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11 de janeiro de 2016

A dupla personalidade


O homicídio

Regressando do psiquiatra, o homem estendeu-se na cama, pensativo. Algumas horas depois tomou uma decisão.

Levantou-se, foi à cozinha, agarrou numa faca de cortar carne, dirigiu-se novamente ao quarto e olhou a cama. Em seguida, com determinação, foi-se aproximando.

Perto da cabeceira parou, fitando o homem negligentemente estendido no leito. Tinha um belo rosto feminino, um corpo frágil e branco, olhos levemente sombreados, as unhas finas e envernizadas, um ar lascivo e gentil, simultaneamente recatado e sensual.

Levantou a faca e, cerrando os olhos, cravou-a violentamente no peito do homem. Um jato de sangue espirrou para cima dos lençóis e inundou-lhe a face.

Lentamente, largou a faca e deixou-se cair sobre a alcatifa. Uma agradável sensação de alívio começava a invadi-lo.

Acabava de assassinar a sua dupla personalidade.

Orlando Neves, A condecoração (1984)