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6 de fevereiro de 2025

Elena Ferrante, história de maturidade e velhice napolitana e da menina perdida

«Se una creatura di pochi anni muore, è morta, è finita, presto o tardi ci si rassegna. Ma se scompare, se non se ne sa più niente, non c’è una cosa che resti al poso suo, nella tua vita. Non tornerà più o tornerà? E se ritornerà, ritornerà viva o morta? Ogni momento ti domandi dov'è. Fa la zingarella per strada? Sta a casa di gente ricca senza figli? Le fanno fare cose brutte e poi vendono le fotografie e i film? L'hanno squartata e hanno ceduto a caro prezzo il suo cuore per metterlo dentro il petto di un altro bambino? Gli altri suoi pezzi stanno sotto terra, li hanno bruciati? O sotto terra ci sta intera, perchè è morta incidental-mente dopo che l'hanno rapita? E se la terra e il fuoco non se la sono presa, e lei sta diventando grande chissà dove,che aspetto ha adesso? Come diventerà in seguito? Se la incontreremo per strada la riconosceremo? E se la riconosceremo chi ci ridarà tutto quello che abbiamo perso di lei? Tutto quello che è successo quando non c'eravamo e lei, che era piccola, si è sentita abbandonata?»
Elena Ferrante, Storia della bambina perduta (2014)

Cheguei ao final do percurso de vida de duas meninas napolitanas que sonhavam escrever um livro para serem famosas e ricas. Uma redigiu «A fada azul», um conto infantil de meia dúzia de páginas, a outra um romance de sucesso com um título desconhecido. A primeira era ainda uma criança, a segunda era já uma adolescente e tornou-se numa autora bem-sucedida com o passar dos anos, senhora duma vasta obra traduzida para diversos idiomas. Sabemo-lo em pormenor nesta quarta etapa da saga das amigas geniais, aquela a que Elena Ferrante chamou História da menina perdida (2014), centrada num episódio de feição trágica, que, de certo modo, poria termo decisivo à convivência de décadas de Elena Greco e Raffaela Cerrullo e por arrastamento do próprio relato em si.

Ao invés das tetralogias temáticas gregas do período ático antigo, não encontramos nesta versão fictícia moderna composta em italiano um conjunto sequencial de três tragédias de cariz marcadamente soturno seguido dum drama satírico ligeiro que amenizaria o clima sinistro da peça na sua totalidade. É que no quotidiano real tratado no quarteto romanesco, as alegrias e tristezas, o amor e o ódio, a vida e a morte andam sempre a par e passo, de mãos dadas, não se fixando hermeticamente num único género poético pré-definido. Há lugar para todos eles e miudamente em simultâneo, máxime quando se está perante um fluxo enunciativo de sete décadas, iniciado logo após a Segunda Guerra Mundial e concluído já entrados num novo século e milénio. O devir histórico do país transalpino com forma de bota está integralmente espelhado nas 1375 páginas repartidas por quatro grossos volumes, a que não faltarão alusões q.b. ao restante destino europeu e universal.

Nesta história duma menina perdida anunciada logo na capa do livro, há também essa outra história da coprotagonista desaparecida. Aliás, o ponto de partida que motivou a escrita dos percursos de vida de toda uma geração plena de indivíduos oriundos dum bairro não identificado da capital da Campânia, distribuídos por uma dezena de famílias devidamente arroladas no índice de personagens que antecede o tecido narrativo propriamente dito. se sintetiza, de igual modo, os sucessivos tratos feitos/desfeitos por que cada uma dessas figuras imaginárias de papel e tinta com direito a nome, apelido, profissão, estado civil e demais traços pessoais que os distinguem entre si. Referidos ainda meses e anos de nascimento, relações matrimoniais e extraconjugais, namoros, uniões de facto e separações, filiação política e convicções religiosas, notícia da sua morte e causas que a provocou. Não faltam as saídas de cena por assassinato, suicídio, doença ou velhice. Nada que não pudesse ocorrer em qualquer outra parte do mundo, que, segundo a entidade efabulativa, apresentava um claro movimento de desmoronamento da ordem até então vigente, revelando novas realidades a esconder males antigos.

Concluída a longa caminhada feita com palavras sobre o historial das duas amigas geniais, as que mudaram de nome ao casarem-se para de seguida o largarem ao separarem-se, da que ficou em Nápoles quanto a outra foi para Florença-Génova-Milão-Pisa para depois regressar às origens e voltar a partir, da que ao perder uma filha se perdeu completamente e desapareceu de cena para destino incerto e nunca revelado, após todo este corre-corre pelas quatro etapas da corrida, fica-se com a sensação de se estar na presença dum longo processo investigativo que cabe na tipologia genérica dum romance policial com desfecho imprevisível. Desconhece-se o paradeiro final da perita em informática, filha do sapateiro do bairro e ex-mulher dum bem-sucedido comerciante alegadamente ligado à Camorra local, mas percebe-se as razões pelas quais resolveu desaparecer da vista de todos aos 66 anos de idade. O ter podido concretizar essa sua recorrente paranoia de perder os contornos como se tratasse numa suave brisa desfeita inevitavelmente no ar. A única obra da emissora interna com direito a um título revelado, o conto «Uma amizade», funciona em toda a explanação como uma verdadeira síntese da obra monumental composta pela emissora externa. Um retrato muito fiel dum recanto muito particular da realidade italiana nascida no pós-guerra mundial a fazer a ligação com o nosso dia a dia globalizado.

 

EPÍGRAFE
«Se uma criatura de poucos anos morre, está morta, está morta, acabou, mais cedo ou mais tarde resignamo-nos. Mas se desaparece, se não se sabe mais nada dela, não há nada que fique no seu lugar, na sua vida. Nunca mais voltará, ou voltará? E quando voltar, volta viva ou morta? A cada momento te perguntas onde ela está. Anda pelas ruas feita cigana? Está em casa de gente rica sem filhos? Obrigam-na a fazer coisas terríveis e depois vendem as fotografias e os filmes? Esquartejaram-na e venderam por bom dinheiro o seu coração, para meter no peito de outra criança? os seus outros bocados estão debaixo de terra, queimaram-nos?  Ou está debaixo de terra inteira, porque morreu acidentalmente depois de a raptarem? E se nem a terra nem o fogo a receberam e ela está a crescer sabe-se lá onde, que aspeto tem agora, que aspeto terá depois, se a encontrarmos na rua reconhecemo-la? E se a reconhecermos, quem é que nos devolve tudo aquilo que perdemos dela, tudo aquilo que aconteceu quando não estávamos e ela, que era pequena, se sentiu abandonada?»
Elena Ferrante, História da menina perdida.

30 de dezembro de 2024

Elena Ferrante, histórias do tempo intermédio de quem vai e de quem fica

«Andarsene. Filar via definitivamente, lontano dalla vita che avevamo speri-mentato fin dalla nascita. Insediarsi in territori ben organizzati dove davvero tutto era possibile. Me l'ero battuta infatti. Ma solo per scoprire, nel decenno a venire, che mi ero sbagliata, che si trattava di una catena con anelli sempre più grandi: il rione rimandava alla città, la città all'italia, l'Italia all'europa, l'europa a tutto il pianeta. E oggi la vedo cosi: non è il rione a essere malato, non è Napoli, è il globo terrestre, è l'universo, o gli universi. E l'abilità consiste nel nascondere e nascondersi lo stato vero delle cose.»
Elena Ferrante, Storia di chi fugge e di chi resta (2013)

Na natureza, um rio inicia sempre o seu curso numa nascente e corre depois a maior ou menor velocidade para a foz. Tudo começa, regra geral, no alto duma montanha e termina invariavelmente numa zona baixa junto ao mar. Entre o partir e o chegar, vai ganhando caudal com os eventuais afluentes encontrados no caminho. Na literatura, os chamados romans fleuve também traçam percursos semelhantes, sobretudo naqueles em que se traça com todo o vagar disponível do mundo o nascimento-vida-morte duma personagem ou dum conjunto delas, ligadas entre si por um qualquer tipo de amizade, rivalidade ou camaradagem, em que os laços de sangue por vezes presentes desempenham um papel muito variado.

É o que se passa, de certo modo, com as duas amigas retratadas por Elena Ferrante na Tetralogia Napolitana. O grande rio narrativo formado pelos itinerários de Lila Cerrullo e de Lena Greco encontra no seu trajeto uma ou várias ilhas de permeio que o subdivide em dois braços discursivos autónomos, repartidos alternadamente por diversos capítulos. Tanto o caudal central como os laterais recebem outros riachos menores, constituídos pelas vidas individuais/coletivas dos vários núcleos familiares presentes na saga. Rios e afluentes surgem devagar na «infância» e «adolescência» das heroínas [vol. i], ampliam-se na «juventude» [vol. ii], particularizam-se no «tempo intermédio» [vol. iii] e caminham a passos largos para a «maturidade» e «velhice» [vol. iv]. Esse destino final, porém, só o conheceremos quando abrirmos a etapa final da saga, aquela em que a morte talvez visite uma das figuras nucleares, que só pode a da narrada, já que a narratária se terá de manter viva para manter a coerência realista até então seguida sem a atraiçoar.

Fiquemos, entretanto, na História de quem vai e de quem fica (2013), i.e., na história paralela da narradora-protagonista, que se mudou para Florença depois de casada, e na história da deuteragonista-narrada, que ficou em Nápoles nesta terceira fase da série. As suspeitas de se tratar duma espécie de autobiografia da autora avolumam-se a cada passo, ínvias de aferir, por se ignorar a sua identidade. Esta não ousa revelar as suas coordenadas pessoais, talvez por temer um confronto com os nomes/apelidos dados às personagens maiores/menores da ficção por si urdida, aquelas que, por definição, tanto lhes faria serem chamados dum modo ou doutro. Tão pouco se fica a saber de ciência segura em que bairro da periferia napolitano situou o núcleo central da ação. Dizem tratar-se de Rione Luzzatti, um subúrbio pouco turístico que não me recordo de ver referido no livro. Lapso meu, por certo, ou fantasia de alguns visitantes da cidade, prováveis exploradores do tal túnel-fronteira que o isolará decisivamente da restante teia urbana.

Intencionalmente ou não, Elena-Ferrante/Greco omite o título dos dois romances que a criadora interna da crónica napolitana compôs. Em contrapartida, não se coíbe de registar os ecos das críticas então tecidas a seu respeito, as elogiosas e as hostis, idênticas às que atualmente se veem registadas nos meios de comunicação com expressão global a propósito da obra que temos entre mãos. Uma autorreferência disfarçada volta a ser uma conjetura muito forte a ter em atenção. Pouco importa. O sucesso editorial dos dois corpos literários resulta uma realidade inquestionável, com caminho aberto à tradução e à divulgação fora das lindes italianas. Em literatura, tudo é simultaneamente um ser/não-ser indissociáveis em todas as linhas. Os resultados plasmados na receção duma obra depende de muitas subjetividades, entre as quais sobressaem as expressas pelos leitores, as únicas entidades capazes de transformar um bestseller numa obra-prima. Contemos com essa realidade.  
EPÍGRAFE
«Ir embora, isso sim. Pirarmo-nos dali para sempre, para longe da vida que havíamos vivido desde que nascêramos. Fixar-nos em  sítios bem organizados onde tudo fosse realmente possível. Eu conseguira pôr-me a andar. Mas viera a descobrir, nas décadas que se seguiram, que me enganara, que se tratava duma  corrente cujos elos eram cada vez maiores: o bairro remetia para a cidade, a cidade para a Itália, a Itália para a Europa, a Europa parta todo o planeta. E hoje vejo as coisas assim: não é o bairro que está doente, não é Nápoles, é o globo terrestre, é o universo, ou os universos.» 
Elena Ferrante, História de quem vai e de quem fica,. Lisboa, Relógio d'Água (19)

30 de setembro de 2024

Elena Ferrante, história da infância e da adolescência napolitana da amiga genial

«Feci un risolino nervoso, poi dissi: “Grazie, ma a un certo punto le scuole finiscono”.
“Non per te: tu sei la mia amica geniale, devi diventare la più brava di tutti, maschi e femmine”.
Si alzò, si tolse mutande e reggiseno, disse: “Dài, aiutami, che sennò faccio tardi”».

Data de muito o meu conhecimento da existência de Elena Ferrante, nome enigmático ou pseudónimo de conveniência duma autora sem rosto visível, sem voz audível, sem corpo tangível. Os ecos discretos que até mim foram chegando diziam-me ser senhora duma escrita prodigiosa, duma vasta fluência discursiva, duma inesgotável capacidade criativa. Geradora dum número crescente de bestsellers traduzidos em inúmeros idiomas e países, ganhadora de prémios dentro e fora das fronteiras italianas, converteu-se a passos largos num dos grandes fenómenos literários ocidentais nascidos na mudança de século e de milénio. Por todas essas razões, resisti um pouco a escolher um livro seu, a lê-lo sem reservas de fio a pavio e a comentá-lo no final sem juízos de valor pré-concebidos. Resolvi-me a fazê-lo agora em tempo de férias de verão. Fui vencido por um impulso pouco habitual em mim. Dei com a A amiga genial (2011) a olhar-me de perfil numa bancada da Fnac local, ladeada por um conjunto de textos com a sua chancela, entre os quais se encontravam os comparsas da designada Tetralogia Napolitana. Fiquei-me pelo título inaugural da série. Os restantes ficarão de reserva à minha espera nessa livraria ou numa outra por onde os meus olhos os forem descortinando, à medida que a leitura me for motivando a prosseguir a viagem pelo seu interior.

O mergulho profundo no universo emblemático das sagas clássicas é imediato. Acontece num ápice mal abrimos o tomo inaugural da obra e nos deparamos com o completo Índice das Personagens que tudo leva a crer terão um papel decisivo na trama ainda por contar. Parece funcionar ao modo da indicação do elenco participante numa peça teatral ou como uma ajuda suplementar da entidade narrativa aos potenciais recetores externos. É sensato que não se percam num elenco constituído por meia centena de atores com direito a nome, apelido e um ou outro diminutivo, distribuídos por uma dezena de famílias, grupo de professores e outros figurantes secundários. Em termos didascálicos, as suas práticas laborais traçam-nos outrossim os cenários em que os dramas pessoais por si protagonizados se foram representando. Nesta enumeração exaustiva, encontra-se Elena Greco, a narradora de primeira pessoa, cuja centralidade na ação partilha com Raffaella Cerullo, a sua maior amiga. A história das duas, Lenuccia/Lenù e Lina/Lila, como também são chamadas, principia quando se cruzam na escola primária e tudo indica se manterá ativa pela vida fora.

A urdidura estrutural da tetralogia romanesca distribui-se por quatro largos atos ou ciclos existenciais (Infância-Adolescência, Juventude, Tempo Intermédio e Maturidade-Velhice), agregando cada um deles um grupo variável de cenas adicionais, devidamente ladeados por um prólogo e um epílogo devidos. Os núcleos familiares do sapateiro, porteiro, charcuteiro, mecânico, ferroviário-poeta, vendedor de fruta, barista-pasteleiro e farmacêutico, desenvolvem as suas atividades enquanto dão curso ao seu dia a dia quotidiano num bairro limítrofe de Nápoles, com algumas passagens pela grande cidade e uma incursão estival da relatora na ilha de Ischia. Entre o alfa e o ómega da primeira etapa, os intervenientes seguem os estudos académicos que o seu extrato social permite ou apetência intelectual exige, estabelecem relações de amizade/rivalidade próprias da idade, seguem/recusam os ofícios ancestrais dos progenitores, tentam singrar nos escolhos difíceis dum contexto geracional vizinho da segunda guerra mundial, crescem, amadurecem, estabelecem-se, namoram, casamNada de mais no quadro do neorrealismo italiano típico. Preparam, em suma, os novos desafios que a etapa adulta lhes propuser, tal como as parcelas seguintes da crónica coletiva onde se abrigam revelem na altura certa.

O desfile das pequenas/grandes sequências autobiográficas entram abruptamente em palco, quando o filho quarentão de Lila Cerullo telefona a Lenù Greco a informá-la do desaparecimento da mãe, havia já duas semanas, e a solicitar ajuda para a localizar. O pedido fica por satisfazer, dado o claro desinteresse da interpelada, que, ao invés, o aconselha a aprender a viver sozinho. Decide, então, recorrer às suas memórias antigas de sessenta anos para passar a escrito os principais momentos vitais que haviam traçado juntas, decidindo-se a revelar a razão pela qual a sua cúmplice expressara em dada ocasião a vontade de sumir de vez sem deixar rasto atrás de si. O leitmotiv efabulativo estava lançado para a tarefa de explicar esse desidério extremo. Ponto de partida também para lançar as pistas sobre a sua genuína identidade. No final do relato, fica-se na dúvida de saber de fonte segura quem é de entre as duas a amiga genial. Provavelmente ambas, na perspetiva cruzada tanto duma como doutra. A técnica do suspeição comum nos folhetins jornalísticos ou telenovelas televisivas fica no ar. Um incentivo para prosseguir as leituras desta primeira entrega ao domicílio dum texto feito à medida da literatura de cordel, mas com qualidade poética q.b. para merecer a pena a viagem de descoberta pelo seu interior.

12 de setembro de 2024

Marcel Proust, quarta busca do tempo perdido entre Sodoma e Gomorra

« Ainsi les hommes peuvent avoir plusieurs sortes de plaisirs. Le véritable est celui pour lequel ils quittent l'autre. Mais ce dernier, s'il est apparent, ou même seul apparent, peut donner le change sur le premier, rassure ou dépiste les jaloux, égare le jugement du monde. »

Até ao momento, tenho voltado todos os anos à companhia do Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Tenho-o feito nos meses mais calmos das férias de verão, alternando os banhos de sol e mar com os mergulhos centrados nas centenas de páginas de cada um dos painéis mais ou menos autónomos da Heptalogia do grande contador de histórias gaulês. Nesta volta, atirei-me ao Sodoma e Gomorra (1921-1922), publicado na origem em duas partes avulsas, reunidas agora num volume único da Folio Classique, editado por Antoine Compagnon, que também o anotou profusamente, resumiu capítulo a capítulo e organizou um completo dossier documental e bibliográfico. Por este andar e ritmo, ainda terei de realizar algumas viagens mais no próximo triénio até concluir o percurso total da obra lá nesse distante horizonte onde se reside O tempo reencontrado.

Depois de ter avivado as reminiscências dos verdes anos viradas para o lado dos Swann [TI], de ter flanado à sombra das jovens na fina flor da idade [T. II] e de se ter voltado para a banda dos Guermantes [TIII], o narrador anónimo da viagem autobiográfica foca-se no universo homoerótico dos homens-mulheres, oriundos das cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra, poupados ao castigo divino do fogo/enxofre caído do céu [TIV]. O caso Dreyfus (1894-1906) muitas vezes aludido no relato está no seu auge, a marcar a viragem do século (1900), ponto fulcral da Belle Époque (1870-1914) e da Art Nouveau (1890-1920). É neste contexto de grande protagonismo da cultura francesa no mundo que a ação decorre e se acerca de todos os leitores que continuam a seguir as memórias do narrador a servirem de respaldo aos fantasmas secretos experienciados pelo autor real de histórias imaginadas.

A etapa dos vinte e poucos anos do protagonista-relator é passada entre Paris e Balbec, completada por uma intensa peregrinação pelas imediações da estância balnear normanda. Os comboios locais e regionais, as deslocações em viaturas de atração animal ou automóvel são frequentes. Os companheiros de percurso, convívio ou permanência nos espaços cénicos são os mesmos de sempre. Uma parada constante de duques e duquesas, de príncipes e princesas, no meio de muitos outros titulares da mais alta extração hierárquica em pleno período da Terceira República (1870-1940). Em cada uma das quase sete centenas páginas das alegadas memórias involuntárias trazidas à colação, o snobismo, arrogância, futilidade, pedantismo e altivez pululam, a caraterizar o mundo da frivolidade, aparência, ostentação, cinismo e soberba da alta aristocracia sobre a baixa, da grande burguesia sobre a pequena, dos ricos sobre os pobres. Com boa vontade, podemos ver aqui e ali uma fina ironia, sátira ou crítica mais ou menos discerníveis do autor, caso não caísse involuntariamente nos mesmos defeitos de que era acusado fora do universo fingido dos romances.

As principais linhas condutoras da trama são fáceis de traçar e estão ancoradas na relação oscilante do narrador por Albertine, na atenção cruzada desta por uma ou outra das suas amigas mais chegadas e na atração libidinosa do Barão de Charlus pelos efebos caídos na sua esfera de interesse. Sintetizando, amores/desamores contados intermitentemente ao correr da pena, para dar espaço às inúmeras tiradas repletas de frases longas, períodos extensos e parágrafos gigantescos da fabulação. A falta duma tessitura narrativa continuada é compensada pelas digressões/reflexões infindas sobre arte, letras, música, política, filosofia, religião, genealogia, etimologia, viagens, geografia, toponímia, medicina, divisas e outros assuntos, com um especial destaque para o designado vício anormal e imoral dos invertidos, sejam eles homens ou mulheres.

Desconhece-se o nome do memorista deste imenso retábulo formado por sete imensas telas temporais de vidas vividas e a viver. Bem se podia chamar Marcel, tal como o romancista que o trouxe à luz do dia, substituindo-se o Proust por um qualquer apelido de fantasia literária. É que a fusão da ficção e do factual são por demais evidentes nesta manta de retalhos de eventos pretéritos registados em formas de escrita impressa nas folhas em branco duma existência de faz de conta. Talento não lhe faltou para pintar com palavras o políptico duma existência singular, idêntica a tantas outras, só lhe tendo faltado a coragem para assumir num cenário real os traços menos recomendáveis atribuídos aos atores trazidos à ribalta na manha gráfica dum livro. Bem vistas as coisas, ainda bem que os pruídos vigentes na época o levaram a tomar essa decisão. Ficamos todos a ganhar. Sobretudo aqueles que, como eu, ainda acreditam no prazer ilimitado da leitura. E venham os próximos episódios, que a busca do tempo perdido ainda tem muito para desvendar.

18 de abril de 2023

Marcel Proust, terceira busca do tempo perdido pelo caminho de Guermantes

« Dans la maison que nous étions venus habiter, la grande dame du fond de la cour était une duchesse, élégante et encore jeune. C'était Mme de Guermantes, et grâce à Françoise, je possédai assez vite des renseignements sur l'hôtel. Car les Guermantes (que Françoise désignait souvent par les mots de  en des-sous ,  en bas ) étaient sa constante préoccupation depuis le matin où, jetant, pendant qu'elle coiffait Maman, un coup d'œil défendu, irrésistible et furtif dans la cour, elle disait :  Tiens, deux bonnes sœurs ; cela va sûrement en des-sous  ou :  Oh ! les beaux faisans à la fenêtre de la cuisine, il n'y a pas besoin de demander d'où qu'ils deviennent, le duc aura-t-été à la chasse , jusqu'au soir où, si elle entendait, pendant qu'elle me donnait mes affaires de nuit, un bruit de piano, un écho de chansonnette, elle induisait :  Ils ont du monde en bas, c'est à la gaieté  ; dans son visage régulier, sous ses cheveux blancs maintenant, un sourire de sa jeunesse animé et décent mettait alors pour un instant chacun de ses traits à sa place, les accordait dans un ordre apprêté et fin, comme avant une contredanse. »
Marcel Proust, Le côté de Guermantes (1920-1921) 

De vez em quando, ganho coragem e dá-me uma vontade imensa de encetar uma nova busca do tempo perdido e aproximar-me, assim, do almejado tempo reencontrado no final da longa pesquisa efetuada ao longo de muitas centenas/milhares de páginas, idealizada por Marcel Proust entre 1908/1909-1922. Lidas as partes, capítulos, parágrafos e períodos dos livros que compõem a obra, fico satisfeito de o ter feito e tiro uns meses de sabática para recobrar forças até um novo incurso nos tomos ainda em falta. Cabe-me desta feita assentar arraiais no terceiro painel do políptico, dedicado às duas etapas desenhadas d'O lado de Guermantes (1920-1921).

O projeto memorialista tecido em forma de romance autobiográfico aproxima-se a passos largos da mudança de século. Entre 1897 e 1899, o narrador-herói-protagonista anónimo rondaria os 19-21 anos e preparava-se para fruir a derradeira fase da adolescência. Depois de ter passado a idade dos nomes [T. I] e a idade das palavras [T. II], traça-nos o seu deambular minucioso pela idade das coisas [T. III]. Máxime, toda a trama narrativa está focada no fascínio sentido pelo jovem relator desde a mais tenra infância pela Duchesse Oriane de Guermantes. Os encantos aristocráticos dessa figura insigne da Belle Époque parisiense (1871-1914) levam-no a experienciar o advento, evolução e extinção duma paixão idealizada sem futuro à vista. O mundo do sonho alimentado na primeira parte do relato [G. I] lugar na segunda [G. II] à realidade pragmática nua e crua dos factos.

Os caminhos que movem o memorista ao convívio dos Guermantes é também a história da sua ascensão mundana no universo duma boa centena e meia de príncipes e princesas, duques e duquesas, marqueses e marquesas, condes e condessas, barões e baronesas, frequentadores assíduos dos salões de moda do Faubourg-Saint-Honoré. Cerca de duas centenas da velha e nova nobreza gaulesa remanescente do Ancien Régime e da Monarquia Constitucional real e imperial, em plena vigência da Terceira República (1870-1940), minuciosamente apresentada, descrita e comentada pela instância enunciativa de primeira pessoa. Este testemunho poderá também ser entendido como um documento precioso de época, centrado de forma insistente no affaire Dreyfus, um conflito social e político que agitou a sociedade francesa por doze largos anos (1894-1906), dividindo-a em dois campos visceralmente opostos, os dreyfusards e os antidreyfusards, i.e., os defensores da inocência ou da culpa de traição do capitão alsaciano de origem judaica.

Fala-se muito no snobismo diletante de Marcel Proust, ao pintar com palavras escritas cada uma das sete tábuas do retábulo. O emissor externo de La recherche du temps perdu tanto se confunde com o cronista interno sem nome revelado das histórias contadas, como com os intervenientes trazidos à boca de cena, oferecendo ao leitor um quadro social preciso a que os anais de finais de oitocentos deu corpo. A futilidade, a frivolidade, a superficialidade, o pedantismo, a vaidade, o preciosismo e a ociosidade estão todos representados nos diversos episódios escolhidos para dar corpo a este segmento da heptalogia. A mudança e instalação em Paris, o fascínio pela duquesa de Guermantes, o convívio fraterno com Saint-Loup na guarnição de Doncières, as receções de Mme de Villeparisis, a visita ao excêntrico barão de Charlus ou a doença e óbito da avó ‒ entre outros eventos mundanos/familiares de maior ou menor dimensão discursiva ‒ são exemplo da morte inexorável da infância a abrir caminho para as restantes estafetas de vida que a saga nos trará. Mas essa descoberta virá mais tarde. Talvez nas férias de verão, quando os dias são mais extensos e as horas de leitura se alongam no tempo.