7 de julho de 2015

The five o'clock tea ou chá das cinco

The World of Samuel Pepys
in Paper Dolls by David Claudon

RAINHA VEM, RAINHA VAI

Diz quem sabe que o Tratado de Aliança Anglo-Português, assinado em 1373 por Eduardo III de Inglaterra e D. Fernando de Portugal, com os seus 743 anos de existência, é o mais antigo do mundo. Como se tal não bastasse, foi renovado-formalizado por D. João I de Portugal e Ricardo II de Inglaterra, em 1386, e dá pelo nome de Tratado de Windsor. Desde então muito se tem dito sobre esta «perpétua amizade, sindicato [e] aliança». Fiquemo-nos pela troca de duas princesas em períodos de conflito armado aceso luso-castelhano, situados na passagem da dinastia de Borgonha para a de Avis (1383-1385) e na de Habsburgo para a de Bragança (1640). Fez-se através de dois casamentos reais muito em voga na altura e agora um pouco caídos em desuso.

D. Filipa de Lencastre (1360-1415) tornou-se rainha consorte de Portugal e Algarve em 1387, após o seu casamento no Porto com o rei D. João I de Avis. Trouxe consigo um modelo multicultural anglo-francês pouco comum no âmbito ibérico das monarquias hispânicas medievais. Foi nesse espírito de renovação de mentalidades que participou na educação dos filhos, a quem Camões designa de Ínclita Geração. O rei-filósofo D. Duarte, o infante-regente das sete-partidas D. Pedro, o infante-navegador D. Henrique, a duquesa de Borgonha D. Isabel, o condestável D. João e o infante-santo D. Fernando. À sua maneira, contribuiu decididamente para tornar o país que a recebera de braços abertos num dos mais prestigiados da Europa medieval a caminho da modernidade.

D. Catarina de Bragança (1638-1705) tornou-se rainha consorte de Inglaterra e Escócia em 1662, após o seu casamento em Portsmouth com o rei Carlos II Stuart. Levou consigo um dote de dois milhões de cruzados e as cidades de Tânger e Bombaim. Fez-se acompanhar ainda dum conjunto de práticas culturais lusitanas que se tornariam numa das mais conhecidas tradições britânicas, o five o'clock tea, o chá preparado em chávenas de porcelana acompanhado de bolos em forma de coroa que tomava pelas cinco da tarde. Aos cakes chamámos nós queques, à marmelada chamaram eles marmalade. Uma permuta de receitas que ainda hoje dão que falar, à margem dos tratados de amizade que, nos nossos dias, se fazem com outros ingredientes bem distintos.

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