25 de abril de 2017

A aurora luminosa duma manhã de abril

universos romanescos, um portátil & música de fundo

MADRUGADA

[Lisboa, 25 de abril de 1974]

A noite vai alta e escura. A terra por debaixo da cidade emana um hausto fresco, os parques e os jardins abertos ao ar, húmidos como as narinas de um gato. Tudo está quieto, espesso sob a pelagem da noite sem estrelas, mas tão pouco velada. Ou velada lá tão alto que o resultado é esta quietude da cidade numa treva, um escrínio. Não está frio. Pelas quatro da manhã fez um jorro de vento, um único. Uma pancada de ar marítimo que avançou sobre as ruas baixas e os espaços abertos, cidade acima. A roupa meio seca estalou nas cordas, enfunando corpos, as copas das árvores moveram-se. A maré ia vazia. Empurrados pelo golpe de aragem os detritos estremeceram sobre a babugem suja e brilhante das orlas de cimento e de areia parda.

Um pequeno caranguejo negro desceu em direção às águas, estacou irisado no fervor amarelo da espuma, as duas tenazes sondando a viração do ar. Os grumos de pardais sobre os ramos insuflaram as penas e mudaram de asa as pequenas cabeças, de novo quietos como frutos. Dentro das casas os homens suspiram e mudam a postura por dentro do sono, mudam de sonho, enquanto os cães levantam a cabeça e estiram as orelhas e o olfato para o lado sul e do crepitar das ramas lá fora, deitando depois o focinho sobre as patas, os olhos ainda abertos na melancolia do alarme. Como que coberto de uma película viva, o asfalto reproduz os jorros de luz de um ou outro carro rápido por dentro das ruas desertas, e a dos candeeiros altos, lívida.

Sobretudo nos jardins públicos, praças arborizadas e cemitérios, a quietude é quase medonha. É sempre assim antes que a manhã raie, a menos que a chuva, a esta hora sempre miúda, venha pairar sobre estas formas tão dentro de si mesmas, juntando a este silêncio o seu silêncio, que tem outra leveza.

Há um carro de bois carregado de hortaliça que desce para perto do rio. O chiar do rodízio e o pousar rítmico, claro, dos cascos do animal, que só pode ser visto a esta hora, enchem a noite da sua certeza profunda, que para cada cidade sua noite. Aqui, há uma perenidade abafada. A rocha basáltica absorve os sons e prolonga-os num ronco atemporal, o respirar duma caverna subterrânea que os homens escutam dormindo, a alma negra do porto, da viagem.

Um galo canta, rouco, e outro. É ainda a secreta proliferação das traseiras, pátios, quintais, periferias internas de lixeiras e barracas. No rio há barcas onde um luzeiro hesita por detrás de um pano, ou da oscilação levíssima de um homem que se levanta do casco para comer, para urinar sobre a borda. Grasna um motor que hesita em pegar, crespo da humidade. Num cacilheiro quase vazio, duas mulheres dormitam uma sobre a outra, sem destino, sob aquela luz amarela.

Junto à linha do horizonte, sobre o mar, começa a lumiar um clarão. Vem branco, o sinal da aurora. Há muita névoa.

Maria Velho da Costa, Lucialima (1983: 11-12)

17 de abril de 2017

Carlos Ruiz Zafón, a trilogia da neblina ou das histórias góticas de mistério, amor e aventuras juvenis

«Otros lo llamaban el Príncipe de la Niebla, porque, según las habla-durías, siempre emergía de una densa niebla que cubría los callejones nocturnos y, antes del alba, desaparecía de nuevo en la niebla.»
Carlos Ruiz Zafón, El Príncipe de la Niebla (1993)
«Allí crecimos sin otra familia que nosotros mismos y sin otros recuer-dos que las historias que contábamos al llegar la madrugada en torno al fuego, en el patio de la vieja casa abandonada que se alzaba en la esquina de Cotton Street y Brabourne Road, un caserón en ruinas que habíamos bautizado como el Palacio de la Medianoche.»
Carlos Ruiz Zafón, El Palacio de la Medianoche (1994)
«–La gente del pueblo cree que el islote del faro está embrujado o algo así. Se dice que una mujer se ahogó allí hace mucho tiempo. Hay quien ve luces, En fin, cada pueblo tiene sus habladuras, y éste no iba de menos. || –¿Luces? || –Las luces de septiembre –dijo Ismael mientras rebasaban el islote a estribor–.»
Carlos Ruiz Zafón, Las luces de septiembre (1995)
Afirmam as estatísticas que Carlos Ruiz Zafón é o escritor de língua espanhola mais lido e traduzido, contando já com mais de 35 milhões de exemplares vendidos um pouco em toda a parte. Esqueceram-se os meios de comunicação social de explicitar se esse valor é absoluto ou se só se refere aos nossos dias. Seja qual for a resposta, o obreiro do Don Quixote que se cuide, pois arrisca-se a ver o seu nome substituído no Instituto Cervantes pelo do criador da saga do Cemitério dos Livros Esquecidos. Brincadeiras à parte, o fenómeno editorial deste fabricante invencível de best-sellers à escala global merece uma atenção muito especial, não deixando nenhum dos seus alegados leitores indiferentes. Goste-se ou não se goste do estilo, a verdade é que esta história de sucesso está longe de ter sido contada sempre do mesmo modo e com a mesma euforia numérica. Digamos que o reconhecimento nacional e internacional só se deu a media res do percurso encetado pelos universos da escrita, a meio da caminhada. A publicação d’ A sombra do vento (2001) está na origem deste boom, a que se foram depois seguindo as três continuações da tetralogia, e a visita retrospetiva nos intervalos de espera dos quatro restantes títulos dados à estampa em datas anteriores. Incluem-se nesse rol uma série de romances juvenis autónomos, entretanto associadas na designada Trilogia da neblina. É sobre estes textos inaugurais que irei tecer alguns considerandos.

O ponto de partida para a fama é dado pel’ O Príncipe da Neblina (1993). A estreia não podia ter sido mais auspiciosa, dado que arrebatou de imediato o Prémio Edebé, o que deverá ter inspirado o novíssimo fabricante de histórias góticas de amor, mistério e aventuras a continuar o seu percurso por esse trilho em boa hora escolhido. Decorre num cenário idílico de verão, numa aldeia portuária inglesa, provavelmente na costa córnica do Atlântico ou da Mancha, não muito distante de Southampton, e está distribuída por dois eixos temporais que terminam inexoravelmente por se cruzar nos labirintos da fábula. Os destinos dos intervenientes dos anos 30 e os dos 40 acabam por traçar as peripécias trágicas que conduzirão à inevitável catástrofe. A descida aos infernos marítimos é encetada pelos protagonistas quando se atrevem a invadir as catacumbas submarinas do Orfeu, o navio naufragado e residência dum espetro da água, mais conhecido por Príncipe da Neblina.

O segundo ensaio de lançamento para a glória dum autor ainda desconhecido do grande público prossegue em torno d’ O Palácio da Meia-noite (1994), um velho casarão abandonado e arruinado escolhido para sede da Chowbar Society, clube secreto formado por sete alunos do orfanato St. Patrick’s de Calcutá. Decorre nos derradeiros dias de maio de 1932, nas vésperas de completarem o décimo sexto aniversário e derradeiro que celebrarão juntos no colégio indiano onde haviam vivido até aí à mercê da caridade alheia. Os fantasmas vindos do passado num comboio em chamas irrompem pelos bairros da cidade maldita para assombrar os protagonistas da fábula. É conduzido por um espetro de fogo, qual ave fénix renascida das cinzas, no papel de anjo demoníaco ou espírito vingativo de sucessos mal resolvidos noutras encarnações. Jogo de vida e morte imposto por uma figura sem rosto atormentada pela loucura. Sombra sem corpo à procura da liberdade que só lhe será concedida um pouco antes do pano de cena descer e deixar livre o proscénio para novas atuações não reveladas na tessitura narrativa.

No terceiro mergulho para o sucesso, os eventos relatados n’ As luzes de setembro (1995) voltam a representar-se num cenário marítimo, situado agora na costa normanda e numa baía vizinha do Mont Saint-Michel. Regresso simétrico também às imediações dum farol, ao reencontro dramático de episódios antigos e atuais, ao debate agónico modificador do rumo que a predestinação ou o livre-arbítrio teriam tido planeado traçar em linhas cronológicas distintas. Luzes e trevas digladiam-se sem tréguas em torno dum fabricante de autómatos que vive encerrado numa gigantesca mansão, rodeado de seres mecânicos por si criados, espetro de vapor a circular num universo de gente invisível, recriação dum Doppelgänger, a sombra duma pessoa que se separou do dono e regressa em determinado momento para o atormentar. Figura que terminada a sua função no derradeiro drama da série salta insatisfeita para as páginas dos romances que se lhe seguem nos anos seguintes, acompanhado de muitos outros motivos feitos de tormentas, ventos, brumas, penumbras, nevoeiros, névoas e neblinas.

Lidos os livros, podemos afirmar com conhecimento de causa que o sobrenatural existe em Carlos Ruiz Zafón. Duma forma insistente em todas as componentes deste retábulo pintado em três painéis. É aceite por todos com reações de terror, saltando dos domínios do fantástico-estranho para os do fantástico-maravilhoso teorizados por Tzvetan Todorov*. O tópico da loucura desenvolve-se na dupla personalidade das entidades maléficas, oriundas do além-túmulo à procura duma segunda existência neste mundo. Estabelecem pactos de irresistível aceitação e de implacável cumprimento. As recordações são trazidas à superfície, à consciência dos protagonistas/antagonistas e a catarse dá-se. Os heróis partem cedo para os Campos Elísios, no apogeu da sua beleza física e psíquica, para assim serem lembrados para todo o sempre e por todos nós. E neste palco de maniqueísmos genéricos, é bom esperar que os espectros das figuras sem corpo desçam às profundezas do Tártaro, para que a ação purificadora do fogo e da água cumpram o seu papel e a justiça se exerça em toda a sua magnificência e os espetadores possam regressar a casa com a cara lavada no final da função.

NOTA:
(*) Tzvetan Todorov, Introduction à la littérature fantastique, Paris, Le Seuil, 1970.




10 de abril de 2017

As vozes sem rosto da rádio

Gérard Aubry

«Radioamateur dans sa station d'émission en 1989»


MORDIDELAS MATINAIS DA COMERCIAL


Disponho dum terminal rodoviário no outro lado da rua onde moro. Dali partem 9 circuitos para todos os pontos da cidade e 6 linhas para as periferias. Sucedem-se uns aos outros com um intervalo de 1/4 de hora. Utilizo-os quase todas as manhãs e deixo-os descansar ao final do dia. A menos que o tempo de chuva me aconselhe a regressar a casa num deles. Caso raro por estas paragens.

Há cerca de um bom par e meio de anos, quando a rede foi renova-da, todos os veículos estavam munidos dum sistema sonoro de indicação das paragens, útil para quem vem de fora e não conhece a cidade. Foi um luxo de curta duração, rapidamente substituído por emissões de rádio de gosto duvidoso, sem dar ao passageiro a me-nor possibilidade de mudar de canal ou desligar o aparelho.

Ao ouvir os programas selecionados pelos motoristas, recordo-me dos tempos gloriosos da infância em que a telefonia ainda batia aos pontos a televisão. Continuo a ver a minha avó a ouvir os folhetins radiofónicos e o meu avô a seguir os relatos de hóquei. Por vezes havia a emoção do futebol ao domingo, no tempo em que o Benfica ganhava campeonatos da Europa ou se classificava para a final.

A EN, o RCP, a RR e os EAL ofereceram-me de mão beijada as vo-zes sem rosto da rádio. Para a palavra cantada e falada. Para as notícias de todo o mundo. As boas e as más. A toda a hora do dia e da noite, consoante a disponibilidade do momento. Através dos re-cetores com fios ou a pilhas. Depois, gradualmente, os gostos mu-daram e os tempos livres viraram-se para outros horizontes.

A minha rádio hoje está sediada na NET. O palavreado radiofónico cansou-me. Sobretudo aquele que sou obrigado a ouvir no mini bus com free WiFi on-board sem ser perdido nem achado. Que bom seria se os up to date autocarros da Próximo deixassem em paz as histórias já gastas e esfarrapadas do tal homem que mordeu o cão e deixassem simplesmente fluir a música purificadora do silêncio.

3 de abril de 2017

Argos, o cão de Ulisses

RHYTON

Pintor de Brygos, «Cabeça de cão» (séc. V AEC)
[Musée Jérôme Carcopino - Aléria (Haute-Corse - France)]


Reconhecimento & Fidelidade

Assim falaram entre si, dizendo estas coisas.
E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.
Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio
criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu
para a sagrada Ílion. Em dias passados, os mancebos tinham levado
o cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.
Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:
jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,
até que os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.
Aí jazia o cão Argos, coberto de carraças dos cães.
Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,
começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;
só que já não tinha força para se aproximar do dono.
Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.
Escondendo-a discretamente de Eumeu, assim lhe disse:

«Eumeu, que coisa estranha que este cão esteja aqui no esterco.
Pois é um lindo cão, embora eu não consiga perceber ao certo
se tem rapidez que condiga com o seu belo aspeto,
ou se será apenas um daqueles cães que aparecem às mesas,
que os príncipes alimentam somente pela sua figura.»

Foi então, ó porqueiro Eumeu, que lhe deste esta resposta:
«É na verdade o cão de um homem que morreu.
Se ele tivesse o aspeto e as capacidades que tinha
quando o deixou Ulisses, ao partir para Troia,
admirar-te-ias logo com a sua rapidez e a sua força.
Não havia animal no bosque, que ele perseguisse,
Que dele conseguisse fugir: e de faro era também excelente.
Mas está agora nesta desgraça: o dono morreu longe,
e as mulheres indiferentes não lhe dão quaisquer cuidados.
Pois os servos, quando os amos não lhes dão ordens,
não querem fazer o trabalho como deve ser:
Zeus que vê ao longe retira ao homem metade do seu valor
quando chega para ele o dia da sua escravização.»

Assim dizendo, entrou no palácio bem construído
e foi logo juntar-se na sala aos orgulhosos pretendentes.
Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,
depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos.

Homero, Odisseia (XVII, 290-237)
[Trad. Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2003, pp. 282-283]
Άργος, ο σκύλος του Οδυσσέα