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28 de janeiro de 2026

Julio Cortazar e a Rayuela, o jogo da amarelinha, da macaca ou do mundo

 
«La rayuela se juega con una piedrita que hay que empujar con la punta del zapato. Ingredientes: una acera, una piedrita, un zapato, y un bello dibujo con tiza, preferentemente de colores. En lo alto está el Cielo, abajo está la Tierra, es muy difícil llegar con la piedrita al Cielo, casi siempre se calcula mal y la piedra sale del dibujo. Poco a poco, sin embargo, se va adquiriendo la habilidad necesaria para salvar las diferentes casillas (rayuela caracol, rayuela rectangular, rayuela de fantasía, poco usada) y un día se aprende a salir de la Tierra y remontar la piedrita hasta el Cielo, hasta entrar en el Cielo, (Et tous nos amours, sollozó Emmanuèle boca abajo), lo malo es que justamente a esa altura, cuando casi nadie ha aprendido a remontar la piedrita hasta el Cielo, se acaba de golpe la infancia y se cae en las novelas, en la angustia al divino cohete, en la especulación de otro Cielo al que también hay que aprender a llegar. Y porque se ha salido de la infancia (Je n'oublierai pas le temps des cérises, pataleó Emmanuèle en el suelo) se olvida que para llegar al Cielo se necesitan, como ingredientes, una piedrita y la punta de un zapato.».
Julio Cortazar, Rayuela (1963)

Na vitrine exterior da Vértice ou da Giraldillo, duas livrarias fronteiras à Universidade de Sevilha, avistei uma edição de bolso dum dos textos de topo da ficção literária de então, criado por um dos mais influentes e inovadores autores argentinos do século XX, fulcral para a emersão do designado Boom Latino-Americano das décadas de 60-70. Entrei na casa de livros, peguei no volume, dei-lhe uma vista de olhos rápida e trouxe-o comigo debaixo do braço, com o propósito de averiguar os sentidos ocultos que terão levado Julio Cortazar a intitular aquela obra de Rayuela (1963). Descobri tratar-se da designação castelhana do jogo da macaca, semana, avião ou amarelinha, tão popular na minha infância. Comecei a lê-lo, mas depressa me apercebi da dificuldade labiríntica da tarefa. Interrompi a viagem pelo seu interior e agora, decorridas mais de quatro décadas, retomei esse árduo percurso de prospeção pelos trilhos peculiares do texto.

As singularidades sui generis de leitura do relato com um título lúdico são logo anunciadas pelo próprio autor no «tabuleiro de direção» com que abre a obra, ainda antes das esperadas histórias a contar terem começado a surgir. Avisa que, à sua maneira, o livro posto entre mãos à disposição do leitor funciona como um conjunto de muitos outros livros, com um destaque especial para dois que passa a explicitar. O primeiro obedece a uma estrutura linear, começando no capítulo 1 e seguindo depois até ao 56, no termo do qual há três pequenas estrelas ***, equivalentes à palavra Fim. A segunda, mais sinuosa, principia no capítulo 73, avançando depois pela ordem saltitante indicada na base de cada um deles, cuja lista passa a registar num quadro completo de todo o percurso. Resolvi optar pelo trajeto mais completo, para não deixar nenhum recanto paisagístico ficcionado por visitar, e imediatamente me apercebi estar o núcleo tido com fulcral subdividido em duas partes, «Do lado de lá» (1-36) e «Do lado cá» (37-56). Em contrapartida, o bloco considerado de prescindível ficava-se por um significativo «De outros lados» (57-155), a marcar a sua composição marcadamente fragmentária.

De salto em salto, de casa em casa numerada, tal como no jogo de equilíbrio e motricidade que empresta o nome à fábula, as vivências traçadas pelos obreiros da ação, na passagem simbólica duma Terra de partida para um Céu de chegada, decorrem nos anos de cinquenta e tantos, centradas inicialmente em Paris, para depois se deslocarem para Buenos Aires, as cidades de referência mais significativa do escritor e professor argentino, nascido em Bruxelas e naturalizado francês. A forma dispersa e fragmentária dos rumos de vida, trazidos à boca de cena novelesca pela instância narrativa e intervenientes centrais/laterais, é-nos dada num castelhano coloquial próximo dos registos lunfardos praticados nas duas margens do Rio da Prata, onde o voseo dialectal é rei, mesclado indiferentemente com longas tiradas em inglês e francês, sem o cuidado de os distinguir entre si. E assim, ao sabor dos pulos a pé-coxinho, de capítulo em capítulo, de estilhaço em estilhaço, as crónicas agregadas do jogo do mundo ou da amarelinha se vão fazendo, placidamente, ao sabor da pena e ao ritmo do lançamento da malha nas quadrículas da rayuela ou macaca.

As peripécias boémias dos intelectuais do «Clube da Serpente», as relações turbulentas, caóticas e triangulares dos protagonistas, unido à ânsia de liberdade de todos eles experienciadas no duplo espaço cénico franco-argentino, bem como os excertos discursivos, recortes de jornais, citações de autores diversos e pensamentos literário-filosóficos de Morelli, hipotético alter ego de Cortazar, remetem esta novela de novelas para o âmbito teórico do antirromance ou contra-romance experimental, muito em voga em meados da centúria passada. As formas cristalizadas do romance tradicional são postos em causa, mas a sua essência mantém-se mesmo assim incólume ao longo das mais de seiscentas páginas da edição de bolso do mais popular género literário dos nossos dias, aquele em que a autonomia expressiva e fuga expressiva a regras fixas de época é total. Esse o segredo que os autores sem nome gregos ofereceram aos amantes da leitura individual e silenciosa há mais de dois mil anos, no final da era axial, para deleite e elevação de todos nós. Aproveitemo-la e agradeçamos.

14 de abril de 2025

Pablo Neruda, os versos de 20 poemas de amor e de uma canção desesperada

POEMA 20
Puedo escribir los versos más tristes esta noche. | Escribir, por ejemplo: «La noche está estrellada, | y tiritan, azules, los astros a los lejos.» | El viento de la noche gira en el cielo y canta. | Puedo escribir los versos más tristes esta noche. | Yo la quise, y a veces ella tambiém me quiso. |  En  noches como ésta, la tuve entre mis brazos. | La besé tantas veces, bajo el cielo infinito. | Ella me quiso, a veces yo también la quería. | Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos. | Puedo escribir los versos más tristes esta noche. | Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido. | Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella. | Y el verso cae al alma como al pasto el rocío. |  Qué importa que mi amor no pudiera guardarla. | La noche está estrellada y ella no está conmigo. | Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos. | Mi alma no se contenta con haberla perdido. | Como para acercarla mi mirada la busca. | Mi corazón la busca y ella no está conmigo. | La misma noche que hace blanquear los mismos árboles. | Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos. | Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise. | Mi voz buscaba el viento para tocar su oído. | De otro. Será de otro. Como antes de mis besos. | Su voz. Su cuerpo claro. Sus ojos infinitos. | Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero. | Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido. | Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos, | mi alma no se contenta con haberla perdido. | Aunque éste sea el último dolor que ella me causa, | y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
Pablo Neruda, Veinte poemas de amor y una canción desesperada, 1924

No distante ano de 1971 foi publicada entre nós uma edição bilingue das palavras versejadas por Pablo Neruda nos Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), título cuja passagem para português se dispensa aqui, tal a poeticidade contida no todo obtido. Na edição das Publicações Dom Quixote, a passagem das duas dezenas os poemas de amor e da canção desesperada estiveram a cargo de Fernando Assis Pacheco. Recebi esse livrinho de 111 páginas no meu aniversário de há mais de meio século. Li-o vezes sem conta tanto no idioma vertido como no original. A partir de certa altura, deixei de parte a versão trasladada, porque, como diz o ditado italiano, tradutor, traditore, por se tratar mesmo duma traição a que não podemos fugir dado o nosso conhecimento limitado das línguas em que a linguagem verbal se manifesta.

Não sou um leitor assíduo de poesia lírica versejada. Prefiro a prosa poética narrada. Faço-o mesmo assim de quando em vez, encantado com os ritmos rimados completamente afastados dos meus talentos de escrevinhador de reais quotidianos banais. Também está longe das minhas histórias bloguistas virtuais. A subjetividade autodescritiva do imaginário criativo dos poetas não se pagina com a objetividade de quem os e, depois, substituir uma forma pessoal de olhar o mundo por outras concorrente pouco sentido faz ou fará. Voltei a abrir o livrinho que me acompanha desde os vinte anos. Fi-lo agora que essa data natalícia se voltou a repetir. Boa forma de celebrar a data. Achei-o tão claramente fresco como o é desde a sua existência já centenária, garante da intemporalidade das grandes obras que têm a capacidade de sobreviver às muitas gerações que as vão ouvindo contar as suas vivências dum dia sempre é e será.  

Retomei à companhia dos vinte poemas numerados e da canção final desesperada e apercebi-me da inexistência de qualquer tipo de nota de leitura registado nas margens do texto, algo insólito em mim, por ter abraçado esse hábito desde que me conheço como leitor atento de todos os exemplares da minha biblioteca pessoal. Exceptuo neste caso específico um ou outro verso sublinhado com um traço muito leve de lápis. Passadas algumas décadas sobre esse destaque juvenil, as hipotéticas razões de o ter feito são fáceis de reconstituir, mas não vêm agora aqui para o caso. Curioso o facto de Pablo Neruda ter revelado numa «Pequena História» de apresentação da compilação ser pouco amigo de averbar anotações nos livros ou confissões de autor. É que, a seu ver, a poesia deve ir nua pelas ruas e só se deve cobrir com a multidão da natureza. Palavras sábias a que só posso dar toda a razão.

Finda mais uma visita às palavras entoadas com cadência poética, conclui que a mensagem subliminar de cada texto é logo sugerida no primeiro hemistíquio do verso inicial, constituindo também o título que o identifica. Um exercício não exaustivo e adaptativo das palavras alheias de abertura permite-nos sintetizar o teor global da compilação. Ou seja, o corpo da mulher, definida na sua chama mortal, acesa na vastidão dos pinheiros; uma manhã plena, para que ela assim o ouça e ele a recorde como era; inclinado nas tardes, em que como abelha branca a sinta zumbir, ébrio de terebintina, num crepúsculo, quase fora do céu. O exercício de colagem verbal poderia continuar até à canção desesperada final. Mas basta frisar, ainda e só, ser o encantamento tal pela menina morena e ágil que o aedo ama, mesmo quando calada, capaz de o inspirar a escrever os versos que nós lemos dentro das páginas dum livro e que podemos abrir sempre que emergir dentro de nós a vontade de o fazer.    

12 de dezembro de 2024

Javier Marías, todas as almas cruzadas numa passagem fugaz por Oxford

 
«Dos de los tres han muerto desde que me fui de Oxford, y eso me hace pensar, supersticiosamente, que quizá esperaron a que yo llegara y consumiera mi tiempo allí para darme ocasión de conocerlos y para que ahora pueda hablar de ellos. Puede, por tanto, que —siempre supersticiosamente— esté obligado a hablar de ellos. No murieron hasta que yo dejé de tratarlos. De haber seguido en sus vidas y en Oxford (de haber seguido en sus vidas cotidianamente), tal vez aún estuvieran vivos.»
Javier Marías, Todas las almas (1989)

Javier Marías abre abruptamente a crónica memorialista da voz enunciadora do Todas as almas (1989) com a notícia de dois dos seus três companheiros de Oxford terem partido para a tal viagem sem regresso, aquela que nos espera a todos no final do nosso ciclo vital. Ficamos sem saber a sua identidade imediata, nem sequer nos são revelados os laços de maior/menor intimidade que os ligaria no seu convívio de dois anos que estabelecera enquanto conferencista, tradutor e professor de literatura espanhola do pós-guerra na mais antiga universidade do mundo anglófono. Terá sabido da ocorrência já em Madrid, após ter deixado a cidade, comprometendo-se, então, a falar um pouco nas três centenas de páginas do relato, distribuídas pelas dezassete secções/capítulos não numerados do testemunho retrospetivo composto em modo de romance.

A revelação da trindade de amigos anunciada logo na primeira frase da exposição será efetivada nos seus derradeiros parágrafos. Até à divulgação final dos seus nomes do sobrevivente e dos falecidos ‒, vão sendo fornecidas pistas para a resolução satisfatória do enigma, assentes nos muitos fragmentos de vida com que o relator teve ensejo de se cruzar durante a sua passagem efémera por terras insulares de além-Mancha. A história do viajante do tempo, os avistamentos fortuitos com a mulher que fumava na estação de Didcot, o encontro com o homem coxo e o cão deficienteNo seu intento de esmiuçar com precisão clínica as idiossincrasias britânicas, não faltou também ao académico recenseador assunto para caricaturar de modo mordaz as perturbações por si sentidas naquele mundo fora do mundo doado pela instituição oxoniense. Colegas, colégios, costumes, cerimónias, tradições, rivalidades, maledicências. A ironia campeia, o sarcasmo impõe-se, a farsa triunfa.

O contacto casual com mendigos, pedintes e vagabundos, antigos espiões e segredos familiares mal guardados, antiquários, livreiros, alfarrabistas, conhecidos e desconhecidos, alterna com um convívio mais estreito com a amante ocasional, o marido traído e o confidente e amigo desses tempos de missão universitária dum estrangeiro anódino na cidade do mundo onde menos se trabalha. Palavras suas proferidas na primeira pessoa, como aliás em toda a resenha de factos acontecidos num passado relativamente recente. Ensejo para entrar em conexão com a obra de dois obscuros cultores de novelas de terror e fantasia, o já esquecido Arthur Machen, tradutor, crítico literário, jornalista e ator de teatro galês, e o obscuro John Gawsworth, escritor britânico, pretenso rei de Redonda, ilha remota do Caribe. Episódios soltos, registados um pouco ao acaso, sem a preocupação de lhes dar uma sequência cronológica precisa no cômputo geral do informe deste caderno de notas especial.

A contracapa da Alfaguara faz eco da equívoca identificação do narrador e autor do livro desde a sua publicação, hipótese de tal guisa insistente que levou o ficcionista a refutá-la posteriormente, no arranque da Negra espalda del tiempo (1998), título que registei na minha memória de leitor curioso de enveredar pelas sendas das falsas novelas, as tais que se situam na fronteira imprecisa entre os factos acontecidos e os inventados. Mais tarde ou mais cedo, ainda o vou encontrar por aí, para uma visita curiosa e esclarecedora da polémica. Convergências/divergências que não cabem aqui esmiuçar, digamos que o hipotético cunho biográfico do novelista se restringe a um período de tempo muito breve. Depois de regressar ao país natal, muitas outras histórias passíveis de serem efabuladas terá vivido, representadas pelo ator que as encarnou, até partir de vez como as almas aludidas no seu mister docente em terras inglesas. Mais uma vítima do Covid, mais uma que nos deixou precocemente com muitas memórias para lembrar e contar. Ironias trágicas da condição humana que a criatividade artística não pode evitar.

16 de agosto de 2024

Gabriel García Márquez e os exercícios da memória de nos vermos em agosto

 

«Había repetido aquel viaje cada 16 de agosto a la misma hora, con el mismo taxi y la misma florista, bajo el sol de fuego del mismo cementerio indigente, para poner un ramo de gladiolos frescos en la tumba de su madre. A partir de ese momento no tenía nada que hacer hasta las nueve de la mañana del día siguiente, cuando salía el primer transbordador de regreso.»
Gabriel García Márquez, En agosto nos vemos (2024)

Quando ninguém esperava que tal pudesse acontecer, soou entre nós a notícia que um dos expoentes máximos das letras hispânicas e universais tinha deixado inédita uma derradeira obra, que a Penguin Randon House prometia publicar a 6 de março, dia de aniversário do autor. O anúncio, divulgado nos finais de dezembro passado, deixou todos os amantes de livros ávidos por ter nas mãos essa lídima prenda de Natal de Gabriel García Márquez, o prometedor do En agosto nos vemos (2024). Pensei desde logo numa hipotética travessia da fronteira para adquirir, in situ, um original ainda a cheirar a tinta e no linguajar nativo do seu criador. Sem muitas delongas de permeio, deparei-me com um exemplar a chamar por mim no expositor dos mais recentes lançamentos da Fnac aqui do burgo. Surpresas que as livrarias e livreiros às vezes nos dão, a porem-nos literalmente de boca aberta e de olhos arregalados.  

Senti uma estranha dificuldade de começar a ler a escassa centena de páginas deste romance/novela ou mero conto, por se tratar ‒ tanto quanto se sabe ‒ das últimas palavras compostas por Gabo. Uma emoção profunda, semelhante à experimentada aquando da divulgação também póstuma das Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas (2014) de José Saramago, com a agravante, neste caso, de terem chegado até nós inacabadas e reduzidas a três únicos capítulos. Sorte a nossa de termos agora ao nosso inteiro dispor um texto completo, editado e anotado por Cristóbal Pera, e rematado com um Prólogo de Rodrigo e Gonzalo García Barcha, filhos do escritor.

Resisto à tentação de resumir aqui neste espaço cada uma das seis partes da história. Seria uma traição inqualificável para todos aqueles que a queiram desfrutar sem a intervenção gratuita de terceiros. Limito-me a remeter para um dos parágrafos iniciais do relato acima transcrito em forma de epígrafe ou para a sinopse registada na contracapa do volume que me abriu as portas para este rito anual de Ana Magdalena Bach ao túmulo da mãe. Faço-o também em termos simbólicos num 16 de agosto, muito embora as visitas da protagonista tenham terminado há cerca duma década, coincidindo, grosso modo, com o decesso do próprio obreiro da resenha estival.

A notícia destas visitas sazonais em dia certo ao cemitério duma ilha caribenha desconhecida esteve em risco de não ver a luz do dia. O enfraquecimento das capacidades mentais do novelista colombiano exigiu-lhe um derradeiro exercício de memória para levar a tarefa a bom termo, sem prescindir para tal do perfecionismo de escrita tão bem conhecido de todos. Por diversas vezes, manifestou a vontade de destruir cada uma das várias versões já compostas, por não terem atingido o desenho final almejado. Aproximava-se, assim, de Virgílio, que, nas vésperas da morte, sentindo-se sem forças para rever a Eneida (19 AEC), deixou instruções para que o poema fosse queimado, por não ter atingido a perfeição por si exigida. Felizmente para todos nós que os últimos desejos destes dois criadores de heróis da imaginação foram ignorados por familiares e amigos. A uns e outros só podemos endereçar o nosso mais sentido agradecimento. Mantiveram ainda mais vivo o legado poético do seu estro artístico. Como terá dito o próprio Gabriel García Márquez: la memoria es a la vez mi materia prima y mi herramienta. Sin ella, no hay nada. 

David de las Heras, cobertura da capa

31 de maio de 2024

Mario Vargas Llosa e os misticismos lupanares da casa verde do prazer

«Tanto deseaban mujer y diversión nocturna estos ingratos, que al fin el cielo ("el diablo, el maldito cachudo", dice el padre García) acabó por darles gusto. Y así fue que apareció, bulliciosa y frívola, nocturna, la Casa Verde.»
Mario Vargas Llosa, La casa verde (1966)
O mais complexo romance de Mário Vargas Llosa, La casa verde (1966), é, também ele, o segundo da sua longa produção literária. Senti uma certa dificuldade inicial na decifração da sua estrutura interna, singularidade desconhecida, insignificante ou inexistente na restante obra publicada em datas posteriores. Felizmente para os seus futuros leitores, que as experiências laboratoriais de escrita desenvolvidas no espaço europeu e americano na primeira metade do século passado foram deixadas pelo caminho. Assim o tivessem feito outros criadores de histórias fingidas, para se aproximarem mais das histórias de vidas reais com que nos cruzamos todos os dias.   

Depois de ter lido e relido de modo continuado e paciente os longos períodos e parágrafos preambulares, de ter escrutinado por tentativa e defeito as possíveis técnicas romanescas exploradas pelo ainda jovem ficcionista peruano, a luz começou a surgir ao fundo do túnel e as principais coordenadas compositivas começaram a emergir uma a uma da penumbra em que as havia encontrado mergulhadas nos trechos de abertura do relato. Ultrapassados esses obstáculos para vencer o labirinto discursivo desenhado cuidadosamente com régua e compasso, entreguei-me ao encadeamento de avanços e recuos cronotópicos na confluência entrecruzada persistente de memórias, sucessos, peripécias, episódios, casos, eventos, repartidos por cinco secções devidamente assinaladas, cada uma delas encabeçada por um prólogo, seguidas por três/quatro unidades diegéticas distintas e culminando com um epílogo catalizador de toda a fabulação, de idêntico modo partilhado pelos núcleos narrativos referidos.

No frenesim de saltitar duns fragmentos romanescos para outros, na oscilação constante entre si, acabamos por identificar três polos-base que unificam todo o processo imagético em curso, consubstanciado nas figuras de Don Anselmo, do Sargento Lituma e do bandido Fushía, nada que os folhetins radiofónicos ou as novelas televisivas não conheçam e pratiquem à exaustão. Com a ação centrada nos palcos cénicos na cidade de Piura, sita no deserto da costa norte do Peru, e em Santa María de Nieve, povoado estabelecido no seio da floresta equatorial banhada pelas bacias hidrográficas do Maranhão e Amazonas, o destino destas três figuras-charneira desenvolve-se ao longo dumas quatro décadas em perfeita simbiose com os demais intervenientes da trama, cujos nomes seria fastidioso registar. É neste ambiente primitivo que o destino da Casa Verde (o bordel que empresta o nome à obra) se vai traçando, linha após linha, página após página, sequência após sequência.

Superado o bloqueio preliminar aludido, a viagem visual outorgada pela veia criativa dum dos mais galardoados autores atuais até pode ser descrita como agradável. O esquema rígido, idealizado como se fosse uma poesia submetida às regras mais rígidas duma poética prescritiva clássica avessa a qualquer tipo de desvio estilístico, acabou por ampliar o proveito e deleite obtido no final do trajeto. Fecha-se o livro e ficamos com a sensação de ter perpassado o olhar por um grande retábulo representativo dum mundo ignoto, por uma pluralidade de painéis de vidas pintadas numa missão de monjas, numa guarnição militar numa ilha fluvial, num selva tropical ou num bairro problemático do antigo Império Inca, ainda habitado pelos nativos Huambisas, Aguarunas e Shapras, em guerrilha tenaz com os conquistadores cristãos oriundos do outro lado do mar. Moldura exótica para o nosso olhar quotidiano habituado a outros horizontes mais restritos de eventos que a literatura, com a sua capacidade de pintar com palavras os universos construídos na nossa imaginação, nos presenteia a cada momento.

6 de fevereiro de 2023

Mário Vargas Llosa, as ventosidades intempestivas duma ruína humana

«Fui a la manifestación por la clausura de los cines Ideal, en la Plaza de Jacinto Benavente y, apenas acababa de comenzar, me sobrevino uno de esos vientos intempestivos que ahora me asaltan con frecuencia. Pero nadie se dio cuenta a mi alrededor. Lamenté haber ido porque éramos apenas cuatro gatos y casi todos unas ruinas humanas como yo. A ningún joven madrileño le importa que desaparezcan los últimos cines de Madrid; jamás ponían los pies en ellos, se habían acostumbrado desde niños a ver las películas que ordenaban –si se puede llamar películas a esas imágenes que divierten a las nuevas generaciones– en las pantallas de sus ordenadores, sus tabletas electrónicas y móviles.»

Era uma vez um jovem periodista peruano que escrevinhava histórias acontecidas como se fossem imaginadas. O real e o virtual perderam a noção das fronteiras entre o fictício e o factual e começaram a surgir no fluir dos dias contos, dramas e romances que lhe abririam as portas aos mais diversos prémios internacionais, como o Príncipe de Astúrias e das Letras, o Cervantes e o Nobel da Literatura. Agora até vai ser admitido na Academia Francesa dos imortais sem nunca ter escrito uma linha na língua de Molière. É obra. 

Entrei no universo criativo de Mario Vargas Llosa em meados da década de oitenta, vão quase quarenta anos. Descobri-o no expositor duma livraria do centro histórico de Sevilha. O título gravado na capa colorida e o descritivo inscrito na contracapa daquela novela publicada na biblioteca de bolsillo da Seix Barral abriram-me o apetite para lhe pegar e trazê-la para casa. Não me arrependi de o ter feito e até teci algumas notas sobre La tía Julia y el escribidorpelo que me dispenso de as repetir aqui neste espaço.

O Marito dos primeiros escritos cresceu e tornou-se no don Mario conhecido em todo o mundo que gosta de ler histórias bem urdidas. Nas imitações de vida feitos de factos vividos, até o podemos encontrar disfarçado numa ou noutra figura novelesca impressa em letra de forma. Mesmo quando se tenha abstido de dizer o nome, acabamos sempre por suspeitar de quem se trata sem grande margem para dúvidas. É o que se passa com o último texto que até mim chegou, Los vientos (2021), um conto inédito publicado nas páginas da revista Letras Libres e disponibilizado em linha na Net em formato de arquivo para quem o quiser visionar.

A nota de apresentação da entidade editora do texto avança tratar-se do esboço distópico de Madrid facilmente imaginável num tempo não muito distante do atual, crepuscular e escatológico, melancólico e humorístico, traçado por um ser solitário entrado na idade e que não custa muito igualar aos 85 anos que o político falhado e novelista de sucesso tinha quando o compôs e deu à luz. No mundo antecipado plasmado no fluxo de pensamento daquela ruína humana propensa a ventosidades intempestivas, não se entrevê a sombra dum qualquer Big Brother opressivo ou Porco Triunfante formatados nos anos 40 por George Orwell no Nineteen eighty-four e no Animal farm, autor e obras aludidos de fugida no relato. O cenário dum totalitarismo universal não tomou conta ainda do destino das populações, mas presente-se a entrada irreversível numa era digital sem precedentes. A guerra ao papel impresso, a criação duma paper free society, levará o ancião que nos conduz por essa cronotopia antecipada a considerar que a vida sem livrarias, sem bibliotecas e sem cinemas é uma vida sem alma. Somos obrigados em dar-lhe inteira razão.

O conto fica um pouco à deriva com a autópsia que lhe têm sido feita à procura de traços autobiográficos do grande representante vivo do boom literário latino-americano, o ex-marido duma tia por afinidade e duma prima de sangue, que, na reta final da sua já longa existência, resolveu estabelecer uma união de facto com a rainha dos corações, também conhecida por pérola de Manila. O idílio oficial terá durado oito anos (2015-2022) e tem vindo a deliciar a imprensa cor-de-rosa do país vizinho. A dar no protagonista anónimo do relato metatópico e metacrónico q.b., o equívoco entre o amor de pichula e corazón terá estado na origem da falhada relação do primeiro marquês de Vargas Llosa e da ex-marquesa de Griñón e Castel-Moncavo. As supostas marcas de toxidade criadas pela parelha mediática procuram-se agora com grande afã nas 18 pp. duma história fictícia com ares de factual. Nada que a pena do novelista peruano naturalizado espanhol não conheça de ginjeira. Fiquemo-nos por aqui e fruamos a fábula.

Ilustración de Nerea Pérez