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19 de dezembro de 2023

É Natal e nunca estive tão só

ISABEL AGUIAR
26 Poemas 26 pinturas
(2015)

Último poema
É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

Eugénio de Andrade, Rente ao dizer – 1992

19 de janeiro de 2023

O país sabe a amoras bravas no verão

AMÁLIA SOARES
26 Poemas 26 pinturas
(2015)

As amoras
O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade, O outro nome da terra – 1988


NOTA
A celebrar o centenário do poeta...
(Fundão, 19.01.1923 — Porto, 13.06. 2005)

19 de janeiro de 2020

Com a voz te pinto, com os olhos te digo

ALBERTO PÉSSIMO
26 Poemas 26 pinturas
(2015)
A pergunta de Stevens
Tragam-me o rio até à porta.
Deixem-no comigo este verão.
Vem de terras tristes. Terras
Onde dificilmente o girassol
Voltará a florir, o tordo a acasalar.
Apesar de fatigado, sonha
Com a ressurreição das cigarras.
Poucas coisas houve no mundo
Tão formosas como um rio. Agora
Nem já reflete a sombra das garças.
Em vez de morte, que teremos no paraíso?

Eugénio de Andrade, Ofício de Paciência – 1994

NOTA
A celebrar o nascimento do poeta...
(Fundão, 19.01.1923 — Porto, 13.06. 2005)

6 de março de 2019

Revisitações pintadas da poesia de Eugénio de Andrade

                                              ... a cada gesto que faziam
                                              um pássaro nascia nos seus dedos
                                              e deslumbrando penetrava nos espaços.
                                              Eugénio de Andrade, Os amantes sem dinheiro (1950)

Poesia & Pintura

Vinte e seis pintores criaram a leitura visual de vinte e seis poemas de Eugénio de Andrade. Sinestesias iluminadas de desenhar cenários para imaginar histórias a contar. Deram-lhe a forma duma exposição coletiva na Biblioteca Municipal do Fundão, preparada sob a direção do mestre Alberto Péssimo e inaugurada a 13 de junho de 2015, por ocasião do décimo aniversário da morte do poeta. Converteram-na simultaneamente num livro eclético de registos plástico-verbais, reunidos por José Queiroga.   

Ficam por comentar os textos coligidos. Sinto uma certa relutância em fazê-lo. Situo-a na diferença básica que tenho de encarar de ânimo leve a singularidade da autodescrição em verso e a pluralidade da narrativa em prosa. A imagem fixa dum momento preciso que se confidencia em privado e a sequência de imagens em movimento que se divulga aos quatro ventos. A foto do álbum de família que foi excluída dum filme a ser projetado publicamente à cadência de 24 fotogramas por segundo.

Ignoro se estes 26 poemas de Eugénio de Andrade* revisitados pelo Atelier 26** dispõem duma distribuição comercial preparada à altura das palavras-imagens compiladas. Talvez o Município do Fundão, a Assírio & Alvim / Grupo Porto Editora e os herdeiros do poeta referidos na ficha técnica, em sintonia concertada com as livrarias e bibliotecas deste país, se tenham encarregado deste pequeno pormenor de divulgação da obra escrita e pintada. Ficaríamos todos a ganhar com a iniciativa.
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* EUGÉNIO DE ANDRADE: As mãos e os frutos: «Poema para o meu amor doente» e «Green god» (1948) | Os amantes sem dinheiro: «Os amantes sem dinheiro» (1950: ) | Até amanhã: «Coração habitado» e «Urgentemente» (1956) | Obscuro domínio: «Arte de navegar» (1971) | Véspera da água: «Sobre o caminho» e «É um dizer» (1973) | Matéria solar: «Podias ensinar à mão» (1980) | O peso da sombra: «É um dos mais belos sorrisos» (1982) | Branco no branco: «Ignoro o que seja a flor dada água» e «Encosta a face à melancolia» (1984) | O outro nome da terra: «Os amores» e «O sorriso» (1988) | Rente ao dizer: «Breakfast em Maspalomas» e «Último poema» (1992) | Ofício de paciência: «Fim de outono em Manhattan» e «A pergunta de Stevens» (1994) | O sal da língua: «O lugar da casa», «Verdade poética» e «Caem como pedras» (1995) | Os lugares do lume: «Sul» e «Quase elegia» (1998:) | Os sulcos da sede: «Aos jacarandás de Lisboa», «À beira de ser água» & «Ver Claro» (2001).

** ATELIER 26: Isabel Ribas | José Queiroga | Maria Guia Pimpão | Ana Vasco | Helena Homem de Melo | Félix Iglésias | Rui Silva Teixeira | Isabel Amaral | Odília Rocha | Isabel Rocha | Margarida Figueira | José Veloso | Amália Soares | Licínio Rego | Laura Maria | Isabel Aguiar | Fernando Barros | Alberto Péssimo | Adélia F. | Manuel Matias | Helena Oliveira | Teh | Carlos Ferreira | Madalena Pinheiro | Gonçalo Monteiro | Cácá.