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29 de dezembro de 2025

Borracha de apagar & Tampas de bater

BORRACHA DE APAGAR

Sussurram-me amiúde memórias antigas que o tempo não borrou ter havido entre nós o costume de deitar janela fora os trastes velhos na Noite de São Silvestre. Lembro-me de nos meus verdíssimos anos há muito amadurecidos de menino e moço o ter feito em casa dos meus avós maternos. A rua estreita dita da mercearia do Swing ou da barbearia do Fala-Baixo ficava, então, pejada duma miríade infinda de fragmentos de vidro e de louça quebrada que os almeidas de serviço se viam obrigados a limpar nos dias seguintes.

Ao que parece, o ritual de despejar as inutilidades acumuladas em casa para a via pública também foi usual em terras italianas, como se pode ver numa cena levada ao grande ecrã por Giuseppe Tornatore no Cinema Paradiso (1988). Vá-se saber se terá resistido de pedra e cal à voragem dos tempos e não terá sido substituída por outras práticas mais ecológicas de celebrar a passagem do Ano Velho para o Ano Novo, que se deseja um Ano Bom. Bater tampas de tachos e panelas em vez de os lançar para o meio da rua.

Todo este folclore urbano passou à história. Os maus espíritos são agora espantados com fogos de artifício colossais e festivais de música estridente. As luzes e estrondos esvaem-se de vez e volta tudo ao que sempre foi. O render da guarda do que já foi para o que será é como a borracha escolar de duas cores. A vermelha apaga as marcas superficiais, a azul raspa o papel mas deixa sempre um vestígio indelével atrás de si. É que as palavras depois de ditas pela boca fora não se podem engolir para as fazer desaparecer.

TAMPAS DE BATER
Façam barulho, batam com os tachos e com as panelas! Este ano estamos numa situação muito má, os bancos e esta gente toda a fazer offshores, a pôr o dinheiro lá fora e a malta toda a pagar. Está mal, o pessoal novo tem de se revoltar contra isso, tem que mandar vir contra esta gente. Alguém tem que acordar isto, não é? Vocês são o futuro, batam com os tachos e com as panelas, pelo menos!

31 de dezembro de 2023

São Silvestre e as lágrimas da Virgem

Danuta Wojciechowska, Lenda da noite de São Silvestre (2007)
EPÍGRAFE
Me ha acontecido a veces al afirmar que, si la ciencia de la cultura adoptara los métodos y el lenguaje de la química, sólo iba a descubrir, en el vivo conjunto por la cultura formado, dos «Cuerpos» simples: Grecia y Portugal. Grecia, sím-bolo del espíritu de lo clásico; Portugal, símbolo del espíritu,— que no es logos [razão], pero nous [espírito] de lo barroco. Y el resto, cuestión de dosis.
Eugénio d'Ors, El Barroco (1933)

Helénicas & Lusitanas

A afirmação que pedi emprestada a Eugenio d'Ors como epígrafe é contestada por muitos críticos, mas, o ter sido escrita em espanhol por um grande vulto da cultura catalã sabe muito bem ao nosso ego português de ouvir. Deixando de lado o enfoque contrastivo entre o barroco e o clássico para mergulhar nos domínios da arte em geral, aqueles em que as técnicas geradas pela criatividade humana se aplicam à variedade estética da linguagem, incluindo a verbalização escrita e oral, como poderá ser a nascida no seio da singularidade helénica antiga e atualizada pela imaginação tradicional lusitana.

Busquemos a ligação ancestral desses dois corpos simples num velho relato que Platão desenvolve no Timeu e Crítias. Refere-se ali à Atlântida, uma ilha-continente situada para além das Colunas de Hércules que terá desaparecido do noite para o dia há cerca de 9600 anos. Os eventos chegaram-lhe aos ouvidos inseridos numa longa cadeia de transmissão oral, iniciada por um sacerdote egípcio de Salís, que o confiou a Drópis e este ao avô de Crítias. De boca em boca, os ecos dum desastre natural remoto ganham pouco a pouco o contorno mítico dum castigo dos deuses aos pecados dos homens.

A ambição alentada pelos atlantes de desafiar os céus e conquistar o mundo despertou a ira do Olimpo. No mito platónico, os validos de Poseidon são derrotados pelos pupilos de Atena e a sua arrogância é afogada para sempre nas águas profundas do grande Mar Oceano. Na versão lendária madeirense, a Virgem Maria ouve as palavras piedosas de São Silvestre e oferece aos mortais a possibilidade de se remirem da sua altivez. A última noite do ano deveria assim marcar a fronteira entre o passado e o futuro, dando a todos a esperança duma vida melhor, afastada para sempre dos erros outrora cometidos. 

Das lágrimas de pesar derramadas pela mãe do salvador cristão no exato local onde perecera a Atlântida, surgiria a afortunada ilha da Madeira, por todos conhecida como Pérola do Atlântico. Em honra do papa que patrocinara o nascimento miraculoso do arquipélago oceânico, comemora-se todos os anos a Noite de São Silvestre, a assinalar a passagem do ano velho para o ano novo. E o fogo de artifício lançado a dar as boas vindas ao Ano Bom aí está também a lembrar as pérolas sagradas vertidas pela Virgem Maria. E assim a lenda filosófica helénica se tornou numa lenda etiológica lusitana.

30 de dezembro de 2022

A vigília da Capela do Rato

1972
30 de dezembro
Um grupo de católicos progressistas e de não católicos ocupa a Capela do Rato, em Lisboa, como o objetivo de comemorar o Dia Mundial da Paz através da realização de uma vigília de 48 horas sobre o tema «A  paz é possível». Os presentes aprovam uma moção na qual condenam a continuação da guerra colonial, reconhecem o direito dos povos das colónias portuguesas a decidirem acerca do seu próprio futuro, classificam de criminosa a «política africana» seguida pelo governo, criticam a atitude de cumplicidade assumida pela hierarquia da Igreja Católica relativamente a esta e a outras questões, de muitos «jovens e trabalhadores portugueses por se manifestarem contra a guerra». A polícia intervém invadindo a capela (que é posteriormente encerrada) e detendo cerca de 70 pessoas - 15 das quais ficam preses à ordem da DGS.
António Simões Rodrigues (coord.), História de Portugal em datas (1997)
A paz é possível...
Faz este fim de semana 50 anos que a Capela do Rato esteve nas bocas do mundo e eu não estava lá. Todos os sábados participava invariavelmente na missa que ali se realizava por volta das 7h30 da tarde. Fazia-o acompanhado dos meus colegas do ICL que à data viviam como eu no bairro vizinho de Campo de Ourique. Naqueles 30/31 de dezembro de 1972, já me encontrava a passar parte da época natalícia em família, fora do bulício de Lisboa.

Soube dos eventos então ali ocorridos já entrados em janeiro e por portas travessas. Nos tempos cinzentos da outra senhora, as notícias tardavam a chegar e traziam sempre as marcas percetíveis dos censores. Comemorar o Dia Mundial da Paz quando se vivia uma guerra colonial em três frentes africanas era uma tarefa a todos os títulos temerária. As detenções que se seguiram a essa vigília de 48 horas num templo católico eram inevitáveis.

Foi também há meio século que deixei de acreditar no poder das preces religiosas para obter a paz. Não voltei a entrar na Capela do Rato a partir dessa data. O minha fé já então periclitante com o transcendente metafísico chegara inexoravelmente ao fim. Até hoje e sem volta à vista. Passou a representar uma fase distante no meu amadurecimento pessoal, sem as fantasias infantis de histórias da carochinha à vista e com os pés bem assentes no chão.

Picasso, La colombe de la paix (1950)

31 de dezembro de 2018

O trompe-l'œil do ser e do parecer

      Pere Borrell del Caso, Fugint de la crítica (1874)   
[Madrid: Banco de España]  

Dos faz-tudo e dos faz-de-conta

Com um olhar ensandecido de quem não se sente bem onde está e procura um lugar melhor para se mudar, o retratado salta para fora da moldura claustrofóbica que lhe tolhe os movimentos. Trompe-l'œil se designa a técnica artística que nos transmite a ilusão de observar uma representação plana pintada em 2D como se se tratasse duma realidade volumétrica esculpida em 3D. Em termos programático, pode ser entendido como um expediente estético de dar visibilidade ao tópico barroco do Ser e do Parecer.

No universo romano das representações míticas, a faculdade das mudanças e transições, dos inícios, decisões e escolhas, estava a cargo do deus Janus. A iconografia representava-o com duas faces, uma a olhar para a frente e outra para trás. Etimologicamente, estava associado à palavra «porta» (= janua), um espaço intermédio de passagem, de entrada e saída, de interior e exterior, de passado e futuro. Por isso deu o nome a «janeiro» (= januarius), o primeiro mês do ano nos calendários juliano e gregoriano.

Quando a Roma Imperial caiu e a Papal surgiu, as divindades latinas foram clinicamente trocadas pelos santos cristãosA passagem de ano foi batizada de Noite de São Silvestre, em honra do pontífice que iniciara a Paz na Igreja. E o faz-tudo para mudar os maus hábitos do Ano Velho faz-de-conta que acredita na mudança. Brinda-se ao Ano Novo, comem-se as 12 passas de uva, salta-se da cadeira, vê-se o fogo-de-artifício e vai-se para a cama mais tarde. Depois tudo volta ao normal até à próxima véspera de Ano Bom.

31 de dezembro de 2014

Julgamentos da história

JOSÉ MALHOA - O último interrogatório do Marquês de Pombal (1891)
Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea
[ óleo sobre tela 3,33 x 5,05 m.]

O ano novo aproxima-se a passos largos e antes que as doze badaladas da noite de São Silvestre se ouçam, os vendedores de opinião mais mediáticos do país elegeram José Sócrates como a personalidade mais marcante do ano velho. Pela negativa e sem hesitações de última hora, está bem de ver, que nesta terrinha de brandos costumes à beira-mar plantada, as cantigas de escárnio e maldizer sempre se adiantaram em popularidade às de amor e de amigo do nosso amargo cancioneiro. Não há notícia, afirmam ex ca-tedra, de um ex-primeiro-ministro ter alguma vez sido preso em Por-tugal. Verdade insofismável, dado que o cargo é recente e a memó-ria costuma ser curta nestes casos. Apetece-me recordar a queda abrupta de três dessas figuras maiores da governação nacional.

Começo com Marcello Caetano, presidente do conselho de minis-tros (1968-1974). Destituído após o 25 de Abril, rende-se no Carmo, é levado de chaimite para a Portela e exila-se no Brasil, onde termina os dias sem glória nem proveito. Passo para Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de estado (1750-1777) de D. José I. Apeado do poder por corrupção e votado ao ostracismo por D. Maria I, o Marquês de Pombal passa o resto da vida exilado da corte até que a morte o liberta aos 83 anos de idade. Termino com Luís de Vasconcelos e Sousa, escrivão da puridade (1662-1667) de D. Afonso VI. Caído em desgraça, exila-se em Paris e Londres. Com a morte da rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia, o Conde de Castelo Melhor regressa à esfera da governação de D. João V.

O único ex-primeiro-ministro português que não foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo pelo Presidente da República foi detido por agentes da Autoridade Tributária e Aduaneira à chegada ao aeroporto de Lisboa, nas vésperas do Natal, indiciado de crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. Trivialidades. Um dia o julgamento da história dirá de sua justiça. Nessa altura a opinião pública já terá tido ocasião de condenar o protagonista da Operação Marquês, pouco interessada em saber se de facto é culpado ou inocente. Suspeito que a tal condecoração em falta vai ter de esperar vários natais, páscoas, carnavais e santos populares para poder luzir no peito do ex-locatário do palácio de São Bento e atual hóspede da prisão de Évora. Palpites.