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29 de janeiro de 2024

Deixemos Eça falar da trasladação dos ossos dos velhos Jacintos de Tormes

 

«‒ Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar pronto, a reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os vivos!... Irra! São cinco de abril!... É o bom tempo da serra!»
Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucólica ociosidade que eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou então a cerimónia tão falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacintos – dos «respeitáveis ossos» como murmurava, cumprimentando, o bom Silvério, o procurador, nessa manhã de sexta-feira, em que almoçava connosco, metido num espan-toso jaquetão de veludinho amarelo debruado de seda azul! A cerimónia, de resto, reclamava muita singeleza por serem tão incertos, quase impessoais, aqueles restos, que nós estabeleceríamos na Capelinha do vale do Carriça, na Capelinha toda nova, toda nua e toda fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.

– Porque enfim Vossa Excelência compreende explicava o Silvério passan-do o guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as imensas barbas negras, como as dum turco –, naquela mixórdiaOh! peço desculpa a Vossa Excelência! Naquela confusão, quando tudo desabou, não pudemos mais co-nhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade, nós sabía-mos bem que dignos avós de Vossa Excelência jaziam na capela velha, assim tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso respeito, cer-tamente, mas, se Vossa Excelência me permite, senhores muito desfeitosDepois veio o desastre, a mixórdia. E aqui está o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo quantas as caveiras que se apanha-ram em baixo na Carriça, entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira em seu caixão. Depois... que quer Vossa Excelência? Não havia outro meio! E aqui o sr. Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilida-de. A cada caveira juntámos uma certa porção de ossos, uma porção razoá-velNão havia outro meioNem todos os ossos se acharam. Canelas, por exemplo, faltavam! E é bem possível que as costelas dum daqueles senhores ficassem com a cabeça de outroMas quem podia saber? Só Deus. Enfim fizemos o que a prudência mandavaDepois, no dia de Juízo, cada um destes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.

Eça de Queirós, A cidade e as serras (1901)
[Lisboa, Livros do Brasil, s.d., cap. ix, pp. 120, 165-166]

27 de novembro de 2023

Eça de Queiroz, do conto à novela, da civilização à cidade e as serras

«Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto), que nasceu num palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado. Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-Montes, espa-lhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fora sempre mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e transpa-rente, com um leito muito liso de areia muito branca, refletindo apenas pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens sempre verdes e de bom aroma, não ofereceria àquele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de champa-gne gelado mais doçura e facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto.»
Eça de Queiroz, Civilização (1892)
«O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, n.º 202.»
Eça de Queiroz, A cidade e as serras (1901)

Se nos perguntarmos até quando os escritos do passado serão imortais se deixarem de ser lidos, a resposta só pode ser dada pelas leituras/releituras efetuadas no presente. Uma recente série televisiva transmitida pela RTP levou-me a revisitar as cenas da vida devota do padre Amaro, compostas no início da carreira literária do introdutor do romance realista entre nós. Uma polémica descabelada centrada na trasladação dos restos mortais de Eça de Queiroz para o Panteão Nacional, trouxe-me ao convívio d'A cidade e as serras (1901), a tal «novela fantasista» publicada postumamente pela Lello & Irmão, com o contributo editorial de Ramalho Ortigão e Luís de Magalhães na decifração e revisão do manuscrito deixado inédito pelo amigo.

Regressar a esta título concreto é regressar também aos bancos do secundário e ao estudo do cânone oficial então vigente. Recordo-me que deste autor só era permitido aceder à história exemplar do empedernido amante das tentações citadinas gaulesas que se convertera à excelência das serranias lusitanas. Um conveniente aproveitamento do luminoso beatus ille* horaciano humanista do Renascimento transferido de mão beijada para o teatro de operações salazaristas do Estado Novo. Surpreendentemente, ao abrir o volume que guardo da obra, apercebi-me nunca o ter lido até então. Abrira-lhe cuidadosamente as folhas dobradas dos cadernos cozidos no livro com um adequado corta-papel e deixara-o  por sublinhar e livre de qualquer tipo de anotações. A viagem pelo seu interior revelou-me, então, que na escola onde cursara o ensino básico o/a docente se limitara a abordar a versão reduzida da parábola novecentista contida na Civilização (1892), um conto duma vintena e meia de páginas publicado avulso na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Melhor economia seria difícil de encontrar.

Poucas diferenças separam a trama contada da novelada, assentes num ou noutro pormenor de percurso e na natural de ampliação de quatro para dezasseis capítulos a que foi submetida. Em ambos os casos, o testemunho pessoal do amigo íntimo do protagonista reparte-se equitativamente pelos dois espaços cénicos anunciados no título do livro impresso. No palácio de Paris, os moderníssimos conferençofones, teatrofones, gramofones, fonógrafos e telégrafos são referidos e exaltados à exaustão, para logo de seguida serem apontados em contraponto os desastres humilhantes das torneiras dessoldadas, dos elevadores emperrados, dos vapores encolhidos e da eletricidade sumida. No solar de Tormes, todos os contratempos citadinos se esvaem perante a simplicidade bucólica das serranias durienses. A densa névoa de tédio, os ocos bocejos de fastio e o embaraço de viver do supercivilizado Jacinto desaparecem mal pisa as terras de singela tranquilidade campestre e mergulha na idílica paisagem-berço dos seus avoengos, cujas ossadas se prontificara tresladar para a nova capela da Carriça. Em boa hora se mudara da cidade de exílio para a serra ali, onde acabará por se casar, gerar filhos e ser feliz. O happy end supremo a que poderia aspirar.

Lidos/relidos os livros, realço o episódio do peixe famoso da Dalmácia encalhado no elevador dos pratos do Palácio dos Campos Elísios, n.º 202 em Paris, o único que recordo com alguma precisão do meu contacto juvenil com a obra contada/novelada em ambiente escolar. Creio que, nos dias de hoje, juntarei às minhas memórias vindouras a ironia/sarcasmo do autor no relato minucioso os preparativos para o translado fúnebre dos restos dos Jacintos de Tormes para um novo jazigo erigido à sua importância senhorial. Terei ocasião de voltar a estas páginas de Eça de Queiroz quando os seus próprios despojos mortais forem depositados na antiga igreja de Santa Engrácia em Lisboa. As controvérsias familiares já por andam algum tempo. Aguardemos então o desfecho das guerras de alecrim e manjerona, sigamos atentamente o decorrer dos eventos e imaginemos o riso do glorificado ao papelão desempenhado por alguns dos seus bisnetos e outros tantos figurantes subalternos de segundas águas na facécia funerária representada ao vivo nos nossos dias. 

NOTA
(*) - «Beatus ille qui procul negotiis, | ut prisca gens mortalium | paterna rura bobus exercet suis, | solutus omni faenore, | neque excitatur classico miles truci | neque horret iratum mare, | forumque vitat et superba civium | potentiorum limina.»  Horatius, Epodi, 2,1 (30 AEC)

«Feliz é aquele que, longe dos negócios, | Como a antiga raça dos homens, | passa o tempo a trabalhar nos campos do pai com os seus próprios bois, | livre de todas as dívidas, | e não acorda, como o soldado, ao ouvir a trombeta sangrenta da guerra, | nem ele tem medo da ira do mar, | ficando longe do fórum e dos limiares arrogantes | de cidadãos poderosos.» Horácio, Épodos 2,1 (30AEC)

17 de outubro de 2023

Que fazer com estes livros...

Maria Helena Vieira da Silva
La bibliothèque - 1966

[Centre Pompidou, Paris - 
Musée des Beaux-Arts, Nantes]
«A biblioteca que em duas salas, amplas e claras como praças, forrava as pare-des, inteiramente, desde os tapetes de Caramânia até ao teto de onde, alternada-mente, através de cristais, o sol e a eletricidade vertiam uma luz estudiosa e cal-ma  continha vinte e cinco mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. sistemas filosóficos (e com justa prudên-cia, para poupar espaço, o bibliotecário apenas colecionara os que irreconcilia-velmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezessete! 
   Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, bus-cando este economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras essenciais da inteligência  e mesmo da estupidez. E o único inconvenien-te desse monumental armazém do saber era que todo aquele que penetrava, inevitavelmente adormecia, por causa das poltronas, que, providas de finas pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de ca-fé, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o corpo encontrava logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada dum leito.»
Eça de Queiroz, Civilização (1892)
Livros, livros, livros...
Toda a vida juntei livros. Nunca me desfiz de motu proprio de nenhum. Dia após dia, ano após ano, década após década, alojei-os nas estantes da sala, na mesa de cabeceira, nas prateleiras das marquises, no móvel do portátil, no armário da casa de banho, em gavetas soltas, junto aos sofás, por cima das cadeiras, debaixo da cama, em todos os recantos escusos da casa.

Pouco a pouco, passo a passo ante pé, os livros vão-se reunindo em surdina nos locais mais díspares onde ainda vão cabendo, em fila de espera para serem lidos e arrumados, lado a lado, por tamanhos e temáticas, uns à frente outros atrás, uns por cima outros por baixo, uns de pé outros deitados, até empilhados pelo chão a aguardar impacientes um alojamento adequado e à medida.

Livros comprados, dados, herdados, editados, repetidos, compostos em vários idiomas. Livros pedagógicos que insisto em manter não sei muito bem porquê ou para quê. Livros lidos e relidos, recebidos por legado direto/indireto de amigos que começaram a desfazer-se das suas bibliotecas pessoais ao sentirem chegar o momento de dizer adeusUma vida a reuni-los, uma morte a separá-los.

Olho para os livros que me olham de onde estão para onde estou e pergunto-me o que fazer/farão com todos eles. Sem soltar uma palavra audível, respondem-me que os abra, leia e releia, se for caso disso, que um livro fechado morre lentamente se não o abrirmos de vez em vez por quem os escolheu, anotou, comentou, sublinhou, manteve ao longo dos tempos. É isso mesmo que faço.

28 de fevereiro de 2023

Eça de Queiroz, as cenas da vida devota e o crime do padre Amaro

«– Que queres tu? Ele tem para as mulheres, como homem, paixões e órgãos; como confessor, a importância de um deus. É evidente que há de utilizar essa importância para satisfazer essas paixões; e que há de cobrir essa satisfação natural com as aparências e com os pretextos do serviço divino... É natural.»
Eça de Queiroz, O crime do Padre Amaro (1875)

Entre 16 de janeiro e 20 de fevereiro do corrente ano de 2023, a RTP1 brindou-nos com uma adaptação televisiva d'O crime do Padre Amaro (1875) de Eça de Queiroz em seis episódios de 50 minutos cada, ainda disponíveis na página oficial do canal público. Nas antevésperas da estreia da série, larguei o terceiro volume da Recherche do Proust, adiei a leitura da Misericórdia da Lídia Jorge e terminei de fugida a minha visita aos Vientos do Vargas Llosa  que me perdoem os três ‒ e pus-me a reler pela enésima vez a obra inaugural do Realismo português. Fi-lo num velho exemplar que guardo desde meados dos anos 70, dado à estampa pelos Livros do Brasil com fixação de texto e notas de Helena Cidade Moura, tendo ultrapassado a patine do tempo com uma máscara cirúrgica remanescente do Covid-19. O cheiro a tinta dos livros impressos é muito motivador mas está, também ele, sujeito a um inexorável prazo de validade.  

Li algures que Leonel Vieira teria seguido a primeira versão em livro do romance, efetuada logo após o autor ter refundido linha a linha o texto publicado à sua revelia pela Revista Ocidental um ano antes. Muito embora desconheça as variantes de 1875 e 1876, é pouco plausível que assim seja, dado que as lacunas/ampliações detetadas à edição definitiva totalmente refeita de 1880 devem ser tidas como meras liberdades criativas dos guionistas que as prepararam e do realizador que lhes deu a forma fílmica oferecida aos telespetadores. A carga erótica emprestada a algumas cenas mais ousadas estará nesse número de desvios referidos, opção tomada a pensar sobretudo na conquista de audiências confortáveis que, segundo julgo saber, terão sido medianamente alcançadas. Como nota final, anuncia-se ainda a próxima chegada à cidade dum tal Eça de Queirós, referido como um recém-licenciado de Coimbra nomeado administrador do concelho de Leiria. O real e o imaginário de mãos dadas para dar um cunho documental ao relato.

Sobre O crime do Padre Amaro se disse tudo ou quase tudo e não é suposto que se diga muito mais. O olhar crítico lançado à sociedade portuguesa oitocentista da Regeneração, pautada pela hipocrisia, corrupção e dogmatismo, domina toda a tessitura narrativa. Centra-se para tal nos costumes eclesiásticos praticados numa pacata cidade provinciana pelo clero e beatério locais, acolitados pela corte curial a si associados, numa junção dramática já patente no subtítulo eleito pelo autor para lhe dar corpo, as sugestivas Cenas da vida devota. O quadro experimental da peça representada inicia-se quando um jovem sacerdote diocesano se envolve emocionalmente com a filha casadoura da sua hospedeira. Nos atos imediatos à sedução, entra em vias de facto, engravida-a e sai airosamente do palco como se nada tivesse acontecido. Deixa atrás de si um rasto de morte que pouco o terá afetado. Limita-se a mudar de paróquia e ponto final.

A leitura do romance foi mais rápida do que o visionamento da série. Era de esperar que assim fosse. A magia da escrita de Eça continua a cativar-nos sempre que voltamos à sua companhia. O século e meio que nos separa apaga-se instantaneamente. As palavras saltam das páginas do exemplar que temos entre mãos num fluxo imparável como se estivessem a ser ditas pela primeira vez. A atualidade das temáticas tratadas é gritante, muito embora a natureza dos crimes cometidos pelo clero nos nossos dias esteja a anos-luz de distância dos praticados no tempo do Padre Amaro. A realidade que nos rodeia é bem pior do que a retratada na ficção. As notícias que nos vão sendo revelados pelos mass media do III.º milénio são muito pouco animadoresO problema do celibato e da sexualidade é tão antigo como o Primeiro Concílio de Latrão que o impôs no distante séc. XII. quem aponte outras causas mas a repressão dos pulsões naturais da condição humana em nome duma qualquer religião estará sempre na origem ainda que remota de tais condutas desviantes. Que a questão fique no ar e que não nos cansemos de encontrar formas de o entender e superar. Neste campo, os livros e os filmes têm um papel precioso a desempenhar. Apelemos à máxima queirosiana e esperemos que sobre a nudez crua da verdade, o manto diáfano da fantasia se vá cumprindo.