Mostrar mensagens com a etiqueta Júlio Dinis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Júlio Dinis. Mostrar todas as mensagens

1 de outubro de 2021

Ritorno al gruppo corale

Master of the Countess of Warwick
Four Children Making Music (c. 1565)
Procedia-se com toda a atividade aos preparativos do casamento contratado. José das Dornas não cabia em si de contente. A formatura de um dos seus fi-lhos, e a perspetiva do vantajoso casamento do outro eram para isso motivos de sobejo. Acrescentem agora que o ano tinha sido fértil, que o enxoframento das suas vinhas prometia excelentes resultados, e poderão julgar se tinha ou não ra-zão o robusto lavrador para andar satisfeito e para cantar, a miúdo, a sua cantiga favorita: Papagaio, pena verde, Não venhas ao meu jardim; Todas as penas aca-bam, Só as minhas não têm fim.

Benvenuto – Armonia – Veniate – Andiamo...

Regressei esta semana a um ensaio presencial do grupo coral a que pertenço e fui intempestivamente forçado a deixar por causas alheias ao meu desejo. Senti-me de novo em casa como se dela nunca tivesse saídoImponderáveis que o tempo se encarregou de resolverAo longo destes 20 meses de ausência involuntária, fui-me lembrando de todos os momentos em que ocupei o meu lugar no naipe, segundo a minha tessitura natural de voz e juntá-la às demais ali reunidas, fazendo-as ouvir harmoniosamente como uma só.

A minha primeira experiência canora foi precoce e efémera. Teria eu os meus 7/8 anos e andava na 2.ª classe. Frequentava a Escola do Bairro da Ponte e o grupo coral infantil funcionava na da Polícia de Trânsito, na outra ponta da cidade. Após a audição, foi-me atribuída a voz de tenorino. Lembro-me de termos ensaiado o Papagaio, pena verde. E é tudo. Ao fim dum mês, tudo terminou abruptamente. Ao que parece, a animação dos coralistas seria excessiva para o gosto do maestro e não chegámos a atuar nenhuma vez.

Entre a instrução primária e os dias de hoje passaram muitos anos. Nem merece a pena contá-los. Aprendi alguns rudimentos de teoria musical no ciclo preparatório, mudou-me a voz no secundário, mas só voltei a integrar um grupo coral no universitário já como docente e a meio caminho entre os naipes de tenor e baixo. Mantive-me ali uma única temporada. Depois, voos mais altos levaram-me a optar por outras paragens mais promissoras. A aposentação então em curso ajudou-me também na decisão. Não me arrependi.

No Grupo Coral Ossónoba mantive-me no naipe dos tenores. Os cuidados anticovid ainda nos obrigam a ensaiar fora do nosso ambiente naturalA fase do zoom já lá vai, as viseiras já foram dispensadas, mas as máscaras continuam a ser obrigatórias até ao presente momentoNada que nos impeça de cantar afinados e preparar afincadamente novos concertos. Venham eles rápidos e ligeiros, que o desejo de pisar um palco é deveras forte e imperativo. Godiam, fugace e rapido il gaudio del canto corale!...

         allegro mà cantabile - spartito autografo di vivaldi          

28 de junho de 2017

Crónicas da aldeia e cenas da vida do Porto de Júlio Dinis

INCIPITS
José das Dornas era um lavrador abastado, sadio, e de uma tão feliz disposição de génio, que tudo levava a rir; mas desse rir natural, sincero, e despreocupado que lhe fazia bem, e não do rir dos Demócritos de todos os tempos — rir cético, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.
As pupilas do senhor reitor (1866 e 1867)
Entre os súbditos da rainha Vitória, residentes no Porto, ao começar a segunda metade do século dezanove, nenhum havia mais benquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleumáticos e genuinamente ingleses, do que Mr. Richard Whitestone.
Uma família inglesa (1867 e 1868)
Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuíno dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
A morgadinha dos canaviais (1868)
A tradição popular em Portugal, nos assuntos de história pátria, não se remonta além do período da dominação árabe nas Espanhas. [...] Esta mesma noção histórica do povo é a que dá lugar à outro frequente facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palácio, um solar de família, distinto dos edifícios comuns por uma qualquer particularidade arquitetónica mais saliente, ouvireis no sítio designá-lo por nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda aí memória da sua fundação, a crónica lhe assinalará infalivelmente, como data, a lendária e misteriosa época dos Mouros.
Os fidalgos da casa mourisca (1871)
Diz-me uma memória antiga ter sido por volta dos meus dez anos de existência pacata numa pequena cidade estremenha que li pela primeira vez, de fio a pavio, uma obra completa de ficção. Terei sido influenciado pelo visionamento duma versão cinematográfica homónima, transmitida pela RTP, muito provavelmente na rubrica 7.ª Arte, que ia para o ar todas as noites de terça-feira, apresentada pelo cineasta Fernando Garcia. A história contada a preto-e-branco pelas imagens em movimento do celuloide foi confrontada com o cor-de-rosa da história desenhada com letras de molde nas páginas do romance. Depois de me ter deliciado a ouvir cantar as canções do filme realizado por Leitão de Barros em 1935, passei a interpretá-las também eu na presença dos versos inseridos por Júlio Dinis n'As pupilas do senhor reitor, divulgados em folhetim no Jornal do Porto em 1866 e lançados em livro em 1867. Ainda hoje os sei trautear sem grande esforço de execução lírica das coplas, xácaras, quadras e cantigas, musicadas todas elas ao gosto popular.

A lembrança longínqua que guardo desse encontro permanece muito viva nos faits divers de recorte literário ocorridos num tempo declaradamente pretérito, os tais que têm pautado de modo persistente a minha incursão de décadas pelos universos criativos que lhe dão forma. Voltei ao seu convívio no momento em que se celebram os 150 anos da sua publicação, com toda a discrição envergonhada a que o nosso meio cultural nos habituou. Aproveitei a boleia e pus-me a reler o painel completo pintado à pena por Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871), o médico que enquanto escritor ficou conhecido pelo pseudónimo de Júlio Dinis. Retirei os quatro volumes da estante e entrei na sua intimidade com o mesmo empenho com que o fizera nos meus tempos de menino e moço. Edições antigas que nunca quis substituir, dadas à estampa pela Livraria Civilização do Porto, pela fabulosa quantia de 15$00 em formato cartonado. Encontrei-as com a natural patine que a sua vetusta idade lhes foi impiedosamente outorgando.

Parece-me desnecessário trazer para aqui os argumentos de cada um dos títulos que compõem o corpus romanesco visitado. O melhor é mesmo arregaçar as mangas, pôr as mãos à obra e ler os originais em modo impresso ou digitalizado. Dizem os entendidos da matéria tratar-se de textos que fizeram a passagem das estéticas românticas para as realistas, incorporando-os na categoria genérica dos romances de consciência e de caráter, decalcadas no modelo oitocentista no recorte inglês de George Eliot, Thakeray, Dickens e Jane Austen ou no francês de Balzac. Assim será, mas pouco importa para o caso. A entidade criadora limitou-se a integrá-los em duas categorias registadas no campo dos subtítulos: a «Crónica da Aldeia» (Pupilas, Morgadinha e Fidalgos) e «Cenas da vida do Porto» (Família). Nada mais. Um naturalismo rústico e urbano a contar episódios povoados por heróis-heroínas coetâneos da época em que foram idealizados e tanto agradaram ao público a que se destinavam. Paradigmáticos na sua função lúdica e pedagógica de exemplaridade formativa.

Os excessos da novela passional de Camilo Castelo Branco são ignorados pela estrutura sentimental preconizada pelo jovem romancista, que o substitui na preferência dos leitores da geração que o viu nascer e morrer. Apresenta-nos um universo de seres que desprezam a maldade do mundo e se convertem ao lado positivo da vida. Os protagonistas casam-se sempre no final do livro, sem terem de passar pelo crivo apertado dos triângulos amorosos e paixões cruzadas, pelos efeitos devastadores da tísica e a companhia indesejada de corujas e ciprestes, pelo ambiente lúgubre dos cemitérios visitados à meia-noite e pelos esqueletos abraçados até à eternidade num túmulo conjugal do além. Os lances macabros são substituídos por um ambiente de conto infantil sem fadas madrinhas ou almas do outro mundo. Há nas Pupilas uma madrasta má que se redime antes de dar o último suspiro. Há também na Família uma gata borralhenta que é levada ao altar por um quase-príncipe, depois dum lenço perdido num baile ter facilitado o reconhecimento e o tal happy-end exigido nos relatos tradicionais de transmissão oral. Simples, eficiente e a dispensar mais palavras para explicar o êxito do modelo, numa altura em que a Questão Coimbrã do Bom Senso e Bom Gosto (1865) daria lugar às Conferências Democráticas do Casino Lisbonense (1871). O caminho para as sucessivas Modernidades dos séculos XIX e XX estava definitivamente aberto.

16 de maio de 2017

Crónica de aldeia contada e pintada...

José Malhoa, Clara (1903)

[Museu do Chiado - Lisboa]

Ó rio das águas claras... 

Ia Pedro nos vinte e sete anos já – era então um rapaz vigoroso e sadio, de belas cores e músculos invejáveis. Andava certa manhã ocupado a cortar milho em um campo, propriedade da casa, o qual ficava situado na margem do pequeno rio, que atravessava a aldeia em continuados meandros.

Próximo havia uma ponte de pedra de dois arcos, construção já antiga, mas bem conservada ainda; o rio era nesse lugar pouco fundo, e deixava à flor da água as maiores das pedras espalhadas pelo seu leito, permitindo assim a passagem, a pé enxuto, de uma para outra margem.

De joelhos sobre essas poldras, como por lhe chamam, desde o arco até alguma extensão no sentido contrário ao da corrente, um bando de lavadeiras molhava, batia, ensaboava, esfregava e torcia a roupa, ao som de alegres can-tigas, interrompidas às vezes por estrepitosas gargalhadas; outras estendiam--na pelos coradouros vizinhos, e, algumas, mais madrugadoras, principiavam a dobrar a que o sol da manhã havia já secado.

Pedro, do campo onde trabalhava, via estas raparigas, conhecidas quase todas, mas sem que o vê-las o distraísse da tarefa em que andava empenhado.

À medida, porém, que, prosseguindo na ceifa, se aproximava mais da beira do campo, imediato ao rio, como o adiantado do trabalho lhe concedia mais vagares, pôs-se a reparar com atenção para uma das lavadeiras e a achar certo prazer na contemplação.

Era uma rapariga de cintura estreita, mãos pequenas, formas arredondadas, vivacidade de lavandisca, digna efetivamente das atenções de Pedro e até de qualquer outro mais exigente do que ele.

As mangas da camisa alvíssima, arregaçadas, deixavam ver uns braços bem modelados, nos quais se fixavam os olhos com insistência significativa. Um largo chapéu de pano abrigava-a do ardor do sol e fazia-lhe realçar o rosto oval regular de maneira muito vantajosa.

De quando em quando, levantava ela a cabeça e sacudia, com um movimento cheio de graça, a trança mais indomável, que, desprendendo-se-lhe do lenço escarlate que a retinha, parecia vir afagar-lhe as faces animadas, beijar-lhe o canto dos lábios, efetivamente de tentar.

Em um destes movimentos frequentes, reconheceu que era observada, se é que certo instinto, peculiar das mulheres bonitas, lho não fizera já adivinhar. Sabendo-se observada, conjeturou que era admirada também – conjetura que por mulher alguma é feita com indiferença e muito menos por Clara – era o nome da rapariga – porque diga-se o que é verdade, tinha um tanto ou quanto de vaidosa.

Lisonjeada, pois, com a descoberta, sentiu Clara desejos de se fazer apreciar mais do que pelos olhos, de cujo conceito ela não já podia duvidar.

Elevou para isso a voz, e em uma toada conhecida, em uma dessas eternas e popularíssimas músicas da nossa província, das que mais espontaneamente entoam as lavadeiras nos ribeiros e as barqueiras aos remos, cantou a seguinte quadra:

                    Ó rio das águas claras,
                    Que vais correndo prò mar

Na pausa que, segundo as exigências da música, se faz ao fim de dois versos, Clara torceu a roupa que estava lavando, e lançou com disfarce, os olhos para o lugar, onde Pedro a escutava; e depois concluiu:

                     Os tormentos que eu padeço,
                     Ai, não os vás declarar…

Júlio Dinis, As pupilas do senhor reitor (1866-1867)

2 de maio de 2017

Lunchs, brunchs & petits-déjeuners

AMANHADORA DE PEIXE

Painel de azulejos do século xviii

[Museu da Cidade - Palácio Pimenta - Câmara Municipal de Lisboa]

CONVERSAS À MESA...

A releitura em anos de centenário e meio da obra completa de Júlio Dinis (1839-1871) fez-me reencontrar com um universo de referên-cias quotidianas mortas e enterradas, que só a literatura seria capaz de voltar a dar vida, de trazer até nós o final do século xix ao início do xxi, como se de facto fossem contemporâneos.

A cada passo dessas crónicas ingénuas de recorte pós-romântico ou pré-realista, deparamo-nos com as refeições que pupilas e mor-gadinha, mouriscos e ingleses, vão tomando ao longo das suas his-tórias noveladas ou romanceadas. Conhecemo-las a todas pelos nomes e estranhamos sempre as horas em que o fazem.

Almoçam ao amanhecer, jantam ao meio-dia, merendam à tardinha e ceiam ao anoitecer. Ignoram o petit-dejeuner matinal e o lunch ves-pertino. Preferem o vernáculo genuíno a galicismos e anglicismos importados, como substituir os dois almoços, o pequeno e o grande, por um único repasto, o mui sonoro e britânico brunch.

Os heróis oitocentistas mantêm-se fiéis às suas origens. Por isso fi-caram gravados na memória das gentes. Os leitores abrem-lhes os braços a cada nova visita. Veem-nos saltar das páginas dos livros e oferecem-lhes um lugar à mesa. O banquete começa e o serão con-verte-se numa alegre cavaqueira de velhos e bons amigos.