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11 de novembro de 2023

O São Martinho de Gil Vicente

Giorgi Vasari, Musicisti (1545)

A espada e a capa de S. Martinho no dia que o celebra... 

DIDASCÁLIA
O auto que adiante se segue foi representado à mui caridosa e devota senhora a rainha Dona Leonor na igreja das Caldas, na procissão de Corpus Christi, sobre a caridade que o bem-aventurado São Martinho fez ao pobre quando partiu a capa.
Vem São Martinho cavaleiro com três pajens, e diz o 

 

Pobre
Devoto señor, real caballero,

volved vuestros ojos a tanta pobreza,

que Dios os prospere vuestra gentileza:

dadme limosna, que de hambre me muero.

Martinho

Hermano ahora no traigo dinero:

vosotros, traéis que demos, por Dios?

Pajes

No ciertamente.

Martinho

       Entrambos a dos

no traéis que demos a este romero?

Pobre

No hay dolor, que en mí no lo sienta:

habed de mis males señor compasión.

Martinho

Quién ahora tuviese, daquesa pasión

la parte que tienes que más t'atormenta!

Pobre

Guárdeos Dios de tan grande afrenta;

Dios lo prospere con mucha salud.

dadme limosna, por vuestra vertud,

que mi gran pobreza no hay quien la sienta.

 

Martinho

No sé qué te dé, de dolor de ti,

ni puedo a tus males ponerte remedio.

Partamos aquesta mi capa, por medio;

pues otra limosna no traigo aquí:

Ruégote hermano, que ruegues por mí.

Pues sufres dolores nesta triste vida,

tu ánima en gloria será recebida

con dulces cantares, diciendo así:

Enquanto São Martinho com sua espada parte a capa, cantam mui devotamente uma prosa:

Laus et honor tibi sit rex Christe redemptor.


11 de novembro de 2017

Crónica outonal da castanha na brasa

 CASTANHAS ASSADAS  

Quem quer quentes e boas...


No dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho. O magusto este ano foi traído pela falta de qualidade da castanha trazida do híper, imprópria para assar em casa. Assim nem foi preciso trocar a água-pé pela jeropiga, nem o fogareiro a carvão pelo forno da cozinha. A inauguração oficial do outono ficou adiado sine die, neste tempo estival que ameaça prolongar-se até ao Natal.

A castanha é de quem a come e não de quem a apanha. Diz quem sabe. Quentes e boas como as da feira de Santa Iría. Apetitosas e a saber a sal. QB. Casca solta e estaladiça. Cada uma a fazer inveja às restantes. E quem come uma come um cento, ainda que as tenha de repartir por várias etapas. À entrada do Fórum de Faro ou na rua de Santo António acima e abaixo.

A castanha tem três capas de inverno: a primeira mete medo, a segunda é lustrosa e a terceira é amarga. Numa época em que o clima nos troca as voltas, vivamos as memórias da estação. Ouvir os pregões do homem das castanhas. Vê-las a saltar na brasa. Cinzentas e amarelas. Cheirá-las. Levar uma dúzia para casa. Saboreá-las. Matar a fome e chorar por mais.

11 de novembro de 2015

Castanhas e vinho do verão de São Martinho

José Malhoa, Festejando o São Martinho (1907)
[Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado]
     No dia de São Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho...
Provérbio popular
Corria o ano de 1504, quando Gil Vicente representou para a rainha D. Leonor de Lencastre o Auto de São Martinho. Tudo se pas-sou durante as festividades do Corpus Christi, provavelmente antes da procissão ter saído da igreja de Nossa Senhora do Pópulo, anexa ao hospital termal que a soberana fundara nas Caldas. A história sobejamente conhecida de todos foi contada em poucas palavras, porque, como confessa o dramaturgo na didascália final, a obra de devoção católica fora pedida muito tarde. Em onze oitavas decas-silábicas, repartidas por duas cenas, o Pobre lamenta-se da sua sorte de indigente e solicita a Martinho esmola, que reparte com o pedinte metade da sua capa. Tudo isto em castelhano, a língua de corte dos Avis-Beja durante pelo menos três quartos de século.

A lenda/milagre terá ocorrido em meados de novembro, altura em que os derradeiros calores estivais começam a ser rendidos pelos primeiros frios outonais. Meia estação conhecida por Verão de São Martinho. Para celebrar essa mudança gradual de temperaturas, costuma celebrar-se o magusto com castanhas assadas regadas com vinho novo ou água-. José Malhoa representou uma dessas festanças pagãs em honra de Dioniso-Baco, numa tela pintada a óleo em 1907. A popularidade que granjeou na época manteve-se intacta até aos nossos dias. Os excessos realistas documentados no quadro levaram a ser conhecido alternativamente como Os bêbados. Título adequado para descrever com uma imagem aquilo que as tais mil palavras seriam incapazes de traduzir cabalmente.