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3 de março de 2026

Trilogia épica lusitana

A epopeia e a tragédia concordam somente em serem, ambas, imitação de ho-mens superiores, em verso; mas difere a epopeia da tragédia, pelo seu metro único e a forma narrativa. E também na extensão, porque a tragédia procura, o mais que é possível, caber dentro dum período de sol, ou pouco excedê-lo, po-rém a epopeia não tem limite de tempo – e nisso diferem, ainda que a tragédia, ao princípio, igualmente fosse ilimitada no tempo, como os poemas épicos.
Aristóteles, Poética. Ed. Eudoro de Sousa. Lisboa: IN-CM, 1994.
[1449b 9-16; cap. v, §24, p. 10]

Uma Epopeia (gr. εποποιία) é, em termos etimológicos, um conjunto de Epos (gr. επος), i.e., uma sucessão de relatos orais mais ou menos autónomos e de origem lendária, ligados por um fio condutor comum. As poéticas deram-lhe depois outros sentidos, baseados todos em maior ou menor grau na visão que lhe foi conferida por Aristóteles. Com um conjunto de episódios protagonizados pelo 5.º rei da 1.ª dinastia suméria de Uruk, compuseram os acádios as 12 placas cuneiformes que até nós chegaram do Gilgameš. O mesmo fez Homero em grego com a Ilíada e a Odisseia e Virgílio em latim na Eneida, bem como muitos outros poetas-cantores em datas posteriores nos mais diversos idiomas.

Camões terá sido o mais fiel continuador da tradição épica antiga. Cavalga à sua maneira o modelo greco-romano e adapta-o à realidade lusitana. Ultrapassa o longo hiato medieval e renasce com todo o esplendor nos tempos modernos, que ajudou a moldar e perpetuar. Os descendentes míticos de Heleno são substituídos pelos de Luso, o Eneias troiano sai de cena e o Gama lusitano ocupa toda a ribalta n'Os Lusíadas. O obreiro do quarto império apaga-se no horizonte mediterrânico e o fundador do quinto império instala-se no grande mar oceano atlântico, índico e pacífico. Os barões assinalados da ocidental praia lusitana transformam-se em heróis coletivos triunfantes a nível global.

Os criadores das Epopeias em Verso abrem as portas às Epopeias em Prosa, a que passámos a chamar Novelas e Romances. A cultura helenística consagrou-as aos amores e aventuras dum jovem casal de protagonistas. Ao invés, Petrónio prefere converter esses heróis exemplares em verdadeiros anti-heróis acabados no Satíricon, numa crítica cerrada aos costumes e à política romana do seu tempo. As aventuras/desventuras vividas por Fernão Mendes Pinto no Oriente são arroladas na Peregrinação, substituindo os heróis com nome da epopeia clássica camoniana pela arraia-miúda anónima, sem a qual os nomeados pelo vate consagrado seriam  sequer lembrados pelos anais oficiais.

O rio da literatura tem sido pródigo em fazer sulcar nas suas águas os relatos épicos das grandes navegações realizadas pelos muitos nautas que as efetuaram e dos naufrágios que as acompanharam. Assim ocorreu no regresso de Ulisses a Ítaca ou nas tópicas viagens dos peregrinos centrais da ficção diegética greco-bizantina. Vitoriosos todos eles tiveram os fados mais a seu favor do que o sem-número de embarcados tragados pela fúria dos mares nos domínios imperiais da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Muitos deles são referidos nos doze relatos compilados por Bernardo Gomes de Brito na História Trágico-Marítima. E assim a trilogia épica lusitana se fez: heroica, peregrina e dramática.  

Luís de Camões, Os Lusíadas (1572) - Fernão Mendes Pinto, Peregrinação (1614)
Bernardo Gomes de Brito, História Trágico-Marítima (1735-1736)

24 de fevereiro de 2025

Homero, a Ilíada e a cólera de Aquiles

                  Páris & Menelau                  

Kalliadès, figuras vermelhas de argila (c. 490-480 aec)

Μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς 

Dizem que o fundador da Paideia helénica terá nascido em Esmirna e vivido em Quios, que seria um aedo/rapsodo/compilador cego, que terá criado em data incerta a obra prima/primeira do cânone literário ocidental. A tradição dá-lhe o nome de Homero e assegura ser o autor irrefutável da Ilíada, um longo poema épico de 15 693 versos em hexâmetros dactílicos ou heroicos, distribuídos por 24 livros, um por cada letra do alfabeto grego. A ação remonta à lendária Guerra de Troia travada cerca de 1300-1200 AEC e terá sido gizada oralmente ou por escrito à volta de 800-700 AEC. Entre uma e outra baliza temporal, um hiato de 400 anos de escuridão, a chamada Idade das Trevas, a separar os derradeiros momentos da Cultura Micénica dos inaugurais da Cultura Grega, aqueles em que os mitos/lendas ancestrais deram passo às histórias formatadas na Era Axial, i.e., a sistematização das religiões e da criação dos principais géneros poéticos idealizados em verso e prosa.

Ao invés do que se costuma dizer, a Ilíada não trata na sua totalidade do relato minucioso dos dez anos do assédio, conquista e incêndio de Ílion. Nem sequer referências ao famoso Cavalo de Troia, dado que o seu aparecimento só sucederá no final do conflito sangrento duma década travado entre Gregos e Troianos. O núcleo central da efabulação decorre no final do nono ano do cerco da cidade e não ocupa mais do que cinquenta dias, condensados em pouco mais duma semana. Tudo começa no primeiro verso com a menção à cólera de Aquiles, o Pelida, e culmina no postremo com os funerais de Heitor, o domador de cavalos. Por outras palavras, os heróis épicos por excelência do poema, representantes das duas forças beligerantes pela posse da Pólis situada às portas do Helesponto, a meio caminho do Mar de Mármara, do Estreito do Bósforo e do Ponto Euxino, no limite estratégico entre os continentes europeu e asiático, fronteira natural entre o mundo ocidental e o oriental.

Identificados os actantes fulcrais da refrega homérica, há que apontar os periféricos, os adjuvantes/oponentes de cada uma das forças em presença, bem como do seu contributo na trama. Aquiles dos pés ligeiros recusa-se a combater mais os seus guerreiros ao sentir-se ofendido por Agamemnon, rei de Micenas e líder dos sitiantes, enfraquecendo assim o exército aqueu e levando-os a uma derrota. Este havia-o despojado duma escrava que lhe coubera como butim duma escaramuça recente e só retoma quando o seu amigo Pátroclo é morto num duelo pelo primogénito de Príamo, o rei de Troia. Como vingança, retoma o combate e mata igualmente numa luta de corpo a corpo Heitor, príncipe herdeiro da cidade assaltada. A cólera inicial do filho da deusa Tétis e do mortal Peleu converte-se num apaziguamento final, pondo assim termo ao Poema Épico de Ílion, contado/cantado por Homero para registo pleno dos ouvintes e glória eterna dos heróis.

Quanto ao destino de Helena e Páris, os causadores da conflagração armada de gregos e troianos, bem como da própria cidade-estado que os acolhera, temos de o encontrar na imensidade de textos descritivo-narrativos em verso e prosa, registados em rolos de papiro e pergaminho, sobreviventes à voragem inclemente do tempo com dois mil e oitocentos anos de existência. Procurá-los sobretudo na Odisseia, a epopeia do regresso acidentado de Ulisses a Ítaca, ao encontro de Penélope e Telémaco, a mulher e o filho que já não via há duas décadas, composta também ela por Homero, o grande cosedor de cantos heroicos do ciclo troiano. Feitos inesquecíveis de seres semidivinos a quem deu vida nos seus dias e continuam vivos nos nossos, omnipresentes na memória coletiva de todos aqueles que continuam a ouvir as suas vozes distantes através das palavras registadas nas páginas do livro que temos entre mãos. Assim o prazer pela leitura continue vivo nas nossas práticas quotidianas.

INVOCAÇÃO
Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida | (mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus | e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades, | ficando seus corpos como presa para cães e aves | de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus), | desde o momento em que primeiro se desentenderam | o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.

12 de março de 2024

Camões: as armas e os barões assinalados dos filhos de Luso

       Eternos moradores do luzente
Eʃteliƒero polo & claro aʃʃento,
Se do grande valor da ƒorte gente,
De Luʃo, não perdeis o penʃamento,
Deueis de ter ʃabido claramente,
Como he dos ƒados grandes certo intento
Que por ella ʃeʃqueção os humanos,
De Aßirios, Perʃas, Gregos & Romanos.
Luis de Camoẽs, Os Lusiadas
(Cant. I, est. 24, fol.º 5)

Fará hoje precisamente 452 anos que Luís Vaz de Camões viu sair dos prelos de António Gonçalves a primeira edição d'Os Lusíadas (1572), aquela que as normas de referência bibliográfica assinalam com a sigla Ee/S ou E/D, tendo em atenção o pormenor do pelicano da xilografia do frontispício ter a cabeça voltada para a esquerda [Sinistra] ou para a direita [Destra] e corresponder à alternância do «E entre / Entre» das duas versões referidas [I.1:7]. Minudências à parte, é verdade que a folha de rosto só refere o mês e o ano de publicação, mas a dar fé no Alvará Régio que concedeu ao autor a tença anual vitalícia de 15000 réis a partir de 12 de março de 1572, leva-nos a inferir ter sido essa a data precisa da sua impressão.

Sobre o poema se disse muito e outro tanto fica ainda por dizer. Dizem ser o canto épico de todos os portugueses, quando o poeta só se propôs cantar as armas e os barões assinalados. Acrescenta ainda as memórias gloriosas dos reis que alargaram o império e daqueles que pelos atos valorosos feitos em vida se foram da lei da morte libertando. Por outras palavras, canta a glória dos heróis viris e faz tábua rasa da fama feminil das heroínas. Saem de cena as donas e donzelas também elas descendentes de Luso, o filho ou companheiro de Baco, bem como toda a arraia-miúda posta à sombra do peito ilustre lusitano. Ecos perceptíveis de ressonância latina, recolhidos nas fontes clássicas postas então à sua disposição.

Constitui um lugar-comum considerar Camões o expoente máximo do Renascimento português, pelo menos se o fizermos no sentido lato do termo. Para ser mais rigoroso, talvez fosse preferível redefinir melhor o período histórico-cultural em que viveu e remetê-lo para as fronteiras mais precisas do Maneirismo literário. Na idealização d'Os Lusíadas, o vate lusitano socorre-se do contributo romano da Eneida de Vergílio que, por sua vez, se inspirara na Ilíada e na Odisseia de Homero. Compõem as suas epopeias à maneira uns dos outros. Com boa vontade, até o próprio aedo jónico pode ter tido acesso a uma ou outra versão das façanhas mesopotâmicas de Gilgameš.

Se uma Epopeia [εποποιία] é um conjunto de Epos [επος], de relatos orais de origem lendária, unidos ao mito através do canto, então todos os casos referidos partilham dessa regra genérica, só divergindo na ânsia legítima de se superarem. Os Troianos vencidos pelos Aqueus, vingam-se destes em tempos históricos, quando os Latinos filhos dos primeiros derrotam os Helenos herdeiros dos segundos. O Império Grego sucessor do Assírio e do Persa acaba também ele por ser conquistado pelo nascente poder imperial Romano. Nada que o Príncipe dos Poetas Lusitanos não tenha referido na epopeia que o celebrizou, afirmando ter a vitória definitiva do mundo moderno sobre o antigo sido obtida pelo engenho e arte dos filhos de Luso.

Nos dias em que se comemoram os Quinhentos Anos do autor d'Os Lusíadas, seria bom começar a depurar a sua vida vivida das fábulas que lhe estão associadas e lhe dão corpo e colorido. Deve ser sina dos criadores laureados dos heróis épicos da imaginação. Do rapsodo da cólera de Aquiles e das odisseias de Ulisses nada se sabe, do cantor das façanhas marítimas de Vasco da Gama pouco mais ou nada. A meio milénio de distância, já seria altura de passar dos mitos e contramitos do Trinca Fortes, Pinga Amor e Cavaleiro da Fortuna aos factos de vida de facto vivida por aquele que com uma mão na espada e noutra a pena chegou até à nossa memória presente rumo às futuras perdidas na bruma do tempo.

17 de novembro de 2023

Epopeia de Gilgameš, a história do grande homem que não queria morrer

«E chegou o momento fatal: ao amanhecer, caíram pãezinhos e aguaceiros de trigo, ao entardecer, examinei o aspeto do tempo: era assustador ver! Então entrei no barco e blo-queei a escotilha: quem a fechou, Puzur-Amurru, um barqueiro, dei-lhe de presente o meu palácio, com todas as suas riquezas. Quando o amanhecer brilhou, uma nuvem ne-gra se ergueu do horizonte na qual trovejou Adad (deus da Tempestade), precedido por Shullat e Hanish, arautos divinos que cruzaram as colinas e o país. Nergal (rei do Sub-mundo?) rasgou os suportes (das comportas celestes) e Ninurta (deus da Guerra e do Fu-racão) começou a transbordar as barragens de cima. Enquanto os deuses infernais, bran-dindo tochas, incendeiam o país inteiramente com sua conflagração. Adad espalhou seu silêncio mortal pelo céu, reduzindo à escuridão tudo o que era luminoso… despedaçou a terra como um pote. No primeiro dia que a tempestade soprou, soprou tão furiosa que... e o anátema passou sobre os homens, como a guerra. Ninguém mais via ninguém: do céu, as multidões não eram mais discerníveis, entre essas trombas d'água.»
Sînleqe'unnennî, Epopeia de Ghilgameš
 (Nínive: c. 1000 AEC; táb. xi, vv. 90-112)

Os gregos inventaram tudo (ou quase tudo) em termos literários. Por vezes limitaram-se a adaptar as formas universais de olhar o mundo ao seu modo especial de o fazer. Assim nas diversas variedades da autodescrição lírica em verso dos estados de espírito perenes que os povoavam. Noutras ocasiões, deram voz aos heróis do passado mítico-lendário e puseram-nos a dialogar no presente os episódios mais relevantes que haviam protagonizado enquanto seres viventes. Assim o fizeram na representação cénica de factos sérios da tragédia ou risíveis da comédia, com passagem obrigatória pela modalidade intermédia do drama satírico. As histórias, essas, passaram a ser contadas em prosa no romance, depois de terem sido cantadas em verso na epopeia homérica e nas imitações que se lhe seguiram.

A criação absoluta da poesia épica terá de recuar, todavia, alguns séculos a rondarem o milénio ou a ultrapassá-lo, para se situar no ambiente mesopotâmico povoado pela verve narrativa dos povos nativos do duplo sistema fluvial banhado pelo Tigre-Eufrates. A mais antiga obra literária conhecida centra-se na figura semi-histórica de Gilgameš (𒀭𒉋𒂵𒈩), 5.º rei da 1.ª dinastia de Uruk, que terá vivido entre 2700-2600 AEC. Tudo começa na língua isolada dos Sumérios com um conjunto de lendas que lhe estão associadas e ao seu servo, companheiro e amigo Enkidu (𒂗𒆠𒆕). Dispomos atualmente dos fragmentos de cinco delas, registadas em placas de argila entre 2300-2000 AEC, num total de 1055 versos. As versões do texto épico chegaram até nós compostas no idioma semita dos Acádios, a mais remota exumada em Babilónia (1750-1600 AEC) e a mais recente em Nínive (c. 1000 AEC). Importa-nos sobretudo esta última, guardiã dos 2503 versos recuperados dos cerca de 3000 originais compilados, refeitos ou editados em doze tábuas de escrita cuneiforme por um obscuro Sînleqe'unnennî, um exorcista cujo nome traduzido à letra seria «Oh-Deus-Sîn-recebe-a-minha-oração».

O extenso relato assírio-babilónico está centrado nas relações de grande cumplicidade de Gilgameš-Enkidu, estabelecida aquando das suas missões, aventuras e viagens conjuntas pelo universo que os vira nascer e crescer (I-VI). O transtorno causado pela perda prematura do parceiro leva o herói a encetar uma peregrinação solitária, em busca do segredo que lhe permitisse evitar a morte e alcançar a vida sem fim  (VII-XII). Fá-lo junto de Utanapištî (𒌓𒍣), o Supersábio mesopotâmico do dilúvio universal, aquele que, pela sua existência exemplar, conquistara entre todos o dom da imortalidade. O antecessor pré-bíblico de Noé desilude-o completamente, ao informá-lo que quando os deuses criaram os homens lhes haviam destinado a morte, reservando para si sós a exclusividade da vida. A alegada origem sobrenatural do filho de Lugalbanda e Ninsuna, um rei semilendário de Uruk e uma deusa do panteão sumério, de pouco lhe valera. O plano humano do pai não lhe permitiria atingir o plano divino da mãe.

Os feitos prodigiosos do grande homem que não queria morrer não lhe permitiram alcançar a ventura de viver para todo o sempre. Viu-se impedido de evitar por motu próprio a descida aos subterrâneos cavernosos do Inferno, mas terá sido surpreendido ao ascender às alturas luminosas do Céu logo após o trespasse inevitável a que estava votado desde o nascimento, fruto da divinização póstuma que os seus súbditos terrenos do Aquém lhe deram de acesso imediato às esferas celestiais do Além. Mitos à parte, saibamos nós manter na lembrança a presença viva dos seus trabalhos heroicos efetuados quase cinco milénios. Proeza obtida também com a ajuda dos poetas épicos de então e académicos assiriólogos de agora, que criaram, gravaram, refizeram, decifraram e aclararam os milhares de versos que lhe foram dedicados. Lidos e relidos todas as versões hoje em dia disponíveis em livro real/virtual, urge deixar uma palavra de apreço a todos aqueles que o permitiram, com um destaque muito especial para Samuel Noah Kramer e Jean Bottéro, por me terem revelado os heróis sumérios e acádios da imaginação. Que vivam também eles para todo o sempre na nossa memória individual e coletiva.

8 de janeiro de 2021

Virgílio, a epopeia de Eneias e de Roma

Pompeii, Casa di Sirico (séc. I AEC)
Enea ferito, in piedi, viene curato dal medico Japix, mentre Venere, preoccupata,  giunge
portando erbe medicamentose; intanto il figlio Ascanio, in lacrime, è presso il padre.

[Museo Archeologico Nazionale di Napoli]

Arma virumque canō, Trōiae quī prīmus ab ōrīs
Ītaliam, fātō profugus, Lāvīniaque vēnit
lītora, multum ille et terrīs iactātus et altō
vī superum saevae memorem Iūnōnis ob īram;
multa quoque et bellō passūs, dum conderet urbem,
inferretque deōs Latiō, genus unde Latīnum,
Albānīque patrēs, atque altae moenia Rōmae.
Publii Vergilii Maronis, Aeneis (c.19AEC: I, 1-7)

Acaba de sair a mais recente tradução portuguesa em verso da Eneida (19AEC) de Virgílio, elaborada cuidadosamente durante seis anos por Carlos Ascenso André, crítico literário e professor-associado da Universidade de Coimbra, acompanhada duma breve Introdução para leigos e algumas anotações mínimas dispersas ao longo das suas quatrocentas e trinta páginas de textos. Data do passado mês de junho, a demonstrar que nem tudo se manifestou aziago nesse ano bissexto de 2020, em que até os doze deuses maiores do Panteão Grego se mudaram para este 2021, a fim de assistirem em Tóquio à ⅩⅩⅩⅠⅠ Olimpíada da Era Moderna. O reverso da medalha é que os Livros Cotovia chegaram ao fim. Esta publicação da mais perfeita das obras imperfeitas da literatura latina deve ter sido uma das últimas a ser impressa nos prelos da editora. Assim vai a cultura no nosso país na segunda década do terceiro milénio.

Depois de Homero (c. Séc. AEC)  ter cantado a vitória dos Aqueus sobre os Teucros na Ilíada e na Odisseia, Virgílio (70-19AEC) resolve fechar o Ciclo Troiano com um poema épico latino construído à imagem e semelhança da dupla epopeia grega, cuja composição o havia antecedido cerca de oito séculos. Tal como o aedo lendário fizera, o imitador romano opta pelo hexâmetro datílico como esquema rítmico da história heroica de Eneias, filho do mortal Anquises e da divina Vénus, desde a tomada da cidade de Ílion pelas forças aliadas de Agamémnon e o estabelecimento dos alicerces da fundação da cidade de Roma. Fá-lo, todavia, em apenas doze livros, opondo-se assim ao modelo helénico seguido, que consagrara o dobro de cantos a cada uma das narrativas. Neste exercício de contensão discursiva, o decalque da obra fundadora da literatura ocidental prossegue com a divisão equitativa da Eneida em duas partes: a réplica ao espírito da Odisseia, representada no regresso dos heróis às suas origens de Ítaca e da Itália (livs. i-vi); a adaptação ao espírito da Íliada, na justificação da guerra travada entre dois povos,  Argivos vs. Dánaos e Cartagineses vs. Romanos, motivado pelos amores de Helena-Páris e de Dido-Eneias (livs. vii-xii).

Sem grandes exageros, pode dizer-se que a Grécia Antiga inventou quase tudo em termos poéticos, todos eles depois imitados, ampliados e adaptados pela restante Europa e mundo ocidental. É sabido que Homero não terá sido o criador absoluto do género narrativo em verso. Antes dele, já as lendas sumérias e o espírito criador acádio haviam gravado em tabuinhas de argila e em carateres cuneiformes a Epopeia de Gilgamesh, rei de Uruk cerca de 2700-2650AEC. A proximidade relativa das culturas mesopotâmica e helénica permite-nos aceitar que o rapsodo cego de Quios se tenha inspirado nesses textos assírio-babilónicos para compor o duplo poema épico que lhe é atribuído, mormente no desenho aventureiro do rei Odisseu-Ulisses de Ítaca. Para todos os efeitos, foi este modelo arcaico que serviu de base ao poeta clássico de Mântua para traçar os feitos heroicos do príncipe Eneias de Troia, um dos fundadores da Cidade das Sete Colinas. Maneirista à sua maneira, tal como Camões o será mil e seiscentos anos mais tarde com Os Lusíadas (1572), centrados na história das armas e dos barões assinalados lusitanos, representados simbolicamente por Vasco da Gama. O mesmo se poderá dizer de Dante e da Divina Comédia, composta no início do Séc. ⅩⅠⅤ, sobretudo na descida do vate italiano aos infernos na companhia do vate latino (Eneidaliv), à semelhança do Ulisses na rapsódia que Homero lhe dedica na (Odisseialivⅺ).              

Mais do que uma mera imitação latina dum conjunto de rapsódias homéricas, as sequências odisseica e iliádica virgilianas têm como principal propósito superar o complexo de inferioridade sentida pelos descendentes de Rómulo e Remo face aos descendentes de Heleno. Funciona quase como uma vingança à distância da confederação tróada vencida pela confederação micénica cerca de 1250AEC. Eneias, descendente de Dárdano, oriundo da Etrúria e fundador de Troia, está nas origens remotas do Império Romano, que a seu tempo conquistará todo o Império Grego de Alexandre da Macedónia. Ironia trágica de ver os vencidos convertidos em vencedores, os conquistadores transformados em conquistados e os senhores reduzidos a súbditos. O amigo de Horácio e protegido de Mecenas bem podia oferecer pessoalmente a Augusto a sua opera magna, consagrando a glória da Cidade Eterna de Roma e da gens predestinada dos Júlios, uma estirpe divina representante dos mitos ancestrais helénicos de Minos, Micenas e Hélade, se a morte o não tivesse levado inesperadamente em Brundísio, quando se dirigia à cidade de Príamo na Anatólia. Não teve tempo de rever o texto final, mas apercebeu-se mesmo assim que não conseguiria melhorá-lo tal como desejava, dando instruções precisas para que o destruíssem. Felizmente este seu desejo perfecionista não foi respeitado, tornando-se desde cedo na obra-prima da literatura latina e o ponto de partida para as epopeias dos povos herdeiros tanto da tradição troiana como da romana.

21 de setembro de 2020

As proposições épicas da «Eneida» de Virgílio e d'«Os Lusíadas» de Camões

Jean-Baptiste Wicar
Virgile lisant l'Énéide à Auguste, Octavie et Livie (1790-1793)
[Art Institute of Chicago]


PROPOSIÇÃO 1


Canto as armas e o guerreiro, o primeiro que de terras de Troia,
em fuga aos fados, alcançou Itália e as praias
de Lavínia, sem tréguas baldeado por terra e por mar,
por obra de deuses, em razão da fúria sempre viva da terrível Juno;
e que também muitas tormentas em guerras padeceu, até fundar a cidade
e introduzir os deuses no Lácio, de onde vêm a nação latina
e nossos pais albanos e as altas muralhas da grande Roma.

[Tradução: Carlos Ascenso André]


PROPOSIÇÃO 2


As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.



António Ramalho
Camões lendo Os Lusíadas a D. Sebastião (1893)

NOTA
No dia em que se cumprem 2038 anos sobre a ascensão de Virgílio ao Parnaso (15.10.70AEC-21.09.19AEC)