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28 de fevereiro de 2025

Musicália, a arte tecida com sons

Philosophia et septem artes liberales

Herrad de Landsberg, Hortus Deliciarum (séc. xii)

« Dans l'enseignement, comme dans la magie, la répétition est le plus sûr garant de l'efficacité ! »
Jean Bottéro, Babylone et la Bible (1994) 

Letras & Números

Duas noites por semana, quatro horas no total, um pouco mais em vésperas e dias de concerto, assim são os ensaios do coral a que empresto a minha voz há uns bons pares de anos. Repetições incessantes de cada compasso, sistema, acorde presentes na partitura em preparação por sopranos, tenores, contraltos e baixos residentes e um ou outro mais solista em atuações especiais. A este ato repetitivo, o francês utiliza precisamente a palavra répétition, o método mais eficiente para garantir a eficácia performativa desejada. Um verdadeiro ato de magia, quando damos a ouvir a peça aos amantes da musiké téchne, ou arte das musas.

Por alguma razão, a cultura medieval europeia, herdeira direta da antiguidade clássica, a alocava no seio das Sete Artes Liberais, entendidas como uma metodologia multidisciplinar de ensino criada para a formação integral e não profissionalizante de homens livres, opondo-se assim às Artes Mecânicas, destinadas exclusivamente a servos e escravos. Estava disposta por dois conjuntos de matérias ministradas no início do percurso universitário, o Trivium (Gramática, Dialética/Lógica e Retórica) e o Quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música), i.e., as sete vias ou caminhos conducentes ao conhecimento das letras e dos números.

A posição gradativa crescente de aprendizagens ocupada pela Música no septenário permite-nos considerá-la como a rainha de todas as artes ali reunidas. Ela ensina a traçar as notas e com elas a sucessão das melodias produzidas, faculta os meios para aferir a sua qualidade harmónica e fornece os meios auxiliares para as embelezar. Com a mestria inata de estudar a quantidade compositiva de sonoridades, formas e distâncias necessários para desenhar a musicália pretendida e com elas atingir o topo da arte de associar os sons, de a transformar assim numa linguagem universal que não conhece limites nem fronteiras. Agora e sempre.

 Francesco di Stefano Pesellino, Le sette arti liberali (c. 1450)

28 de maio de 2018

À la poursuite de la vie sans fin...

 PARALLÉLISMES 


MORCEAU 1 : L'Épopée de Gilgamesh
[Version ancienne, c. 1750-1600 AEC : Berlin III / 1'-14']
« Que vagabondes-tu ainsi, Gilgamesh ? | La vie sans fin que tu re-cherches, | Tu ne la trouveras jamais ! Quand les dieux ont créé les hommes, | Ils leur ont assigné la mort, | Se réservant l’immortalité, à eux seuls ! | Toi, plutôt, remplis-toi la panse ; |  Demeure en gaieté, jour et nuit ;  | Fais quotidiennement la fête ; | Danse et amuse-toi, jour et nuit ; | Accoutre-toi d’habits bien propres ; | Lave-toi, baigne-toi ; | Regarde tendrement ton petit | Qui te tient par la main, | Et fais le bonheur de ta femme | Serrée contre toi : | Car elle est | L’unique perspective des hommes ! »

MORCEAU 2 : Ecclésiaste
[Bible hébraïque , c. 450-180 AEC : IX, 5-10']
« Les vivants savent au moins qu’il leur faut mourir. Mais les morts ne savent plus rien : ils n’ont plus ni amour, ni haine, ni désir, et ils n'auront plus jamais part à tout ce qui se fait sous le soleil. Allons ! Mange ton pain dans l'allégresse et bois ton vin d'un cœur plaisant ; mets tout le temps des habits de fête ; n'épargne pas les parfuns pour ta tête ; jouis de la vie avec la femme que tu aimes, tous les jours de vanité que l'on t'accorde ici-bas ; c'est là ta part dans l'existence et dans tout le tracas que tu te donnes sous le soleil ! Tout ce qui est en ton pouvoir, fais-le dans ta force, car il n'y a plus ni action, ni pensée, ni savoir, ni sagesse au Shéol où tu vas... »

Jean Bottéro, Babylone et la Bible. Paris: Hachette, 1994, 265-267