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17 de janeiro de 2024

Sai a Rainha Daisy, entra o Rei Fred

  H. C. Andersens papirklip  

Hjerter dame med vinger - klippet af koncertprogram med en lyre
[H.C. ANDERSEN MUSEUM]

 HISTÓRIA DA RAINHA QUE SE CANSOU DE SER RAINHA

Nada de novo no Reino da Dinamarca: sai rainha, entra  rei. É assim mais dum milénio na terra do Hamlet de Shakespeare, da Rainha de Copas de Andersen ou de Margarida II de Glücksburgo. Só que pela primeira vez em muitos e muitos anos contados em séculos por vontade própria. Cansou-se de ser a Dronning Daisy e passou a coroa, o cetro e o trono ao Kronprins Fred no Palácio Christiansborg de Copenhaga, o agora proclamado Frederico X da Dinamarca.

Hoje em dia, ouve-se cada vez menos bramar: «o rei morreu, viva o rei». Nasce-se menos, vive-se mais, morre-se o mesmo. Aí não há exceções. Enquanto o número de monarcas diminui a um ritmo acelerado o das abdicações cresce a uma cadência exponencial. Doze cabeças coroadas europeias deixaram de o ser desde as vésperas da Segunda Guerra Mundial. Até a Santa quis juntar-se aos soberanos do Reino Unido, Benelux, Espanha e Dinamarca.

Nesse entretempo de saída e entrada dos sangues azuis veem-se muitíssimas mais coisas do que os pais das dinastias resistentes às veleidades da história tiveram ocasião de ver. Os súbditos e mirones também se encontram nesse rol. Vi a cores e ao vivo a ainda rainha a comprar cigarros numa tabacaria da capital e o então herdeiro a dirigir um trator nos jardins do Palácio de Fredensborg. Sem pompa nem circunstância majestática no milenar Reino da Dinamarca.

As televisões prescindiram da cobertura ao vivo do evento. Achou-o menos relevante do que os casamentos, bodas de diamante, funerais e coroações da realeza britânica. A máquina mediática bem oleada dos Windsor continua a bater aos pontos as demais casas reais desse mundo afora e a poder entoar ufane o Rule Britannia, Britannia rule the waves como senhora e autora cabalE assim se perdeu a saída por entrada da rainha cessante e do rei estreante da Dinamarca.

21 de fevereiro de 2018

Histórias da carochinha de reis e rainhas

 H. C. Andersens papirklip

Sørøver med grøn jakke. Juletræspynt

[H.C. ANDERSEN MUSEUM]

   COM SORTE OU SEM SORTE  DOS CONSORTES   


Etimologicamente falando, «rei» é aquele que «rege», do latim rĕgĕre > rēge, aquele que dirige, que  conduz, que governa, que exerce o poder soberano. Visto por este prisma, após a vitória das revoluções liberais e o advento das monarquias constitucionais, os chefes de estado coroados transformaram-se num anacronismo político que a inércia dos povos tem preservado sem saber muito bem porquê. Talvez porque pensem que a subida ao trono se tenha feito pela Graça de Deus quando de facto se continua a perpetuar pela mera e eficiente graça da genética.    

Henri Marie Jean André de Laborde de Monpezat, aspirante ao título de Conde da extinta Monarquia Francesa, conseguiu o de Príncipe ao casar-se com a futura Rainha da Dinamarca. O desejo de obter o título de Rei Consorte nunca se concretizou. De nada lhe valeu trocar de nacionalidade, render-se ao luteralismo ou ter dado dois herdeiros varões à Casa Real de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg. Sua Alteza Real o Príncipe Henrik teve de se contentar com uma coroa fechada de três arcos e deixar a Sua Majestade a Rainha Margarida II a de cinco. Noblesse oblige.

Neste capítulo da titularia das caras-metades reais a igualdade de género ainda não assentou arraiais. Tem faltado às testas coroadas atuais o bom senso da Rainha D. Maria I de converter o consorte no Rei D. Pedro III, com quem partilhou o poder ainda absoluto. O mesmo fez a Rainha D. Maria II, ao transformar o pai dos herdeiros da Coroa de Portugal no Rei D. Fernando II, muito embora a Carta Constitucional tenha limitado a governação conjunta dos dois. Histórias da carochinha com reis e rainhas de antanho que continuam a ser contadas com sucesso nos nossos dias.

28 de dezembro de 2015

O abeto iluminado, o pato recheado & a bota tricotada

H. C. Andersen, Christmas Tree, 1850
[Odense City Museums - Hans Christian Andersen Museum]

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso...
Ude i Skoven stod der saadant et nydeligt Grantræ; det havde en god Plads, Sol kunde det faae, Luft var der nok af, og rundtom voxte mange større Kammerater, baade Gran og Fyr; men det lille Grantræ var saa ilter med at voxe; det tænkte ikke paa den varme Sol og den friske Luft, det brød sig ikke om Bønderbørnene der gik og smaasnakkede, naar de vare ude at samle Jordbær eller Hindbær; tidt kom de med en heel Krukke fuld eller havde Jordbær trukket paa Straa, saa satte de sig ved det lille Træ og sagde: "nei! hvor det er nydeligt lille!" Det vilde Træet slet ikke høre...
H. C. Andersen: Grantræet. (1845)
A consoada dinamarquesa é regida pela árvore de Natal. A tradição católica do presépio não assentou arraiais em terras escandinavas de culto luterano. Este ano coube-me a honra de acender as duas dezenas e meia de velas espalhadas estrategicamente pelo abeto de cinco anos criado na terra de Andersen. Privilégios de se ser o decano da família. Depois dançámos e cantámos à volta dela: Høj fra træts grøne top stråler juleglansen, spillemand, spil lysting op!

Um bom pato assado, criado num dos campos da Zelândia, Fiónia ou Jutlândia, teve lugar à mesa. Vinha recheado de ameixas e maçãs e fazia-se acompanhar de batatas e couve-roxa. O bacalhau da Gronelândia rumou para a ceia meridional portuguesa. À falta de bolo-rei, comeu-se um risalamande com uma amêndoa inteira a substituir a fava e a desempenhar o papel de brinde extra. Depois desejou-se: Glade Jul, dejlige Jul, engle dale ned i skjul!

No final do jantar, os presentes vestidos de gala chamaram por nós. E a rainha da festa coberta de luz voltou à ribalta. As botas de lã tecidas em casa juntaram-se às demais decorações feitas ao longo da semana. O sapatinho e a chaminé são parra que já deu uva há muito tempo. A árvore iluminada despojou-se do que tinha para dar e o Natal cumpriu-se. Depois da noite acabada, pode dizer-se como nos contos infantis: Forbi, forbi, og det blive alle Historier!

17 de abril de 2015

Viajando com Andersen na bagageira

PAPER CUTS by HANS CHRISTIAN ANDERSEN
«Lady with pointy hat and green and black skirt. Christmas tree decoration»
[Odense City Museums - Hans Christian Andersen Museum]

A PROPÓSITO DA RAPARIGUINHA DOS FÓSFOROS
 
Viajei para a Dinamarca com uma coletânea dos contos de An-dersen na bagagem de bordo. No voo entre Lisboa e Copenhaga, reencontrei-me com A rapariguinha dos fósforos (1845). História estranha para contar às crianças dos nossos dias, tão pouco habituadas a encontrar na morte dos protagonistas um final feliz. Na época em que foi escrita, a consolação de encontrar no além uma recompensa celestial eficaz para as amarguras terrestre sofridas talvez funcionasse. O espírito salvador do Cristianismo, católico ou protestante, estava muito mais arreigado no espírito das gentes de idade menineira, juvenil ou adulta. Outros tempos.

O que me causou maior estranheza no relato tem muito pouco a ver com os problemas aludidos de ordem transcendental. O facto da heroína passar a última noite do ano a vender fósforos é que me pareceu perfeitamente peregrino. Absurdo. Perguntei-me muitas vezes quem é que, em seu perfeito juízo, se prestaria a tal negócio. Disparate. Depois, fiz uma primeira viagem à Dinamarca e encontrei, numa das praças de Copenhaga, uma jovem a vender cigarros e fósforos avulso. Soube então que no país de Andersen tudo se compra, vende ou troca, nada se pede emprestado, muito menos para matar o vício do fumo. Outras visões.

Foi também na capital dinamarquesa que observei a elegância do Soldadinho de chumbo vestido a rigor no render diário da guarda à rainha e confirmei a solidão da Sereiazinha de bronze exilada numa rocha do porto da cidade a pousar entediada para as fotografias dos turistas. Foi na paisagem dinamarquesa que me apercebi dos charcos, pântanos e pauis do Patinho feio e pude imaginar um Abeto nativo ataviado com os enfeites coloridos recortados por Andersen em pessoa como decoração pessoal duma árvore de Natal. «Viajar é viver». Eis o lema que o arquiteto de contos infantis mais conhecido no mundo escolheu como seu. Outras histórias.