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9 de janeiro de 2025

Umberto Eco à maneira de Arcimboldo

ARCIMBOLDO
Pormenores da Primavera e de Rodolfo II de Habsburgo
[Paris, Musée du Louvre]

Este cálice pareceu-lhe a certa altura como que uma urna, e pensou que no meio daquelas rochas estaria inumado o cadáver do padre Gaspar. Já não visível, se a ação da água o havia primeiro revestido de macio coralino, mas os corais, absorvendo os humores terrestres daquele corpo, haviam tomado a forma de flores e frutos de jardim. Talvez dentro em pouco ele reconhecesse o pobre velho transformado numa criatura até então estrangeira ali em baixo, o globo da testa fabricado com um coco peluginoso, dois pomos passados a compor as bochechas, olhos e pálpebras tornados duas tâmaras amargas, o nariz de serralha verrugosa como o esterco dum animal; por baixo, no lugar de lábios, figos secos, uma beterraba com o seu ramo apical para o queixo, e um cardo rugoso em ofício de garganta; em ambas as têmperas duas casta-nhas com ouriço a fazer de farripas, e por orelhas as duas cascas duma noz aberta; com dedos, cenouras; de melancia o ventre; de marmelo os joelhos.

Umberto Eco, A ilha do dia antes (1994)

15 de abril de 2020

Jogos ilusórios do real e do imaginário

Giuseppe Arcimboldo

Testa reversibili com canestro di fruta (1590)
French & Company NY
Anjos-da-Guarda & Fadas-Madrinhas
Os cuidados intensivos dum hospital são um mundo à parte. Há sempre alguém disponível para nos dar aquele conforto necessário quando os momentos de maior ansiedade chegam. Também conheci alguns. Num deles, mereci a visita duma enfermeira. Sentou-se ao meu lado e encetámos uma longa conversa. Incentivou-me a confiar no meu anjo-da-guarda protetor, sempre pronto a velar por mim quando dele necessitasse. Ao confessar-lhe a minha descrença  no transcendente e nas religiões, avançou haver sempre algo a que nos prendêssemos e nos desse ânimo para superar as dificuldades. Concordámos ser a família uma óbvia solução para mentes agnósticas.

Os jogos do real e do imaginário trouxeram-me à memória a primeira noite que ali passara. Aquele em que vi deslizar até mim com passos de sílfide sem asas a minha filha, preparada para me prestar os cuidados noturnos. Julguei ouvi-la tratar-me por paizão logo mudado para senhor com frases enigmáticas proferidas na terceira pessoa. Estranhei, mas deixei-me embalar pela presença apaziguadora. Dormi tranquilo a sonhar com a minha fada-madrinha, a quem o tubo do ventilador me impedira de falar. Posteriormente percebi que tudo não passara duma ilusão ótica associada à audição de algumas palavras que o subconsciente queria ouvir. Partidas dos sentidos com sentidos ambíguos.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), o grande mestre do maneirismo italiano, é que era exímio na criação de imagens de percepção dupla, tal como representar uma cabeça reversível em cesto de frutas. A bata branca, o formato dos óculos, a cor do cabelo apanhado em rabo de  cavalo e a máscara cirúrgica ajudaram ao equívoco, semelhante aos efeitos pictóricos criados nas telas quinhentistas do criador milanês de cenários manipulados. Todos os rostos tapados são idênticos porque impessoais. Assim a jovem enfermeira desconhecida trouxe até mim a minha filha, tratando de mim como um verdadeiro anjo-da-guarda real sem qualquer vestígio duma ilusão imaginária.

1 de abril de 2019

April Fools' Day

A Laughing Fool

Jacob Cornelisz. van Oostsanen (ca. 1500)
A verdade da mentira ou a mentira da verdade
Westminster resolveu discutir a petição pública online de revogação do artigo 50 para pôr termo ao Brexit no dia das mentirasApril Fools' Day ou All Fools' Day, dirão os súbditos de Sua MajestadeAté ape-tece rir mas é algo muito sério. É que as fake news fazem pouco ou nenhum sentido no Primeiro de Abril quando andam à solta o ano inteiro sem pedir licença a ninguém.

Enquanto os debates parlamentares decorrem na Lower House neste dia oficial das patranhas, tretas e tangas mil, dá vontade de recordar o Paradoxo do Mentiroso. Se um indivíduo declarar «Estou a mentir», então se for verdade é falso e se for falso é verdadeiro. Deve ser por isso que os políticos da nossa e doutras praças só se permitem dizer «Eu sou a verdade».

As mentiras disfarçadas de verdade invadiram de tal modo esta nossa aldeia global, que continuar a alimentar a ilusão fantasista da conversão do Paraíso perdido num Paraíso recuperado, após a saída libertadora do angélico UK da pérfida UE, é pura perda de tempo. Nesta metamorfose épica pós-Brexit nem John Milton tem poder para valer ao caricato John Bull.

Neste engano de sentidos prometidos a torto e a direito, chamemos com apreço os quatro elementos de Giuseppe Arcimboldo, o grande mestre maneirista dos embustes pintados com arte. Sobre a verdade da mentira ou a mentira da verdade plebiscitada pela imortal Albion, digamos: foi tudo por ÁGUA abaixo, foi um AR que lhe deu, foi um FOGO de palha, foi TERRA mal semeada.
I quattro elementi di Arcimboldo:  Acqua - Aria - Fuoco - Terra  (1566 - 1570)

21 de junho de 2017

Verões de festa e alegria

ESTATE

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

O dia mais longo depois da noite mais curta

O verão é a estação do ano por que todos ansiamos enquanto du-ram as restantes. Aos outonos da prosperidade e decadência, aos invernos do recolhimento e reflexão e às primaveras da pureza e re-novação, sucedem os estios da festa e alegria. É o triunfo do dia sobre a noite, da luz sobre as trevas, do cosmos sobre o caos.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) representa-o como Vertumno. Atribui-lhe as feições joviais da divindade etrusca que promovia a mudança da vegetação e a maturação dos frutos. A alcachofra eleita como emblema simboliza a regeneração da vida e a ressu-rreição dos mortos, porque volta a florescer depois de queimada.

Nas guerras sem trégua de gato e rato, de alecrim e manjerona ou do ser e parecer, as estéticas maneiristas dizem-nos que no final da refrega nunca há vencedores nem vencidos absolutos. Equinócios e solstícios saem sempre empatados. As mesmas horas, os mesmos minutos, os mesmos segundos de claros-escuros anuais.

20 de março de 2017

Primaveras de pureza e renovação

PRIMAVERA

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

Quando os dias ganham fôlego e igualam as noites

A primavera é a estação do renascimento e da purificação da natureza. Concreção periódica do mito do eterno retorno que nos faz sonhar com o da eterna juventude. A morte a render-se à vida. Coisas de deuses e heróis oferecidas anualmente aos homens. Ilusão efémera situada entre a friagem invernal e a canícula estival.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) alia-o a Adónis. Às flores fres-cas, às roseiras bravas, às margaridas silvestres. Deu-lhe o aspeto juvenil de alguém que está enamorado da sua própria figura. Veste uma capa feita de elementos vegetais. Folhas, arbustos, musgo. O lírio escolhido como emblema simboliza a glória do amor sublimado.

As lições paradoxais que o maneirismo impôs na cultura quinhen-tista europeia mantêm-se atuantes nos nossos dias. A entrada num novo ciclo vital pressupõe também ele o início do fim. Tempus fugit. Os equinócios e solstícios batem-se entre si pelo predomínio dos dias e das noites. Miragem sazonal de luz e sombra. Nada mais...

21 de dezembro de 2016

Invernos de recolhimento e reflexão

INVERNO

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

O dia mais curto depois da noite mais longa

O inverno começa com o dia mais curto do ano e termina com o nú-mero de horas idêntico ao da noite. Equilíbrio efémero de imediato desfeito pela primavera dentro e só será recuperado na passagem meteórica do verão para o outono. Luta sem quartel entre equinócios e solstícios a marcar a roda contínua das estações.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) liga-o a Thanatos. À hera, às raí-zes e aos fungos. Deu-lhe um ar carrancudo de alguém que está de mal com a vida e ganhou um esgar duradoro no olhar. A seiva dos verdes anos secou de vez e deixou um tronco morto em seu lugar. O limão usado como emblema simboliza o azedume da velhice.

A tradição milenar que o maneirismo consagrou associa-o ao final dum ciclo de vida. Aquele que se situa entre o alfa e ómega da exis-tência humana. Tempo de recolhimento e reflexão. A linearidade do homem a perder aos pontos com a circularidade da natura. Sem apelo nem agravo. Imparavelmente. Dia após dia, noite após noite...

22 de setembro de 2016

Outonos de prosperidade e decadência

AUTUNNO

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

Quando os dias emagrecem as noites engordam

O outono é a terceira estação do ano. Também podia ser a primeira ou a última. Tudo depende do ponto de vista que se adote. Princípio ou final de ciclo. É aquela que fica entre os calores do verão e os frios do inverno. É o início da inexorável da decrepitude. É o ponto simétrico da primavera que representa o desabrochar da juventude.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) associa-o a Baco. Às uvas, às vindimas e ao vinho. Deu-lhe um rosto jovial de alguém que está contente com a vida e a quem lhe resta ainda a vontade de sorrir. A fortuna bafejou-o com os bens que a terra dá. Frutos e cereais. A romã utilizada como emblema simboliza a prosperidade alcançada.

Os maneirismos atualizados pelas pós-modernidades ligam-no ao retomar das atividades laborais depois das férias grandes anuais e de todas as rentrées. Os dias emagrecem e as noites engordam. Ine-xoravelmente. Inaugura-se o longo período de seis meses em que o equinócio da sombra espera ansiosamente pelo equinócio da luz...

7 de outubro de 2014

Top ten das letras

GIUSEPPE ARCIMBOLDO, Il libraio | Il bibliotecario (1566)
[
Stoccolma, Skoklosters Slott, Styrelsen]
No passado mês de setembro, fui desafiado uma meia dúzia de vezes para compor a lista dos 10 livros que de alguma forma me tivessem sensibilizado e ficado comigo. A tarefa demoraria apenas alguns minutos a executar e dispensava que se pensasse demasiado no assunto. Para mais, não teriam de ser os livros certos ou grandes obras literárias, mas apenas aqueles que de algum modo me tivessem tocado duma forma particular. Deveria ainda nomear 10 amigos e enviar-lhes o repto.

De cada vez que respondi ao solicitado, lá fui dizendo que sentia muita dificuldade em organizar um top ten das minhas preferências literárias, porque estaria a ser injusto com todos os livros assim excluídos sem terem feito mal a ninguém. Como as férias do verão ainda estavam frescas na memória, pensei indicar um ou outro que tivesse viajado comigo para a terra do dolce far niente sazonal, mas acabei por abandonar a ideia. Limitei-me a indicar um ao acaso e poupei os amigos de tal castigo.

A corrente foi entretanto quebrada. A pesquisa virtual cessou sem deixar rasto atrás de si. É o que costuma acontecer aos sistemas piramidais de recolha de dados. Um dia destes volta ao ataque, como se nada tivesse acontecido. O processo passará então pelos mesmos passos perdidos. Mais uma vez ficará por explicar o porquê e o para quê de tal registo. Presumo que se destine a testar a cultura literária dos navegadores do livro das caras. Um modo suplementar de definição de perfil público.

A próxima vez serei mais radical e deixarei a lista em branco. Direi que os livros da minha vida são todos aqueles que já me passaram pelas mãos. Vieram ter comigo e eu abri-lhes os braços. Todos eles me alargaram os horizontes. Mesmo os que deixei a meio ou esqueci por completo. Revelaram-me que a leitura é uma longa caminhada sem fim à vista. Está sempre à nossa frente e nunca se deixa tocar. Cada livro uma aventura que não cabe nas margens estreitas dum qualquer rol quantificado de primazias pessoais.