20 de novembro de 2016

As memórias do convento

COMEMORAÇÕES DO TERCEIRO CENTENÁRIO DO LANÇAMENTO DA 1ª PEDRA DA BASÍLICA DO PALÁCIO NACIONAL DE MAFRA

JOSÉ SARAMAGO
Memorial do Convento
(1982)
«Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez...»
(Contracapa da Editorial Caminho)

  1. «El-rei foi a Mafra escolher o sítio onde há-de ser levantado o convento. Ficará neste alto a que chamam da Vela, daqui se vê o mar, correm águas abundantes e dulcíssimas para o futuro pomar e horta, que não hão de os franciscanos de cá ser menos que os cistercienses de Alcobaça em primores de cultivo, a S. Francisco de Assis lhe bastaria um ermo, mas esse era santo e está morto. Oremos.» (J.S, MdC. 1982: 86 )
  2. «...começou a constar em Mafra, e foi confirmado pelo vigário no sermão, que vinha el-rei a inaugurar a obra de raiz dos caboucos para cima, colocando com as suas reais mãos a primeira pedra. Primeiro se anunciou que seria aos tantos de outubro, mas não houve tempo para cavar os alicerces até à sua conveniência fundura, apesar de serem seiscentos os homens, apesar dos muitos tiros de pólvora que a todas as horas do dia vão atroando os ares, será então em novembro, meados dele, depois não pode ser, que já seria como de inverno, andar aí el-rei enterrado na lama até às ligas das pernas.» (J.S, MdC1982: 130 )
  3. «Ai o dia seguinte, passado que foi aquele novo susto de repetir-se a rajada do vento do mar, que sacudiu toda a geringonça, mas enfim, soprou e passou, ai o dia seguinte, retome-se a exclamação, dezassete de novembro deste ano da graça de mil setecentos e dezassete, aí se multiplicaram as pompas e as cerimónias no terreiro, logo às sete da manhã, frio de rachar, se achavam reunidos os párocos de todas as freguesias em redor, com os seus clérigos e muito povo, é forte presunção que tenha vindo desta ocasião o dizer, para uso dos séculos e das gazetas.»  (J.S, MdC1982: 134 )
  4. «Foi a pedra principal benzida, a seguir a pedra segunda e a urna de jaspe, que todas três iriam ser enterradas nos alicerces, e depois foi tudo levado em procissão, de andor, dentro da urna os dinheiros do tempo, ouro, prata e cobre, umas medalhas, ouro, prata e cobre, e o pergaminho onde se lavrara o voto, deu a procissão uma volta inteira para mostrar-se ao povo que ajoelhava à passagem, e, tendo constantemente motivos para ajoelhar-se, ora a cruz, ora o patriarca, ora el-rei, ora os frades, ora os cónegos, já nem se levantava, bem poderemos escrever que estava muito povo de joelhos...»  (J.S, MdC1982: 135 ) 

    José Santa-Bárbara
    Vontades. Uma Leitura de Memorial do Convento (2001)

3 comentários:

  1. A 17 de Novembro de 1717 - combinação auspiciosa de números - muito povo, como agora, de joelhos, já nem se levantava... Valha-nos a obra imponente e o romance impressonante de Saramago! Feliz registo, Prof.!

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  2. Data de 1987, o ano de aquisição deste romance, deve ser cá em casa o livro mais manuseado, primeiro o leitor, o meu marido. Nunca mais deixou de falar dele a toda a gente interessada ou nem por isso. Eu tentei por 2 ou 3 vezes iniciar a sua leitura, mas desisti sempre. Teimosa que sou hei de lá voltar. Depois foram os filhos, para a escola, a mais nova é que adorou a história, era vê-la trocar impressões com o pai. Grande obra, pelo menos cá por casa...

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  3. Uma crítica mordaz à História de Portugal e mais interessante ainda para quem, ao lê-la, tenha conhecimentos sobre esse período histórico. Uma verdadeira obra-prima da literatura portuguesa.

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