1 de abril de 2015

Poisson d'avril


Pesquei um peixe deste tamanho! –  Afiança o autor da alegada proeza, esticando os braços na sua máxima extensão. A historieta ilustra bem a hipérbole do pescador bafejado pelas graças da fortuna, deixando por esclarecer a sua associação ao Dia das Mentiras, a que os franceses dão o nome de Poisson d'avril.

Informam os linguistas que a expressão seria uma corruptela de Passion de Cristo, celebrada pela Igreja Católica no mês de abril. As deambulações de Jesus de tribunal em tribunal teriam inspirado os povos a mandarem correr de ceca em meca todos aqueles que fossem alvo de escárnio ou mal-dizer.

Garantem outros que a escolha do peixe estaria associado ao jejum quaresmal exigido pelo cânone cristão, que interdita o consumo da carne como forma de penitência. O dito alternativo de manger le poisson d'avril estaria associado a todos aqueles que se recusassem a comê-lo nesse período litúrgico, indiferentes ao pecado da gula.

Há ainda quem faça remontar a tradição ao momento em que o ano passou a iniciar-se em janeiro e não no domingo de Páscoa, como até então ocorrera. A mudança foi entendida como uma mentira esfarrapada, convertendo o primeiro dia de abril na data mais indicado para as cometer impunemente.

Verdade ou mentira, pouco importa até onde nos leva a imaginação mais ou menos fantasiosa para dar sentido aos sem-sentidos da vida. Mito lhe chamaram os gregos. Patranha, peta e tanga diríamos nós. Optar até pelo galicismo blague e afirmar: Je ne ments jamais, c'est toujours la verité qui se trompe.

2 comentários:

  1. Todas as hipóteses apresentadas são curiosas e apresentam as suas razões, mas a que me parece mais óbvia é a do jejum quaresmal. Afinal tudo tem uma explicação.

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  2. Passado o dia oficial das mentiras, dá vontade de recordar o PARADOXO DO MENTIROSO. Se um indivíduo declarar «Estou a mentir», então se for verdade é falso e se for falso é verdadeiro. Deve ser por isso que os políticos da nossa e doutras praças só se permitem dizer «Eu sou a verdade».

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