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6 de dezembro de 2024

Sinestesias miradas

Vincent van Gogh

De sterrennacht | A noite estrelada (1889)

[NY, Museum of Modern Art - MoMA]
Olhares, Visões, Prismas, Miragens 
Dizem que Vicent van Gogh era daltónico. O mesmo se diz também de Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Tintoretto, Claude Monet, Paul Cezanne ou Andy Warhol. Outros haveria decerto a apontar, se esse modo especial de olhar o mundo perturbasse o jeito como os seus adeptos olham essas sinestesias de cores pintadas a óleo, guache, pastel, aguarela e acrílico nas telas, tábuas, frescos que nos legaram.

Como teria o grande mestre neerlandês colorido A noite estrelada, se não sofresse da alegada anomalia genética de visionar as diferentes frequências de luz refletida nos corpos? Como seria o sorriso da Mona Lisa, se a paleta cromática do seu criador tivesse sido outra? Por certo não atrairiam as multidões habituais no MoMA e no Louvre. Um se muitíssimo longo, inexistente na mancha gráfica que o regista.

As outras suposições fantasiosas para os demais gestores de cores elencados seria igualmente incomensurável. Os fitares, enfoques, prismas e miragens planas vistas com profundidade imaginada pelo engenho e arte da perspetiva. Perceções combinatórias de natureza sensorial distinta, que os espreitares atentos conseguem enxergar nos espaços cobertos com todas as matizes presentes no arco-íris. 

Olhar distorcida da Mona Lisa de Leonardo da Vinci

27 de maio de 2021

Historietas de hospital

Vincent van Gogh
Afdeling in het ziekenhuis in Arles (1989)

Lembrando cenas de enfermaria de um mês...

As unhas do Zé Coxo
Durante a minha última passagem pelo CHUA fui vizinho contíguo de enfermaria do Zé Coxo, antigo pescador da Fuzeta com um palmarés impressionante por outros mares atlânticos da costa de Marrocos e Mauritânia. O apodo deve-se ao facto dum problema de diabetes o ter privado duma perna. Desta feita, a maleita obrigara-o à amputação dos dedos do pé restante. Com um sorriso nos lábios e indiferente às dores que sentia, o espírito otimista que o caraterizava levou-o a comentar: «Agora, pelo menos, já não tenho de cortar as unhas dos pés».

O Filho do Desenfiado
Mesmo em frente do Zé Coxo, ficava a cama dum outro pescador mais jovem a que chamei Desenfiado, por passar o dia em lugar incerto e só regressar para dormir. Gabava-se de não ter estudado nem precisar de o fazer. O filho mais velho ganhava 7000€ por mês num clube da 2.ª divisão sem precisar de ir à escola. Na véspera de ser operado a um braço que tinha superenfeixado, desapareceu sem dizer água-vai. Preferiu brindar-nos com aquelas palavras futeboleiras registadas com as peculiares metáforas visuais das histórias aos quadradinhos: «👾❓➕❗💀🔱👿».

A Princesa das Astúrias
No meu mais recente internamento hospitalar, voltei a encontrar-me com figuras conhecidas há cerca dum ano. Médicos e enfermeiros à parte, refiro aqui a mais alegre das auxiliares de serviço. Trata todos por Príncipes e guardou para si mesma o título de Princesa das Astúrias. Numa das suas conversas habituais, confidenciou-me o seu desgosto profundo por não ter podido seguir a carreira militar. Um cancro na tiroide impedira-a de concretizar o seu sonho. Sente-se todavia realizada: «Assim, substituí a guerra que visa a morte pela guerra que visa a vida».

A Mulher Barbeira
Na segunda quinzena de abril fui de novo visitado por uma das barbeiras do hospital. Reconheceu-me de imediato, decerto por ser dos poucos a aceitarem os seus serviços de rapadoura oficial dos pelos da cara. Repetiu um par de vezes a arte de me arrancar a barba como se estivesse a cortar relva com uma sachola. Aguentei estoicamente como se nada fosse, porque no final da faina fiquei sempre com uma sensação plena de leveza. É que depois da tempestade vem a bonança. Despedi-me até nunca mais. Limitou-se a responder: «Assim espero!».