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27 de novembro de 2025

Histórias com pés para andar

Pés Pegadas Círculos

Nasci descalço como toda a gente e até poderei morrer calçado como ocorre com alguns. Mas, fora essas situações extremas de alfa & ómega, nunca necessitei de manter os pés ao léu pela vida fora. Em grande parte, devo-o aos meus avós maternos, os únicos que conheci. Durante toda a infância e parte pré-adolescente, a minha avó ajuntadeira e o meu avô sapateiro confecionaram-me sandálias no verão e botas no inverno.

quem tenha saudades viscerais dos tempos em que os pés descalços usados a contragosto imperavaM. Com os meus pés calçados a preceito em qualquer estação do ano, lembro-me muito bem dos meus colegas do primário com os pés pelados, calejados de pisar o chão de todos os dias, se sentavam, por desígnio inviolável de casta, na chamada fila dos burros, aquela que ficava situada na parte mais escura da sala.

À distância de muitos verões e invernos, sinto o prazer de andar por casa casa de pés ao ar, liberto dum qualquer tipo de prisão forçada. A passagem dos dias quentes para os frios faz-se mais no meu imaginário pessoal quando sou forçado a resguardar os pés do contacto do solo do que aquando da mudança de hora. Atiro-me às havaianas de enfiar nos dedos acompanhadas dumas peúgas de algodão ou de lã protetoras.

Sente-se o frio conforme a roupa, sobretudo quando se tem o livre-arbítrio de o fazer. De poder trocar a seu belo prazer uma t-shirt por uma camisa com mangas e umas bermudas por umas calças de pernas compridas, de escolher uns sapatos adequados a cada uma das épocas do ano. Fazer um pouco mais do que os meninos da minha escola podiam fazer quando as condições e fenómenos atmosféricos assim o exigissem.

19 de junho de 2025

Férias pequenas, grandes e plenas

Bonnevacance!
férias
Nome feminino plural de féria (fé.ri.a | ˈfɛrjɐ), do latim ferĭa-, «dia de festa».

Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa

A capacidade de olhar à distância levam-me a vislumbrar um tempo idílico de infância, em que as férias não eram nem pequenas nem grandes, eram plenas. Começavam quando o solstício de verão se aproximava e os dias se tornavam maiores e mais quentes. Acabavam nas vésperas do equinócio do outono, quando as vindimas estavam no seu auge e as festividades das estações frias despontavam.

Em sentido contrário, dirijo o olhar para as férias que aí vêm e que voltarão a ter a dimensão dos dias de festa dos tempos pré-escolares. Estas agora só não são plenas porque entre os primeiros dias do inverno e os finais da primavera outras tarefas se foram impondo para preencher os longos dias duma reforma, aposentação ou jubilação obtida após a travessia da etapa ativa adulta pela vida.

Nas vésperas dos dias de festa do descanso maior, interrompi as caminhadas de domingo mas mantive as sessões bissemanais de yoga, abrandei os ensaios dos grupos corais e ultimei as aulas pro bono na academia sénior. Comecei a contar os dias que me separam do sol e sombra, das leituras e escritas, da companhia mais assídua dos livros de proveito e deleite, de ensino e diversão.

arrumei as calças, camisolas e casacos; estreei as t-shirts, bermudas e havaianas; já apartei as toalhas de praia, os fatos de banho e a cadeira de lona. Os chapéus de sol, os para-ventos de prevenção e os panamás de pano já foram postos de lado. Os giros à beira-mar, à beira-ria e à beira-dunas já se avistam no horizonte. E aí vou eu em pensamento ávido de lá chegar de corpo e alma.

17 de maio de 2024

O status mata-frio do capote alentejano

capote alentejano castanho

Não, não é o capote que tive, usei e perdi nos anos 70, mas não desdenharia que fosse meu. Esta foto saquei-a na Net. Aquele que em tempos vesti novinho em folha foi-se de vez há uma eternidade. Gasto, coçado, puído.

Lembro-me com frequência daquele capote alentejano trazido por mão amiga diretamente de Elvas. Ter-me-á custado a módica quantia de 65$00, uns meros 0,32€ impensáveis nos dias que agora correm a grande velocidade.

Durante dois/três anos letivos, serviu-me de traje académico, numa altura em que a capa e batina estavam tacitamente vedadas em Lisboa. Adaptei-o consoante a necessidade do momento a cobertor, toalha e almofada.

Desisti de adotar um de novo igual ao de então. Nunca vi nenhum aqui por estas bandas meridionais. Pesados, quentes, incómodos. Os modelos das vestimentas atuais seguem outros padrões. Europeus, mundiais, globais.

O status mata-frio do capote afirma que a chuva forte molha o capote e quem anda de capote no verão ou é pobre ou ladrão, i.e, se quem tem capa sempre escapa, então com gabão escapa ou não e com capote escapa a galope.

8 de abril de 2016

Por palavras contadas ou descontadas

RAFAEL BORDALO PINHEIRO - A PARÓDIA 1901

Os protagonistas da história...

Há coisa duns tempos fui convidado a compor uma reflexão pessoal de 200 palavras a propósito da minha passagem pela escola que frequentara no ensino preparatório e secundário. Faria parte das comemorações paraoficiais dos 50 anos da sua inauguração solene. Integrar-se-ia numa publicação coletiva intitulada Eu faço parte desta história. 

Fi-lo sem reservas. Obedeci à dimensão verbal indicada e enviei o texto final dentro do prazo convencionado. Até ao momento não recebi qualquer sinal de retorno. Presumo que o testemunho tenha sido ignorado. Pouco importa. Registo-o mesmo assim nas linhas abaixo para que passe a conste, porque, de facto, Eu fiz parte daquela história.

Entrei caloiro na Escola Velha em 62 e fui logo fustigado com um par de vergastadas nas pernas. Aprendi logo ali que os calções – cuecas na gíria académica – eram um traje de escola primária e não de ciclo preparatório para a vida de adulto. Rito iniciático que me dispensou do batismo no chafariz das cinco bicas ou medir o recreio com um fósforo queimado.

Dois anos volvidos, assisti à inauguração solene da Escola Nova, matriculado no curso geral de comércio. Recordo vagamente a presença dum almirante a cortar fitas e dum cardeal a borrifar paredes. Loas terão pregado os dois. As palmas vieram depois. Obrigatórias. Em uníssono. 

Quando o ditador caiu da cadeira do poder, encontrava-me na secção preparatória para o ICL. Promessa de mudar de página projetada no horizonte. Os media da época choraram o chefe partido e as gargantas do vulgo cantaram os versos da Desfolhada portuguesa

Pouco retive dos livros do deve-e-haver de aprendizagens pretéritas. Para trás mija a burra, disse-me em vernáculo peculiar a Super-Homem. O menino tem jeito para a escrita, disse-me em registo normativo o Aristóteles-Bigodaça. Lições que me levaram a trocar as contas pelas letras. Sem hesitações saudosistas. Até hoje. Onde me encontro...

Vistas bem as coisas, os editores da brochura lá terão tido as suas razões para silenciarem um relato feito por palavras contadas já que lhes seria difícil fazê-lo por palavras descontadas. Cortaram o mal pela raiz. E deste modo me foi vedado prestar o preito devido aos meus mestres primeiros de língua e lá acabei mesmo por Sair do elenco de tal história.

4 de outubro de 2015

O triunfo da velha senhora

Quentin Matsys, Vieille femme grotesque (1513)
[National Gallery de Londres]

A velha senhora grotesca vestiu o traje de gala, arrumou o cabelo na coifa, apertou os atilhos do corpete, retocou as pregas do cen-dal, cobriu o colo e o rosto de carmim vivo, sentou-se no toucador da alcova e perguntou à imagem projetada à sua frente: «Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém  mais bela do que eu?»

O interpelado fitou-a cara a cara e respondeu: «Não vos inquieteis, se-nhora minha! No mundo até pode haver, mas aqui neste reino do Faz-de-Conta a vossa beleza peregrina conta. O Ali-babá rendeu-se ao Abre-te Sésamo dos 40 ladrões. Os choramigas já partiram no tapete-voador à procura do génio da lâmpada noutras paragens...»

E continuou por ali fora com o blá-blá-blá de banha-da-cobra usual. Não se coibiu de dizer que depois da abalada geral só tinham ficado os zombies desejosos de ficar adormecidos por mais 100 anos de tranquila inércia e apetite acrescido de sofrer, agora que os muros-da-vergonha se voltaram a erguer no velho mundo.

A velha senhora grotesca olhou para espelho mágico e disse para os seus botões: «Felizmente que os contos da carochinha mudaram de figurino e as bruxas-más do passado viraram nas fadas-boas do presente». E preparou-se para imperar sobre os submissos sem-memória compulsivos. Infalível, majestosa, triunfante.

31 de agosto de 2015

T-shirts, bermudas & havaianas

O descanso da farpela...

Os uniformes que fazem o monge... 

O tempo das t-shirts, bermudas & havaianas chegou ao fim. O mês de Augusto despediu-se com uma trovoada quase molhada de cinco minutos. Tolos os que pensaram que a chuva de gotas contadas ia apagar incêndios ou lavar os carros estacionados na rua.

O tempo dos polos, jeans & mocassins está a chegar. O sétimo mês do calendário de Roma está a bater à porta. Faz-se acompanhar da tradicional náusea existencial que só se atenuará nas vésperas do Natal. Rotinas cíclicas a exigir um traje a condizer.

17 de janeiro de 2015

Um keffiyeh árabe em Malmö

KEFFIYEH

o protagonista da história 28 anos passados


A primeira vez que visitei a Suécia fi-lo a partir da Dinamarca, numa manhã radiosa do verão de 1986. Atravessei o estreito de Öresund pelo ferry que faz a ligação entre Copenhaga e Malmö. O espaço Schengen ainda estava por criar e as formalidades nas fronteiras obedeciam a uma burocracia particularmente pesada. Senti-o assim que pus os pés na terra de Ingmar Bergman. Fui empurrado sem cerimónia para um cubículo exíguo, onde uma nativa fardada de polícia me revistou de alto a baixo, sem deixar nenhum recanto por investigar. É que nesse mesmo ano, o primeiro-ministro Olof Palme tinha sido assassinado e o meu bronzeado meridional e o keffiyeh árabe que levava ao pescoço me indiciaram como o provável autor do homicídio. Escapei com a ajuda duma amiga minha iniciada nos meandros sinuosos da diplomacia escandinava.

A minha segunda visita ao país de Alfred Nobel ocorreu numa manhã chuvosa do verão de 2000. Voltei a usar um ferry para passar da Helsingør dinamarquesa à Helsingborg sueca, as duas sentinelas do estreito que liga o tranquilo mar Báltico ao agitado mar do Norte. Nada a registar na travessia. Nada a registar na fronteira. Pelo sim pelo não, deixara o keffiyeh comprometedor em casa. Fui um desconhecido entre desconhecidos. Recordo-me dum montão de garrafas repletas de cerveja à partida da cidade do Hamlet de Shakespeare e num montão de garrafas vazias à chegada à cidade dos vikings das lendas nórdicas. O to be or not to be das duas cidades vizinhas e quase gémeas pode resumir-se, tout court, à interpretação peculiar da lei-seca. Numa é ignorada e bebe-se quando se quer, na outra é respeitada e vai-se beber à terra alheia.

Os claros-escuros do ser e do parecer estão traçados em dois flashes escandinavos, unidos por um braço de mar e três lustres de permeio. Agora que tantos andam por aí a dizer Je suis Charlie, dá vontade de arrumar de vez o slogan da moda neste início de 2015 e exercer o livre-arbítrio de contrapor Je suis ce que je suis, ou, se preferirmos, I'm not perfect, but don't try to change me. Na próxima vez que visitar o país de Carolus Linnaeus, gostaria de levar comigo um keffiyeh nos ombros e uma cerveja na mão, sem ter receio de ser o que sou e nada mais. Mostrar que as aparências iludem, que nem tudo o que luz é ouro e que o hábito não faz o monge, i.e., nem todos os morenos são árabes, nem todos os árabes são muçulmanos, nem todos os muçulmanos são terroristas e muito menos homicidas de figuras públicas ou anónimas. Det är allt!

23 de outubro de 2014

Tradição em contramão

HOMEM DO CHAPEIRÃO

Iluminura do Códice de Paris (BNF) e Painel do Políptico de Lisboa (MNAA)

A tradição quando não existe inventa-se. Aproveita-se um eco longínquo, elimina-se o ruído de fundo e amplia-se o volume do som desejado. O murmúrio, o boato e o rumor ganham peso no círculo máximo de audição e o dogma instala-se com armas e bagagens no corpo da notícia feita, refeita e contrafeita. A figura do Infante D. Henrique tem originado algumas das distorções mais bem-sucedidas do devir histórico português. Símbolos, memórias, recordações, usos e hábitos são misturados ao sabor do acaso e o mito entra em cena para contentamento de alguns e desespero de outros.

A associação académica duma das mais jovens universidades do país fixou-se na lendária Escola de Sagres e passou a vestir-se ao modo do Navegador. Um traje pré-renascentista caído em desuso há cinco séculos passou a estar na moda num meio pós-moderno com três décadas de existência. Tudo isto num abrir e fechar de olhos, sem pestanejar, fazendo tábua rasa do vazio criado entre os dois eventos evocados. O espaço e o tempo reais são simultaneamente encurtados e ampliados. Sem pudor ou problema de consciência. Tudo é possível na arte de criar patinas de conveniência.

O mesmo percurso seguiu a Confraria do Vinho do Porto. Pensada em 1945 e criada em 1964, passou a adornar-se desde 1982 como o Infante de Sagres terá feito nos tempos áureos da Casa de Avis. O facto de ter nascido na cidade foi suficiente para transformá-lo no patrono da irmandade. A partir de então, todos os chefes de estado ou representantes de casas reais, individualidades ou instituições de relevo, que tenham emprestado alguma notoriedade à causa, são entronizados como cancelários, infanções e cavaleiros. O famoso chapeirão quatrocentista outorga ao ato a dignidade exigida. 

Desfaça-se o mito, explique-se a lenda, reponha-se a história e fica-mos com uma tradição de pacotilha, a movimentar-se em sentido contrário à verdade dos factos acontecidos. Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma como alguém já disse em tempos e a mim me apetece repetir agora. A Escola de Navegadores terá funcionado na Universidade de Lisboa e a identidade do Homem do Chapeirão continua mergulhada numa polémica com mais de cem anos de vida. Anterior, para todos os efeitos, à invenção por medida dum conjunto de tradições em contramão ou em clara contrafação.