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11 de maio de 2026

Sinestesias datilográficas

1920’s Antique Underwood No. 5 Desktop Typewriter

Vejo-o entrar no auditório com uma máquina de escrever debaixo do braço. Pousa-a numa mesa colocada no centro do palco e senta-se. Atrás de si fica o maestro de batuta na mão e a orquestra prestes para entrar em funções. À frente da boca de cena encontra-se o público ávido de ouvir a melodia fluir em perfeita sintonia harmónica. As luzes da sala apagam-se e os primeiros acordes compostos por Leroy Anderson ecoam ao ritmo imposto pelo bater cadenciado das teclas numa folha de papel em branco e da campainha de mudança de linhas do processador de notas da peça musical instrumental The Typewriter (1950) aqui registada.

A sonoridade distante das aulas de datilografia vem-me à memória. O som sincronizado do batimento dos carateres móveis da máquina de escrever a da toada melódica emitida em pano fundo veio ao meu encontro. A aprendizagem fazia-se às cegas mas com um suporte musical de apoio. Cada uma das teclas estava tapada e a visão era movida para a ponta dos dedos. Cada um teria de saber de cor a posição das teclas a acionar. E assim o texto fluía ao ritmo da cantilena matraqueada e do cheiro da tinta de escrever, do verniz corretor e do papel químico utilizados. Uma sinestesia conjugada, que o tempo se encarregou de apagar.

Olho com olhar de ver para o solista do miniconcerto para orquestra e máquina de escrever e reparo que este só utiliza dois dedos para executar todos os compassos da partitura ou uma mão inteira na mudança dum sistema para outro. Neste sentido, um pouco menos hábil do que eu. Julgo. É que apesar de ter dado folga a muitos deles, ainda uso os dois indicadores no teclado do PC associado por vezes ao polegar direito e muito raramente ao esquerdo. Uma redução drástica vedada a um qualquer pianista mas perfeitamente viável a um mero datilógrafo musical, por muito mediano que seja, um grupo em cujo número talvez me pudesse inserir.

Leroy Anderson © Matt HerringLeroy Anderson © Matt Herring

19 de fevereiro de 2026

Histórias de Hospital

 Hospital Real de Todos os Santos antes do Terramoto de Lisboa de 1755
[Anónimo, 1.ª metade do séc. xviii]
"hospital": latim hospitale [domus], casa de hóspedes.

Faz hoje seis anos precisos que ingressei no CHUA de Faro para um internamento rápido de três dias, logo transformado num conjunto alternado de entradas e saídas distendidas até abril do ano seguinte. É da primeira e mais prolongada permanência de dois meses e meio que guardo mais recordações, mas que agora me escuso de relembrar. De certo modo, já deixei alguns testemunhos aqui por estas bandas na altura em que ocorreram. Por vezes pergunto-me o que terá acontecido a todos os meus companheiros de enfermaria e a resposta não me surge por nenhuma fonte. Ali os vi ao chegar, ali os deixei ao partir. Relações rápidas e fugazes que o fluir dos dias se encargou de apagar. O Zé Cocho, o Desenfiado, as Mulheres Barbeiras e a Princesa das Astúrias me perdoem, bem como as Bailarinas Flutuantes seguidoras de Florence Nightingale naquelas unidades de cuidados intensivos, intermédios e enfermarias cirúrgicas, me fizeram companhia assídua dia e noite, enquanto a recuperação tardava em chegar e o COVID-19 a partir. 

As minhas lembranças seletivas remontam agora aos derradeiros estertores dos tempos da outra senhora. Passei aquele verão de 73 no HME, a tentar livrar-me duma ida forçado para os campos de batalha africanos. A minha permanência ali à Estrela foi muito meteórica, porque os exames à minha bronquite asmática foram tratados no HU à Junqueira. Recordo-me muito fragmentariamente dalguns episódios ali vividos. Ter assistido às chegada de muitos estropiados de guerra, de ter visto morrer alguns ali à minha beira e de ter recebido a visita de duas militantes do MNF. Deixaram-me uma esferográfica, uma medalha não sei de que santo e muitas palavras de circunstância que me encarreguei de esquecer até hoje. A minha hospitalização na capital do império terminou no BC5, no antigo Colégio de Campolide, onde durante uma meia dúzia de semanas me mantive isolado até receber a ordem definitiva de soltura. Tive a companhia dum exemplas de bolso das As palavras de Jean-Paul Sartre que nunca mais voltei a abrir.

Recuo uma década até onde a minha vista chega e dou comigo na primeira quinzena de setembro no HTRDL, a casa de hóspedes criada pela Rainha Perfeitíssima que deu o nome ao local. Na década em que a frequentei, as bronquites eram curadas com parches de álcool canforado, papas de linhaça e aspirações de pó-pinheiro, mezinhas rematadas com uns dias na praia e outros nas termas. Para evitar a humidade estremenha, aconselhava-se um internamento preventivo das recaídas invernais. Foi o que me aconteceu durante dois ou três anos da minha pré-adolescência. Ali fui submetido a duas sessões diárias de inalações, pulverizações e nebulizações, permanência na nascente nas águas sulfurosas, associadas a um vigoroso duche de espadana matinal para relaxamento muscular completo. Muitas foram as aprendizagens colhidas na enfermaria, refeitório, salas de repouso e demais instalações do vasto complexo termal. Guardo-as no arquivo das minhas vivências longínquas, aquelas que só se podem visitar com a ajuda inigualável da memória.

SIGLAS
CHUA: Centro Hospitalar Universitário do Algarve; HME: Hospital Militar da Estrela; HU: Hospital do Ultramar; MNF: Movimento Nacional Feminino; BC5: Batalhão de Caçadores n.º 5.; HTRDL: Hospital Termal Rainha D. Leonor.

29 de dezembro de 2025

Borracha de apagar & Tampas de bater

BORRACHA DE APAGAR

Sussurram-me amiúde memórias antigas que o tempo não borrou ter havido entre nós o costume de deitar janela fora os trastes velhos na Noite de São Silvestre. Lembro-me de nos meus verdíssimos anos há muito amadurecidos de menino e moço o ter feito em casa dos meus avós maternos. A rua estreita dita da mercearia do Swing ou da barbearia do Fala-Baixo ficava, então, pejada duma miríade infinda de fragmentos de vidro e de louça quebrada que os almeidas de serviço se viam obrigados a limpar nos dias seguintes.

Ao que parece, o ritual de despejar as inutilidades acumuladas em casa para a via pública também foi usual em terras italianas, como se pode ver numa cena levada ao grande ecrã por Giuseppe Tornatore no Cinema Paradiso (1988). Vá-se saber se terá resistido de pedra e cal à voragem dos tempos e não terá sido substituída por outras práticas mais ecológicas de celebrar a passagem do Ano Velho para o Ano Novo, que se deseja um Ano Bom. Bater tampas de tachos e panelas em vez de os lançar para o meio da rua.

Todo este folclore urbano passou à história. Os maus espíritos são agora espantados com fogos de artifício colossais e festivais de música estridente. As luzes e estrondos esvaem-se de vez e volta tudo ao que sempre foi. O render da guarda do que já foi para o que será é como a borracha escolar de duas cores. A vermelha apaga as marcas superficiais, a azul raspa o papel mas deixa sempre um vestígio indelével atrás de si. É que as palavras depois de ditas pela boca fora não se podem engolir para as fazer desaparecer.

TAMPAS DE BATER
Façam barulho, batam com os tachos e com as panelas! Este ano estamos numa situação muito má, os bancos e esta gente toda a fazer offshores, a pôr o dinheiro lá fora e a malta toda a pagar. Está mal, o pessoal novo tem de se revoltar contra isso, tem que mandar vir contra esta gente. Alguém tem que acordar isto, não é? Vocês são o futuro, batam com os tachos e com as panelas, pelo menos!

17 de dezembro de 2025

Presépio dinâmico & presépio estático

PRESÉPIO
1. Estrebaria, estábulo.
2. Nicho ou construção que se arma nas festas católicas de Natal e Reis, representando geralmente o estábulo onde terá nascido Jesus Cristo.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Assim que começavam as férias natalícias, principiava a tarefa anual de armar o presépio de casa. Numa ida a um pinhal estremenho, eu e o meu irmão recolhíamos o musgo necessário para cobrir o tampo da mesa onde se estenderiam os campos daquele país inventado. Com meia dúzia de seixos apanhados à beira-mar e um punhado de areia das dunas, erguíamos as montanhas e traçávamos os caminhos a perder de vista no nosso imaginário infantil. A terminar, pegávamos nas pratas de embrulhar chocolate e transformávamo-las em rios agitados, cascatas saltitantes e lagos tranquilos de faz-de-conta.

A passagem da paisagem natural para a humanizada fazia-se com as figuras de barro comprados na praça da fruta, religiosamente embrulhadas em papel de jornal e guardadas, ano após ano, num recanto protegido do sótão, dentro dum caixote de madeira. Depois era só dispor a preceito cada um deles no local mais adequado do espaço cénico levantado. O pai, a mãe e o recém-nascido no centro do nicho simbólico, rodeados da vaca e do burro, dos pastores visitantes e respetivos rebanhos visitantes. Tudo o mais era fruto da imaginação que os oleiros da região punham à nossa disposição.

Caminhando a passo lento e por entre o casario envolvente, os três Reis Magos lá se iam deslocando até à gruta estrelada de Belém. O afastamento do castelo altaneiro, colocado na parte mais recôndita daquela representação plástica do nascimento de Jesus de Nazaré, era marcado, dia após dia, pelo movimento milimétrico dos camelos inseparáveis de Belchior, Gaspar e Baltasar. É que alguém havia de os ajudar a transportar o ouro, o incenso e a mirra que tinham carregado tão devotamente desde o remoto Oriente para oferecer ao anunciado Messias Salvador do Mundo há tanto tempo esperado.

O meu presépio dinâmico de antanho transformou-se no presépio estático de hoje em dia. Foi dado o devido descanso aos camelos dos adoradores do Rei dos Judeus. Estes encontram-se de joelhos junto à sagrada família, na companhia dum casal de pastores, três ovelhas e um anjo protetor. Catorze figuras do meu presépio atual, comprado a preço justo numa loja de artesanato tradicional latino-americano. Talvez incas, maias ou astecas. Para o caso tanto faz. Cumprem o mesmo efeito simbólico que os portugueses e nem precisam de musgo do campo, areia do pinhal ou seixos do mar para brilhar.

6 de novembro de 2025

A tertúlia das musas parnasianas…

Raffaello Sanzio, Parnaso (c. 1510-1511)
[Pallazzo Apostolico, Stanza della Segnatura, Vaticano]

Tertúlia - Tália - Parnaso

Ao entrar nos pretéritos anos 60 na Rua das Montras rumo à Praça da Fruta, deparávamo-nos com três pequenas livrarias, cujos nomes nos sugeriam de imediato alguns dos mitos e lendas ancestrais mais conhecidos da cultura helénica clássica: Tertúlia, Tália e Parnaso. Estava concentrado naquela via central da Caldas da Rainha um grupo de seres divinos e heroicos evocados amiúde pelas letras e artes. Olhando para os frescos renascentistas de Rafael no Vaticano, encontramos ali representados muitos deles a duas dimensões, sobretudo os ligados ao deus Apolo e às nove Musas, reunidos na ΄Ορος Παρνασσός, próximos de Delfos, a cantar e dançar em coro ao som da lira e dos versos dos poetas imortais antigos e modernos.

A Tertúlia de Artes e Letras ficava à entrada daquela correnteza de lojas variadas. Estava sediada no primeiro andar dum prédio idêntico a tantos outros ali residentes, mas com um recheio de livros, discos, gravuras, peças de arte, permitindo o convívio com muitos criadores dos heróis da imaginação elevados às alturas da imortalidade. Ali se reuniram no escasso par de anos da sua vida vultos conhecidos da nossa cultura, em tertúlias literárias e artísticas da παιδεία lusitana, resistente às diatribes usuais nos tempos da outra senhora de má memória para os amantes do livre-pensamento. Subi os degraus daquela escadaria uma meia dúzia de vezes e encontrei sempre ao meu dispor tudo aquilo que procurara em vão noutros locais.

Um pouco mais à frente, no outro lado da rua ainda aberta ao tráfego automóvel ficava a Tália, a mais ampla e concorrida do trio, talvez por funcionar também como papelaria, discoteca, ludoteca e outras ofertas mais para quem a visitava por hábito ao longo do dia. A musa da Comédia ‒ a tal que inspirara o nome da loja ‒ lá estava em sintonia fraterna na companhia das demais protegidas de Apolo, a guiar os potenciais amantes mortais da poesia, drama, história, dança e beleza em geral, para levarem para casa um pouco da criação artística e científica produzidas com a sua inspiração divina. Por ali passei vezes sem conta. Ali folheei revistas, ouvi discos e cirandei sem destino certo, como muitas vezes convém.

A terminar o circuito triangular e após uma nova travessia do itinerário comercial a céu aberto da cidade da rainha, deparámo-nos com a Livraria Parnaso, a mais pequena de todas mas também a mais longeva, a única que tem conseguiu resistir até aos nossos dias à voragem inexorável do tempo. A minha memória visual guarda a imagem precisa do espaço exíguo onde os livros se viam por toda a parte protegidos pela vitrine da montra virada para os passeantes e pelo balcão protetor de atendimento dos clientes. Tocávamos-lhes à distância com os olhos arregalados e cheirávamo-los com ambas as narinas bem abertas. Depois da compra, saíamos com os sentidos bem despertos para a aventura da escrita que nunca falhava.

Livrarias surgem, livrarias partem, mas, no admirável mundo novo em que vivemos, são mais as que fecham as portas até um nunca mais do que aquelas que as abrem para os amantes de livros físicos novinhos em folha. O contacto com a escrita faz-se cada vez mais à distância. O virtual condenou as sinestesias da leitura à tirania insípida do digital. Tudo se resume ao matraquear do teclado dum PC ligado à Net e à visualização do texto desejado no respetivo ecrã. Livrámo-nos de vez das poeiras e odores a mofo das edições antigas, mas fomos igualmente impedidos de acariciar as palavras impressas a tinta numa folha de papel. Por outras palavras, deitou-se o bebé fora junto com a água do banho. Nem mais nem menos.

27 de outubro de 2025

Paraísos Perdidos

Henri Rousseau - Foret vierge au soleil couchant (1910)
[Kunstmuseum Basel - Schweiz]
“The mind is its own place, and in it self | can make a heaven of hell, a hell of heaven.”
John Milton, Paradise Lost, (1667: I, 254-255)

 LOCUS AMŒNUS                                     

Os anos dourados da minha infância foram passados alternadamente entre três paraísos irremediavelmente perdidos logo à entrada da pré-adolescência. Situavam-se esses locus amœnus distantes na Estremadura natal, como então se designava toda a região que servia de linde natural entre o Setrentrião duriense e o meridião alentejano, e se mantém, para todos os efeitos, uma das mais antigas províncias históricas portuguesas. Estou-me a referir à Praia da Areia Branca, na costa atlântica ocidental; o povoado da Abrigada, nas faldas da Serra de Montejunto; a herdade de Rio Frio, na Península de Setúbal. Por ora, vou-me ficar por este último recanto habitado pelas minhas memórias remotas.

A lembrança mais nítida que guardo deste paraíso perdido provém do perfume intenso a eucalipto, emanado duma pequena mancha florestal plantada a meio da vasta propriedade rural. Formava como que um enclave arborizado, a rodear uma pequena capela caiada de branco, ladeado pela imponente casa senhorial com ar palaciano e pelo aglomerados de habitações modestas do pessoal assalariado, dispostas à volta dum recinto descoberto comum. Era neste pátio que ocorria grande parte das minhas brincadeiras e da garotada localNunca entrei na casa dos patrões, onde a minha tia servia como cozinheira, nem na casa do santo desconhecido, que uma das minhas primas cuidava.

Fora deste recinto descoberto contíguo ao casario dos assalariados residentes, o paraíso perdido abria-se para os amplos espaços a perder de vista. Havia as valas com água corrente de rega dos arrozais, boas para pescar se se fizesse o silêncio exigido pelo meu pai e observar os touros bravos que pastavam no outro lado da lezíria. Noutros espaços mais abrigados do sol, havia a possibilidade de apanhar um ou outro sapo e uma ou outra enguia, no meio dos tanques naturais rodeados de agriões, enquanto as vizinhas faziam a lavagem da roupa e a punham a corar na relva. Momento também de merendar em plena natureza, numa altura em que ainda se não falava em piqueniques.

O final das diversões ao ar livre era marcado pela corrida veloz do Joly rumo à oficina de carpintaria onde o dono trabalhava. Ignoro se havia alguma sineta ou se era só ele que a ouvia soar. Com a chegada dos dois a casa, ceávamos todos com o cachorro a dar ao rabo à volta da mesa. Seguia-se uma conversa animada à beira da lareira, sentados nuns banquinhos de madeira feitos pelo meu tio. Por vezes, dávamos uma saltada à coletividade, para brincar com a criançada, ver televisão ou assistir à projeção dum filmeLembro-me das autoridades presentes nessas ocasiões me terem impedido de ver O Terceiro Homem, que só visionei muito mais tarde depois de atingida a maioridade.

Tempus fugit, diziam os latinos e nós repetimos por tudo e por nada. A Areia Branca e a Abrigada dos meus avós  muito se apagaram no meu horizonte de eventos, embora possam ser revisitados num espaço geográfico necessariamente transformado. O Rio Frio dos meus tios desapareceu mesmo do mapa e nem sequer permite uma visita fugaz para matar saudades. Esteve para ser o novo aeroporto de Lisboa. Projeto abandonado como muitos outros nascido em mais de meio século de devir histórico. Com o olhar de decano que o tempo cavou, recupero os paraísos perdidos da infância através dos exercício de memória que o meu mirar atento fixado no remoto consegue enxergar.

11 de agosto de 2025

Educação musical

Mozart score written when 8 years old Art Print

Curriculum Musicæ

Na era longínqua em que frequentava a catequese e ia à missa todos domingos, tive uma catequista já entrada na idade, solteirona por opção ou viúva por revés, que me dava umas aulas de piano depois da doutrina e uns conselhos suplementares de catolicismo cristão nos intervalos musicais. Nessa altura, andaria na segunda classe do primário e no primeiro do catecismo, rondaria então os 7/8 anos. Depois vieram as férias de verão e, no início do novo ciclo letivo, a Senhora D. Maria do Rosário foi substituída por uma outra instrutora cujo nome se me varreu por completo da memória. O mesmo posso dizer da minha aprendizagem pro bono então recebida. Exceptuo umas tantas palmadas nas mãos para corrigir posições.

Por essa altura, frequentei um coro de meninos do ensino básico da cidade. Os ensaios eram semanais e efetuavam-se na escola central do burgo, o que nos obrigava a fazer uma longa caminhado desde o Bairro da Ponte até ao Posto da Polícia junto ao Parque da Rainha. Cantava-se mais durante o percurso do que na sala apontada para tal. Destas aventuras corais, resultou sempre uma agitação infantil a tocar a indisciplina, que levou o prof. Dinis a cancelar o projeto. guardei no ouvido o malfadado Papagaio pena verde, repetido à exaustão sem grandes resultados polifónicos a assinalar. Aprendi também à minha custa que uma 1.ª voz como a minha nunca se daria bem ao lado duma 2.ª cantada por um colega de timbre mais espigadote.

De degrau em degrau, o ciclo preparatório abeirou-se, o Canto Coral instalou-se e o P.e Renato impôs-se. Durante dois anos, passei a ter 1/4 de hora por aula de solfejo, notação musical e leitura de partituras, alternados com os 3/4 de hora restantes de anedotas, apartes e historietas contadas a propósito/despropósito de tudo e de nada. Recordo os momentos hilariantes em que relatava a torto e direito as mirabolantes travessuras do Menino Tonecas. Esqueci-me de todas, mas as gargalhadas provocadas ainda hoje me ecoam nos ouvidos. Muito de vez em quando, punha a turma a entoar uma cantiguinha popular que pouco tinha a ver com a teoria musical já aflorada. O uso regular do diapasão gerava uma risada geral logo seguida do justo raspanete. Tempos épicos esses em que a risota coral reinava.

A escassa formação musical até então bebida a conta-gotas secou a valer no secundário. Salvou-se, mesmo assim, com os apontamentos desviantes às aulas de História ou Português do Dr. Bento Monteiro. Por um qualquer motivo dei com ele a falar do sucesso que Janette MacDonald & Nelson Eddy tinham obtido em Hollywood nas décadas de 30-40. Palavra puxa palavra, o confronto passou a fazer-se entre Mario Lanza e Enrico Caruso. Este último tenor tido por si como o vulto maior do canto lírico de todo o sempre, a par de Maria Callas como soprano. Chegou a levar um velho gira-discos para a sala, o que nos permitiu escutar pela primeira vez as vozes de alguns deles. A si se terá devido também a realização de alguns concertos de câmara e orquestra juvenil no ginásio da escola, os primeiros da minha vida.

O meu convívio áureo com a música deu-se fora do ambiente escolar. As salas de aula foram trocadas pelas salas de concerto da capital, quando por ali andei no encalço dum grau académico superior. Não deixei escapar uma Ópera no Coliseu e no Trindade, um Ballet na Gulbenkian e no São Luís, uma Audição no São Carlos, uma Zarzuela no Tivoli ou um Concerto onde quer que o houvesse. Fazia-o com um ou outro colega mais sensibilizado para a arte melómana das notas cantadas, dançadas ou tocadas. Pena ter perdido os programas e folhas de sala mantidas na altura com tanto cuidado. Ficaram-me na memória as imagens sonoras e visuais então bebidas com avidez. Fugiram-me os nomes de muitos dos compositores, intérpretes e diretores que nesses instantes singulares lhes deram corpo e alma.

Na fase laboral seguinte, revezei a música gravada com um ou outro concerto dado aqui nestas bandas austrais onde me fixei. Na etapa quase jubilada, alterei o cenário. Esqueci-me do dedilhar meteórico pelo teclado do piano acústico vertical de sala no final das lições de catecismo e dediquei-me a reviver as poucas luzes ainda cintilantes das aulas do segundo ciclo me tinham a custo acompanhado. Integrei por um ano o grupo coral da UAlg e transitei depois de armas e bagagens para o Ossónoba. No primeiro, relembrei alguns trechos líricos ouvidos em tempos ao vivo e a cores, no segundo  domei a voz a um canto mais mais rigoroso e variado. Estou há um par de meses no Cantate Domino, um grupo de câmara mais restrito de música sacra, numa tentativa de reforço do curriculum musicæ ideal. 

10 de julho de 2025

A cantar y a bailar por sevillanas

Tomàs - Sevillanas

Qué bonitas están las niñas cuando tienen veinte años
Cuando tienen veinte años | qué bonitas están las niñas
cuando tienen veinte años | qué bonitas están las niñas
cuando tienen veinte años | Cuando tienen veinte años
qué alegría en su mirada y en sus andares qué garbo
qué alegría en su mirada | y en sus andares qué garbo
Morenita de ojos negros 
rubita de ojos azules, trigueña pelo castaño 
qué bonitas están las niñas cuando tienen veinte años 
Amigos de Ginés, Niñas de veinte años (1972)

Aprendi a gostar das sevillanas com a minha amiga Sónia. Amiga será um termo exagerado, quando centrada em alguém que tinha vergonha de me olhar ou falar. É que nessas idades ditas dos -teen, a diferença de seis anos mais corresponde a uma eternidade. Estou a vê-la à distância de muitas décadas a passar a ferro a roupa da família e a ouvir e a cantar uma seguidilla sevillana gravada numa cassete áudio de fita magnética. O ferro a vapor que manejava com vigor era uma novidade absoluta para mim. O leitor de cintas então em voga é, agora, um arcaísmo há muito caído em desuso.

Ainda tentei aprender a cantar e a bailar por sevillanas com a M. Esther, a irmã mais velha dos meus amigos extremeños, essa com uma idade bem mais próxima da minha. Mesmo assim, não se inibiu de me encarar e dizer sem tibieza no olhar e timidez no falar, que me faltava requiebro al canto y salero al bailar. Escusado será dizer que nem me atrevi a rascar una guitarra ou atirar-me com afinco ao repique de palillos. Fiquei-me pelo palmateo a marcar o rítmo da melodia e deixei de parte a arte da precursão acertada das castañuelas, na presença de entendidos ou tidos como tal.

A minha atração melódica pelas sevillanas não esmoreceu com o desaire obtido in illo tempore ao tentar cantá-las e bailá-las. Muito pelo contrário. Aquelas Niñas de veinte años, interpretadas pelos Amigos de Ginés e ouvidas à exaustão ficaram-me nos ouvidos. Até hoje. Esqueci-me de quase todas as rimas que lhe dão corpo, mas a melodia que as acompanhavam resistiu na sua totalidade ao tempo. Trauteio-as sem a presença de testemunhas indiscretas. E nem estou a falar das duas nenas minhas amigas de adolescências pretéritas há muito afastadas do meu horizonte de contactos. ¡Y olé!