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10 de junho de 2026

Amor, tempo, rezão, fortuna e morte a celebrar o dia de Luís Vaz de Camões

Camões sobre tela a óleo de Abel Manta, Largo de Camões (1932)

S O N E T O 

A Morte, que dá vida, o nó desata,
os nós, que dá o Amor, cortar quisera
na Ausência, que é contra ele espada fera,
e co Tempo, que tudo desbarata.

Duas contrárias, que ũa a outra mata,
a Morte contra Amor ajunta e altera;
ũa é Rezão contra a Fortuna austera;
outra, contra a Rezão, Fortuna ingrata.

Mas mostre a sua imperial potência
a Morte em apartar dum corpo a alma.
Duas num corpo o Amor ajunte e una,

por que assi leve triunfante a palma
Amor da Morte, apesar da ausência,
do Tempo, da Rezão e da Fortuna.
 
Luís de Camões, Lírica completa - II [Sonetos]org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 298.

10 de junho de 2025

Isabel Rio Novo, fortuna, caso, tempo e sorte no quinto centenário de Camões

«Luís de Camões nasceu décadas antes de os registos paroquiais, averbando os batismos, os casamentos e os óbitos, se tornaram habituais, logo a seguir ao Concílio de Trento [...] Se dependêssemos das palavras do Poeta, ainda hoje não saberíamos quando ou onde nasceu.»
Isabel Rio Novo, Fortuna, caso, tempo e sorte (2024)

Se o vulto maior das letras portuguesas, que hoje se celebra com um feriado nacional, faleceu neste mesmo dia de 1579/80 do calendário juliano então vigente, ou a 20 de junho do calendário gregoriano atual, faria por estas datas 445/6 anos de idade. Número pouco redondo para assinalar, segundo os padrões usuais nestas ocasiões, a morte de alguém, máxime se se refere a Luís Vaz de Camões, nascido em 1524/5, i.e., há cerca de meio milénio completo ou a completar. No que ao poeta lírico, épico e dramático cabe, a incerteza de destacar uma efeméride precisa do seu percurso pela vida é uma tarefa difícil de fixar, cada vez mais votada ao fracasso. Tudo se resume, pois, a meras suposições, conjeturas, suspeitas, deduções, pressupostos nunca comprovados na sua plenitude.

As dificuldades de trazer à luz do dia os momentos mais obscuros do percurso existencial do nosso Príncipe dos Poetas têm sido incapazes de travar o esforço hercúleo de alguns investigadores de ultrapassar essa lacuna multissecular, de resgatar das trevas mais profundas esses segredos há muito perseguidos e nunca revelados. Isabel Rio Novo encontra-se arrolada nessa longa lista, sobretudo através da monumental Fortuna, caso, tempo e sorte Biografia de Luís Vaz de Camões (2024). Lidas as setecentas e tantas páginas do livro, fica-se com a sensação da pertinência de anteceder muitas das afirmações proferidas com um asterisco (*), entendidas como meras hipóteses, bebidas no vasto acervo de fontes documentais consultadas, resultando numa acabada reconstituição do contexto histórico-cultural contemporâneo do biografado.

Guardadas as devidas distâncias, a sina de Camões parece seguir de muito perto a obtida por Homero. Para além do nome, e da cegueira parcelar ou total dos dois, pouco se sabe a seu respeito, salvo a circunstância de ambos ocuparem um lugar cimeiro no panorama literário dos povos que os consideram como seus. Os gregos para o alegado aedo dos Aqueus na Ilíada e na Odisseia, e os portugueses para o legítimo arauto dos barões assinalados cantados n'Os Lusíadas. Só que, na dupla epopeia helénica, os heróis lendários são tidos como históricos, e, no poema épico lusitano, os heróis históricos se converteram em lendas vivas na memória das gentes. Até hoje.

No ano em que mal se lembrou o quinto centenário do nascimento daquele a quem chamaram Trinca-Fortes, autor confessado dos erros meus, má fortuna e amor ardente, quiçá se evoque na alegada data da morte a efeméride, mais por dever que por prazer. É que ao vir ao mundo ainda está tudo por dizer e ao ir desta para melhor já não há nada a aditar. Uma desculpa de mau pagador, em nada impeditiva de continuarmos a ler nas linhas e entrelinhas a mensagem de quem veio não se sabe donde, que andou dum lado para o outro como a fortuna, caso, tempo e sorte lhe permitiram, que foi lançado numa cova comum quando assim adveio e que hoje dizem jazer no túmulo neomanuelino nos Jerónimos e deter um cenotáfio em Santa Engrácia. Os amores, naufrágios, aventuras, desterros e prisões dispersos no rincão pátrio, pelos Algarves d'aquém e além-mar em África, pelas Etiópias, Pérsias e Índias, não têm parado de animar os rastreadores encartados ou por encartar de tentar apurar os mistérios camonianos agentes de mil e uma fantasia lançados aos quatro ventosDessarte, o aporte de Isabel Rio Novo torna-se crucial para desfazer muitos desses mitos e obter uma dimensão mais precisa do século de ouro da nossa cultura cada vez mais afastada do nosso horizonte de eventos. O repto fica feito.

10 de junho de 2024

Berço e Tumba de Camões

CAMÕES (2019)
Alexandre Farto Aka Vhils
[Lisboa, Imprensa Nacional, Mural]

Doces lembranças da passada glória


Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou Fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz ῦ'hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n’alma larga história
Deste passado bem, que nunca fora;
Ou fora, e não passara; mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro d’esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.

                 Luís de Camões*

NOTAS
Soneto autobiográfico a assinalar o início tímido e tardio da celebração oficial dos 500 anos do nascimento de Camões, na data apontada para a sua morte. Absurdos repetidos à exaustão, a de-monstrar por A+B a importância que se costuma dar em vida aos grandes vultos da cultura, faz-se tábua rasa do berço e tecem-se loas à tumba.

* Transcrita por Frederico Lourenço IN Camões, Uma antologia. Lisboa: Quetzal, 2024 

10 de junho de 2023

Luís de Camões, incorreto, aventureiro, guerreiro, provocador e génio...

Luís de Camões: Olh'ó Camões (caricaturas)

Os Lusíadas, a epopeia de Camões, o Homero ou o Virgílio português, talvez seja o poema menos politicamente correto de todos os tempos, e o autor é claramente culpado de todos os pecados de início apontados nas universidades e que agora são deplorados pelos meios de comunicação: orientalismo, racismo, sexismo, mercantilismo, imperialismo e todas as suas variações. No entanto, Camões é um grande poeta épico, cuja força criativa anima a tradição literária portuguesa que dele emana [...]

O sofrido Camões perdeu o pai num naufrágio em Goa, na Índia Portuguesa, perdeu o olho numa batalha em Ceuta. Poucos grandes poetas foram guer-reiros, quaisquer que sejam as razões. Camões teve pouca aceitação durante a vida, mas desde então tem sido o poeta nacional – curioso destino para um aventureiro renascentista, singular e corajoso.

Na nossa nova Era do Terror, Camões parecerá um sectário provocador, pois a sua visão de um mundo conquistado para o catolicismo português tem necessariamente os Muçulmanos como principais oponentes. E, no entanto, Camões, embora o seu tema seja o heroísmo português, nunca desdenha dos custos humanos seja em que circunstância for e as suas profundas ambiguidades refletem um génio tão compadecido como corajoso. A sua epopeia histórica não é uma obra datada, mas sim relevante, infelizmente demasiado relevante, no momento em que avançamos nesta era de guerras religiosas (por mais que dissimulemos chamando-lhe outra coisa).

Harold Bloom. Génio: os 100 autores mais criativos da história da literatura
Lisboa: Temas e debates/Círculo dos Leitores, 2014, pp 574, 575.

10 de junho de 2021

Erros meus, má fortuna & amor ardente, na visão lírica de Luís Vaz de Camões

S O N E T O  V I I I.

ERros meus, mà fortuna, amor ardente,
Em minha perdição ſe conjurarão,
Os erros, & a fortuna ſobejarão,

Que para mim baſtaua o amor ſomente.


Tudo paſſey; mas tenho taõ preſente
A grande dòr das couſas que paſſarão,
Que as magoadas iras me enſinarão,
A não querer já nunca ſer contente.
 
Errey todo o diſcurſo de meus annos,
Dey cauſa, que a fortuna caſtigaſſe
As minhas mal fundadas eſperanças.
 
D’amor não vi  ſenão breues engãnos,
O quem tanto podeſſe, que fartaſſe
Eſte meu duro genio de vinganças.
 
imas de uís de amoẽs
Em Lisboa : na officina de Pedro Crasbeeck
a custa de Domingos Fernandez  mercador de livros, 1616.
[12], 40 f. ; 4.º (19 cm)

10 de junho de 2020

A espada e a pena de Camões

José de Guimarães
«Camões de capa e espada»
(1981)

OITAVA


Olhay que ha tanto tempo, que cantando
O voʃʃo Tejo, & os voʃʃos Luʃitanos,
A fortuna me traz peregrinando,
Nouos trabalhos vendo, & nouos danos:
Agora o mar, agora eʃprimentando
Os perigos Mauorcios inhumanos,
Qual Canace que â morte ʃe condena,
Nũa mão ʃempre a eʃpada, & noutra a pena.

                  OS LVSIADAS de Luis de Camoẽs
Impreʃʃos em Lisboa, com licença da ʃancta Inquisição, & do Ordinario:
em caʃa de Antonio Gõnçaluez Impreʃʃor. 
1572
(VII, 79, fl. 126; Pdf p. 261)

10 de junho de 2019

A grande aflição de Camões…

CAMÕES

Júlio Pomar, 1989

Apólogo Dialogal Quarto,
em que são interlocutores os livros de Justo Lípsio, Trajano Bocalino, D. Francidco de Quevedo e o autor desta obra.


Autor. Escusai a disputa, porque as lástimas e queixas que ali está dando um doente acusam já vossa ponderação por impiedosa. Oh, coitado! Como se mostra dolorido! 

Quevedo. Vozes soam, de grande aflição; mas, se me não engana o eco, portuguesas parecem. 

Bocalino. Pelo menos, não são italianas, nem francesas. 

Lípsio. Nem flamengas, nem latinas. E, de caminho, vos descubro este segredo, como versado nele: sabei que todos os idiomas do mundo tem seu tom particular, sobre que armam sua linguagem. Como latinos, espanhóis e ingleses fazem sobre a letra ON, fran-ceses sobre EA, como já foram os gregos, e são mais frequentes que todos, os etíopes na letra E, os bárbaros das Índias ocidentais se afeiçoaram tanto à letra V, que em quase todas as dicções nela acabam suas cláusulas, donde, se notardes, procedem dous galan-tes secretos: o primeiro, que sem compreensão de palavras se pode averiguar qual seja a língua em que se proferem; o segundo, que pela frequência das letras se descifra qualquer segredo escrito nelas. 

Bocalino. Não lhe faltava mais agora a este flamengo presumido, senão ensinar-nos o A. B. C.! 

Autor. A menos custa de prosa, eu sei já, senhores, quem é o doente

Lípsio. Quem? 

Autor. É o pobre de Luís de Camões, que está ali lançado a um canto, sem que todos os seus cantos tão nobremente cantados lhe negociassem melhor jazigo! 

Bocalino. De que se queixa o famoso poeta português? 

Quevedo. De nós todos se poderá queixar, porque, sendo honra e glória de Espanha, tão mal tornamos por ele, que, se são poucos os que o lem, são menos os que o entendem... 

Dom Francisco Manuel de Melo, Hospital das Letras, 1657

10 de junho de 2018

Floresça, fale, cante, ouça-se e viva a portuguesa língua...


A PERO D’ANDRADE

Caminha.


CARTA III.

Floreça, fale, cante, ouçaʃe, & viua
A Portugueʃa lingua, & jà onde for
Senhora vâ de ʃi ʃoberba, & altiua.
Se tèqui eʃteve baixa, & ʃem louuor,
Culpa he dos que a mal exercitâram,
Eʃquecimento noʃʃo, & deʃamor.
Mas tu farâs, que os que a mal julgarâm,
E inda as eʃtranhas linguas mais deʃejam,
Confeʃʃem cedo ant’ella quanto errâram.
E os que deʃpois de noós vierem, vejam
Quanto ʃe trabalhou por ʃeu proueito,
Porque elles pera os outros aʃsi ʃejam…

DEDICADOS POR SEV FILHO
Miguel Leite Ferreira, ao Principe D.
PHILIPPE noʃʃo ʃenhor.

EM LISBOA
Impreʃʃo com licença, Por Pedro Crasbeeck.
M. D. XCVIII.
Com Priuilegio. A cuʃta de Eʃteuão Lopez Liureiro.

10 de junho de 2017

Falar a língua em que se mamou...

Samuel Usque
Consolação às tribulações de Israel
Ferrara, 1553


Prologo

Algũs  ſeñores  quiſerom dizer antes que
ſoubeſem  minha  razam, que fora milhor
auer cõpoſto  em  lingoa  caſtelhana, mas
eu  creo que niſſo nam errey, porque ſen-
do o  meu principal  yntento falar cõ Por
tugheſes e repreſentando a  memoria  de-
ſte  noſſ deſterro  buſcarlhe  per  muitos
meos  e  longo  rodeo,  algum  aliuio aos
trabalhos  que  nelle  paſſamos,  deſconue
niente  era  fugir da  lingua que mamey e
buſcar outra preſtada per a falar aos meus
naturais; E  dado  caſo  que  A  volta ou-
ue muitos do desterro de Caſtela,
e os meus paſſado a daly ajam
ſido, mais razaõ parece
que tenha agora co
nta com o pre-
ſente e
ma-
yor can-
tida-
de.

CONSOLACAM AS TRIBVLACOENS DE ISRAEL 
COMPOSTO POR SAMVEL VSQVE.

NOTA:
Assim se ortografava no tempo de Samuel Usque, assim se ortografava também no tempo de Luís de Camões, assim se demonstra deter cada tempo os seus usos de ortografar a língua que se mamou na infância...

10 de junho de 2016

As escritas de Camões...

LUÍS DE CAMÕES

O retrato pintado em Goa, 1581

Numa mão a espada na outra a pena...


Em finais dos anos oitenta, realizei uma edição crítica dum autor português seiscentista. Tive de respeitar as práticas de escrita que nesses tempos se usavam, as mesmas que Camões teria usado. O meu PC não gostou dessa forma tão bizarra de escrever e mandou-me consultar com urgência a norma oficial portuguesa de registo da língua então em vigor. A de 1945 revista em 1973.

Este episódio assalta-me a memória sempre que vem à baila a aplicação do acordo ortográfico de 1990. Dizem que se Camões o pudesse ver fugiria a sete pés e procuraria de novo refúgio no tú-mulo. Vá-se lá saber porquê. E como a ignorância é muito atrevida, aí vão duas oitavas d’Os Lusíadas, registadas tal qual como soía fazer-se em 1572, ano da editio princeps da epopeia.

OITAVAS
Eis aqui quaʃi cume da cabeça,
De Europa toda, o Reino Luʃitano,
Onde a Terra se acaba, & o mar começa,
E onde Febo repouʃa no Occeano:
Eʃte quis o Ceo juʃto que floreça
Nas armas, contra o torpe Mauritano,
Deitando o de ʃi fora, e la na ardente
Affrica estar quieto o nam o conʃente.

Esta he a ditoʃa patria minha amada,
Aa qual ʃe o Ceo me dá, que eu ʃem perigo
Torne, com eʃta empreʃa ja acabada,
Acabeʃe eʃta luz ali comigo.
Eʃta foy Luʃitania, deriuada
De Luʃo ou Lyʃa: que de Bacho antigo
Filhos forão, pareçe, ou companheiros,
e nella antam os Incolas primeiros

Impreʃʃos em Lisboa, com licença da ʃancta Inquisição, & do Ordinario:
em caʃa de Antonio Gõnçaluez Impreʃʃor. 1572
(III, 20-21, fls. 41-41v.; Pdf pp. 91 e 92)

OBS.:
A questão que se me põe neste momento é a de saber se Camões teria a mesma reação relati-vamente a todos os registos que a sua escrita foi sofrendo ao longo dos tempos. Exatamente 444 anos após a publicação da obra máxima da cultura literária portuguesa. Depois, caso os recusasse em bloco, por ferirem os seus hábitos ortográficos, começarmos a restaurar as práticas algo peculiares que teria seguido nos seus dias. Seria, no mínimo, curioso, para não dizer doloroso...