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21 de março de 2026

Só assim será poema...

Mulher com Tábuas de Cera e Estilete
[Fresco das ruínas romanas de Pompeia c. 55-59 EC]
  

ARTE POÉTICA

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino. 

Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
 
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.

Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão

Hélia Correia (c. 1971) 

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Musicado por José Jorge Letria

22 de maio de 2024

Seis autores, seis obras, seis aberturas

SEIS NOMES POR ORDEM ALFABÉTICA
Hélia Correia - João Aguiar - José Saramago - Lídia Jorge - Maria Velho da Costa - Mário de Carvalho

A assinalar o Dia do Autor Português

1. Hélia Correia, Montedemo (1983)

Mais tarde alguns lembraram que tudo começou naquele domingo seco em que a terra tremeu. Coisa sem importância, num instante seco sentida noutro instante acalmada, nem mesmo Irene a tonta pensou que lhe servisse de mote em pregaçãoUm tremor ligeirinho no afrouxar da noite, hora de moribundos e de bêbedos, todos pensando que se balouçavam em líquidos maternos, quentes e protetores. Os outros, muito poucos, que estavam acordados: mulheres suspensas do tossir das crias, velhos apunhalados por insónias, tinham ficado em dúvida se fora realmente o chão que se ondeara numa sacudidela ou se tontura provocada por um sangue de repente engrossado ao de cima dos olhos. O padre chegou mesmo a confessar que achara muito estranho terem tocado os sinos apenas com aquele abanãozico. Mas a manhã nasceu radiosa e gelada, e o próprio mar parecia tão sem peso, tão dançarino e limpo de pecado que o assunto passou ao esquecimento.

2. João Aguiar, Navegador solitário (1996)

Eu hoje faço quinze anos mas era melhor que não os fizesse. Tive um dia lixado e pra começar o meu velho obrigou-me a trabalhar no restaurante a servir os almoços e eu nunca gosto de lá trabalhar mas no dia dos anos é pior que nos outros dias e depois a velha não me deixou sair à noite com o Angelino e a outra malta porque apareceram visitas e no fim de tudo ainda tive de começar a escrever esta merda de diário ou lá como lhe chamam e eu não gosto nada de escrever não me importo de ler porque há a Bola e há os livros de caubóis mas escrever isso é mesmo contra vontade porque é uma chatice e a gente ainda tem de pôr vírgulas mas eu vírgulas não vou nessa não ponho que se lixe.

3. José Saramago, Memorial do convento (1982)

D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total. depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.

4. Lídia Jorge, O dia dos prodígios (1980)

Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que creem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.

5. Maria Velho da Costa, Casas pardas (1977) 

Que lindo dia, que lindo dia, margaridinhas de olho de oiro palmeirando mínimas os canteiros na berma da rua, tráfego, gentes, tudo vestido de roupa lavada, do bruto azul das nove, pressa limpa, pressa boa, deixai-me em paz e ao meu passo manso, cabeça azoada de vozes de toda a noite fechada a ver se aprendo, leixai toda a esperança de onde vos tendes lavado e para onde ides, fugidos, correntes e determinados, ganhá-lo, ganhá-lo, ‒ ganho, se o houver para mim, será aqui nesta clareza do não cegado de saltos de retina entre as noites cerradas, || Era já noite cerrada dizia o filho p’ra mãe debaixo daquela arcada passava-se a noite bem, Canta o resto, canta Lala, Agora, Zizinha, deixe-me as fitas do avental, credo, que seca, olhe a sua mãezinha que vem lá, O pai deixa, || E esta ovação clara do dia passar passando, passo leve e ar já quente, rudo tão recorte contra azul, o peito aliviado, a vista ardente a ver exatíssimo contorno de tudo, prédios, este rosa de tinta esgarçada com varandas, verde aquele pintado agora, e os elétricos que são a cor da cidade que agride, amarela a tinir a esta minha hora visionária do visível, carregadora ambulante do sétimo sentido que é o ouvido-dizer, Há num carro de bois que atravessa a cidade com hortaliça todas as madrugadas, há, disse o Amigo.

6. Mário de Carvalho, «Ignotus Deus» IN A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho (1983)

Na semana de Pentecostes, faleceu quase toda a irmandade, de uma morte serena, mui natural. Os mais dos frades deixaram a vida com um sorriso suave, o corpo tranquilo expelindo fragrâncias olorosas. Aos dois sobreviventes, Frei Abel e Frei Domingos, nem roçou suspeita de epidemia, perante uma morte assim tão simples, tão sem sofrer. Fora servido o Senhor chamar a si os seus servos, e com brandura o fez, concedendo-lhes um trespasse em santidade, sem convulsões e sofrimentos das carnes e das almas, que cilícios e penitências e disciplinas haviam já macerado avonde.

22 de setembro de 2021

Hélia Correia, uma bastardia azul com sereias, bruxas e desejos de ver o mar

 
«Moisés sentia a estranha comoção que transtornava os tios. Na cozinha, as mu-lheres retomavam o silêncio com que, a princípio, o tinham recebido. E as con-versas na cavalariça, sendo os dias tão curtos, resultavam mais apressadas. Pou-co conseguia que os fregueses falassem sobre o mar. No entanto, ele se acos-tumara a servir-se dos próprios pensamentos. Imaginava o dia do encontro com aquele grande azul que se estendia, semelhante a um prado que florisse. A ob-sessão tomara conta dele como alguém que o tivesse sequestrado. Tudo o que via e ouvia era filtrado, enquadrado na sua perspetiva. Confiava em que os tios o levariam, tarde ou cedo, à Vieira. Não pensava que, com aquela espécie de tra-balho, não desfrutavam dos prazeres do verão, quando abundavam os pedidos de cavalos e de carros abertos.»
Hélia Correia, Bastardia (2005)

Habituei-me às palavras de Hélia Correia na Arte poética (1972), expressa nos versos de intervenção, resistência e luta, cantados e musicados por Jorge Letria, e passados depois de mão em mão como um instante de pão. Seguiram-se os relatos breves das novelas a resvalar para a dimensão mais longa de um ou outro romance. Com este percurso pela escrita, foi laureada com os mais altos prémios literários nacionais, com um destaque para o Prémio Camões (2015), bem como o de ter sido listada pela Asociación de Escritoras e Escritores em Lingua Galega como uma Escritora Galega Universal (2017).

As cerca de seis dezenas de páginas de Bastardia (2015), o mais recente livro que chegou até mim da sua lavra, remete-nos para a órbita restrita do conto, uma categoria ficcionada composta em prosa e de natureza épico-narrativa, forma genérica assente num tema particular e episódico em que também se tem vindo a destacar. A história que aqui nos traz está concentrado no destino trágico de Moisés - etimologicamente, o que foi tirado das águas -, um herói mítico nascido fora do matrimónio materno, gerado numa noite de bruxedo e que passou a sua curta existência convicto de ser filho do mar e irmão das sereias.

Uma navegação solitária pela rede das redes informáticas, em busca da duvidosa legitimidade de algumas cabeças coroadas ou por coroar da nossa da monarquia pretérita, conduziu-me de modo casual a essa outra ligação bastarda com raízes bíblicas profundas judaico-cristãs, composta com o engenho e arte habituais a que a escritora e tradutora portuguesa nos habituou. Descobri também, na sequência dessa pesquisa, ter inspirado a veia criadora de Paula Rego em quatro telas inéditas, cuja sensibilidade estética a levou a adjetivar o texto de maravilhoso. Assim o descreveu a Colin Wiggins, aquando da exposição The Boy Who Loved the Sea and Other Stories, organizada pela Jerwood Gallery de Hastings, entre 21 de outubro de 2017 e 7 de janeiro de 2018. Melhor elogio seria difícil de coligir e dispensa mais encómios verbais se os visuais valem mais do que mil palavras.

As mulheres-pássaros da mitologia helénica são transfiguradas nas mulheres-peixes do imaginário medieval escandinavo que sem se dar conta se lhe seguiu. Essas irmãs híbridas do azul marinho das águas superficiais mediterrânico-bálticas ou do azul celestial profundo dos sonhos irrealizáveis, semicobertas de escamas brilhantes ou de penas douradas, simbolizam a autodestruição dos desejos e paixões fatais de todos os aventureiros pelágicos, aqueles que não souberam resistir como Ulisses à atração erótica de Afrodite e se deixaram submergir no reino gelado de Poseidon. Na singela ingenuidade retratada na fábula, está representada a fronteira indeterminada entre a epopeia/tragédia dum herói/anti-herói singular, dum ser solitário intemporal em busca da plenitude unificadora do nada que é tudo ou da morte que é vida.

9 de maio de 2020

Olhares da Europa no dia da Europa

EUROPA SUL TORO
Assteas (c. 370-360 AEC)
[Museo del Sannio (Montesarchio / Benevento)]

Porque, afinal, o que é a Europa?
Miriam falou: «Isto é o que Nuru, o cego, viu. Estamos dentro dos olhos de Nuru. Talvez ele nos quisesse dizer que é este o sítio.» As palavras não queriam dizer isso, ninguém punha a hipótese de ficar. Quando a fruta acabasse, o pesadelo do bosque iria acontecer de novo.
Disse Awa: «Talvez ele nos enganasse. O guarda da cidade proibida. Talvez a Europa seja um bom destino, como sempre julgámos que seria.»
«Talvez a Europa nem sequer lá esteja», disse Walid. «Porque, afinal, o que é a Europa?»
Então alguns contaram como primos, irmãos e tios viviam em cidades onde fazia sempre muita sombra e as ruas serviam apenas para passar, passar depressa, não por medo, mas porque estava neles ativado o estranho mecanismo da corrida. «Correm na paz como se fosse a guerra. Mas não é.»
«É por isso que não nos querem lá. Paramos muito. Damos prejuízo. Paramos para rezar. Temos costumes.»
«Eles não têm costumes?»
«Não. Não têm. Nimar diz que perderam os costumes. O meu primo Nimar é o que diz. Ele falava comigo ao telefone. Íamos ter com ele. E avisou-nos. A questão é guardar o nosso povo dentro do povo deles. São boa gente. Mas depois querem mandar. Querem dizer o não e o sim das nossas vidas. E olham para nós com olhar franco, mas, quem reparar bem, conta Nimar, vê-lhes os pelos do pescoço arrepiados.»
«Há sempre o animal ali na nuca», corroborou Aiyanna.
À força de viverem iguais dias, iguais anseios, privações iguais, eles haviam caído na armadilha de teia identitária que rodeia e aperta às vezes mais do que a amorosa. Iam assando na fogueira grandes frutos de casca avermelhada que eram carnudos e pesados como pão. E não havia neles um movimento de furto ou de avareza. Tão-pouco se lembravam da hierarquia que punha o masculino antes de tudo. Se aceitavam alguma precedência, essa era a idade, mais nenhuma. Quando ela também fosse eliminada, tornar-se-iam totalmente europeus. Mas não sabiam.
Hélia Correia, Um bailarino na batalha (Lx: 2018, 99-100)

30 de setembro de 2019

Hélia Correia, a demanda da terra prometida dum bailarino na batalha

«Considerai, portanto, os caminhantes como seres demitidos, como seres de fraca humanidade. Olhai-lhes para os pés e não vereis senão as grossas crostas defensivas, não vereis senão inchaço e lama. Alguma vez terão dançado aqueles pés, alguma vez se deitaram em mantas de algodão, alguma vez foram, sequer, beijados?»
Hélia Correia, Um bailarino na batalha (2018)
O historial dos grandes sistemas literários fundadores diz-nos que os seus primeiros passos se deram no seio dos textos versificados, para desse modo suprir a inexistência duma escrita funcional precisa de registar a língua oral utilizada na composição do efémero e, assim, garantir uma imortalidade apetecida nem sempre merecida. Entre nós tudo começa com as cantigas trovadorescas medievais a preceder as canções palacianas renascentistas e todos os demais cantos rimados de matriz variável que se lhes seguiram. A admissão de pleno direito dos textos prosificados no universo parnasiano das letras dá-se em data relativamente tardia, quando as crónicas e cronicões primitivos se transformam paulatinamente nos contos, novelas e romances que até nós chegaram. O desvio à linguagem rotineira do dia-a-dia ganha terreno e a prosa poética da ficção surge no horizonte a ombrear com a poesia integral da lírica.

Hélia Correia reúne em si a capacidade de se expressar com idêntica mestria criativa tanto num campo genérico como no outro. É o que acontece com Um bailarino na batalha (2018), o seu mais recente relato de dimensão épica com ressonância trágica. Fá-lo em estrofes de verso único e várias linhas de texto corrido com um epílogo rimado ou em parágrafos dialogados/monologados de dimensão variada. Centra-o na temática intemporal que tem movido o ser humano ao longo do seu devir existencial, na qualidade de homo viator em busca dum paraíso perdido ou por achar. Uma qualquer terra prometida pródiga em leite e mel ou dum almejado eldorado cheio de delícias e riquezas. Esse país de utopias possíveis até pode dar pelo nome de Europa, se o herói coletivo que o pretende alcançar for oriundo – como é o caso dum país em guerra situado no outro lado do mar, dum espaço de gentes sem pátria, dum mundo sem rei nem roque e com todo um deserto por atravessar.

Cenas pungentes destes nossos tempos que os jornais televisivos banalizaram nas suas transmissões diárias em horário nobre. O cheio de luz, a sempre bela, o primeiro raio da manhã, o de pouca estatura, o que se transformou, o afugentador de serpentes, os sem-família, os eunucos desistentes da virilidade sem semente para dar, as mulheres veladas e não-veladas com o manto da decência, os caminhantes anónimos ou com direito a nome e epíteto, novos e velhos, dançam a dança da supervivência nómada sem saber dançar, pesados como pedras, caminham em direção ao grande lago de água salgada que nunca chegam a vislumbrar. Naufragam na margem meridional duma terra de areias cinzentas sem lugar para a esperança e duma memória condenada ao esquecimento. Peregrinos errantes sem destino certo a fingir que têm uma história para contar e um público interessado em ouvi-la.

A sonoridade dramática da Odisseia homérica e do Êxodo bíblico ecoa nas páginas reais desta peregrinação atual protagonizada por pessoas concretas como todos nós. Só que no final desejado da viagem rumo à paz universal entre os homens não haverá nenhum lugar santo ou de veneração a esperá-los, nenhuma terra rica e generosa a recebê-los, nenhum jardim de deleites mil a premiá-los pelo esforço despendido. Os cavalos do Mediterrâneo, nem bravios nem secretos, passam pela vida rumo à linha de abate. Indiferentes. Dançam na guerra da sobrevivência com a mesma delicadeza e elevação de Nijinsky. Não sabem o que é a morte nem a temem. Caem na poeira da lide sem produzir um só grito. Silenciosos. Como bailarinos na batalha. E delicadamente a história acaba.

13 de agosto de 2019

Lillias Fraser & Blimunda Sete-Luas

BLIMUNDA SETE-LUAS
José Santa-Bárbara
[Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa]
‒ Vejo dentro do corpo das pessoas quando estou em jejum ‒ explicou Blimunda.
‒ Eu vejo a morte ‒ disse Lillias.

Encontro em Lisboa 

A mulher riu. Tinha um tão claro riso que Lillias julgou, por um mo-mento, achar-se rodeada de crianças. No entanto, apesar do seu ca-belo, ainda muito escuro, e do seu rosto, liso e moreno, onde brilhava a leve sugestão de emulsões orientais, vinha dela uma excelente ve-lhice. Atravessara o tempo e convencera-o a separar-se dela para sempre. Olhava para Lillias com firmeza, como quem dá o último retoque numa obra que honrou a expectativa.
O quarto era pequeno e abafado, de tetos muito baixos, em abóbada. A luz esvoaçava entre as paredes, desenhando arabescos com asas. Alguém tirara a sua roupa e lhe vestira uma camisa esfiapada das lavagens.
A mulher disse:
‒ Comes e descansas, porque essa fuga não acaba aqui. E le-vantou-se. Usava trapos grossos e sobrepostos. Isso não lhe dava o ar de uma mendiga. Olhava o lume. Lillias viu o sinal manchar-lhe a face direita, a do poder.
‒ Como te chamas?
‒ Lillias Fraser, madam.
A mulher acercou-se novamente. A sua voz cantada enchia o ar como se ressoasse na igreja. «Perdeste muito sangue. Amanhã vejo se a criança está viva na barriga.»
Lillias extinguia dentro de si mesma a vigilância de que precisara para fazer o caminho até ali. E aquela fraqueza que a tomava, em vez de a assustar, trazia o embalo da sua infância ao colo de Margareth.
 Que nome tem vossemecê?
‒ Blimunda ‒ disse a mulher. ‒ Blimunda Sete-Luas.
‒ É um bonito nome ‒ disse Lillias.
Quis pegar-lhe na mão, porém Blimunda já não estava a seu lado. O próprio fogo se tornava invisível, devagar.
Hélia Correia, Lillias Fraser (Lx. 2001; 2003: 251-252)

1 de novembro de 2018

E o grande terramoto começou...

Os pecados dos homens & a terra em fúria

Lillias tirou uma das peras do avental e preparou-se para voltar para trás. Dera somente uns passos quando foi atirada para o chão, e o grande terramoto começou.

A terra estava em fúria, qual um touro varado por petardos numa are-na. Muitos iriam realmente interpretar aquelas convulsões como re-volta moral da natureza, ante os pecados que os humanos andavam cometendo. Muitos acharam que o bom Deus do Papa castigava Lisboa pela sua submissão aos heréticos ingleses. Equivalente enle-vo punitivo ocupava os jornais dos protestantes. Tinham sido poupa-dos quase todos, contando entre eles menos de cem vítimas, porque em boa verdade aquele desastre se dirigia apenas aos papistas, como um solene aviso do Senhor.

Lillias julgou-se em cima de um ser vivo, porque parecia haver um sentimento na forma como o chão se debatia. Aquilo que dentro dele se revolvia levava-o a rugir, ferido de morte. Escancarou uma enorme goela na encosta onde Lillias havia de encontrar-se, se tivesse avançado um minuto antes. A lama negra fumegava, como o bolo de alguma monstruosa digestão. O enxofre vinha diretamente arremessado do inferno.

Lillias pensou nas peras e no pão que lhe tinham caído do avental. Não conseguia pensar em mais nada. O estômago ocupava o centro do seu mundo. Tocou na trouxa que trazia na cintura, mas logo se esqueceu de Santa Brígida. Também a alma estava concentrada na preocupação com a comida.

Com o segundo abalo, desistiu. Sentou-se a espera de que o chão, por baixo dela, se abrisse, e a mão dos mortos se estendesse e a puxasse para a sua companhia. A sua educação religiosa fora apenas formal, feita de ritos e certo despotismo de palavras. Não esperaria ver no fim do mundo o supremo Juiz cobrindo os céus.

Dava por si sozinha e desvalida, uma pequena criatura mais, no meio das ervas e dos roedores. Ouvia os gritos da cidade ao longe. Corriam pelo ar, em vez dos pássaros que tinham procurado o vale de Alcântara e não mais se mexeram todo o dia. Lillias pensou que os vermes sairiam dos túneis subterrâneos. Pôs-se de pé, para que eles a não tomassem por um cadáver. Viu no horizonte, acima de Lisboa, uma poeira imóvel, como um escudo. Mas, no campo deserto, o sol mantinha a sua desusada intensidade. Lillias sentia sede. E o seu medo transformava-se em ânsia de animal, numa necessidade de achar água.
Hélia Correia, Lillias Fraser (Lx. 2001; 2003: 85-86)

26 de setembro de 2018

Hélia Correia e as premonições de morte de Lillias Fraser

«Lillias salvou-se da carnificina porque, seis horas antes da batalha, viu o pai morto, como realmente ele haveria de morrer mais tarde.»
Hélia Correia, Lillias Fraser (2001)
Durante algum tempo habituei-me a ler os romances-novelas de Hélia Correia. Para ser mais preciso, li com avidez os oito primeiros títulos publicados em 15 anos, entre 1981 e 1996. Até trabalhei semestres a fio um deles em ambiente académico. Depois o ritmo de escrita abrandou um pouco e o lançamento de novas propostas narrativas só voltou a verificar-se com a mudança de século e milénio. Voltei à sua companhia há relativamente pouco tempo. Encontrei-a no seu apogeu criativo. Um percurso trilhado nos diversos sendeiros literários que até lhe valeu um Prémio Camões entre muitos outros galardões de não menor importância e prestígio. Acabei de viajar pelas páginas inspiradas do Lillias Fraser (2001). Fi-lo com um atraso de quase duas décadas e a reboque dum outro vulto maior das nossas letras. Encontrei a protagonista a confraternizar com a Leonor de Almeida Portugal, aquela que passou a ser referenciada nos registos nobiliários por Marquesa de Alorna e nas academias poéticas por Alcipe. A culpada foi a Maria Teresa Horta com As luzes de Leonor. Encontros felizes para alimentar este sistema de vasos comunicantes estabelecido pela literatura, a dar razão à velha metáfora popular das cerejas, que quando se pega numa vêm logo outras à arreata.

As sinopses habituais nos sites publicitários postos à consideração apelativa dos potenciais interessados remeteram-me de imediato para a órbita do insólito teorizada por Todorov*, omnipresente no corpus já visitado da autora. Cheguei a pensar na hesitação exigida pelo Fantástico, para logo resvalar das explicações naturais do Estranho para as sobrenaturais do Maravilhoso, ou seja, para o mundo da fantasia consentida sem sobressaltos. Se alguém detém o dom de prever o futuro, é porque estamos perante uma realidade subjetiva que só o imaginário pode objetivar através da expressão artística, neste caso concreto da palavra feita verbo. O percurso biográfico quase picaresco duma heroína inventada cruza-se com os itinerários inscritos nos anais dos factos acontecidos e a dimensão histórica entra em campo. A Batalha de Culloden (1746) e a Guerra Fantástica (1762) definem o início e o final do relato. Tudo começa na Escócia e termina em Portugal. Pelo meio abundam referências pormenorizadas ao Terramoto de Lisboa (1755) e ao Processo dos Távoras (1759-1760). Toda uma época percorrida ao sabor da pena e do olhar atento da relatora.

E os pormenores ficam reservados à leitura integral do texto. Só podia ser assim. A menina escocesa que se fez mulher em terras portuguesas tem muito que contar a quem a quiser ouvir. A ela e a todos aqueles que com ela partilharam pedaços de vida. Episódios singulares de fuga-exílio-fuga. Circularidade discursiva a saltitar das hipóteses barrocas da novela de aventuras peregrinas para as iluministas do romance de iniciação formativa. A filiação num género literário concreto foge aos cânones tradicionais registados nos manuais de uso escolar. Envereda pelo ecletismo compositivo típico das formas estéticas em que impera a liberdade de expressão poética. Aquela que viabiliza o encontro de Lillias Fraser da Hélia Correia com a Blimunda Sete-Luas do José Saramago. Uma a visualizar com antecipação os cenários de morte de quem a rodeia, outra a visualizar o interior das pessoas quando está em jejum. Mais uma vez um livro a atrair outro livro. Uma leitura a convocar outra leitura. Sugestões que saltam de obra para obra. Convites irresistíveis de revisitar os textos que merece a pena revisitar. Está bem de ver que mais cedo ou mais tarde terei de voltar ao Memorial do Convento. Há já algum tempo que não o faço. Aqui como noutros espaços preenchidos pela arte de juntar palavras com sentido, é bem verdade que les beaux esprits se rencontrent.

NOTA
(*) Tzvetan Todorov, Introduction à la littérature fantastique, Paris: Le Seuil, 1970.