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9 de março de 2026

Dentro & Fora

Coroa Imperial Amarela
P.J Redouté - Fritillaire Imperiale 
var jaune
 Choix des plus belle fleurs (1827)

Toma lá dá cá, imperial e real

No tempo em que havia reis e rainhas a dar com um pau, havia também imperadores e imperatrizes igualmente em barda ali e acoli. Uns já nasciam com esse carma incrustado na pele. Outros eram importados e exportados a granel

À exceção da França, os impérios coloniais europeus nunca optaram por um imperador a reger os seus destinos em todos os territórios pertencentes aos seus domínios multicontinentais. Limitaram-se a um ou outro rei-imperador provisório. 

Entre nós, os Avis senhores de meio mundo, limitaram-se a exportar duas imperatrizes para o Sacro Império Romano-Germânico, Dona Leonor e Dona Isabel, filhas de Dom Duarte e Dom Manuel I. Todos de Portugal, como único apelido.

Os Braganças foram mais expeditos. Forneceram ao Brasil dois imperadores e garantia de mais, se a os ditames da história assim o determinassem. Dom João VI foi imperador titular por alguns meses, Dom Pedro IV por algum tempo mais.

Caídos os impérios globais, dentro e fora das fronteiras geopolíticas atuais, ficam os presidentes. Sem consortes a tiracolo, sem títulos a perder de vista, sem coroas reais e imperiais de aparato. Que assim seja agora e sempre. Viva a República!

D. Leonor & D. Isabel de Avis - D. João VI & D. Pedro IV de Bragança

5 de outubro de 2025

Majestades fidelíssimas desconstruídas

Altezas reais & majestades fidelíssimas caídas

O cardeal Dom Henrique recusou o tratamento de Sua Majestade, quando imprevistamente subiu ao trono, por morte do sobrinho-neto em Alcácer-Quibir. A seu ver, o título era demasiado imponente para ser usado por um mero mortal. Manteve, assim, a designação de Sua Alteza Real no curto período de tempo em que pela Graça de Deus foi Rei de Portugal e dos Algarves (1578-1580).

Dom Sebastião foi o único membro da Casa de Avis a usufruir dessa honraria, que lhe foi outorgada por Filipe II de Castela. Fê-lo na entrevista de Guadalupe (1577), dado o sobrinho ter acalentado o desejo de juntar aos reinos, senhorios e domínios lusitanos a conquista de África. O resultado dessa aventura está bem à vista, com a perda da vida na Batalha dos Três Reis (1578).

Os Braganças seguiram o exemplo dos Áustrias e mantiveram a titularia, estilos e honras como fórmulas de endereçamento real já usuais por todo o lado. Não descansaram, porém, até terem um estatuto similar à Sa Majesté Très Chrétienne gaulesa e Su Majestad Católica hispânicaDom João V conseguiu-o finalmente da Santa Sé, ao obter o epíteto de Sua Majestade Fidelíssima (1748).

A grandiosidade, imponência e excelência majestática e fidelíssima há muito ruíram sem deixar saudade ou rasto visível.. Cavaram à sua volta uma realeza destituída, exilada, caída. Os ventos republicanos varreram-na de vez do nosso horizonte de eventos. A ostentação parasitária monárquica persiste na memória anquilosada de alguns à espera duma bastilha redentora que há muito tarda.

1 de dezembro de 2024

Do branco-azul real ao verde-rubro republicano da bandeira em riste

Silva e Sousa, A querela da bandeira (1910)
            «Guerra Junqueiro e Teófilo Braga»            

Registam com esmero didático os manuais escolares oficiais, bem como os guias de pretensa divulgação popular ou de duvidosa cultura histórica, corresponder o verde da bandeira nacional à esperança do povo português e o vermelho à coragem por si manifestada em batalha. Informações patrióticas que os leitores comuns aceitam de ânimo leve, sem pestanejar, como se se tratasse de verdades axiomáticas, e que não se cansam de repetir à tripa forra para memória futura.

Reclamam os monárquicos empedernidos da junção republicana destas duas cores, tão pouco ortodoxa em termos heráldicos, reivindicando a reposição da harmonia multissecular da união real do branco e azul usada desde o tempo dos Borgonhas fundadores. Guerras de alecrim e manjerona transferidas para a tessitura simbólica do estandarte do país, em que todos esbracejam e ninguém tem razão, caricaturado por Silva e Sousa na «Querela da Bandeira» ocorrida em 1910.

Consta que no tempo da restauração dinástica de 1640, o pendão de Dom João IV estava ornado com uma bordadura azul sobre fundo branco. Longe ainda da adoção do campo partido bicolor que os Braganças aprovaram em 1822 e Dona Maria II passou a usar em 1834, após a vitória final dos Liberais sobre os Absolutistas e a sua reposição no trono real de Portugal e Algarves. Uma tradição, afinal, bastante recente, que num cômputo benevolente não atinge a cifra redonda duma centúria.

Arredados de vez os mitos enganosos das origens e clamados os contramitos reveladores da verdade. Digamos que a cruz azul em fundo branco, usado pelo Conde Dom Henrique, se referiria à sua dupla condição de cruzado e capetíngio, intimamente associado ao poder político francês. Por seu lado, o verde-rubro atual mais não representava do que as cores dos ideias, partidos e instituições que haviam realizado a revolução, decerto com bravura e anseio de dias melhores republicanos, está bem de ver.

A nova Bandeira Nacional

5 de outubro de 2024

A esfera emblemática do rei afortunado

Brasão Real e Emblema Pessoal de Dom Manuel I
Livro Carmesim (1502)
[Arquivo Municipal de Lisboa]

Num dia como o de hoje de 1910, implantava-se a República entre nós, a tal que ultrapassado um centenário, uma década e quatro anos bem contados, está a contar-nos de sua justiça. Este evento celebrado desde então com maior ou menor pompa e circunstância dum feriado nacional é do conhecimento geral de todos. Os reis e rainhas e demais corte palatina foram à sua vida para outras paragens e em boa hora levaram consigo muita da parafernália acumulada ao longo do devir histórico em que vigorou. 

Com o advento do novo regime, os acordes do Hino da Carta foram substituídos pelos d'A Portuguesa, a coroa real saiu de vez das insígnias oficiais do país, o azul-e-branco foi trocado pelo verde-rubro da bandeira e a esfera armilar impôs-se como a peça central dos novos símbolos nacionais. Ficaram porém de pedra e cal as medievas cinco quinas e sete castelos no brasão heráldico, com os atributos factuais ou fantasiosos que as diversas épocas que os viram surgir, crescer e fixar lhe quiseram outorgar.

O emblema manuelino foi o último elemento inserido no escudo português, após a sua inclusão efémera no armorial do triplo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Atributo ancestral do saber universal, passou a representar a universalidade do poder régio dos Avis e imperial dos Bragança. Associado à expansão ultramarina lusitana, a esfera emblemática do rei afortunado converteu-se na vocação universal da diáspora portuguesa. O poder monárquico a adotou o poder republicano a fixou.

Esfera Armilar 1503

26 de fevereiro de 2024

A maçã-de-elefante, bolsa-de-pastor ou fruta-cofre da árvore das patacas

DILLENIA INDICA

Contam as histórias com história que a lenda da árvore-das-patacas terá nascido no hemisfério sul, após a debandada da Corte Lusitana para Terras de Vera Cruz. A crença na existência duma árvore capaz de dar frutos repletos de moedas anda associada à dillenia indica, speciosa ou elongata, planta oriunda das Índias Orientais introduzida nas Índias Ocidentais durante a vigência da política imperial botânica dos Bragança. A particularidade que celebrizou essa espécie reside no facto das suas pétalas se fecharem sobre o centro das flores para produzir o respetivo fruto. 

Com o propósito de ministrar uma formação pedagógica adequada para o herdeiro, D. João VI ter-se-á aproveitado das propriedades insólitas da dilénia índica, colocou uma moeda de pataca numa das suas flores para que gerasse a maçã-de-elefante, bolsa-de-pastor ou fruta-cofre da árvore-do-dinheiro ou das patacas. Ao que parece, mais tarde D. Pedro de Alcântara terá usado com sucesso esse subterfúgio para desfazer os sonhos desmedidos de riqueza fácil dos súbditos reais de Portugal e imperiais do Brasil com resultados visíveis ainda nos nossos dias.

A árvore das patacas saiu dos jardins do palácio imperial brasileiro, varou o largo mar oceano e alojou-se de armas e bagagens na selva do partidarismo mediático português em véspera de eleições. Vestiu a roupagem do despudor atrevido e pôs-se a prometer mundos e fundos para resolver todos as crises atávicas que por aí vão pululando. Terá descoberto não se sabe muito bem onde uma nova fazedora vegetal de fundos capaz de cobrir todos os sufocos, um feliz pomo de ouro colhido no Jardim das Hespérides a trocar as velhas patacas há muito tempo caídas em desuso.

10 de novembro de 2022

Oito ou Oitenta

REPOLHO & COVE-DE-BRUXELAS

O reinado mais longo e o governo mais curto da história da monarquia britânica acabam de ser contados neste verão-inverno de 2022. A rainha Isabel II desempenhou a soberania no Reino Unido durante 70 anos e 214 dias e a primeira-ministra Liz Truss somente 49 dias. Curiosas contrastes exemplificativos dum 8 ou 80 proverbial. Dizem os mass media encartados da aldeia global ter sido a mais longeva representante da Casa dos Windsor a cabeça coroada que durante mais tempo empunhou o cetro do poder a nível mundial. A mesma sorte não terá tido Lady Jane Grey, a sua antecessora da Casa dos Tudor, que só terá reinado de 10 a 19 de julho de 1553, ficando por isso conhecida como a Rainha dos Nove Dias.

Dizem os manuais especializados em datas e as listas cronológicas publicadas na Net ter ultrapassado os 72 anos e 110 dias que Luís XIV brilhou como Rei-Sol absoluto em Versailles e nos domínios da França e Navarra. O desaparecimento prematuro dos antecessores e a subida temporã ao trono está na origem destes casos extremos de chefia dum estado, depois concretizado com um extenso percurso de vida. Dom Sebastião de Portugal e Algarves poderia ter tido um destino semelhante, se os sonhos megalómanos de grandeza o não tivessem conduzido a Alcácer-Quibir onde morreu aos 24 anos de idade. Deteve mesmo assim os destinos dos reinos, senhorios e domínios herdados do avô 21 anos e 54 dias.

Filho de rei, rei será. Isto se for o primogénito ou sobreviver aos irmãos mais velhos. Dom Afonso Henriques nasceu infante e tomou a seu cargo a chefia do Condado Portucalense como príncipe entre as batalhas de São Mamede (1128) e de Ourique (1139). O facto de ser filho dum mero conde não lhe deu acesso imediato ao título de Rei. Teve de o conquistar pela força das armas, direito reconhecido pelo suserano leonês em Zamora (1143) e pelo Santa Sé na bula papal Manifestis Probatum (1179). Um longo percurso que permitiu ao primeiro soberano Casa de Borgonha tomar as rédeas do poder por 73 anos, 1 mês e 4 dias. Um record absoluto que os meios de comunicação social atuais calaram por completo.

Dom Carlos de Bragança reinou 18 anos e 105 dias e mais reinaria não fora o regicídio do primeiro de fevereiro de 1908. Ao que parece, Dom Luís Filipe ter-lhe-á sobrevivido 20 minutos. Rei morto, rei posto. O Príncipe Real não consta em nenhuma lista como Rei de Portugal. Faltou-lhe o ato da aclamação solene na Assembleia de Cortes, como o irmão acabaria por ter 3 meses e 5 dias mais tarde. Uma eternidade. Um tudo ou nada, em suma. Isso não impediu que nesses escassos minutos que sobreviveu ao pai não tivesse aos seus ombros o pesado fardo dos destinos do Reino. Histórias que os anais monárquicos colecionam nestas grandezas que vão dum enorme repolho a uma mera couve-de-bruxelas.

12 de setembro de 2022

Viagens de ida e volta do rei soldado

Amélia de Leuchtenberg – Pedro de Alcântara – Maria da Glória
«S. M. I. o Senhor Dom Pedro restituindo Sua Augusta Filha a Senhora
Dona Maria II e a Carta Constitucional aos Portugueses»

O coração peregrino à casa torna...

No tempo da formação oitocentista dos impérios efémeros das gerações românticas, Napoleão Bonaparte empurrou a família real portuguesa para terras de Santa Cruz. O imperador dos franceses mal adivinhava que quinze anos mais tarde surgiria no outro lado do Mar Oceano o primeiro imperador brasílico moldado à sua imagem e semelhança. Dom Pedro de Alcântara levava para o Novo Mundo muito do sangue azul multissecular colhido de todas as costelas coroadas do Velho Continente.

Quando as turbulências da Guerra Peninsular acalmaram e o sonho imperial napoleónico se desfez, Dom João Ⅵ regressou a Lisboa e deixou no Rio de Janeiro o Príncipe Real Dom Pedro como regente do Brasil. Tentou pôr cobro às arbitrariedades britânicas no país e debelar a resistência aos ideais liberais então em curso. O processo foi duro e exigia a presença na metrópole do herdeiro da coroa. Este recusou-se a trocar a América pela Europa e gritou o tal Digam ao povo que fico, que a história registou.

Ficar ficou, mas sem aquecer o lugar. Mesmo assim, ainda teve tempo de ocupar um trono imperial e um real nas duas margens do Atlântico. Dom Pedro Ⅰ do Brasil (1822-1831) ou Dom Pedro Ⅳ de Portugal e Algarves (1826) voltou à terra que o vira nascer (1798) e ouviu o último suspiro (1834), já reduzido a mero Duque de Bragança. Nado e finado no Quarto Dom Quixote do Paço Real de Queluz. Um alfa-ómega simbólico a pautar o trajeto vivencial do Rei Soldado ou Cavaleiro da Triste Figura.

O Grito do Ipiranga foi dado a 7 de setembro de 2022. O coração do Libertador visitou o local para celebrar o evento. Cruzou-se por alguns dias com os seus despojos mortais trasladados em 1972 do Panteão Real dos Braganças em Lisboa para a Cripta Imperial de São Paulo. Regressou agora em torna-viagem à Cidade Invicta do Porto, onde será de novo fechado a cinco chaves na Igreja da Lapa. Talvez volte a viajar no próximo centenário do país. Mas isso serão histórias a contar por outros que não nós.     

BRASÕES DE ARMAS
Reais de Portugal - Sereníssima Casa de Bragança - Imperiais do Brasil

1 de dezembro de 2021

A disputa familiar das coroas ibéricas ou o dualexit dinástico à portuguesa

José da Cunha Taborda - Aclamação de Dom João Ⅳ (1823)
[Lisboa: Palácio Nacional da Ajuda]

No Primeiro de Dezembro de 1640, o risco da associação dinástica tolerada dos Avis-Beja com os Habsburgo-Áustria se converter numa anexação imperial imposta dos primeiros pelos segundos conduziu inevitavelmente ao dualexit, i.e., ao fim anunciado da Monarquia Dual, aquela que durante 60 anos unira os destinos de Portugal e Castela. A Guerra da Aclamação de 28 anos seguintes deitou por terra o projeto filipino de substituir a união pessoal das duas coroas peninsulares numa união real dirigida a partir de Madrid. A edificação duma Ibéria multinacional, à semelhança do Benelux de além-Pirenéus, tem soçobrado a todas as hipóteses entretanto levantadas em quase quatro séculos de devir histórico.

Quando as sondagens de opinião pululam e os resultados oscilam entre o real e o imaginário, o crédito que idealmente nos deveriam merecer é cada vez mais ténue. Independentemente dos dados percentuais obtidos de aceitação do pan-iberismo, o sentimento que ainda hoje se vive entre nós assenta na secular sabedoria popular quando afirma sem oscilar que De Espanha nem bom vento nem bom casamento. As notícias que de vez em quando vêm dos lados de lá da fronteira também não ajudam muito a alterar o secular preconceito contido no provérbio. O plano de Franco para invadir Portugal ou o mapa de Portugal anexado pelo Vox ao império espanhol. Faits divers sensacionalistas que o subconsciente retém.

Faz hoje três anos que celebrei em Sevilha a minha carta de alforria profissional. Não o repeti até hoje por razões alheias ao meu querer. Gosto muito da Ciudad del Nodo e da piel de toro española. Sem preconceitos. Não nego que gostaria de ver os dois países unidos e não ignoro tratar-se duma tarefa a roçar a utopia. Haveria que resolver o problema da república/monarquia que nos separa, do acordar o emprego paritário das línguas que nos identificam, optar por uma capital marítima/continental que nos represente e un montón más de quebra-cabeças que não cabe aqui elencar. Para o ano vou a Sevilha se o Covid deixar. Um quadriénio de autonomia laboral não é uma efeméride qualquer que se deixe passar facilmente em branco.

Os primos desavindos & de costas voltadas
Filipe  de Castela - Dom João 
 de Portugal

5 de outubro de 2021

Bastardias duma monarquia milenar

Fanny Nushka, Petit bâtard (2019)
[Saatchi Art]

bas·tar·do
(francês antigo bastard, francês bâtard)
Que não nasceu de matrimónio. Que não é de casta pura. Que não é puro; degenerado. Filho ilegítimo.

Diz-se que a monarquia portuguesa nasceu bastarda e assim se manteve até ter sido mandada às ortigas quando a República chegou. Faz hoje precisamente o número redondo de 111 anos. Estou a reportar-me ao segundo Condado Portucalense, refundado em 1096 por Henrique de Borgonha, casado com Dona Teresa de Portugal, filha ilegítima de Afonso de Castela e Leão.

As bastardias monárquicas prosseguem aquando da passagem conflituosa da primeira dinastia real lusitana para a segunda. Beatriz de Borgonha é impedida de suceder ao pai por suspeita de infidelidade matrimonial cometida pela mãe, por alguma razão apelidada de Aleivosa. Ironicamente, é derrotada pelo Mestre de Avis, filho ilegítimo de Dom Pedro Ⅰ de Portugal e Algarve.   

A sorte não esteve do lado do filho natural do infante Dom Luís tal como estivera com Dom João Ⅰ. O Prior do Crato, apesar de ter sido aclamado rei de Portugal e cunhado moeda nessa qualidade, foi derrotado por Filipe Ⅱ das Espanhas, o todo poderoso primo da Casa de Áustria. Morreu exilado em Paris e com ele as aspirações de recuperar a coroa que detivera de julho a agosto de 1580.

Esgotadas as bastardias diretas, entra-se nas indiretas da união ibérica e da realeza lusitana autónoma, oriundas de descendentes remotos do primeiro duque de Bragança, filho natural do Rei da Boa Memória. A única incerteza assenta nas alegadas origens espúrias de Dom Miguel, assente nas apregoadas ligações adulterinas de Carlota Joaquina de Bourbon, a pouco fiel consorte de Dom João Ⅵ.


cd

Nos dias que correm, as preocupações genéticas das castas puras deixaram de fazer sentido. Tornaram-se obsoletas. O sangue azul dos filhos-de-algo foi substituído pela nobreza do sangue vermelho dos filhos-do-vulgo. A linhagem dos presidentes eleitos deixou de fazer parte da coisa pública com a extinção de infantes, príncipes e reis. Morta a Monarquia, viva a República! Agora e sempre, viva!...

27 de agosto de 2021

As duas rainhas titulares marginalizadas

      Condessa-Rainha Dona Teresa de Leão & Rainha Dona Beatriz de Borgonha      

A lista comummente aceite como oficial da Coroa Portuguesa regista trinta e cinco monarcas, entre os quais se contam duas rainhas da Casa de Bragança, Dona Maria (1777-1816) e Dona Maria Ⅱ (1826-1828 e 1834-1853), apesar de terem partilhado o governo com os consortes Dom Pedro  (1777-1786) e Dom Fernando  (1837-1853). Para além do isolado caso de Garcia de Portugal e Galiza, da estirpe dos Jiménez de Pamplona, ficaram ainda de fora Dona Teresa de Leão e Dona Beatriz de Portugal, soberanas suo iure (= de seu pleno direito) da dinastia condal e real de Borgonha. Reinados agitados por conflitos bélicos regionais, peninsulares e europeus, que abrangem em termos cronológicos a Batalha de São Mamede (1128), o Interregno (1383-1385), as Invasões Francesas (1807-1811) e as Guerras Liberais (1832-1834).

Após a morte do marido, Dona Teresa dirigiu o Condado Portucalense como regina, por ser filha de Afonso Ⅵ, o Imperator totius Hispaniæ, e ter recebido essa honraria papal de Pascoal Ⅱ, pela bula Fratrum nostrum de 18 de junho 1116. A viúva do Conde Dom Henrique assumiu, assim, a soberania plena do território que havia recebido à data do casamento pelo pai e que dirigira de facto (= na prática e de direito) com o marido e sozinha. Em contrapartida, Dom Afonso Henriques, por descender dum mero comiteteve de se contentar com o título de dux, dado por Lúcio  na carta Devotionem tuam de 1 de maio de 1144), antes de se proclamar princeps e rex, mal destituiu a mãe em 1128. O reconhecimento da titularia régia teria de esperar sessenta e três anos pela assinatura de Alexandre Ⅲ na bula Manifestis probatum de 23 de maio de 1179.        

Dona Beatriz, a única filha de Dom Fernando  e Dona Leonor Teles, herdou o trono logo após a morte do pai. Le roi est mort, vive la reine, i.e.,  Real, real, pela rainha de Portugal. Como a nova rainha tinha à data 10 anos e estava casada com Juan  de Castela, o receio de anexação pelo consorte Trastâmara, por Iure uxoris (= em direito da mulher), deu origem à crise dinástica que terminaria com a vitória de Dom João  de Portugal, o Mestre de Avis, na batalha de Aljubarrota. A última representante de iure (= pela lei e pelo direito) dos Borgonha, de 22 de outubro de 1383 a 14 de agosto de 1385, foi deposta pelo tio, sob o pretexto de bastardia, dada a fama da mãe. Marginalizada pelo vencedor, a filha da Aleivosa foi excluída de soberana de Portugal tendo continuado consorte de Castela. O ostracismo histórico a funcionar no seu melhor.

As duas rainhas caídas e esquecidas

21 de julho de 2021

Nuno Gonçalves e as histórias pintadas dos Painéis de São Vicente em Lisboa

     Nuno Gonçalves, Painéis de São Vicente (c. 1470)     
[Lisboa - Museu Nacional de Arte Antiga das Janelas Verdes]

O quingentésimo aniversário da morte do Infante Dom Henrique (1960) apanhou-me entre a segunda e a terceira classes, com as férias grandes de verão de permeio. Apesar das aulas de História estarem centradas no quarto e último ano do ensino primário, os ecos ampliados da efeméride não deixaram de se fazer sentir tanto nas escolas do bairro da Ponte como na da praça do Peixe que então frequentava nas Caldas da Rainha. Lembro-me de muito poucas iniciativas alusivas ao momento, organizadas com grande pompa e circunstância pelo Estado Novo, tais como a inauguração do Padrão dos Descobrimentos ou o lançamento especial de selos coloridos, de medalhas de prata e da diversa iconografia pintada ou esculpida do homenageado, representado sempre de chapeirão negro de aba larga e a segurar por vezes uma nau de brinquedo, a comprovar o seu epíteto de Navegador. A minha memória de infância guardou ainda a imagem esfumada dum calendário de parede editado pela SACOR e profusamente ilustrado pelo mestre António Lino, que agora voltei a rever em parte na Net. As particularidades algo exóticas das gravuras levaram-me mais tarde à Biblioteca Municipal à época instalada nos Pavilhões do Parque, onde encontrei e devorei os estudos de Belard da Fonseca em cinco tomos, os tais que me introduziram de vez n'O Mistério dos Painéis (1957-1967), obra completada pelo polémico D. Henrique? D. Duarte? D. Pedro? (1960).

Na década de 70, instalado em Lisboa, aproveitei muitas manhãs e tardes livres para visitar o Museu das Janelas Verdes e olhar com olhos de ver para todas as obras maiores da cultura portuguesa doutros tempos ou sem tempo no tempo. Olhar para os seis painéis com jogos de olhares, enigmáticos, de quem olha para o indefinido ou se deixa olhar sem olhar para a dupla figura central. Há quem diga que se trata de São Vicente outros do Infante Santo, a rivalizar com um número crescente de hipóteses alternativas, entre as quais a do Rei Dom Duarte, da Rainha Dona Isabel de Coimbra, de São Tiago Menor, da Infanta Dona Catarina, do Cardeal Dom Jaime e até dum Arauto da Era do Espírito Santo. Cada cor seu paladar. Pessoalmente continuo a preferir tratar-se dos irmãos gémeos São Crispim e São Crispiniano, os primeiros padroeiros da cidade de Lisboa. Todavia, a tese predominante nessa altura continuava a ser a Vicentina a debater-se em grande, com unhas e dentes, com a Fernandina. Pelo menos era a ideia com que se ficava, quando se ouvia a interpretação profissional  e convicta dos cicerones de serviço às visitas de grupo. O problema de se tratar dum só políptico e não de dois trípticos parecia estar então resolvida, após os contributos de José de Bragança e Almada Negreiros em proporem essa disposição com base nas leis da perspetiva do olhar, oferecidas pelos ladrilhos que as 60 figuras retratadas pisam.

Decorrido meio século e entrados no .º milénio, continuamos sem saber de fonte segura que pintura é esta para onde olhamos, quem a pintou, de onde veio e para onde ia, que título lhe devemos dar e quem está de facto ali retratado. vontade de esperar pelo resultado final do relatório clínico do mediático restauro atualmente em curso, para decifrar a chave dos mistérios ainda presentes na mais polémica pintura portuguesa de todos os tempos. Aguardar com calma que os acréscimos das anteriores intervenções sejam eliminados e que o resultado final nos devolva de uma vez por todas o seu traçado originalUma certeza, porém, deve ficar no horizonte. Tudo o que se possa ainda dizer sobre as tábuas quatrocentistas, mais não será do que uma mera lucubração, a roçar amiúde a fantasia, sobre o significado da obra-prima monumental de Nuno Gonçalves, ou de João Eanes, ou de ambos ou dum outro qualquer criador anónimo de imagens a duas dimensões, coloridas a óleo e têmpera sobre madeira de carvalho, nascido sabe-se lá bem onde. Entretanto, fixemo-nos nos olhares dos clérigos, pescadores, damas, santos, nobres e cavaleiros. Dir-se-ia que se deixam olhar sem nos olharem de frente. Tristes, sisudos, pesarosos, circunspectos, graves. Que pena não termos a ajuda do Desmond Morris para nos revelar as posturas do corpo na linguagem da arte destas figuras enigmáticas com mais de 500 anos de vida.