Mostrar mensagens com a etiqueta Mathias Énard. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mathias Énard. Mostrar todas as mensagens

12 de setembro de 2016

Mathias Énard, de bússola em punho em noite de insónia


«Nous sommes deux fumeurs d’opium chacun dans son nuage, sans rien voir au-dehors, seuls, sans nous comprendre jamais nous fumons, visages agonisants dans un miroir, nous sommes une image glacée à laquelle le temps donne l’illusion du mouvement, un cristal de neige glissant sur une pelote de givre dont personne ne perçoit la complexité des enchevêtrements...»
Mathias Énard, Boussole (2015)
Olho para a capa do último prémio Goncourt das letras francesas e vejo as ruínas duma cidade num deserto com as areias pintadas de laranja, amarelo e castanho. As cores que se costuma atribuir às grandes extensões de terra ressequida por um sol inclemente sem o menor vestígio de vida à vista. Julgo reconhecer a silhueta dum velho templo romano de Palmira. Posso estar enganado, ter sido arrebata-do pela imaginação, mas a impressão imediata que me ficou foi essa. Impossível ter uma certeza*. Os editores das Actes Sud dizem tratar-se duma ilustração DR. Nada mais. A indicação da obra foi-me dada por uma amiga que muito prezo e a quem agradeço por mais esta dica. Tenho vindo a aludir sem me descair a Mathias Énard e à Bússola (2015), romance centrado numa palavra trissilábica que se refere a uma caixinha quase mágica inventada para nos servir de guia, indicar o rumo e orientar nos percursos a seguir nos nossos itinerários desconhecidos. É a altura de falar dos caminhos que a agulha magnética colocada estrategicamente no interior do livro que tenho entre mãos me revelou ao longo da leitura.

Uma noite de insónia leva um musicólogo orientalista austríaco a passar em revista a sua vida já vivida entre viagens de além-fronteiras ocidentais da Europa, situadas em Viena, a seu ver a exata Porta Orientis do velho continente. Fá-lo em pouco menos de sete longas horas, criteriosamente marcadas no corpo do texto, das 23.10h às 6.00h da manhã seguinte, o que corresponde a 370 pá-ginas de texto corrido entremeado de uma dúzia de imagens a preto e branco elucidativas dum instante recordado. A corrente do pensa-mento conduz a um discurso caleidoscópico que salta de flash em flash, de tempos e espaços dispersos ao sabor do acaso, a emergir dos episódios guardados nas suas lembranças. Istambul, Alepo, Damas, Teerão são chamadas ao palco. Palmira também pisa esse palanque feito de sonhos e recordações. Paris é evocada a propó-sito dum encontro de percurso e companheira de muitas travessias. Amor impossível. Atração fatal alimentada por aventureiros, sábios, artistas e visitantes desse Grand Est que cruzam todo o testemunho posto à disposição do leitor. Música e literatura, história e religião, mito e lenda. Pontes que se lançam para ligar essas duas margens dos hemisférios palmilhados pelo sol no seu movimento diário de nascente para poente. O real e o imaginário que se fundem através da habilidade do Homem de mudar a natura em cultura.

Epopeia em prosa cantada por um aedo solitário de subjetividades atualizadas ao correr da pena. Assim pode ser definido à moda clássica este romance dos alvores do terceiro milénio. Os catálogos infindáveis de heróis da nossa fantasia criativa irrompem a cada passo, preenchendo cidades e países, ruas e praças, recintos aber-tos e fechados, acordando os sentidos para melodias, poemas, fic-ções, pensamentos recuperados em que a doença não ocupava ainda o espírito do protagonista. Projeto ambicioso de compor Des différentes formes de folie en Orient. Imenso políptico com cinco painéis de histórias desenhadas com palavras: Les orientalistes amoureux, La caravanne des travestis, Gangrène & tuberculose, Portraits d’orientalistes en commandeurs des croyants, L’Ency-clopédie des décapités.

Os nomes de Bethoven, Mozart, Liszt, Berlioz e Gluck ou os de Bal-zac, Stendhal, Kafka, Goeth e Proust destacam-se no campo das sonoridades musicais e verbais. Gostaria de acrescentar outros dois. Omar Khayyan e Fernando Pessoa. Autores de quadras dedicadas aos êxtases do vinho e das paixões humanas, separadas/unidas por oitocentos anos de devir poético. Os Rubaiyat compostos em persa e português e transcritos em francês para memória futura. Les beaux esprits se rencontrent. Reza o provérbio popular atestado à exaustão na fábula de factos feitos e fingidos. A heteronímia dum a pontuar a ortonímia do outro. Declaração explícita dum erudito da matéria proferida com a erudição dum autor premiado com as mais prestigiadas distinções literárias da francofonia. No final da insónia, o monólogo interior de Franz Ritter, um fumador de ópio entre muitos outros conhecidos e anónimos, é interrompido na tarefa hercúlea de salvar dum apagamento eterno as reminiscências de momentos pretéritos. Os versos duma canção de inverno ficam registadas nas derradeiras linhas do relato com os versos duma canção de inverno de Wilhem Muller & Franz Schubert, seguidas da confissão do memorialista de não sentir com esse ato vergonha de se entregar ao livre curso dos sentimentos e ao tépido calor da esperança. Epílogo feliz para coroar uma travessia noturna sem perspetivar grandes expetativas luminosas projetadas na linha do horizonte.

NOTA
(*) As incertezas por vezes desfazem-se e transformam-se em certezas. Uma viagem despreo-cupada pela Net levou-me até à localização exata das ruínas misteriosas desenhadas na capa do livro. Não são romanas nem se trata de Palmira, mas sim do que resta do velho templo persa sassânida de Taq-e Kisra. Encontra-se atualmente no Iraque, a 35 Km sudeste de Bagdad, e foi construído por Cosroes I para celebrar uma campanha contra os bizantinos em 540. Os editores das Actes Sud bem podiam ter sido mais claros na indicação precisa da ilustração DR.

22 de maio de 2016

Quand les livres parlent de musique...

Arif Pash, Mehterhane, Military Band, 1839
[National Library, Ankara]


HUMOUR & CLOWNERIE


« Il recommençait à pleuvoir ; Sarah referma son carnet, le rangea dans la poche de son imperméable noir ; j’avais dû garder mes considérations sur l’influence de la musique militaire turque et de ses percussions pour le chemin du retour : il est certain qu’en 1778, lorsque Mozart compose sa onzième sonate pour piano, la présence ottomane, le siège de Vienne ou cette bataille de Mogersdorf sont déjà bien loin et pourtant son Rondo alla turca est très certainement la pièce de l’époque qui entretient la relation la plus étroite avec les mehter, les fanfares des janissaires ; est-ce à cause de récits de voyageurs, ou tout simplement parce qu’il a le génie de la synthèse et reprend, magnifiquement, toutes les caractéristiques du style “turc” de l’époque, on l’ignore, et moi-même, pour briller dans cette bagnole se traînant au milieu de la Styrie suintant l’automne, je n’hésitais pas à synthétiser (à pomper, quoi) les travaux d’Eric Rice et de Ralph Locke, indépassables sur le sujet. Mozart réussit si bien à incarner le “son” turc, les rythmes et les percussions, que même Beethoven l’immense avec le tam taladam tam tam taladam de sa propre marche turque des Ruines d’Athènes parvient tout juste à le copier, ou à lui rendre hommage, peut-être. N’est pas un bon orientaliste qui veut. J’aimerais beaucoup raconter à Sarah, maintenant, pour la faire rire un peu, cette performance hilarante, enregistrée en 1974, de huit pianistes mondialement célèbres, interprétant la Marche turque de Beethoven sur scène, huit immenses pianos en cercle. Ils jouent cet arrangement étrange pour seize mains une première fois, puis, après les applaudissements, ils se rassoient et l’interprètent à nouveau, mais dans une version burlesque : Jeanne-Marie Darré se perd dans sa partition ; Radu Lupu sort d’on ne sait où un tarbouche et se le visse sur le crâne, peut-être pour bien montrer que lui, Roumain, est le plus oriental de tous ; il tire même un cigare de sa poche et joue n’importe comment, les doigts encombrés par le tabac, au grand dam de sa voisine Alicia de Larrocha qui n’a pas l’air de trouver cela très drôle, ce concert de dissonances et de fausses notes, pas plus que la pauvre Gina Bachauer, dont les mains paraissent minuscules auprès de son gigantesque corps : très certainement la Marche turque est la seule pièce de Beethoven avec laquelle ils pouvaient se permettre cette farce potache, même si on rêverait que l’exploit soit réédité pour, par exemple, une ballade de Chopin ou la Suite pour piano de Schönberg ; on aimerait entendre ce que l’humour et la clownerie pourraient apporter à ces œuvres-là. (Voilà une autre idée d’article, sur les détournements et l’ironie en musique au XXe siècle ; un peu vaste sans doute, il doit déjà y avoir des travaux sur le sujet, il me semble me rappeler vaguement une contribution [de qui ?] sur l’ironie chez Mahler, par exemple.) »
Mathias Énard, Bussole (2015: 40-41)

12 de março de 2016

Mathias Énard, Zona: a viagem no tempo à procura do fim do mundo

«...ils parlaient de nos trafics, de la région qu’ils appelaient the area “la Zone” et de leur sécurité, sans dire jamais le mot “arme” ou le mot “pétrole” ou n’importe quel autre mot d’ailleurs à part investment et safety...»
Mathias Énard, Zone (2008)
O fascínio exercido pela epopeia homérica no nosso imaginário cole-tivo ao longo dos últimos três milénios é surpreendente. Gerações de ouvintes e leitores das rapsódias cantadas em torno da guerra de Troia têm-se encarregado de perpetuar os feitos dos heróis que a travaram durante dez intermináveis anos. Aqueles mesmos seres divinos que depois conquistaram, pilharam e incendiaram sem nem piedade a cidade sagrada de Ílion, que encetaram as viagens de regresso aos lares distantes onde deixaram anciãos, mulheres e filhos menores, que enfrentaram mil e uma dificuldades arquitetadas pelos ciúmes eternos dos deuses imortais pela mortalidade dos humanos. Quem duvidar desta nossa memória multissecular que se dê ao trabalho de pesquisar o número incontável de obras que os poetas têm vindo a recriar desde então até aos nossos dias. Limitar-me-ei a referir uma e a anotar outra, por ajudarem a ajustar as balizas histórico-culturais algo fluídas da modernidade e da pós-modernidade.

A primeira foi idealizada por James Joyce nas páginas do Ulisses (1922), uma extensa e circunstanciada epopeia em prosa que nos põe ao corrente das errâncias urbanas de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin, no dia 16 de junho de 1904. As referências diretas ao rei de Ítaca primam pela ausência. O mesmo se diga da totalidade dos aqueus e troianos que povoam a Ilíada e a Odisseia. No entanto, a estrutura épica imaginada pelo ædo de Quios acompanha-nos da primeira à última página do livro, num universo de referências em que a matriz clássica greco-romana é constantemente revezada pela judaico-cristã, situada num contexto bem irlandês de cariz católico-protestante. O segundo texto anunciado deve-se a Mathias Énard, que lhe deu o título algo enigmático de Zona (2008) e se baseia nas deambulações de Yvan Derroy / Francis Servain Mirković pelos trilhos da memória de ex-guerrilheiro croata, ex-espião francês e ex-delator internacional, enquanto percorre de comboio as paisagens noturnas que ligam as gares de Milão e Roma. As aventuras/desventuras dos heróis da imaginação helénica estão bem presentes em toda a efabulação, em assíduo diálogo com os anti-heróis que a realidade mediterrânica foi erigindo desde o tempo da queda das muralhas de Ílion até à noite de 8 de dezembro de 2004, no rescaldo ainda fresco da queda em 9 de novembro de 1989 do muro de Berlim ou de todas as vergonhas.

O romance mais recente desenvolve-se como um longo e único período-parágrafo-frase do protagonista, cuja corrente de pensamento só é interrompida três vezes para dar voz a um relato encaixado de amor e morte vivido na cidade-mártir de Beirute, durante uma das incessantes guerras civis que a têm assolado. No total, as instâncias discursivas necessitaram de 24 capítulos (cifra idêntica às 24 horas do Bloomsday, às 24 rapsódias centradas na cólera de Aquileus e mais 24 para enquadrar a viagem-vingança de Odisseus), para compilar todas as histórias laterais que dão corpo à tessitura nuclear, também ela recheada de flashes episódicos vários, repartidos pelas três margens do Mediterrâneo, ponto de confluência de três continentes, à sombra das cidades que ergueram e derrubaram impérios ou viveram à sombra de outros. Podemos omitir as já registadas e referir Constantinopla, Jerusalém e Argel, que muitas ficariam ainda de parte, todas elas necessárias para definir as fronteiras exatas da «Zona». Aliás, o próprio narrador tem dificuldade no seu traçado preciso. O grande espaço cénico dos eventos evocados abrange a totalidade das terras banhadas pelo grande mar fazedor de civilizações. Começa em qualquer ponto do velho mundo e pode até terminar no Vaticano, nos arquivos da cidade-estado mais poderosa dos nossos dias, passaporte para o fim do mundo e para uma vida nova. Entre as bagagens do passageiro-efabulador do grande comboio transitaliano encontra-se uma maleta de mão carregada de documentos, nomes, fotos e relatórios secretos, uma coleção de fantasmas que lhe permitirão abrir as portas para a eternidade.

O texto refere-se muitas vezes ao dilema de Aquiles, o ter de eleger entre morrer jovem na guerra e coberto de glória ou morrer velho em casa, sem honra nem proveito e esquecido de todos. O filho da ninfa Tétis e do rei Peleus optou pela primeira hipótese. Preferiu a fama ao anonimato. Espalhou o luto por toda a parte e acedeu por mérito próprio e vontade de Zeus à ilha dos bem-aventurados. Os deuses estão sempre a surpreender-nos. O Mediterrâneo tem sido desde Troia um berço de heróis. Só que a maioria dos mortos não morará na memória de ninguém. Ironia trágica dos simples viventes como nós, que não têm a proteção divina de nenhum dos progenitores. Aos filhos das sombras só resta mesmo o reino das sombras, o mísero destino dos mortais...

NOTA
Agora que tanto se fala das histórias trágico-marítimas protagonizadas neste nosso dia-a-dia conturbado de travessias-naufrágios mediterrânicos e de caminhadas-errâncias sem fim à vista por três continentes, lembrei-me de recuperar este texto paradigmático, composto há meia dúzia de anos e publicado um pouco depois no Pátio de Letras. O romance que lhe forneceu tópicos de reflexão recorre a outros relatos épicos, compostos em verso e prosa, a demonstrar que o destino peregrino dos homens não mudou muito no decurso de séculos e milénios de devir histórico.