30 de maio de 2023

Somerset Maugham: servidão humana, um relato de aprendizagem iniciática

“It is an illusion that youth is happy, an illusion of those who have lost it; but the young know they are wretched for they are full of the truthless ideal which have been instilled into them, and each time they come in contact with the real, they are bruised and wounded. It looks as if they were victims of a conspiracy; for the books they read, ideal by the necessity of selection, and the conversation of their elders, who look back upon the past through a rosy haze of forgetfulness, prepare them for an unreal life. They must discover for themselves that all they have read and all they have been told are lies, lies, lies; and each discovery is another nail driven into the body on the cross of life.”

Aproveitei o uso forçado da máscara social antivírus, peguei numa remanente desses tempos conturbados e folheei um dos romances mais marcantes da minha adolescência, um relato de aprendizagem iniciática, a Servidão humana (1915) de W. Somerset Maugham, com alguns toques autobiográficos facilmente detetáveis do autor. Reli-o numa assentada como o fizera na primeira vezAs palavras escritas há mais dum século por um dos mestres da ficção literária voltaram a apoderar-se de mimNão necessariamente pelas mesmas razões que então me terão prendido, mas pelo poder que nesses dois momentos tiveram de me despertar para a história do homem e do sentido da vida, sintetizada na fábula do rei oriental e inscrita num esfarrapado tapete persaFi-lo num volume resgatado da poeira dum alfarrabista, idêntico ao que um empréstimo malsucedido me fizera perder irremediavelmente há uma porção de anos. Aquele que eu havia lido nos meus verdes anos tinha-o adquirido, se a memória não me falha, na feira do livro de Lisboa. Este que agora tenho comigo foi-me oferecido pela minha filha mais velha, quando soube de tristeza que me havia causado a perda da edição sublinhada e anotada nos finais da década de 60.

A eleição do melhor livro da nossa vida depende da altura em que o fizermos, das perguntas que nessa altura nos colocarmos e das respostas então obtidas. O mesmo se poderá dizer para a arte, a música, o cinema. Paradoxalmente, é mais fácil fazê-lo aos 20 anos do que aos 70 muito mais à frente ainda para descobrir, mas muito pouco ainda para escrutinar. Dos inúmeros exemplares depositados na minha biblioteca pessoal e dos que passaram a ocupar outras estantes desconhecidas, resisti à vontade de os voltar a ler. Este Bildungsroman de Philip Carey continua a ser de longe uma das poucas exceções a essa recusa visceral. Alguma razão haverá. Provavelmente por continuar a ser o mais carregado de desafios significativos, de revelações feitas e a fazer, por estar ancorado no longo processo de formação do autor/narrador-protagonista, com o qual, mutatis mutandi, me continuo a identificar.

Recordo ter sentido como minha a desilusão vivida pelo jovem órfão retratado ao comprovar a ineficácia da misericórdia divina. Orara fervorosamente ao altíssimo para que o curasse do pé boto com que nascera e vira gorado esse seu desejo tão pungente, apesar de o ter feito com toda a credulidade exigida pelos textos sagrados. Ironicamente, o pedido que a fé genuína duma criança não obtivera de Deus, seria de certo modo alcançado pela ação da ciência cirúrgica no final do relato. A descrença no sobrenatural metafísico instala-se na história fingida contada como se fosse verdadeira e ajudou-me também a mim a acompanhar esse movimento irreversível de libertação do transcendente religioso até ao momento presente. O deleite e proveito da leitura manifesta-se muitas vezes com estas pequenas coisas, sempre com efeito duradouro.

De navegação em navegação pelas águas virtuais da Net, avistei a primeira versão filmada do texto impresso, dirigido em 1934 por John Cromwell, com Leslie Howard e Bette Davis nos principais papéis. Na presença do original contado em letras de forma, fui obrigado a considerar esta transposição duma narrativa emblemática para o grande ecrã como um fracasso completoRestringe-se ao amor/ódio representado pelos heróis/anti-heróis que dão corpo à sequência central do drama, omitindo todas as fases que a antecedem e transformando significativamente as seguintes. Privilegia a parte sórdida do romance e apaga todos os momentos que ajudaram o biografado a encontrar um equilíbrio emocional no final do seu processo de formação pessoal. A pintura, a filosofia, a literatura, o teatro, a religião. Os tais elementos que me sensibilizaram então como leitor sedento de seguir pistas modelares de aprendizagem e permitem agora fazer um balanço adequado. Aqueles que me permitem nos dias que correm afirmar que o livro de eleição dos meus verdes anos deixou de ser o mais significativo da minha curta vida para se tornar num dos mais importantes na idade madura, aquela em que a separação absoluta entre o real e o imaginário se inviabiliza definitivamente.

24 de maio de 2023

O grande urso guardião da casa ribeirinha com espírito de guerra

Maury Hervé - Ours

[Carré d'Artistes - Dijon]
no·me |ô|
(latim nomen, -inis)
nome masculino
Palavra que designa pessoa, animal ou coisa (concreta ou abstrata).

Sempre senti um misto intrigante de fascínio e espanto pelos nomes dos índios dos livros de cowboys e dos westerns televisivos da minha meninice. O insólito dos antropónimos indígenas do farwest Touro Sentado, Águia Solitária, Rajada de Vento, Pata de Corvo ou Dança com Lobos só se aproximaria de Ricardo Coração de Leão e de João Sem Terra, os dois irmãos reais Plantagenetas das aventuras do Robin dos Bosques, ou d'O Rei de Boa Memória e d'O Príncipe Perfeito, os nossos Dom João I e Dom João II da casa de Avis. Mesmo assim, estes cognomes reais estão sempre associados a um prenome específico de sentido desconhecido.

De pesquisa em pesquisa, descobri que cada elemento do meu nome tinha uma origem diferente e significado específico. Segundo se julga saber, Artur terá derivado do celta artwa (< art: urso + ur: grande) e Henrique do saxónico heimirich (< heim: casa, lar + rik: senhor). Se lhe associarmos o Ribeiro latino (< ripariu: riacho) e o visigótico Gonçalves (< gunda: guerra + elf: espírito), a conjugação de todos estes étimos daria assim algo como: «senhor do lar», «governante da casa», «urso grande que governa a casa» ou, então, «grande urso guardião da casa ribeirinha com espírito de guerra». Tudo bem arrumado à vontade do freguês.

Olho para o urso virtual escondido no meu nome e vejo o ar de espanto estampado no seu rosto. Semblante pasmado de incrédulo, por rivalizar com os epítetos, apelidos e alcunhas concretas e/ou abstratas atribuídos a deuses e heróis, a reis e rainhas, a filhos de algo ou de coisa nenhuma. Pena que tão poucos de nós saibamos os sentidos ocultos nos nomes próprios e familiares que nos foram atribuídos na pia batismal e no registo civil sem nada termos feito para os merecer/desmerecer. Pessoalmente, até me sinto bem com essa etiqueta caprichosa de Urso Guerreiro com que a etimologia me brindou sem para tal ter sido perdido nem achado.

Dean Crouser - Bear with Forest

17 de maio de 2023

Lídia Jorge, a misericórdia dum diário monologado no Hotel Paraíso

«Aqui onde me encontro, mesmo em tempo de primavera, quando os dias costumam ser do tamanho das noites, a noite é sempre mais longa do que o dia. Sabendo disso, é precisamente a meio da noite que a noite vem ter comigo, dirigindo-me perguntas inimagináveis como se fosse aquele gato pardo, muito antigo, que se chamava esfinge.»
Lídia Jorge, Misericórdia (2022)

Uma estada prolongada no CHUA de Faro em tempos de pandemia ajudou-me a entrar de imediato no espírito claro de espalhar risos e derramar lágrimas, testemunhado por Lídia Jorge no meio milhar de páginas do Misericórdia (2022), escrito a pedido da mãe, de certo modo a protagonista implícita do romance. O ambiente hospitalar não é exatamente igual ao ambiente vigente num lar de idosos, casa de repouso ou de terceira idade, sobretudo quando esta dá pelo nome algo insinuante de Hotel Paraíso, mas coincide ainda assim em muitos dos aspetos envolventes do dia a dia vivido pelos pacientes e residentes que os povoam com caráter passageiro ou permanente.

As noites parecem sempre maiores do que os dias, mesmo quando a sua duração real se equilibra no início da primavera e do outono. Esta sensação da imensa grandeza noturna, desmesurada e infindável, é sempre sentida quando o sono teima em partir e nos achamos fora do nosso ambiente natural de conforto. Dona Alberti, a voz feminina que corpo ao relato gravado num Olympus Note Corder DO-20, mitiga as insónias com longos debates com a inoportuna visitante trajada de negro que a flagela com uma regularidade persistente. As palavras saem-lhe da boca em catadupas para a fita magnética que as traz até nós numa transcrição naturalmente infiel, a que foram retirados os bordões próprios da oralidade mas preservada a respiração e ritmo com que foram produzidas. A casa, os livros, os cães, as memórias, os fantasmas, o amor e a morte são uma presença constante nesses combates alucinantes travados na solidão do seu quarto de exílio sofrido em final de vida.

Lidos os  três textos de caráter introdutório do livro, os setenta e um fragmentos do diário falado, as trinta e oito notas escritas pelo próprio punho da monologante e os sete parágrafos compostos em seu nome, a minha viagem por outras leituras remete-me para as anotações de Aristóteles sobre a tripla unidade duma obra de arte de caráter dramático. Tudo se passa num mesmo espaço cénico, durante um ano completo e centrado na visão duma testemunha. Naquele lugar de retiro, setenta pessoas caminham juntas para o termo do seu tempo pessoal. Entram vivas e saem mortas. Os cenários são sempre os mesmos dentro daquelas quatro paredes rodeadas por um jardim. O mundo exterior chega em pequenos pedaços de coisa quebrada. Reverberações distantes trazidas pelas visitas, pela televisão, pelos telemóveis, pelos jornais, pelos funcionários de nações distintas. Coisa de pouca monta que raramente ultrapassa as fronteiras de Valmares, banhada pelo mar e bafejada pelas areias do deserto. A relatora resiste à invasão das formigas-ladra no verão de 2019 mas é-lhe negada a possibilidade de declarar se se livrou da entidade invisível, venenosa e letal que veio sem aviso ao longo de 2020. Ironia trágica que a impediu de revelar o seu próprio destino depois de ter revelado o de tantos outros companheiros de infortúnio.

Aqui e ali ouvem-se ecos descritivos muito próximos do percurso biográfico da obreira externa do relato, assentes na crítica literária tecidos pela sua promotora interna aos livros da filha. Critica-a por contarem demasiadas desgraças, por estarem focadas em gentes vulgares, por terminarem sempre mal, por descreverem um percurso discursivo contrário ao seu gosto pessoal e do público leitor em geral. Quiçá para fugir a esse final indesejado, a história fingida revelada pela mãe duma escritora conhecida deixa o final aberto à fantasia de todos nós, depoimento que ouvimos até a fita magnética cessar o registo do diário monologado e o bando de astronautas mascarados testemunhar o seu regresso imaginário ao pátio da escola e voltar a saltar, cheia de energia, até lhe voar o chapéu.

11 de maio de 2023

Coroas de oliveira, pinheiro, louro e aipo e de veludo, arminho, ouro e pedrarias

Emblem of the Coronation of King Charles III

A Terone de Acragante, vencedor de quadriga
Hinos, soberanos da lira! A que deus, a que herói, a que homem cantaremos? Sem dúvida Pisa é de Zeus; a Olimpíada, como o mais precioso dos despojos de guerra, institui-o Heracles; e é a Terone a quem devemos celebrar pela sua quadriga vitoriosa, homem justo pela sua observância da hospitalidade, baluarte de Acragante, salvaguarda da cidade, flor de anciãos ilustres...
Píndaro, Epicínios, «Olímpica II», est. 1, 1-7 (c. Séc. V AEC)

Nos jogos pan-helénicos, o melhor recebia uma coroa simbólica para celebrar a vitória alcançada sobre os seus adversários. Eram feitas de ramos de oliveira nos Olímpicos, de pinheiro nos Ístmicos, de louro nos Píticos e de aipo nos Nemeus, sendo efetuados em datas cíclicas e intercaladas, para assim honrar Pélops em Olímpia, Poseidon em Corinto, Apolo em Delfos e Zeus em Nemeia. Estavam configuradas como festas religiosas ancestrais associadas à fertilidade da terra e aos cultos funerários.

Saltando da Antiguidade para a Idade Média e desta para a Moderna, apetece perguntar que feito heroico digno de nota terão feito os reis e rainhas dos nossos dias para merecerem uma coroa de ouro maciço e pedrarias, com veludos e arminhos mil, para além de terem sido destinados desde o berço para usarem umaMudam-se os tempos, mudam-se as vontades, já lá dizia Camões, também ele laureado, mas esse, pelo menos, deixou-nos obra feita para memória presente e futura.

O circo mediático global voltou a ostentar com honra e glória os tesouros reais e imperiais que a nobre Albione acumulou ao longo dos séculos de domínio soberano absoluto sobre os povos da British Commonwealth of Nations. Só a Saint Edwards Crown possui 345 águas-vivas, 37 topázios, 27 turmalinas, 12 rubis, 7 ametistas, 6 sa-firas, 2 jargões, 1 granada, 1 espinélio, e 1 carbúnculo, num total de 444 pedras preciosas e semipreciosas. God Save de King, para man-ter tal fardo à sua guarda.

Mesmo assim, os motivos florais não foram esquecidos no emblema oficial da coroação de Carlos III de Windsor, criado por Sir Jony Ive. Ali figura a flora das quatro nações do ainda Reino Unido: a rosa de Inglaterra, o cardo da Escócia, o narciso do País de Gales e o trevo da Irlanda do Norte. Uma simples exibição simbólica estampada em papel mas a remeter para a ostentação monárquica das regalia usadas na cerimónia. Coisas de reis e rainhas de antanho vividas nos nossos dias. Até quando...

COROAS DOS VENCEDORES DOS JOGOS PAN-HELÉNICOS
oliveira: olímpicas - pinheiro: ístmicas - loureiro: píticas - aipo - nemeias

5 de maio de 2023

Uma cantiga de amigo dialogada com refrão de Dom Dinis no Dia da Língua

CANTIGAS MEDIEVAIS GALEGO-PORTUGUESAS

[Iluminura do Cancioneiro da Ajuda]

               Ai flores, ai flores do verde de pino

Ay flores ay flores do uerde pyno

Se sabedes nouas do meu amigo

       Ay de9 y hu e

Ay flores ay flores do uerde ramo

Se sabedes nouas do meu amado

       Ay de9 y hu e


Se sabedes nouas do meu amigo

Aquel qmètiu do q’po9cõmigo

       Ay de9 y hu e


Se sabedes nouas do meu amado

Aql qmètiu do q’ mha iurado

       Ay de9 y hu e


Vos me pcgùntades polo uossamigo

E eu bè v9 digió q’ e sanoe vyue

       Ay de9 y hu e


Vos me pcgùntades polo uossamado

E eu bè v9 digió q’ e vyue sanoe

       Ay de9 y hu e


E eu bè v9 digió q’ e sanoe vyue

E sera uos canto prazo passado

       Ay de9 y hu e

Dom Dinis, B 568, V 171 

Obs.: Assim se falava e escrevia no tempo de Dom Dinis (1261-1325), o rei-trovador que instituiu o Português como língua oficial do país (1297) e fundou a primeira universidade portuguesa em Lisboa (1288-1290).

2 de maio de 2023

O equilíbrio solar e lunar do hatha yoga

Mayūrāsana - मयूरासन - Pose de Pavão
[Mural do templo Mahamandir, Jodhpur, Índia, c. 1810]

Um tapete de chão, dois blocos de apoio, um cinto de alongamento, uma manta de aquecimento e muita vontade de yogar, i.e., de praticar yoga/ioga, com ó ou ô, consoante os gostos ou frescuras pessoais. O hinduísmo define esta escola filosófica como uma libertação do mundo material, uma ligação, junção, união plena com Deus. Como ateísta, agnóstico ou apateísta que sou, prefiro trocar o transcendente metafísico pela totalidade cósmico que nos rodeia, contém e acolhe no seu seio, a que pertencemos.

Uma bronquite genética levou-me a trocar as aulas da ginástica do plano curricular básico pela ginástica respiratória. Na altura não se falava ainda em yoga/ioga. Se assim fosse, talvez me tivesse afeito às prayamas, asanas e savasanas, termos específicos dessa práxis meditativa, o que, vertendo do sânscrito ancestral ao lusitano atual, nos enviaria para os exercícios de respiração, postura e relaxamento previstas pela Hatha Yoga, a busca incessante do equilíbrio das forças solares (Ha) e lunares (Tha).

Uma eternidade depois de ter dado folga à ginástica respiratória, rendi-me à chamada apelativa do yoga/ioga. Dei-lhe um livre trânsito regular duas vezes por semana. me iniciei nas posturas da criança, do guerreiro, da montanha, da árvore, do barco, da águia, do gato. Qualquer dia atiro-me à pose do pavão. As pernas é que se recusam a subir, impedindo os braços de ensaiarem um equilíbrio estável e em força. Nessa altura, chegarei as mãos junto ao peito com uma ligeira curvatura e saudarei: Namastê.