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21 de novembro de 2025

João Aguiar, Díptico dos Lusitanos II: a hora de Sertório, crónicas a três mãos dum general romano contra Roma

«Já nessa época o seu nome não me era desconhecido. Sertório tinha então vinte e um anos e uma presença física extraordinária: uma força da natureza modelada pela alma, pensei enquanto o observava discretamente. Um corpo vigoroso que transmitia uma impressão de resistência e agilidade; um rosto que parecia talhado em pedra a golpes de espada. Nesse rosto, a única expressão estava nos olhos grandes e cinzentos. Eram eles que riam, que se zangavam ou se apiedavam. Em qualquer caso, inspiravam confiança.» 
João Aguiar, A hora de Sertório (1994)

 A história do mundo é feito de invasões. As que se verificaram num tempo anterior aos registos escritos auxiliares da nossa memória só são detetadas, com alguma dificuldade, pelos vestígios que deixaram aquando da sua passagem/permanência pelos espaços que hoje em dia ocupamos. Muitos deles, totalmente estranhos ao nosso modo de os explicar com todo o rigor exigido para afastar os fantasmas do mistério. Depois, há as outras migrações efetuadas com um caráter mais claro de fixação perdurável nem sempre conseguida. No caso especial da mais ocidental península eurasiática, rezam os anais antigos e recentes ter sido visitada em datas nem sempre precisas por povos que nos habituámos a designar de Fenícios, Gregos e Cartagineses, mas também de romanos, bárbaros e mouros, entre alguns mais geralmente referidos nos manuais escolares em nota de rodapé. Dizem também que entre as diversas tribos resultantes da miscigenação de Celtas e Iberos teriam surgido os Lusitanos, eponímia épica por excelência para designar os descendentes de Luso. Não custa nada aceitar em termos simbólicos esses mitos e lendas ancestrais associados ao nosso devir coletivo, que em dada altura dos nossos Séculos de Ouro até inspiraram Camões a cantar as suas armas e barões assinalados.

Os grandes fluxos periódicos de massas, ocorridos em momentos de crise profunda, nunca se dão sem desencadearem um conjunto de rebeliões dos nativos contra os estrangeiros invasores. Então como agora, nada mudou no quadro do comportamento humano ao longo dos tempos. João Aguiar aproveitou-se duma destas ocasiões de instabilidade e assentou arraiais na recriação ficcionada das guerras de ocupação romana da Hispânia, para pintar um díptico verbal da resistência lusitana que lhe foi movida, primeiro n'A voz dos deuses (1984), focado na figura incontornável do caudilho nativo Viriato, seguido uma década depois n'A Hora de Sertório (1994), centrada no general rebelde nomeado no título do segundo relato da série. Uma sucessão altamente improvável representada no teatro dos eventos bélicos travados nos três quartos de século que antecederam a unificação completa do espaço ibérico. Tal como considera o autor nas notas finais do livro, a figura de Quinto Sertório (122-72 AEC) insere-se numa espécie de «folclore histórico» português vertido no partidário dos povos bárbaros levantados contra a grande potência imperial antiga, quando na realidade se limitou a alinhar nas fileiras oponentes da facção política do ditador Sila.

A estrutura organizativa deste segundo painel do díptico novelesco é bastante mais complexa do que a usada no primeiro. O fluxo narrativo passou a repartir-se por três testemunhos escritos distintos, que se completam na diversidade dos episódios convocados a um ritmo cronológico. Olhares lhes podemos chamar, constituindo cada um deles uma espécie de «novela» autónoma de dimensão mediana, partilhando um fio condutor comum aos dois «romances» que formam o retábulo gizado com palavras. Os fragmentos autobiográficos dos emissores internos cruzam-se esporadicamente com o percurso de vida seguido pelo general romano amotinado, tanto na península itálica como na ibérica, funcionando grosso modo como um muito breve esboço biográfico da figura mais importante da efabulação. A prestação inaugural foi confiada a Euménio de Rodes, um filósofo fictício grego estabelecido em Roma, que nos legou um conjunto de fragmentos de reflexão pessoal datados de 95-79 AEC. Seguem-se-lhe os escritos de Lúcio Hirtuleio, descrito nas Notas finais como um estratega conceituado da Guerra Sertoriana (80-72 AEC) e o mais fiel colaborador do seu líder. O derradeiro bloco deve-se a Medamo, referido por Plutarco e ficcionado por João Aguiar, para documentar o assassinato do herói, nos últimos instantes da Hora de Sertório.

O encontro casual dum rolo de papiro nas ruínas do santuário de Endovélio, exarado pelo seu antigo guardião, abre as portas a um romance histórico tradicional, decalcado nos cânones vulgarizados a partir da sua fase romântica oitocentista. Promove ainda a ligação discursiva entre os dois vultos maiores da resistência lusitana à ocupação latina, através do narrador singular do painel mais antigo do díptico e do narrador charneira do mais recente. Este achado faculta-nos, deste modo, a interface estratégica entre os itinerários vitais do portador da insígnia do touro e do homem da corça, i.e., de Viriato e Sertório. A busca sistemática pela verosimilhança genérica exigida e viabilizar a reconstituição criteriosamente encenada. Assim se representa de modo credível uma panóplia documentada de factos fingidos mesclados num repositório de factos efetivamente acontecidos. Onde as lacunas históricos se instalaram ao longo dos tempos nos anais oficiais conservados, a verve criativa romanesca encarrega-se de as preencher plausivelmente com todo o engenho e arte gerado ao sabor das malhas da imaginação literária.   

16 de outubro de 2025

João Aguiar, Díptico dos Lusitanos I: a voz dos deuses nas memórias de um companheiro de armas de Viriato

 
«Os deuses falam aos homens com vozes diferentes, conforme eles são capazes de entender. Os jovens ouvem essas vozes no estrépito das batalhas ou no ato do amor, os velhos aprendem a escutar de outra maneira. Outrora, também eu ouvi a voz dos deuses no amor, na guerra, nos sonhos e na tempestade até mesmo na fala de outros mortais. Agora, que já passaram oitenta invernos na minha vida ‒ se é que não deixei escapar alguns sem dar por tal ‒ resta-me o silêncio.»
João Aguiar, A voz dos deuses (1984)

Podemos dizer com alguma propriedade ser o romance histórico tão antigo como o próprio romance, modo narrativo autónomo nascido mais de dois milénios no mundo helenístico, pese embora a forma de retratar os eventos em determinado momento do passado tenha vindo a adaptar-se ao jeito de efabular específico dos tempos em que foram traçados. João Aguiar iniciou o seu percurso pela escrita criativa com A voz dos deuses (1984), uma crónica ficcionada centrada em factos ocorridos no decurso da guerra empreendida pela República Romana para se apoderar da totalidade da Península Ibérica, recorrendo para tal às memórias imaginárias dum companheiro de armas de Viriato. O início duma carreira dum quarto de século de sucessos repartidos por vários géneros e que só uma partida inesperada do jornalista, romancista e ensaísta interromperia abruptamente.

O despertar, consagração e imortalização do maior herói lusitano, que os tempos pré-romanos conheceram, é trazida até nós pela pena de Tongétamo, sacerdote do grande deus Endovélico e guardião do seu santuário. Assim reza a nota de apresentação sucinta da entidade enunciadora participante na relação. A ação salta da Hispânia Ulterior e Citerior romanas já conquistadas para a Mesopotâmia de entre Tagus e Anas resistente às forças invasoras. O palco dos eventos atestados desloca-se ainda a algumas localidades do antigo reino de Cineticum a sul e da Calécia a norte, para além de privilegiar a intermédia Lusitânia celta. A linha temporal abre com o nascimento do narrador em 164 AEC, em Balsa, e fecha com a notícia da sua morte em 79 AEC, no santuário do deus a quem prestava culto. Os dados mais relevantes situam-se, porém, entre 147-139 AEC, os sete anos correspondentes de comando do grande caudilho local, aquele que a História registou e a Lenda divinizou até à dimensão do Mito.

Na advertência prévia aos leitores do livro, o seu autor real tem o cuidado de destacar o facto de se tratar duma obra de ficção e não dum ensaio histórico rigoroso. Esta chamada de atenção não obstou a ter trazido para as suas páginas um retrato mais próximo do insigne guerrilheiro bárbaro do que a tradicional imagem fantasiosa pintada pela posteridade. Tendo em vista os traços peculiares do paradigma novelesco seguido, a tessitura do relato joga com a alternância ajustada entre os eventos imaginados e os acontecidos, resultando daí uma autobiografia precisa de Tongétamo alegado neto dum Rei dos Brácaros, e vislumbres dos momentos por si testemunhados do percurso existencial de Viriato, aquele que fora investido com as vírias de comandante supremo das forças lusitanas.

Obedecendo um romance histórico de primeira pessoa a um princípio de verosimilhança extremo, a notícia da morte do cronista cónio, com sangue lusitano, fenício e turdetano, é feito por uma entidade exterior ao relato central, mais precisamente por M. Hirtuleio, numa carta de Arcóbriga a Quinto Sertório. Nessa epístola, informa ter encontrado, nos escombros do antigo santuário de Endovélico, os escritos do seu falecido guardião. A fonte fictícia do documento fica assim revelado, remetendo-nos simultaneamente para a segunda parte dum díptico literário sobre a resistência lusitana à ocupação romana, publicado na década seguinte com a designação de A hora de Sertório (1994), que me apressei a resgatar da estante onde tem estado depositado desde então. A leitura está a decorrer com muito prazer e algumas surpresas de permeio. Um dia destes darei conta do seu teor, assim a voz dos deuses ostracizados do passado mo não impeçam de fazer.

22 de maio de 2024

Seis autores, seis obras, seis aberturas

SEIS NOMES POR ORDEM ALFABÉTICA
Hélia Correia - João Aguiar - José Saramago - Lídia Jorge - Maria Velho da Costa - Mário de Carvalho

A assinalar o Dia do Autor Português

1. Hélia Correia, Montedemo (1983)

Mais tarde alguns lembraram que tudo começou naquele domingo seco em que a terra tremeu. Coisa sem importância, num instante seco sentida noutro instante acalmada, nem mesmo Irene a tonta pensou que lhe servisse de mote em pregaçãoUm tremor ligeirinho no afrouxar da noite, hora de moribundos e de bêbedos, todos pensando que se balouçavam em líquidos maternos, quentes e protetores. Os outros, muito poucos, que estavam acordados: mulheres suspensas do tossir das crias, velhos apunhalados por insónias, tinham ficado em dúvida se fora realmente o chão que se ondeara numa sacudidela ou se tontura provocada por um sangue de repente engrossado ao de cima dos olhos. O padre chegou mesmo a confessar que achara muito estranho terem tocado os sinos apenas com aquele abanãozico. Mas a manhã nasceu radiosa e gelada, e o próprio mar parecia tão sem peso, tão dançarino e limpo de pecado que o assunto passou ao esquecimento.

2. João Aguiar, Navegador solitário (1996)

Eu hoje faço quinze anos mas era melhor que não os fizesse. Tive um dia lixado e pra começar o meu velho obrigou-me a trabalhar no restaurante a servir os almoços e eu nunca gosto de lá trabalhar mas no dia dos anos é pior que nos outros dias e depois a velha não me deixou sair à noite com o Angelino e a outra malta porque apareceram visitas e no fim de tudo ainda tive de começar a escrever esta merda de diário ou lá como lhe chamam e eu não gosto nada de escrever não me importo de ler porque há a Bola e há os livros de caubóis mas escrever isso é mesmo contra vontade porque é uma chatice e a gente ainda tem de pôr vírgulas mas eu vírgulas não vou nessa não ponho que se lixe.

3. José Saramago, Memorial do convento (1982)

D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total. depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.

4. Lídia Jorge, O dia dos prodígios (1980)

Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que creem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.

5. Maria Velho da Costa, Casas pardas (1977) 

Que lindo dia, que lindo dia, margaridinhas de olho de oiro palmeirando mínimas os canteiros na berma da rua, tráfego, gentes, tudo vestido de roupa lavada, do bruto azul das nove, pressa limpa, pressa boa, deixai-me em paz e ao meu passo manso, cabeça azoada de vozes de toda a noite fechada a ver se aprendo, leixai toda a esperança de onde vos tendes lavado e para onde ides, fugidos, correntes e determinados, ganhá-lo, ganhá-lo, ‒ ganho, se o houver para mim, será aqui nesta clareza do não cegado de saltos de retina entre as noites cerradas, || Era já noite cerrada dizia o filho p’ra mãe debaixo daquela arcada passava-se a noite bem, Canta o resto, canta Lala, Agora, Zizinha, deixe-me as fitas do avental, credo, que seca, olhe a sua mãezinha que vem lá, O pai deixa, || E esta ovação clara do dia passar passando, passo leve e ar já quente, rudo tão recorte contra azul, o peito aliviado, a vista ardente a ver exatíssimo contorno de tudo, prédios, este rosa de tinta esgarçada com varandas, verde aquele pintado agora, e os elétricos que são a cor da cidade que agride, amarela a tinir a esta minha hora visionária do visível, carregadora ambulante do sétimo sentido que é o ouvido-dizer, Há num carro de bois que atravessa a cidade com hortaliça todas as madrugadas, há, disse o Amigo.

6. Mário de Carvalho, «Ignotus Deus» IN A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho (1983)

Na semana de Pentecostes, faleceu quase toda a irmandade, de uma morte serena, mui natural. Os mais dos frades deixaram a vida com um sorriso suave, o corpo tranquilo expelindo fragrâncias olorosas. Aos dois sobreviventes, Frei Abel e Frei Domingos, nem roçou suspeita de epidemia, perante uma morte assim tão simples, tão sem sofrer. Fora servido o Senhor chamar a si os seus servos, e com brandura o fez, concedendo-lhes um trespasse em santidade, sem convulsões e sofrimentos das carnes e das almas, que cilícios e penitências e disciplinas haviam já macerado avonde.

5 de maio de 2020

Diálogo travado em linguajar mui bárbaro e português ressuscitado


    Dia Mundial da Língua Portuguesa    

Num tempo indeterminado do futuro, um escoliasta descobriu os fragmentos dum livro publicado nos inícios dos anos 2000. Surpreendido com a linguagem decadente ali registada, traduziu-o para um português ressuscitado e comentou todos os barbarismos ali encontrados.

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Lendo a primeira Jornada por certo haveis pasmado com tão estranho linguajar e mais ainda em o moço que em a Abadessa, contudo também esta fala barbaramente. E mais advirto que se encontrais boas e bem escritas sentenças ao princípio da dita Jornada, antesmente os discursos, é isso porque eu verti para a moderna língua o que o autor escreveu, que era em tão desgraçada e estranha linguagem que não o poderíeis entender quiçá.

Achareis por certo, como disse, tal cousa de pasmar. Porém eu vos recordo que o caso se deu em os recuados primeiros dias do século vigésimo primeiro, quando a nossa portuguesa língua se perdia, o que veio depoismente a acaecer, que nosso povo tão dominado foi em corpo e em espírito que lhe preferiu a língua americangla, a que nossos cronistas também chamam hoje yeah-yeah-man. E a nossa só foi salva e revivescida em sua quase pura inteireza por esforço e estudo daqueles venerandos sábios que em boa hora e com a ajuda e a inspiração do Senhor se ajuntaram em Colégio de Arqueologia para estudar e ressuscitar o que em nós fora morto (e que era quase tudo) pelos bárbaros americanos e aqueles seus discípulos e seguidores que se assenhorearam da União, em o que não fomos mais afortunados que outros povos nossos irmãos do continente.

E àqueles que roídos de inveja ou tomados de douta arrogância dizem que esta língua portuguesa ressuscitada não é já aquela que antesmente se falava, e que o venerando Colégio confundiu em seu estudo a linguagem de muita épocas e cometeu outrossim grande soma de erros, responderei eu que não os vi a esses, nem a ninguém mais, fazer cousa melhor ou sequer alguma cousa; e hei por pouco honroso apontar erros e enganos quando nada se faz. E sobre os erros e enganos que eles apontam alembrarei eu que por o já dito desamor a nossa língua, e também por a muitas guerras e violências, se perderam quasemente todos os clássicos e que em os mais modernos magnéticos e televisivos registos e outros documentos que nos ficaram, e mui poucos eram, quasemente haviam só os discursos de gente que já não falava o escorreito português, antes era um linguajar muito bárbaro, de sorte que os sábios do dito venerando Colégio se viram em grandes e porfiados e esforçados trabalhos para de novo erguerem tão belo e nobre edifício, porém tão arrasado, que já quasemente saber não podiam o que era certo e errado.
João Aguiar, Diálogo das Compensadas. Lisboa: Asa, 2001, 13-14

28 de outubro de 2019

João Aguiar, marketing, merchandising & média do priorado do cifrão

«Já agora ficas a saber: ele é pago para escrever produtos por encomenda, a que chamamos "livros" por simples facilidade de expressão.»
João Aguiar, O Priorado do Cifrão (2008)
Levei uma eternidade a resistir heroicamente à leitura do The Da Vinci Code (2003) de Dan Brown. A minha desconfiança pelos bestsellers é antiga e visceral. Contentei-me a ver o filme num canal de sinal aberto ou da TV Cabo. Sem grande entusiasmo. As frases bombásticas que acompanham as edições impressas dessas obras provocam-me uma urticária incurável. o disse várias vezes e volto a repeti-lo. João Aguiar parece partilhar a mesma opinião. que o faz de forma bem mais criativa nas páginas d’O Priorado do Cifrão (2008), paródia bem-humorada aos designados romances teológicos tão em voga hoje em dia, onde a cultura de massas impera inexoravelmente.

Os capítulos iniciais da ficção portuguesa conduzem-nos abrupta-mente ao ambiente peculiar do mundo dos livros de grande tiragem, todo ele feito por encomenda e à escala planetária. Centra-se no modelo americano referido e transforma-o no The Caravaggio Papers de Ben Browning. A teoria da conspiração, típica do género, desen-volve-se à sombra do misterioso Priorado do Simão. As principais co-ordenadas do pastiche são evidentes. Depois, a teia narrativa envere-da por outros percursos discursivos bem mais sinuosos do que os do mero fabrico eficiente de êxitos literários. O sucesso editorial é inegá-vel, mas passageiro. A descoberta incessante de códigos/papéis perdidos, a proliferação de infalíveis fórmulas de deus, a exploração metódica desse filão esotérico mais não são do que subterfúgios ro-manescos para denunciar algo de muito mais assustador: o apro-veitamento da crise em que a nossa sociedade está mergulhada até à ponta das orelhas... O usufruto continuado da instabilidade criada, esse, está na mão de quem detém o poder, de quem manipula a informação, de quem engendra os cifrões.

Para entender melhor a mensagem de João Aguiar, haverá que ler alguns dos títulos anteriormente publicados. Sobretudo os últimos. Limitar-me-ei ao «Enfim, o paraíso» (1990), conto de antecipação po-lítica mais tarde ampliado no romance O jardim das delícias (2005). A ação nesses relatos situava-se num futuro ainda distante, utópico, numa Federação Europeia já concretizada, mas moribunda. A retratada neste terceiro ato do drama representa-se num palco global da atualidade, perante a indiferença dos espetadores. Essa a lição do texto. O alerta. A ironia trágica por excelência deste nosso mundo contemporâneo.

NOTA
Publiquei esta pequena crónica no jornal eletrónico Contemporâneo em janeiro de 2009, pouco depois do romance ter sido publicado. Mal imaginava então que seria o último. Fi-lo no âmbito dum evento académico organizado pelo curso de Ciências de Comunicação a que João Aguiar já não pôde comparecer por questões de saúde.

Transcrevi-o no Pátio de Letras tal e qual, sem acrescentar uma palavra às 300 originais que me foram encomendadas. Tinha acabado de saber do falecimento do autor d’O Priorado do Cifrão e de tantos outros romances, contos e ensaios com que nos tinha brindado ao longo da carreira literária iniciada em 1984.

Passada uma década sobre a sua morte, resolvi trazer para estas Histórias d’Arthur d’Algarve este «marketing, merchandising & media do priorado do cifrão», escolhendo desta vez o dia do seu aniversário de nascimento. Procedi à substituição duma ou outra palavra ao texto original, tentando assim amenizar a ideia algo radical que nutria pelos bestselleres. Nada mais. É que no mundo dos livros de grande tiragem também há lugar para as grandes obras da cultura literária.

7 de junho de 2017

João Aguiar, os comedores de pérolas e os apetites bizarros de Cleópatra

«Dez anos depois de 1999, não há-de sobrar um único vestígio por-tuguês em Macau.»
João Aguiar, Os comedores de pérolas (1992)
Grande parte dos textos que lemos durante o ano são-nos impostos pelo dever, pelos compromissos profissionais a que não podemos escapar. O prazer que poderíamos recolher desse exercício encontra-se, regra geral, afastado. Esperamos então, com incontida impaciência, a chegada das férias para, finalmente, nos dedicarmos à exploração dos segredos escondidos nas páginas dos livros de mero entretenimento que fomos arrastando das estantes das livrarias para as das nossas casas e que os fados nos impediram de desvendar no acto imediato em que os adquirimos.

Os comedores de pérolas (1992), de João Aguiar, encontra-se nessa situação ingrata das leituras adiadas, com a agravante do período de espera se ter prolongado por um espaço de tempo extraordinariamente dilatado de dezassete anos, medidos entre o inverno em que saiu a primeira edição e o verão que agora acaba de findar. Vá-se lá saber porquê. O acaso por vezes tem destes caprichos insondáveis. Os livros ficam adormecidos no meio de muitos outros à espera do momento mais oportuno de se abrirem para o mundo e de lhe revelarem a totalidade dos seus mistérios e potencialidades.

Concebido como um diário quase secreto, o romance funciona como uma aturada reflexão pessoal de Adriano Carreira, jornalista encartado e romancista premiado, de meia-idade, que uma depressão havia empurrado de Lisboa para Macau, nas vésperas da transferência de administração do território de Portugal para a China. O exotismo oriental e o momento histórico em que a ação decorre, bem como os conflitos amorosos vividos pelo protagonista, configuram um típico cenário de intriga policial, mantendo o leitor preso até ao final do relato, momento em que todos os enigmas se desvendam e garantem o sucesso narrativo a que todos os autores legitimamente aspiram.

Porventura, esta não será a melhor obra de João Aguiar. Nem sequer a mais conhecida ou citada. Antes dela já tinha composto outras que haviam despertado a atenção da crítica e do público em geral, o mesmo acontecendo com todas aquelas que publicou em datas posteriores. Possui, pelo menos, a virtualidade de nos pôr em contacto com uma realidade cultural bem diferente da nossa, que nunca chegámos a compreender, conquanto tivéssemos permanecido na Cidade do Santo Nome de Deus cerca de quatro séculos e meio. O diálogo entre as gentes dos dois extremos do continente eurasiático, o ocidental e o oriental, nunca se verificou de facto. Essa é uma das principais deceções do narrador, verdadeiro alter ego do próprio autor, também ele jornalista e romancista, profundamente interessado pela realidade do nosso país no mundo.

O fracasso da presença portuguesa em Macau é várias vezes explicado através da alegoria da pérola, aquela que Cleópatra dissolveu em vinagre, durante um banquete, só para mostrar a Marco António que era mais gastadora do que ele. Na opinião da instância narrativa, a cidade até podia ser uma pérola se nós nos tivéssemos esforçado por isso. Mas, tal como na anedota histórica, limitámo-nos a imitar a antiga rainha egípcia e convertemo-nos em meros comedores de pérolas.

Dando jus ao proverbial pessimismo nacional, Adriano Carreira afirma categoricamente, em 1992, que Dez anos depois de 1999, não há de sobrar um único vestígio português em Macau. Chegados que somos ao então longínquo ano de 2009, olhemos atentamente para a Cidade do Rio das Pérolas e contestemos o vaticínio formulado. Afinal, o diabo não é assim tão mau como o pintam. As ruínas de São Paulo e o edifício do Leal Senado permanecem estoicamente de pé, o idioma português teima em competir com o inglês de Hong-Kong e o chinês de Cantão e os casinos continuam a multiplicar-se como cogumelos em terreno pantanoso, para satisfação generalizada de gregos e troianos. A cultura das patacas, afinal, aí está a desafiar prodigiosamente a imaginação mais ousada.

NOTA
Foi com este texto que iniciei a minha colaboração de cinco anos no Pátio de Letras, só interrompida quando esse espaço foi obrigado a fechar portas e comecei a escrevinhar estas Histórias d'Arthur d'Algarbe. Trago-o agora com algumas pequenas pinceladas editoriais para este blogue quando se completam sete anos sobre a partida apressada de João Aguiar, um dos meus autores preferidos e que não teve a ventura de ser reconhecido até hoje como um dos nomes maiores da atual cultura literária portuguesa.  

8 de julho de 2016

Jardins do Paraíso

Hieronymus Bosch
[Museo del Prado - Madrid] 


CONTOS & QUADROS


«Eu, súbdito feliz da Europa Federada, recebo todos os dias o recado subliminar: “Alegra-te, cidadão, que estás no melhor dos mundos. Tens a Federação e a prosperidade; estás, enfim, no Jardim das Delícias. Agora goza-o, paga os impostos, olha para o ecrã de televisão e não chateies” Tudo isto, evidentemente, omitindo os despedimentos em massa de cada vez que há uma fusão de empresas ou de cada vez que uns quantos acionistas querem comprar um Ferrari novo. A mensagem ignora tudo isso, apenas fala subliminarmente do Jardim das Delícias, na imprensa, nos discursos, nas telenovelas. E eu defeco sobre este jardim, que é uma paisagem de pesadelo, como aquele tríptico do nosso querido Hieronymus Bosch, o qual deve ter tido uma antevisão do futuro que corresponde ao nosso presente. Defeco e não me sinto minimamente feliz.»
NOTA
Agora que a coesão da União Europeia das estrelas douradas em fundo azul começa a vacilar, apetece lembrar as antecipações de futuro ficcionadas por João Aguiar em forma de conto n'O canto dos fantasmas (1900) e de novela n'O jardim das delícias (2005). Tempus fugit vincit qui se vincit...