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9 de maio de 2024

Cafés e cafetarias na Europa de Steiner

Εὐρώπη | Eúrṓpē

A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».

George Steiner, A Ideia de Europa (2006: 26)

NOTA
A celebrar a Europa no dia que lhe é dedicado

5 de agosto de 2021

As lições dos mestres carismáticos

Accademia di Platone ad Atene
Mosaico da villa di T. Siminius Stephanus a Pompei 
(c. séc. )
[MuseoNazionale Archeologico di Napoli]

«A profissão de professor [...] compreende numerosas tipologias que vão desde a do pedagogo destruidor de espíritos à do Mestre carismático.»
George Steiner, As lições dos mestres (2003)

1. Letras & Números
Soube dias que o Prof. Dinis morrera, ao que me foi dado saber num acidente de viação, desconheço exatamente quando. Rondaria agora os noventa e picos. Durante muito tempo, tive vontade de rever o meu mestre-escola da Primária. Nunca calhou. Não voltei a saber nada dele. Nem sequer me lembro do apelido. Difícil de o encontrar na Net. Iniciou-me nas Letras e nos Números e demais artes do trívio e do quadrívio. Recordo-o vestido a rigor de príncipe de gales, sempre de gravata e sapatos superengraxados. Por alguma razão era conhecido por Manequim Inglês. Podia ser pior.

2. Língua & História
tempos, dizia eu a um amigo, num diário em rede que quando estava a ler pela enésima vez As lições dos mestres de George Steiner, me lembrara do Dr. Bento Monteiro, meu professor no Secundário de Língua e de HistóriaNa altura perguntei-me porquê, depois percebi ter sido o meu primeiro mestre carismático, aquele que me iniciara no universo do canto lírico e da paideia grega e me motivara a escrever e a ler ainda mais. Através da blogosfera soube ter falecido em 2008. Mais um que não voltei a ver como desejava, o Aristóteles Bigodaça, como alguns lhe chamavam.  

3. Filosofia & Dialética
E nada digo a propósito de epítetos, porque a partir do Médio os discípulos deixavam de alcunhar os mestres. Se o Prof. Barrilaro Ruas algum tivesse, seria com certeza o de Sofista Maiêutico, dado o modo como referia o método pedagógico de Sócrates, o grande mestre da Filosofia e da Dialética, nas aulas que eu frequentava no Instituto Comercial de Lisboa. Perdi-o de vista, apesar de tal como eu se ter mudado para a Faculdade de Letras. Vi-o algumas vezes na RTP, enquanto deputado do PPM, até que em 2003 os mass media anunciaram o seu passamento aos 82 anos de idade.   
 
4. Filologia & Linguística
Encontrei o Prof. Lindley Cintra já no final de vida, aquele que foi o meu Mestre de Mestres na Universidade de Lisboa, onde me iniciou no seio da Filologia e da Linguística, o estudo da linguagem nas fontes históricas antigas dos textos literários e registos escritos das diversas variantes do português e das suas congéneres românicas. Com ele aprendi que sem um conhecimento mínimo do latim e do grego, dificilmente entenderia a génese, avanço e triunfo da realidade cultural portuguesa. É que quem descura as suas origens ancestrais, empenha seriamente a sua razão de existir e dos seus.    

5. Literatura & Cultura 
Nunca perdi de vista a Prof.ª Ana Hatherly desde que a vi pela primeira vez no Príncipe Real, numa dependência da Universidade Nova de Lisboa. Sobre a minha orientadora de Mestrado e Doutoramento em Literatura e Cultura contei aqui algumas histórias que não vou repetir. Limito-me a reforçar a ideia de ser uma Mestre Prodigiosa de muitas artes e saberes, que me ajudou a olhar com olhos de ver para o Barroco. Convivemos como mestre e discípulo um quarto de século. E mais houvera se não tivesse entretanto partido para o Parnaso, o único lugar mítico que lhe pertence de direito*.

NOTAS
* No dia em que há seis anos Ana Hatherly partiu para junto de Apolo e das nove Musas, as entidades míticas inspiradoras da criação artística e científica.

19 de fevereiro de 2020

George Steiner, fragmentos imaginados dum pergaminho um pouco queimado

GEORGE STEINER The Kenyon Review; Gambier V ol. 34, Ediç. 3,  (Summer 2012): 3-31,205.
“These aphorismic fragments have turned up on one of the charred scrolls recently unearthed in what is thought to have been a private library in a villa in Herculaneum. Linguistic evidence and the tenor of argument point to the late second century BC. Some scholars have put forward the name of Epicharnus of Agra. But virtually nothing is known of this moralist and rhetorician (if that is what he was). At several points, moreover, the condition of the papyrus makes decipherment conjectural.”
Toda a literatura antiga que até nós chegou é fragmentária. O minús-culo pico visível duma imensa montanha submersa nas profundezas oceânicas. Feito de muitos restos e muitíssimas lacunas é o acervo cultural escrito produzido entre os rios Tigre e Eufrates e na bacia do mar Mediterrâneo. Isto só para referir as mais destacadas fontes matriciais do mundo ocidental. A volubilidade irónica dos fados quis que o fogo tivesse preservado as obras sumérias e acádias da biblioteca de Nínive e condenado as gregas e  latinas da biblioteca de Alexandria. Na mesopotâmica, transformou-as em milhares de placas de argila cozida; na helenística, reduziu-as a uma infinidade de partículas de cinza volátil.

De vez em quando, surge a hipótese de recuperar um ou outro texto perdido num qualquer achado inesperado. Um verso aqui, uma frase ali, uma única palavra acolá no meio de muitas outras caladas para sempre. A grande esperança atual dos amantes incondicionais da herança clássica é a de verem desvendados os mistérios escondidos nos mais de 1800 papiros carbonizados descobertos em 1752 nas ruínas de Herculano. George Steiner acrescenta-lhes um rolo fictício encontrado recentemente na biblioteca privada duma villa dessa cidade romana subterrada pelas lavas incandescentes do Vesúvio em 79 EC e comenta os oito aforismos atribuídos a um tal Epicarno de Agra, um orador moralista que terá vivido no Séc. II AEC. Depois, reúne o produto dessa reflexão na The Kenyon Review, num artigo a que dá o título sugestivo de Fragments (Somewhat Charred) (2012).

Nesses fragmentos de fragmentos um pouco queimados, o escoliasta franco-americano encontra um conjunto de sentenças breves de decifração algo conjetural, a que empresta uma interpretação muito pessoal. Baseado na erudição que a vida lhe outorgou, confronta o papel do silêncio e da claridade que antecedem o ribombar do trovão, questiona o modo como a amizade pode ser a assassina do amor, assinala o abismo estabelecido entre a desigualdade da esco-laridade e a raridade do talento, equaciona a realidade ontológica e substantiva do mal, avalia o poder ilimitado do dinheiro, alerta para o risco de seguir à letra os preceitos despóticos das religiões organi-zadas, destaca o fascínio inebriante exercido pelo canto e a música na psique humana, conclui com uma abordagem muito sentida à imortalidade dos deuses, à mortalidade dos homens e ao estatuto privilegiado dos heróis e dos seres excecionalmente virtuosos peran-te a singularidade da morte.

Nos parágrafos finais do artigo partilhado com uma vintena doutros mais numa revista de referência académica de prestígio reconhecido, também eles fragmentos de visões individuais tornadas públicas, o ensaísta detém-se com algum pormenor nas misérias da velhice, no atrofiamento da mente, na liberdade de escolher a morte, seja pelo suicídio puro e duro, seja pelo recurso à eutanásia, permitindo assim que o espírito consciente de quem parte volte livre para os elementos a que pertenceNuma altura em que se debate tão acaloradamente entre nós a despenalização da morte medicamente assistida, possam estes aforismos atribuídos ao Epicarno de Agra imaginado por George Steiner servir de ponto de partida real para reflexões pessoais clarificadoras, realçadas com a lucidez sempre sábia da razão.   

7 de dezembro de 2018

A Estremadura e os lugares de memória

PROVÍNCIA DA ESTREMADURA
João Silvério Carpinetti

[Lisboa: BNP (1762)]
... lieu de la mémoire
«As ruas, as praças calcorreadas pelas mulheres, crianças e homens europeus são cem vezes mais designadas segundo estadistas, figuras militares, poetas, artistas, compositores, cientistas e filósofos. [...] O menino da escola e os homens e mulheres urbanos da Europa habitam verdadeiras câmaras de ressonância de feitos históricos, intelectuais, artísticos e científicos. [...] Nos Estados Unidos tais memoranda são escassos. As ruas são interminavelmente nomeadas como “Pine”, “Maple”, “Oak” ou “Willow”. As grandes avenidas chamam-se “Sunset”, a mais nobre das ruas de Boston é conhecida como “Beacon”. [...] As avenidas, calçadas e ruas americanas são simplesmente numeradas ou conhecidas pela sua orientação, como em Washington, sendo o número seguido de “North” ou “West”. Os automóveis não têm tempo de considerar uma rue Nerval ou um largo Copernicus.»
George Steiner, A ideia de Europa (Lisboa: Gradiva, 2005, 32-33)
A Estremadura dividiu nos tempos da Reconquista Cristã (718-1492) o Norte cristão, clerical, guerreiro e rural, do Sul árabe ou moçárabe e urbano. Situava-se para além da margem meridional do Douro e ia até ao vale do Sado. Funcionava como uma terra de transição e de conflito latente, a linha fronteiriça ou raiana entre duas culturas e civilizações distintas, a baliza flutuante ou estrema dos territórios recuperadas pela Cristandade à Moirama. Era a marca divisória entre o Condado Portucalense e o al-Gharb al-'Andalus.

As vitórias da Cruzada hispânica sobre o Crescente muçulmano foram alterando os limites das duas forças inimigas em contenda. O Reino de Portugal estendeu-se até ao Reino do Algarve, confinado à vertente setentrional da serra do Caldeirão, logo conquistado e anexado (1249). As províncias históricas viram ajustados os seus termos ao longo dos tempos, até desaparecerem como entidades administrativas atuais. A sua presença multissecular permaneceu todavia viva na memória coletiva das suas gentes.

Algarvios e Alentejanos, Beirões e Transmontanos, Ribatejanos e Minhotos fizeram tábua rasa das NUTS, GAM, ComIurb e ComInter, siglas pouco apelativas para identificar as suas raízes matriciais. Os Estremenhos, em contracorrente, riscaram o seu passado histórico e renderam-se ao bussolar. Olharam fixamente para a rosa-dos-ventos e reclamaram-se convictamente do Oeste. O lugar da memória/olvido surge-nos de quando em vez com estes laivos peregrinos. De costas voltadas para a Europa. De braços abertos para a América.

Lucas Janszoon Waghenaer
Gedaente en vodoeninge vant Landt van Portugal (1584)

20 de janeiro de 2017

George Steiner, Anno Domini: três histórias de guerra em tempo de paz

«Recollection came upon him vivid and exact. Quis viridi fontes indu-ceret umbra?–Who shall veil the spring with shadow and leaf? […] As the pain slunk back to its lair, that line of Virgil had sung in his brui-sed thoughts. With it the gate of memory swung open and behind it drowsed the rust-green gables and slow canals of the North Country.»
George Steiner, Anno Domini. Three stories of the war (1964)
Falar de alguns autores e obras torna-se, por vezes, uma tarefa parti-cularmente complexa. Sobretudo quando nos referimos a alguém que se tem vindo a destacar em áreas tão diversificadas como a tradução, o ensaio, a crítica, a pedagogia, a filosofia e a ficção. É o que se passa com George Steiner, escritor e académico anglo-franco-americano, nascido numa família austríaca de origem judaica, fluente em quatro línguas modernas (alemão-francês-inglês-italiano), duas clássicas (latim e grego) e sabe-se que outras mais. Sobra-nos a escolha das temáticas a desenvolver e falta-nos o engenho e arte para as comentar como merecem. Fico-me por um conjunto de histórias de guerra contadas em tempo de paz, publicado há quatro décadas e só agora vertido para português com o título algo provocatório de Anno Domini (1964 | 2008). O habitual atraso a que já vamos estando habituados.

A revisitação dos palcos do drama faz-se através de três atos autónomos de temática comum, feita à boa maneira helénica das trilogias trágicas dos séculos dourados da cultura ática antiga. Os atores do «Sem regresso», de «O bolo» e do «Delicioso março», munidos das máscaras, túnicas e coturnos adequados, entram em cena para revelar aos espetadores desse teatro especial, alojado nas páginas dum livro de contos, os fragmentos de vida-morte contidos nas peças convocadas das sombras exumadas do passado, com o firme propósito de iluminar eficazmente o presente. A catarse, imperiosa nestes casos, faz-se através do diálogo travado entre a lembrança e o esquecimento, entre a inscrição e o ostracismo, entre as luzes e as trevas, para que o mundo espectral dos caídos habite a memória futura dos seus filhos, para que as feridas causadas pelas partes beligerantes sejam saradas, para que as cinzas do holocausto não voltem a ocupar no porvir próximo os projetos dos homens.

O primeiro auto contado da coletânea está ancorado na velha questão franco-germânica das hegemonias europeias perdidas. Cinco anos após a invasão aliada da Normandia, o ex-capitão alemão Werner Falk enceta uma viagem «sem regresso» a Harfleur, à quinta Yvebecques, único lugar onde se sentira em paz em tempo de guerra. A ilusão de apagar os fantasmas dessa época conturbada é rapidamente desfeita e a vitória do ódio sobre o amor acontece. O coro de aldeãos aplaude o sacrifício perpetrado e abandona a skene a entoar o cântico final do éksodos.

O cenário e muda-se para Liège, para a casa de repouso de Saint-Aubain, refúgio dum maquisard americano de Belmont e duma judia de Bruxelas. Os dois jovens esquecem-se das dificuldades impostas pela ocupação nazi da Bélgica, entregam-se um ao outro e acabam por ser vencidos pela conjuntura antissemita então vigente. O sobrevivente regressa no pós-guerra ao local onde fora feliz por breves instantes. Leva consigo uma réplica de «o bolo» de moka que era servido aos hóspedes nas tardes de domingo. Mas o coro das vozes alucinadas dos residentes perdera a aptidão de relembrar os nomes dos mortos em consonância legítima com a história.

O tríptico encerra no rasto do deus romano da guerra, subentendido num «delicioso março», o mês primaveril dedicado às artes marciais de Marte. A ação salta de Londres para Varsóvia, com referências ao Cairo e desfecho em Cracóvia, e é protagonizada por dois Padres do Deserto, ex-combatentes do exército inglês na grande guerra civil europeia que envolveu meio mundo ou talvez um pouco mais. Os amores impossíveis e interditos anteriormente focados dão lugar aos equívocos e marginais praticados à revelia das convenções que regem os relacionamentos consentidos entre géneros.

O fio condutor dos eventos representados ao público-leitor por palavras escritas pode ser entendido, neste contexto, como uma explicitação de três modos distintos de encarar o conceito de herói: a coragem de voltar ao local da catástrofe e aí ser imolado, a cobardia de fugir da fatalidade e ser poupado pelos deuses, a coragem de assumir as contingências da vida e sucumbir à cobardia do suicídio. Ironias trágicas à procura de soluções alternativas que deem novos sentidos à condição humana e incentivos ao livre-arbítrio dos mortais de vencer os desígnios fantasiosos dos imortais. Agora e sempre, para que todos ergamos o dia-a-dia do nosso destino individual, nesta era comum, do senhor ou Anno Domini.

NOTA
A História nunca se repete mas por vezes assemelha-se de modo flagrante. Os tiranetes deste mundo bem se esforçam nesse sentido. A leitura atenta de certos textos centrados nestas problemáticas de guerra e paz torna-se urgente em determinados momentos. Publiquei esta reflexão há quatro anos e alguns dias mais no Pátio de Letras e trago-a agora para aqui, numa altura em que  anos sentimos cada vez mais em guerra em tempo de paz.

24 de junho de 2015

George Steiner, o transporte imaginado de A. H. para San Cristóbal

«When I turned against the Jews, nobody came to his aid Nobody...»
George Steiner, The Portage to San Cristóbal of A. H. (1979)
Às vezes apercebo-me com alguma mágoa do tempo desmedido que alguns textos de referência internacional levam a ser vertidos para português, se não se tratar de grandes êxitos editoriais confir-mados. É o que se passa, por exemplo, com O transporte para San Cristóbal de A. H. (2007), que George Steiner deu à estampa em 1979, na Kenyon Review, e logo confiou à forma de livro em 1981. Cerca de trinta anos separam a versão inglesa da traduzida para o nosso idioma. Nesse período de espera, o romance foi adaptado ao teatro e levado à cena em Londres e outros palcos que o «Posfácio» do autor, datado de 1999, não especifica. A polémica criada em torno da obra terá sido geral. Que me tenha dado conta, nenhum eco chegou até mim. Pura distração. Outros ouvidos mais atentos terão captado o rumor e falado com os editores. Duvido. O mais provável é que a fama do grande homem da cultura germano-franco-britânica, de origem judaica e pais austríacos, explique a publicação gradual de todos os seus escritos entre nós, incluindo os ficcionados.

O título, algo obscuro para quem desconheça os meandros da controvérsia, remete-nos para um enigmático A. H., que o leitor desprevenido identificará, e bem, com o protagonista do relato. A sigla, mantida estrategicamente no reino das incógnitas, só será desenvolvida, com todo o recato, sem muitas pressas e parcelar-mente, no final do terceiro capítulo, que termina com as palavras «Herr Hitler». O alegado nome completo do «homem muito velho», capturado no fim do mundo, no interior da selva amazónica, entre o Brasil e a Bolívia, só será documentado por extenso bastante mais à frente e sem grandes pudores. O mistério da identidade da personagem novelesca estava desvendado, altura de deslocar o centro das atenções para a identificação da personalidade histórica retratada. Questionar a versão oficial da morte do chanceler alemão com a verdade dos factos vividos em privado no derradeiro dia do mês de abril de 1945 no Füherbunker de Berlim. Averiguar, em suma, se o cadáver semicarbonizado ali encontrado pelas tropas soviéticas corresponderia ao do ditador derrotado ou ao de um mero duplo que terá sido sacrificado em seu nome.

A «narrativa ficcional» desenvolvida por Steiner envereda, precisamente, por esta última hipótese, resumida no conhecido princípio literário da «ucronia» definido por Umberto Eco, i.e., imaginar «o que teria acontecido se aquilo que realmente aconteceu tivesse acontecido de maneira diferente»*. Neste caso concreto, medir as consequências da sobrevivência de A. H. ao III Reich e posterior refúgio na floresta virgem sul americana. O seu transporte para São Cristóvão é, tão somente, a primeira etapa de uma peregrinação maior que o leitor está arredado de seguir. Os preparativos de um julgamento supranacional são referidos, as dificuldades processuais adiantadas, as pressões políticas asseguradas. A vontade exercida pela instância narrativa ou a economia do discurso remetem-nos para o universo das suposições nunca concretizadas. É que um dos segredos da arte de contar histórias com palavras reside nos silêncios que consegue espalhar ao seu redor.

Lido o texto, inteiramo-nos que o romancista-ensaísta põe na boca dos atores do drama um conjunto de tópicos recorrentes e sobejamente comentados. Os nomes de deus, os erros da palavra, a questão judaica, as memórias da história, a música e as coordenadas do tempo. Alguns outros se poderiam agregar. Fiquemo-nos por aqui. O problema da comunicação entre os homens está patente em todo o corpus textual, materializado no cruzamento de línguas, culturas, fontes e testemunhos em confronto. O poder de argumentação posto ao dispor do fantasma-vivo de A. H. como mestre da palavra é surpreendente e motivo de todas as polémicas. A verdade almejada habitará com certeza no interior desse labirinto feito de conceções contraditórias. O problema está em conseguir alcançá-la sem recorrer à intervenção divina, tão ausente do nosso quotidiano desde que os redatores do(s) Livro(s) das revelações compuseram o derradeiro parágrafo. Na visão do criador, este Transporte «é uma parábola sobre a dor (...) a dor da recordação, a imperativa mas intolerável dor da lembrança». Por isso foi «escrita com dor». Não o duvidamos, conhecendo minimamente a crueza dos factos. A leitura da «fábula» poderá também ela ser fonte de dor. Tudo depende dos olhos que leem, da forma como veem e do modo como sentem.

NOTAS
A leitura ainda em curso do mais recente romance de Umberto Eco, Número zero (2015), onde se equaciona a presença dum sósia de Mussolini, levou-me a chamar à colação da memória deste já datado no tempo de George Steiner, O transporte para San Cristóbal de A. H. (1979), onde se imaginava também a existência dum duplo de Hitler. Por esse motivo, resolvi chamar a este espaço um texto que publiquei no primeiro dia de setembro de 2010 no Pátio de Letras. Deixo-o aqui as minhas notas sobre o destino ucrónico do fürer germânico enquanto não dou um tratamento idêntico às dedicadas ao duce italiano.

* Umberto ECO, «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. [1985]. Lisboa: Difel, 1989, p. 202.

29 de março de 2015

O escritor fantasma

Προσωπείο | Máscara
Ainda hoje a nossa sensibilidade ocidental e as nossas mais comuns referências interiores provêm de uma dupla origem: Jerusalém e Atenas. Ou, para sermos mais exatos, a nossa herança intelectual e ética, bem como a leitura que fazemos da nossa identidade e da morte, vêm-nos directamente de Sócrates e de Jesus de Nazaré. Nenhum deles, contudo, fez questão de ser autor e muito menos de ser publicado.
George Steiner, O silêncio dos livros (2006) 
Notícia recente avançada pelo semanário SOL -nos conta que o livro de José Sócrates, A confiança no mundo  Sobre a tortura em democracia (2013), não foi escrito por ele. Mais um incidente aces-sório a juntar a esta telenovela da vida real transmitida diariamente pelos habituais meios de comunicação social. Tê-lo-ia encomendado a um escritor fantasma que abdicara dos seus direitos intelectuais. Calúnias. Apressou-se a afirmar o ex-primeiro-ministro português com nome de filósofo grego, que se prepara para processar o jornal de grande tiragem com nome luminoso de astro-rei. Tudo isto num só dia, como manda o cânone da tragédia ática.

Esta cena burlesca trouxe-me de imediato à lembrança o argumento dum filme de Roman Polanski, O escritor fantasma (2010), e o teor dum ensaio de George Steiner, O silêncio dos livros (2006). Pedi emprestado o título ao cineasta franco-polaco para identificar estas histórias em contracorrente e uma frase ao escritor franco-inglês para lhe servir de epígrafe. O confronto entre todos os atores referidos permite-nos situá-los em dois campos de ação diametralmente opostos: aqueles que fundaram sistemas globais com livros que não escreveram e aqueles que se afundaram nesses mesmos sistemas com livros que dizem ter escrito.

Não li nem vou ler o tal livro de autor duvidoso. A polémica gerada por um bestseller mediático falhou no intento de me fazer viajar no seu interior. Nem o prefácio de Lula da Silva e o posfácio de Eduardo Lourenço me levaram a fazê-lo. Prefiro dirigir as minhas leituras de lazer para outras paragens mais promissoras de encontrar o diferente. Como voltar à companhia de George Steiner e percorrer as páginas de Os livros que não escrevi (2008). Confissão admirável só possível num mestre na arte de surpreender os leitores. Rosto no rosto. Sem a máscara dramática do hypokritḗs em palco, de se fazer passar por aquilo que não é ou finge ser.