17 de novembro de 2016

O camaroeiro da Princesa Perfeitíssima

CAMAROEIRO REAL

Dalmática oferecida por D. Leonor à igreja do Pópulo
[Museu e Arquivo Histórico do Hospital Termal de Caldas da Rainha] 
Depois de el-rei D. João falecer, fazendo uma dama, que fora sua, queixume à rainha que um fidalgo, com quem a casara, era mau caseiro por ser sobejamente inclinado à caça, disse-lhe a rainha: 
―  Calai-vos, Fuão, que se não pode levar a carga do matrimónio sem alguma recreação. O que as outras mulheres sentem eu o não sei; mas de mim vos afirmo que todas as vezes que el-rei meu senhor, que está em glória, vinha de fora, me parecia que tornava a casar de novo.
ANÓNIMO, Ditos portugueses dignos de memória  (séc. xvi)
Desconhece-se se de facto D. Leonor de Lencastre (1458-1525), viúva de D. João II (1455-1495) e irmã de D. Manuel I (1469-1421), terá dito o que o compilador anónimo disse que disse no Ditos acima transcrito em jeito de epígrafe. A ser verdade, deve situar-se entre 1470 e 1481, período de tempo em que usufruiu do título de Princesa de Portugal, por estar casada com o herdeiro do trono. O estado de graça conjugal terá começado a vacilar nesse preciso momento, dando início ao processo de rotura que culminará com o desaparecimento trágico do filho em 1491.

Presumo que a Princesa Perfeitíssima terá começado a usar o camaroeiro real como corpo da sua divisa na mesma altura em que o Príncipe Perfeito terá adotado pelo pelicano eucarístico. O sangue mandado derramar pelo herdeiro de D. Afonso V ao assumir as rédeas do poder terá pesado na dupla escolha. O novo soberano, para simbolizar a consolidação do poder absoluto que passou a exercer em todos os reinos e senhorios de aquém e além-mar em África; a real consorte, para simbolizar o luto pela morte matada do irmão e do cunhado por motivos políticos.

A rede simboliza, assim, o reino dos céus, por se assemelhar à ma-lha lançada às águas para pescar todo o tipo de peixes. A salvação da alma seria, a seu ver, a mais preciosa das riquezas alcançada em vida: Preciosior est cumctis opibus. Citação bíblica (Provérbios: 3, 15) incluída no emblema régio da fundadora das misericórdias e do hospital termal das caldas que levam o seu nome. Com estas pa-lavras, quereria a rainha dizer que o poder temporal alcançado nos reinos da terra de pouco ou nada valeriam depois de transpostas as fronteiras inexoráveis da existência humana.

NOTA:
Apeteceu-me contar esta história no dia em que a Princesa Perfeitíssima foi ao encontro do Príncipe Perfeito e estarão os dois em grande glória a celebrarem eternamente as folias matrimoniais dos reencontros... 

1 comentário:

  1. Mais uma interessante reflexão sobre a vida de Leonor Lencastre que, se não fosse a dúvida sobre ter mandado envenenar o esposo, me soaria muito romântica. O seu emblema régio parece-me sugerir uma confirmação da sua argúcia como mulher de Estado...

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