronteiro abandona o posto, o combatente entrega as armas, e o anjo-da-guarda deixa-se seduzir pela menina a quem devia defender das tentações. 
A jangada de pedra (1986)

3. CÃO: o cão que chegou no fim da história…

Entra no quarto, que uma luz fraca apenas ilumina, e despe-se cautelosamente, evitando fazer ruído, mas desejando no fundo que Maria Sara acorde, para nada, só para poder dizer-lhe que a história chegou ao fim, e ela, que afinal não dormia, pergunta-lhe, Acabaste, e ele respondeu, Sim, acabei, Queres dizer-me como termina, Com a morte do almuadem, E Mogueime, e Ouroana, que foi que lhes aconteceu, Na minha ideia, Ouroana vai voltar para a Galiza, e Mogueime irá com ela, e antes de partirem acharão em Lisboa um cão escondido, que os acompanhará na viagem…
História do cerco de Lisboa (1989)

4. CÃO DAS LÁGRIMAS: o cão que chora…

A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem a ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar pratos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele.
Ensaio sobre a cegueira (1995)

5. ACHADO: o nome do cão perdido…

Não lhe chamarei Constante, foi o nome de um cão que não voltará à sua dona e que não a encontraria se voltasse, talvez a este chame Perdido, o nome assenta-lhe bem, Há outro que ainda lhe assentaria melhor, Qual, Achado, Achado não é nome de cão, Nem Perdido o seria, Sim, parece-me uma ideia, estava perdido e foi achado, esse será o nome…
A caverna (2000)

6. TOMARCTUS: o cão da casa...

O estranho nome foi-lhe posto por Tertuliano Máximo Afonso, é o que sucede quando se tem um dono erudito, em lugar de ter batizado o animal com um apelativo que ele pudesse captar sem dificuldade pelas vias diretas da genética, como teriam sido os casos de Fiel, Piloto, Sultão ou Almirante, herdados e sucessivamente transmitidos de gerações em gerações, em vez disso foi-lhe por o nome de um canídeo que se diz ter vivido há quinze milhões de anos e que, segundo andam certificando os paleontólogos, é o fóssil Adão destes animais de quatro patas que correm, farejam e cocam as pulgas, e que, como é natural nos amigos, mordem de vez em quando.
O homem duplicado (2002)

7. CONSTANTE: o cão das lágrimas…

O comissário sentou-se com todas as cautelas, guardando a distância, Tranquilo é o nome dele, perguntou, Não, chama-se Constante, mas para nós e para os meus amigos é o cão das lágrimas, pusemos-lhe o nome de Constante por ser mais curto, Cão das lágrimas porquê, Porque há quatro anos eu chorava e este animal veio lamber-me a cara… 
Ensaio sobre a lucidez (2004)

3 de setembro de 2016

A rainha e as três filhas


Fragmento de fragmentos...

A rainha tinha três filhas.
Depois de governar todo o seu reino, estava agora velha, e muito doente.
Sentindo-se morrer, mandou chamar a filha mais velha:
– Vai à floresta negra descobrir a bruxa que me pode curar.
A floresta negra não tinha nome. Era a floresta negra.
A filha, que era cautelosa, respondeu:
– A viagem é perigosa. Se eu não voltar, nem tu nem eu poderemos governar o reino.
A rainha mandou chamar a segunda filha, que era invejosa.
– Porque hei de arriscar-me? – respondeu – Morre uma rainha, outra se segue, a mim tanto se me faz.
A rainha mandou chamar a terceira filha, que era bondosa.
– Irei – respondeu esta – Se morrer, não me importo. Ser terceira filha também não tem grande graça.
– Serás minha herdeira – disse a rainha. E sorriu.
Com a poção da bruxa contava tornar-se eterna.
Tanto tempo se passou que as duas irmãs mais velhas se esqueceram da terceira. Um dia chegou uma carta...
Maria Isabel Barreno, Inventário de Ana (1982)

NOTA:
No dia em que as Três Marias passaram a ser só duas. Maria Isabel Barreno (10.07-1939-3.09.2016) partiu para o país da imaginação, aquele onde o sonho de infinito se torna realidade.