Mostrar mensagens com a etiqueta Divas & Divos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Divas & Divos. Mostrar todas as mensagens

16 de janeiro de 2026

O rosto exótico de judeu errante, pastor grego e cabelos ao vento de Moustaki

Georges Moustaki, Le Métèque (1969)

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents Avec mes yeux tout délavés qui me donnent l'air de rêver, moi qui ne rêve plus souvent. Avec mes mains de maraudeur, de musicien et de rôdeur qui ont pillé tant de jardins. Avec ma bouche qui a bu, qui a embrassé et mordu sans jamais assouvir sa faim.

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec de voleur et de vagabond. Avec ma peau qui s'est frottée au soleil de tous les étés et tout ce qui portait jupon. Avec mon cœur qui a su faire souffrir autant qu'il a souffert sans pour cela faire d'histoires. Avec mon âme qui n'a plus la moindre chance de salut pour éviter le purgatoire.

Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents. Je viendrai ma douce captive, mon âme sœur, ma source vive, je viendrai boire à tes 20 ans. Et je serai prince de sang, rêveur ou bien adolescent comme il te plaira de choisir.

Et nous ferons de chaque jour toute une éternité d'amour que nous vivrons à en mourir.

Em algum momento da sua chegada a Paris, em 1951, Giuseppe Mustacchi, Yussef Mustacchi, Ζωρζ Μουστακ ou Georges Moustaki (Alexandria, 1933 - Nice, 2013) terá sido apelidado de «meteco», nome dado em Atenas aos estrangeiros residentes na cidade e por extensão xenófoba aos imigrantes instalados em França. As suas origens judaico-italo-gregas, nado num país árabe, terão contribuído para esse epíteto que inspiraria uma canção evocativa do termo em 1969, tornando-o num dos compositores-autores-intérpretes de maior sucesso da sua geração.

Dizem que escrever um bestseller é fácil, o difícil é escrever vários. Duvido que assim seja, mas, se assim fosse, também seria possível expandir esta máxima para outras artes criativas, como a música. Quem compuser um sucesso discográfico dificilmente comporá um segundo. De qualquer modo, em nenhum dos casos se poderá garantir que a quantidade de livros ou discos vendidos ande de mão dadas com a qualidade de cada um deles por si só. As obras-primas não se fazem a metro nem se tropeça com nenhuma delas ao virar da esquina.

O primeiro grande sucesso de Georges Moustaki tem a duração de 2.29min, tempo mais do que suficiente para compor e interpretar uma autodescrição em três estrofes e um refrão, cantada e musicada, a que deu o título sugestivo de Le métèque (1969). Seguiram-se-lhe muitos outros hits discográficos nos diversos cantos da aldeia global, mas este manteve-se sempre o seu verdadeiro cartão de visita, aquele que muito provavelmente abrira caminho para se naturalizar francês em 1985, aquele que há muito obtivera o estatuto de cidadão do mundo.

Meio século e picos após os primeiros acordes versificados, ainda nos apetece trautear, cantarolar, assobiar e ouvir à exaustão a voz melodiosa daquele judeu errante e pastor grego, de rosto exótico, olhos desbotados e cabelo ao vento. E assumir depois como nossas aquelas mãos de saqueador, músico e vagabundo, senhores duma pele que roçou o sol de todos os verões e sermos também nós outros tantos príncipes de sangue, sonhadores e adolescentes, para fazer de cada dia uma eternidade de amor e assim vivermos na máxima plenitude.

24 de setembro de 2025

Les mots et les notes

  
           TRIANGULAÇÕES           

1. Cora Vaucaire, «Trois petits mots de musique», Henri Colpi & Georges Delerue (1961)   2. Yves Montand, «La chansonnette», Jean Drejac & Philippe Gerard (1966)                      3. Charles Dumont, «Une chanson» (1976)

Três pequeninas notas de música partiram à desfilada para os abismos da memória, abrandaram a melodia, viraram a página e adormeceram. Assim cantava e encantava Cora Vaucaire, la Dame blanche de Saint-Germain-des-Prés, no início dos anos 60, para quem a via, ouvia, aplaudia e pedia encore.

Descontente com um silêncio tão prolongado, Yves Montand, The Latin Lover, anunciou no final da década, como voz provocante, figura insinuante e presença sedutora, que o lá, lá, lá, como um três vezes nada, estava de volta nos versos duma mera cançoneta, até então perdida nas pedrinhas da calçada.

A concluir a triangulação anunciada, Charles Dumont, le Baron de la chanson française, afirma, no derradeiro quartel do segundo milénio a caminho do terceiro, que uma canção não é mais do que um punhado de coisa nenhuma, o calafrio titilante do champanhe, que mal dura um instante sem sentido numa estação.

🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶🎶

Se, como se diz, uma imagem vale mais do que mil palavras, podemos perguntar com quantas notas se pode compor uma melodia. Depois, tentar saber de quantas palavras e notas precisamos para escrever uma cantiga, canção ou cançoneta, como as utilizadas na tríada acima referidas e podemos ouvir aqui, aqui e aqui.

15 de janeiro de 2025

Chavela Vargas, la voz áspera de ternura de la dama del poncho rojo

    Chavela Vargas    

Vengo de donde viene | Mi amigo el viento, | Traigo aromas de luz | Que provaron los cerros, | Y armonias calladas| De la noche mas bella. ||  No pregunten quien soy, | Porque no se los digo, | Solo sé que a dónde voy, | El amor va conmigo, | Y a puro valor, | He cambiado mi suerte, | Hoy voy hacia la vida, | Hoy voy hacia la vida, | Antes iba a la muerte | | Cuando pedi justicia, | No me la dieron, | Cuando quise querer, | A mi no me quisieron, | Cuando un nido forme, | Con traición lo quemaron, | Cuando a cristo recé, | Ni me rezos llegaron. || No pregunten quien soy, | Porque no se los digo | Solo sé que a dónde voy, | El amor va conmigo | Y a puro valor, | He cambiado mi suerte, | Hoy voy hacia la vida, | Hoy voy hacia la vida, |  Antes iba... Antes iba... ||| A la muerte! 

Por eso no me he muerto porque no me voy a morir nunca...

Quando me mudei aqui para Faro, ainda havia na cidade uma boa dúzia de livrarias. Algumas até vendiam discos ainda em vinil e em formatos distintos. Aos maiores chamava-se álbuns, abreviado em LP. Aos menores com duas ou quatro faixas dava-se o nome de single e não me recordo se algo mais. Foi na versão mais completa ou longa duração que descobri pela primeira vez a voz e o rosto de Chavela Vargas. Não mantive na memória as rancheras, corridos, cumbias, boleros e tangos ali registados, nem sequer o ano em que tal ocorreu. Por certo, na viragem da década de 70 para a de 80.

Nos dias, meses e anos que se seguiram, os discos grandes e pequenos registados em vinil ou compactados, as cassetes áudio em fita magnética que fui colecionando foram-me dado a conhecer e apreciar as particularidades daquela voz áspera de ternura tão diferente de todas aquelas que até então tinha ouvido. Depois, os vídeos disponibilizados na Net revelaram-me o modo sui generis que a dama do poncho vermelho tinha de interpretar as muitas histórias cantadas como se estivesse a contar a sua própria vida numa longa e sentida confidência a quem as quisesse atentamente escutar.

Muito se tem efabulado sobre a arte dum dos símbolos maiores da alma latino-americana. Há até quem a descreva através dos versos de Jorge Luis Borges, ao compará-la ao cristal da solidão e sol de agonias gritadas, sussurradas, rezadas e choradas do olvido ao som duma guitarra. Não juntarei mais palavras às já ditas e reditas, porque as sinto como minhas e não diria melhor. Carpir a sua morte também seria inútil, pois como afirmou num recital na Sala Caracol de Madrid em 1993: yo cuento una historia de amor cada noche que canto, por eso no me he muerto porque no me voy a morir nunca...

2 de agosto de 2024

José Afonso, traz outro amigo também...

          José Afonso   

Amigo, maior que o pensamento | Por essa estrada, amigo vem | Por essa estrada, amigo vem | Não percas tempo que o medo | É meu amigo também | Não percas tempo que o medo | É meu amigo também || Em terras, em todas as fronteiras | Seja bem-vindo, quem vier por bem | Seja bem-vindo, quem vier por bem | Se alguém houver, que não queira | Trá-lo contigo, também | Se alguém houver, que não queira | Trá-lo contigo, também || Aqueles, aqueles que ficaram |Em toda a parte, todo o mundo tem | Em toda a parte, todo o mundo tem | Em sonhos me visitaram | Traz outro amigo, também | Em sonhos me visitaram | Traz outro amigo, também.

Vivi em Campo de Ourique na primeira metade dos anos setenta. o disse por aqui uma e outra vez acerca de muitos e variados assuntos. Havia então na rua Saraiva de Carvalho uma pequena mas bem fornecida livraria que eu frequentava sempre que por ali passava na esteira do 28 e um título ou outro me despertava a atenção. Foi na Compasso que descobri a verve satírica de José Martins Garcia no Katafaraum é uma nação (1974), certamente uma das últimas obras publicadas sob o regime da censura estado-novista. Foi ali também que adquiri o ensaio de Manuel Vásquez Montalbán, Joan Manuel Serrat (1972), e, pela mesma altura, duas breves antologias semiclandestinas de José Afonso, comentadas por uma dúzia de figuras com a visibilidade mediática possível na época.

Resgatei esse par de livrinhos dum canto pouco visitado da biblioteca da minha sala. Encontrei-os dispostos a relembrar-me as dezenas de versos compostos em redondilhas maiores e menores traçadas ao gosto popular das baladas, coros, canções, cantares, cantigas, cartas e cantos, registados nas páginas amarelecidas por mais de meio século dum repouso forçado. Faltava-lhes o registo das melodias que acompanhavam essas trovas dos tempos cinzentos anteriores aos cravos de abril, mas essas sei-as eu de cor e salteado à força de tanto as cantar às ocultas e em liberdade. As palavras musicadas do José Afonso são indeléveis, quem as ouve uma só vez fixa-as logo para sempre, de pouco valendo os silêncios impostos de então e os continuados de agora das rádios e das televisões.

No dia em que o grande renovador do modo de cantar entre nós faria 95 anos, não ouço como outrora nenhum dos temas gravados em vinil, fita magnética e ótica digital. O YouTube chegou e lançou pouco a pouco cassetes e discos para trás das costas, convertendo as tradicionais aparelhagens grandemente obsoletas ou perto disso. O audiovisual veio, viu e venceu, a despeito de ter perdido em muito a qualidade de leitura. Abstraí-me desse senão e imaginei-me de novo integrado num grupo de jovens, sentados no chão dum sótão perdido do Chiado, a ouvir alguns dos mais conhecidos baladeiros da época nessa já longínqua tarde de 72/73. A voz e a guitarra de José Afonso ainda hoje me soa na memória, indiferente às muitas horas, minutos e segundos que cabem em meio século.

José Afonso, Cantar de Novo. Tomar: Raiz - Representações, 1970
José Afonso, Poemas. Porto: Livraria Paisagem, 1972

14 de junho de 2024

Triangulação musical, recitada, entoada e silvada ao ritmo da zamba argentina

 Atahualpa Yupanqui - José Larralde - Jorge Cafrune 

Era un lindo caballo, mi caballo | Abría su relincho en la mañana, saludándolo al sol | Caracoleaba sobre el parche del camino cuando íbamos al pueblo | Y una noche, no sé qué le pasó, no sé qué le pasó | Y era un lindo caballo, mi caballo...
Zamba de mi esperanza | Amanecida como un querer | Sueño, sueño del alma | Que a veces muere sin florecer...
Quién me enseñó a ser bruto | Quién me enseñó, quién me enseñó | Si en la panza de mamá | No había ni escuela ni pizarron...

Entrei no universo mágico de Atahualpa Yupanqui ainda em Lisboa. numa época em que as rádios não se limitavam a passar a qualquer hora do dia e da noite música anglo-saxónica. Não me recordo bem do momento exato em que ouvi pela primeira vez a voz, a guitarra e os versos de Don Ata, ao ritmo tradicional cantado-recitado-dedilhado das payadas, chacareras, tonadasvalses, milongas, coplas e zambas argentinas. Os textos originais ou coligidos do ¡Basta ya!, do Duerme negrito e das Preguntitas sobre Dios já os teria lido e relido nos encontros semanais da Capela do Rato. Surpreendente. Depois gastei uma cassete magnética que uma amiga minha me gravara e oferecera, à força de tanto a reproduzir.

O fascínio por uma zamba cantada, recitada e trinada ao som duma guitarra criolla não deixou de crescer até hoje. Ampliou-se com as aprendizagens que as minhas amizades estremenhas de longa data me foram ofertando. Lembro uma incursão noturna pelas vastas planícies raianas de Olivença e da charla que tive com o meu amigo Fernando G. sobre os cantautores, pesquisadores, compiladores e divulgadores da cultura nativa argentina. Dos grandes vultos então referidos, fixei o de Jorge Cafrune. Já em Badajoz, comprei uma cinta do recém-descoberto El Turco que ainda ouço sempre que para aí estou virado. Delicio-me agora com os duetos partilhados com o jovem Marito na Virgen India. ¡Precioso! 

A triangulação musical, recitada, entoada e silvada ao ritmo da zamba argentina, moldada pelos sentires dos aedos, vates, jograis atuais, culmina com José Larralde, El Cantor Orillero, ainda hoje ativo e a encantar-nos com o seu sentir profundo e pungente. Notei-o desde os primeiros acordes declamados e entoados do Hombre e das demais fachas incluídas no álbum a que dá nome. Os dialetos, falares e formas particulares de realizar a língua oficial do país andino-atlântico, imposta pelos invasores e conquistadores vindos do outro lado do mar 500 anos antes. Escutei-o religiosamente em terras hispânicas e escuto-o agora enquanto escrevo. paixões que vêm para ficar e perdurar. Afortunadamente.

28 de setembro de 2023

Las rebeldías de Jeanette

Jeanette, Soy Rebelde Tour 2023 T-Shirt

«Yo soy rebelde | porque el mundo me ha hecho así | porque nadie me ha tratado con amor | porque nadie me ha querido nunca oír. | Yo soy rebelde | porque siempre sin razón | me negaron todo aquello que pedí | y me dieron solamente incomprensión || y quisiera ser como el niño aquel | como el hombre aquel que es feliz | y quisiera dar lo que hay en mi | todo a cambio de una amistad | y soñar | y vivir | y olvidar el rencor | y cantar | y reir | y sentir solo amor.»
Manuel Alejandro, Soy rebelde (1971)

Ecos lejanos de La Inglesita...

No início da década de 70, falhei umas apetecíveis férias de verão em Conil de la Frontera, uma estação balnear andaluza da Costa de la Luz, a dois passos de Cádiz e Gibraltar. O Botas de Santa Comba acabara de esticar o pernil cerca dum ano, mas a perpetuação do anquilosado império colonial português teimava em manter-se de pé e à custa de muitos balões de oxigénio, ministrados cirurgicamente em três frentes africanas de combate antiguerrilha independentista. A maioridade estava às portas e de mãos dadas com o serviço militar obrigatório, a impedirem-me de cruzar as estremas do Caia e rumar decididamente até às águas cálidas do sul ibérico.

Nesses tempos de espera prolongada por uma mudança que tardava a chegar, seguia com apreensão contida o evoluir da situação pouco invejada do tal jardim à beira-mar plantado. De Espanha não vinham nem bons ventos nem bons casamentos. Não vinha em bom rigor absolutamente nada. Os dois eviternos rivais de glórias perdidas no passado viviam de costas voltadas como se ignorassem a existência efetiva do outro. Um encontro recente numa estância termal alterara de modo radical as minhas ideias feitas e batidas sobre a realidade vivida do lado de da raia. Fiz amigos perenes naquele ambiente sulfuroso de águas mornas e conversas calorosas. 

Dias vêm, dias vão, salta-se à vez do lazer para o quefazer. Os meus ócios/negócios de estudante na grande cidade resumiam-se então a muito pouco. Omito-os. Recebi nesses dias uma lembrança dos meus amigos das termas com quem estabelecera um contacto que dura até hoje. Um disco que ocupava à data os tops musicais de vendas. Um sencillo 45rpm da desconhecidíssima Jeanette. Na Cara A do vinil, La Inglesita rendida à cultura espanhola interpretava uma muita juvenil Soy rebelde (1971). Como recado subliminar escreviam-me desde a margem interdita do além Caia que, de vez em quando, urgia exercer o direito capital a uma certa e acertada à rebeldia.

Quando voltei ao convívio adiado dos meus amigos em terras outrora vedadas, a fama efémera da jovem londrina radicada na pele de touro peninsular  se perdera muito na espuma dos dias. Os acordes das rebeldias adolescentes com que fora lançada permaneceram todavia gravados na memória coletiva das gentes. As palavras entoadas pela cantante hispano-britânica mantêm-se teimosamente no ar, de pedra e cal, sem darem o menor sinal de cair e a justificarem a realização dum world tour comemorativo do 50.º aniversário da sua criação. Mistério análogo à fugaz existência das estrelas-cadentesSurgem, brilham, morrem e renascem viçosas no ano seguinte.      

 

15 de dezembro de 2022

Um livro, alguns recortes de jornal e muitos versos cantados de Serrat

 Joan Manuel Serrat 
Ara que tinc vint anys | Ara que encara tinc força | Que no tinc l'ànima morta | I em sento bullir la sang || Ara que em sento capaç | De cantar si un altre canta | Avui que encara tinc veu | I encara puc creure en déus || Vull cantar a les pedres, la terra, l'aigua | Al blat i al camí, que vaig trepitjant | A la nit, al cel, a aquest mar tan nostre | I al vent que al matí ve a besar-me el rostre | Vull alçar la veu, per una tempesta | Per un raig de sol | O pel rossinyol | Que ha de cantar al vespre...

Na viragem dos anos 60 para os 70, entrei a passos largos no universo da música de matriz hispânica. Do lado de cá da raia vivia-se então o período áureo dos baladeiros de intervenção pré-revolucionária, mais tarde apelidados a bem ou a mal de cantautores. Do lado de lá, vivia-se identicamente uma situação de profunda e bem-sucedida renovação da canção espanhola, levada a cabo por uma mão cheia de compositores-letristas-intérpretes que se faziam acompanhar quase sempre dos acordes duma simples guitarra.

A primeira a chegar terá sido a Mari Trini, depois o Patxi Andion e um pouco mais tarde o Paco Ibáñez. Creio, também, que a vez do Joan Manuel Serrat terá surgido por volta do festival da Eurovisão de 1968, quando as polémicas em torno do Lá, lá, lá castelhano o impediram de cantar o Lá, lá, lá em catalão. A RTVE afastou-o compulsivamente dos écrans e a voz d'el noi del Poble-sec ou simplesmente Nano foi igualmente silenciada pela Rádio Nacional, boicote que durou até ao final do regime franquista.

A memória duma vinda nessas datas de Serrat a Lisboa ecoa-me nos ouvidos. Cheguei a ser convidado para assistir ao evento que terá sido filmado nos estúdios da RTP. O interesse que então nutria pelo jovem arauto da Nova Cançó catalã levou-me a adquirir o ensaio que Manuel Vásquez Montalbán lhe dedicou, o Joan Manuel Serrat (1972), que adquiri na Compasso de Campo de Ourique. Ainda conservo o exemplar com uma mão cheia de recortes jornalísticos da época e muitos versos no seu interior.

O meu interesse pela arte do poeta-cantor-compositor de Barcelona deve-se por certo ao lançamento entre nós do Mediterráneo (1971), que ouvira à exaustão aquando duma estadia de verão em Badajoz. Destacar uma das dez canções do disco resulta numa tarefa difícil de executar ou demasiado injusto para todas as restantes que a acompanham. Arrisco todavia apontar Aquellas pequeñas cosas, por ser a mais breve de todas, ou, em alternativa, o Barquito de papel, a que já aludi por aqui numa outra ocasião.

Uma das figuras cimeiras da canção hispânica despede-se dos palcos ao fim de 57 anos de carreira bem vivida e com El vicio de cantar 1965-2022. Não o vou ver a Barcelona em dezembro, tal como não o vi em Lisboa quando ainda era um quase desconhecido nestas paragens. Espero que o último concerto seja televisionado e retransmitido depois para todo o mundo ou disponibilizado em-linha na Net. Prémio de consolação para quem não o pode ver ao vivo no Palau Sant Jordi da Ciutat Comtal como gostaria.

21 de novembro de 2022

O meu nome é Gal

               GAL  COSTA  -  ÍNDIA  1973               

Índia, teus cabelos nos ombros caídos | Negros como as noites, que não têm luar. | Teus lábios de rosa, para mim, sorrindo | E a doce meiguice desse teu olhar. || Índia, da pele morena | Tua boca pequena, eu quero beijar. | Índia, sangue Tupi, tens o cheiro da flor | Vem, que eu quero te dar todo meu grande amor. || Quando eu for embora, para bem distante | E chegar a hora de dizer-te adeus. | Fica nos meus braços só mais um instante | Deixa os meus lábios se unirem aos teus. || Índia, levarei saudade | Da felicidade que você me deu. | Índia, a tua imagem sempre comigo vai | Dentro do meu coração, todo meu Paraguai.
José Asunción Flores, Manuel O. Guerrero, José Fortuna

Há vozes que quando as ouvimos uma e outra vez temos a sensação secreta de as conhecer desde sempre, escapando-nos a mais remota hipótese de identificar o momento exato em que o primeiro encontro se deu. Terei ouvido a voz bem timbrada de Gal Costa ainda na década de 60. Talvez na reta final, tal como terei ouvido outras vozes estreantes tropicalistas do MPB que por aqui iam surgindo a pouco e pouco, numa fuga constante aos cortes das censuras então vigentes nas duas margens atlânticas da lusofonia.

Ouvi muitas e variadas vezes a voz singular de Gal Costa na década de 60, ouvi-a muitas mais na de 70 e seguintes, estou a ouvi-la agora neste momento  entrados no primeiro quartel do terceiro milénio, poucos dias após se ter calado para sempre em termos físicos e de ter partido seguramente para outras esferas mais elevadas. Felizmente o vinil, os vídeos, a Net e os demais meios fónicos de registo da voz e imagem dos que partem por cá ficaram para os ouvirmos e vermos sempre que tivermos vontade de o fazer.

Guardo alguns álbuns da Gal Costa em casa que muito deixei de ouvir à falta dum gira-discos compatível. Valha-nos o YouTube bem mais prático de manusear e a dispensar-nos também de recorrer às obsoletas cassetes magnéticas e aos compacto discos perdidos algures por aí. Uns e outros ouvem-se em qualquer altura e lugar sem grandes dificuldades, desde que se tenha acesso a um PC preparado para tal. As novas e velhas tecnologias vão e vêm umas atrás das outras, as vozes que queremos ouvir ficam.

A arte de Gal Costa recai no dom de tornar suas e suas as letras e melodias compostas por outros. Falar de cada uma dessas criações cantadas seria uma tarefa hercúlea que não caberia nesta história. Trago aqui a memória distante aquela Índia que ouvi uma única vez em Badajoz numa rádio local raiana, numa madrugada estrelada de verão, num 3.º esq.º dum dado n.º da Plaza del Pilar, com o arco que lhe dá nome à vista. Os agudos finais do Paraguai continuam bem vivos na minha memória acústica. Até hoje, até sempre.

30 de setembro de 2020

Juliette Gréco, je suis comme je suis...

« Je ne veux pas qu’on me touche quand je serais morte » 
Juliette Greco, Jujube (1982)

   Une histoire racontée en trois mouvements   

1èr GRAVE
Belphégor, le fantôme du Louvre
Por volta dos meus 12/13 anos de idade, passou no único canal da RTP então existente uma minissérie francesa em quatro episódios de 70 minutos cada, produzida a preto e branco pela ORTF-1. Criada, escrita e dirigida por Claude Barma em 1965, segundo uma adaptação de Jacques Armand do romance policial de Arthur Bernède de 1927, dava pelo título algo exótico de Belphégor. Pouco ou nada me lembro do enredo intricado de Le fantôme du Louvre, como foi rebatizado pela Télévision de Radio-Canada. Só retive na memória o cromatismo sombrio dos cenários das filmagens e o acinzentado predominante do guarda-fatos escolhido para vestir devidamente os intervenientes que dão corpo ao drama. De toda essa vasta panóplia de heróis/heroínas ou de contra-heróis/contra-heroínas do bas-fond parisiense, só fixei o nome duma intérprete, o de Juliette Gréco, intimamente associada a Belfegor, o tal fantasma que andava a assombrar o mais carismático museu da Cidade Luz.
         
2ème ANDANTE
Jujube devient Juliette Gréco
Quando eu entrei na casa dos 30 anos de idade, voltei a encontrar-me com o nome de Juliette Gréco, agora gravado a negrito na capa dum livro a encimar uma Jujube inscrita a vermelho, a autobiografia redigida numa terceira pessoa e publicada nas Éditions Stock em 1982. Recorreu ao seu petit nom d'enfance, que a acompanha ao longo das cerca de três centenas de páginas para se recontar à perfeição de fio a pavio e fez-se fotografar com olhar fixo no infinito com a torre romântica da igreja abacial de Sainte-Croix et Saint-Vincent em pano de fundo. O percurso fulgurante de la muse de l'existentialisme, la fleur vénéneuse de Saint-Germain-des-Prés, la liane noir de nos nuits blanches, é esmiuçado ao sabor da pena os êxitos e fracassos da sua vida de artista, das suas tournées através do mundo, das suas aparições no cinema, no teatro, na rádio, na televisão, na música, na sua existência boémia da rive gauche do seu protagonismo no Flore e Deux Magots, no Rose Rouge e no Tabou, no Bobino e no Montana. Cafés, caves, clubes, n'importe où.

3ème➖ VIVACE
L'icône de la chanson française
Já não me recordo que idade teria quando descobri pela primeira vez a voz grave de Juliette Gréco. Sou incapaz de dizer qual terá sido a primeira canção que a ouvi interpretar. Tenho dificuldade de indicar a minha preferida entre todas aquelas a que deu vida. Ma belle-mère française disait qu’elle était très vulgaire. Moi, par contre, je dis qu’elle est sublime. Le dernier icône de la chanson française n’entendrait ni l’un ni l’autre et dirait tout simplement, avec les mots de Jacques Prévert et la musique de Joseph Kosma : « Je suis comme je suis, je plais à qui je plais, je suis faite comme ça, qu'est-ce que ça peut vous faire ? »Gréco surnommée Jujube est partie vers d’autres endroits à la rencontre des poètes et des musiciens qu’elle a chanté et lui ont donné rendez-vous au Parnasse des immor-telsElle a quitté ce monde il y a une semaine à peine, mais elle y restera dans nos cœurs à plus jamais. En fait, comme elle écrivait au bout de son bouquin : « Un piano joue quelque part. Encore. »