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1 de dezembro de 2025

O país das laranjas & o pais dos coelhos

LARANJA

Laranja, s. Do persa nārang (por sua vez do sânscrito nāranga) pelo ár. nāranjâ, mesmo sentido; cf.: esp. naranja, galego laranja. Este dualismo hispânico (laranja-naranja) faz-me hesitar quanto ao caso port.: trata-se da evolução ár. nāranjâ < port. laranja, ou, talvez antes, de port. laranja < ár. vulgar nāranâ? Esta última forma é nome de unidade de laranj, muito espalhado pelos dialetod ocidentais...
J. P. Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa,  Lx. Horizonte: 1977 (III, 386b)

Os mitos e lendas greco-latinos localizaram o Jardim das Hespérides nas terras do fim do mundo junto ao grande mar Oceano. Os Pomos de Ouro ali existentes passaram com o tempo a confundir-se com as Laranjas. Provavelmente as amargas, porque as doces parece terem sido introduzidas/inventadas pelos habitantes históricos ali instalados, sobretudo na parte mais ocidental da península. Alguns passaram então a chamar-lhes Portugal ou «Terra das Laranjas».

Inspirados nesse diz que diz enriquecido pela mitologia helénica, portokáli, portocálâ, portokal' e portokal passaram a designar LARANJA em grego, romeno, búlgaro e turco. O exemplo foi depois seguido por outras línguas faladas fora das fronteiras europeias, tais como o arménio, georgiano, afegão ou iraquiano. Até a vintena de países árabes (os introdutores do fruto na península), o fazem no seu dia a dia, registando برتقال e pronunciando bortugal ou burtugálum.

Os mitos e contramitos fenícios não tiveram a mesma sorte neste rincão distante da Ibéria a que chamaram Span ou Spania, que, através da terminação I-shphanim, remeteria para um mamífero roedor da família dos hiracoides ali existentes em grande quantidade. À falta dum nome mais adequado para identificar esse território obscuro onde o sol se punha no final do dia, batizaram-no de «Terra dos Coelhos». A denominação Hispânia viria mais tarde por via latina, derivando depois para Espanha.

No Primeiro de Dezembro de 1640 o País das Laranjas venceu o Pais dos Coelhos. Dizem por aí que o primeiro se libertou da tutela do segundo, ou que recuperou mesmo a sua independência. Bocas. Os Habsburgos coroados caíram e os Braganças levantaram-se. Sai um primo entra outro primo. Castelhanos/Portugueses ou vice-versa. Tudo farinha do mesmo saco. Os herdeiros de Carlos Quinto de Gand e de Isabel de Portugal revezaram-se no poder.

Os festejos da restauração monárquica portuguesa foram breves, sendo logo substituídas pelas fanfarras dos exércitos hispânicos. A Guerra da Aclamação duraria 28 anos a que se seguiram alguns conflitos mais em períodos intermitentes. Até houve uma Guerra das Laranjas ainda viva em Olivença por palavras ditas/reditas nos dois lados da raia. Questiúnculas antigas de irmãos/hermanos desavindos e sempre de braços abertos para o restabelecimento da paz.

1 de março de 2022

Março das sementeiras e da juventude

ARÈS (Mars)
Sans être nécessairement un dieu de la végétation, Arès est aussi un protecteur des mois-sons, ce qui est une des missions du guerrier. S’Il est salué du titre de dieu du printemps, ce n’est pas toutefois parce qu’il favorise la poussée de la sève, mais parce que le mois inaugure la saison où les princes vont en guerre. Il est aussi le dieu de la jeunesse : il guide en particulier les jeunes gens, qui émigrent pour fonder de nouvelles villes. Romulus et Remus seraient ses deux fils jumeaux. On voit souvent dans les œuvres d’art les émigrants accompagnés du pic vert ou du loup, qui sont des animaux consacrés à Arès ; c’est une louve qui allaita les deux jumeaux, dans une grotte du futur Palatin.
Chevalier-Cheerbrant, Dictionnaire des symboles. Paris: Laffont/Jupiter,1982,74-75

Quando março era o primeiro mês do ano (latmartius), Marte, o deus romano da guerra (Mārtis), tomava a seu cargo a proteção tutelar dos cidadãos que consigo iniciavam um novo ciclo sazonal e dava as boas-vindas à primavera, despedindo-se definitivamente das agruras do inverno. Aquele que também se identificava com Marte (lat. Mars), o planeta vermelho da cor do sangue, era por razões ditadas pelo calendário natural e pela sabedoria milenar dos povos, o arauto por excelência da juventude e protetor especial das atividades juvenis.

Enquanto divindade tutelar das culturas, seria bom que o deus Marte providenciasse umas boas chuvadas de dia ou de noite, para assim garantir colheitas fecundas a contento de todos. Pedir-se-ia ainda ao pai de Rómulo e Remo, os protegidos da loba capitolina e fundadores de Roma, que trocasse o poder bélico das armas pela serenidade das palavras no conflito atualmente em curso na raia levantina da Europa, a bem-amada de Zeus Olímpico, trocando assim de vez a guerra em paz. Para um deus tão poderoso não é exigir muito. Parece-me!

Lupa Capitolina
(Sécs. ⅩⅢ-ⅩⅣ)
[Musei Capitolini - Roma] 

9 de maio de 2021

A Europa das Luzes no dia que lhe é dedicado

NASA
Satellite view of Europe at night
Iluminismo, Lumières, Aufklärung, Enligthment: O fenómeno das Luzes, longe de ser nacional, singular e segmentar, apresenta-se como europeu.
Jacqueline Russ, A aventura do pensamento europeu (1995)

Olho e volto a olhar para a Europa noturna captada por um satélite da Nasa e, por mais que olhe e reolhe, não vejo nenhuma princesa, ninfa ou deusa deitada como nos garantiam as velhas lendas etiológicas helénicas. Não vejo e nunca verei, a menos que se trate duma versão atualizada, concebida à maneira cubista da modernidade pictórica, seguindo o modelo dos seus mais destacados cultores. Ou, então, reconhecer que a tecnologia que hoje em dia nos rege tem o condão de transformar os mitos em contramitos.

Observo e volto a observar a tal fenícia de origem argiva raptada por Zeus e, nos locais anatómicos onde deveria encontrar os braços, e enxergo algo semelhante a uma bota na península italiana e uma espécie de coto na península dinamarquesa. Quanto às pernas e pés da célebre heroína de sangue real, topo com uma sorte de barbatana na península escandinava. Só a península ibérica se parece com um rosto, mais com o pintado por Picasso na Guernica do que a descrita por Ovídio nas Metamorfoses.

Analiso e volto a analisar a imagem aérea dum continente tido por alguns como divino para alguns e só vislumbro luzes. As que se veem à noite e sentem com os restantes sentidos durante o dia. As fronteiras do antigo Império Romano estão bem iluminadas na fronteira oriental, perdendo-se em intensidade na parte nascente da Eurásia, mantendo um brilho ainda considerável nas margens do Mediterrâneo Norte e do Mar Oceano, quase desaparecendo na vertente africana do Velho Mundo Greco-Latino.

Miro e volto a mirar a filha de reis e amada do pai dos deuses e só lobrigo o fulgor olímpico que lhe foi dado pelo senhor dos trovões numa altura em que o divino se unia ao secular. Fonte de luz iluminista que deu novas formas de encarar o mundo e de o tornar mais ameno para quem nele vive. No dia em que se celebra o Dia da Europa, esperemos que esta filosofia baseada na razão e liberdade persista para sempre, imortal, como soía acontecer com os descendentes de Cronos, o deus primordial do tempo.

9 de maio de 2018

Terras e usos, rocas e fusos da Europa

  CARTAZES DO DIA DA EUROPA  

In Vielfalt geein - Обединен в многообразието - Jednotná v rozmanitosti - Ujedinjeni u različitosti - Forenet i mangfoldighed - Zjednotení v rozmanitosti - Združena v raznolikosti - Unida en la diversidad - Ühinenud mitmekesisuses - Moninaisuudessaan yhtenäinen - Unie dans la diversité - Ενωμένοι στην πολυμορφία - Egység a sokféleségben - United in diversity - Aontaithe san éagsúlacht - Unita nella diversità - Vienota dažādībā - Suvienijusi įvairovę - Magħquda fid-diversità - In verscheidenheid verenigd - Zjednoczona w różnorodności - Unida na diversidade - Uniţi în diversitate - Förenade i mångfalden

   unida na diversidade   


Os Fenícios viviam na ilusão de estarem no centro dum mundo plano feito à sua medida. Os deuses tinham-nos escolhido para verem todos os dias o Sol bem por cima de si, a meio do percurso que fazia pela esfera celeste. Aos locais onde ciclicamente nascia e morria, chamavam-lhes Ásia e Europa. Nós juntámos-lhes as designações de Levante e Poente, Nascente e Ocaso, Sotavento e Barlavento, Este e Oeste, Oriente e Ocidente. Imaginação não tem faltado aos inventores de palavras para designarem o local e o global. 

E os mitos volveram contramitos e a Terra recobrou a esfericidade que lhe era devida. E todos os pontos do planeta passaram a ser ao mesmo tempo centro e periferia. E o Velho Continente despertou desse sonho utópico multissecular de ser também ele o umbigo universal de todas as culturas e civilizações. Um novíssimo urbi et orbi cósmico. Começou a substituir lentamente essa cosmovisão eurocentrista anquilosada, sob a divisa que a passou a definir desde 2000 nas diferentes línguas oficiais da União Europeia.

No dia em que se comemora o Dia da Europa, brindemos a essa unidade na diversidade com vinho do porto ou de champanhe, acompanhemos a celebração com tinto ou branco, completemos a festança com uma imperial ou uma bica. Há anos quando fiz umas férias num país flamengo, habituei-me à ideia normalíssima de acompanhar as refeições com café de saco e terminá-la com uma cerveja trapista numa cafetária. Razão tem a sabedoria popular ao afirmar caber a cada terra o seu uso e a cada roca o seu fuso.

9 de maio de 2016

Os dias da Europa

NIKIAS SKAPINAKIS
Enlevo de Miss Europa, 1973
[Museu do Chiado - Lisboa]
O mito é o nada que é tudo...
Quando os Fenícios se começaram a espalhar por toda a bacia me-diterrânica a partir de Gubla/Gebal, a que os Gregos chamaram Biblos, sentiram-se no direito de se intitular os senhores absolutos do mundo. Ao olharem o Sol a meio da sua caminhada diária pela esfera celeste, acreditavam estar no centro do universo. Passaram então a designar de Asu (Ásia) a terra onde o astro-rei se levantava pela manhã e de Ereb (Europa) a terra onde à noite se deitava.

Num tempo perdido no tempo, o tal em que os mitos se desenham e as lendas se propagam, diz-se que Zeus, o pai dos deuses e dos homens, desceu do Olimpo sob a forma de vigoroso touro para seduzir e conquistar Europa, a filha do rei de Sídon. Esta deixou-se cativar pelos encantos e mansidão do animal e montou-o. De imediato, o senhor dos raios e ajuntador de nuvens levantou voo e só pousou em Creta, onde o seu amor se concretizou e frutificou.

Deste encontro divino terão nascido as grandes civilizações do Mediterrâneo: Minoica, Helénica, Romana, Cristã e Europeia. O devir histórico deslocou aos poucos a cultura ocidental para outras latitudes, para outros continentes, banhados por outros mares e outros oceanos. Os filhos dos filhos da princesa fenícia e do ajunta-dor de nuvens micénico espalharam-se por toda a parte. O local tor-nou-se global e os mitos transformaram-se num tudo que é nada...