27 de outubro de 2016

Mario Vargas Llosa, os folhetins da tia Júlia & do escrevedor

«En ese tiempo remoto, yo era muy joven y vivía con mis abuelos en una quinta de paredes blancas de la calle Ocharán, en Miraflores. Estudiaba en San Marcos, Derecho, creo, resignado a ganarme más tarde la vida con una profesión liberal, aunque, en el fondo, me hubiera gustado más llegar a ser un escritor.»
Mario Vargas Llosa, La tía Julia y el escribidor (1977)
Uma das imagens mais vivas que guardo da infância é a de obser-var a minha avó materna encostada à telefonia a ouvir a Simples-mente Maria patrocinada pelo Rádio Teatro Tide, a história mirabo-lante e interminável da Coxinha, folhetim radiodifundido pelas ondas hertzianas já não sei se da Rádio Renascença se do Rádio Clube Português. Pouco importa. Lembro-me de a ver chorar, gritar, bara-fustar e interpelar as personagens à espera de uma resposta que, naturalmente, nunca lhe era dada. Com o meu avô as coisas passa-vam-se de modo mais calmo. Para além das partidas de hóquei em patins em que Portugal ainda ia ganhando títulos à Espanha, limita-va-se a seguir muito tranquilamente os folhetins que O Século ou o Diário de Notícias publicavam regularmente em tiras destacáveis, que depois recortava e coligia metodicamente para memória futura. Passados esses instantes mágicos, gostaria de saber a forma como reagiriam às versões atualizadas das telenovelas transmitidas em doses industriais e sotaques variados pelos canais abertos da RTP, TVI ou SIC. As circunstâncias obrigam-me e ficar pelas meras conjeturas que até nem são muito difíceis de gizar.

Mario Vargas Llosa não nos descreve nas páginas d’ A tia Júlia e o escrevedor (1977) nenhuma cena semelhante à que presenciei nos meus tempos de menino e moço em período de férias estivais. Limita-se a recuar até essa já longínqua década de 50 (em que as radionovelas eram rainhas também na outra margem do Atlântico e competiam renhidamente pela liderança na guerra das audiências) ao encontro de um jovem peruano de 18 anos de idade, estudante universitário de direito, diretor de informação na Radio Panamerica-na, biscateiro coercivo de muitos mesteres e contista praticante nos escassos momentos livres que lhe restavam. Os amigos e familia-res tratam-no por Marito ou Varguitas e os colegas por don Mario, mas nenhum deles por Llosita, diminutivo que nós, leitores, gostaríamos de ver averbado no papel, para lobrigarmos o autor convertido no protagonista e narrador do romance que temos entre mãos a revelar-nos, de viva voz, os primeiros passos que traçara nos meandros da escrita e do amor. As nossas suspeitas converter-se-iam em certezas, mas a ficção literária seria lamentavelmente traída pela biografia factual.

A urdidura deste relato das aprendizagens do herói reparte-se por dois eixos narrativos paralelos já anunciados no título: a tia Júlia e o escrevedor. Dois bolivianos de nascimento que os acidentes da vida colocaram em terras peruanas. Com a primeira, irmã de uma tia por afinidade, divorciada, à procura de marido e com 32 anos de idade, estabelecerá um complexo relacionamento sentimental, marcado pelo enamoramento dissimulado, casamento proibido e separação consentida. Com Pedro Camacho, o escriba de folhetins radiofóni-cos de maior sucesso em todo o espaço sul-americano, na casa dos 50 anos, erigirá uma ténue camaradagem profissional, própria de quem é obrigado a privar quotidianamente em locais contíguos de trabalho. Afastado o labéu do incesto do primeiro caso, sobram-nos as peripécias novelescas do segundo. Surpreendentes, espantosas e inconclusas todas elas, como convém ao género. Nos nove libretos esboçados, predominam as alusões a tragédias, dramas, parábolas e desventuras mil, a dar corpo a outros tantos radioteatros transmitidos simultaneamente ao longo do dia pela Rádio Central. O cansaço provocado pela criação em série leva o criador a confundir os episódios, a misturar os textos, a trocar as personagens, a baralhar os ouvintes. O recurso providencial a incêndios, terramotos e naufrágios catastróficos para reparar as barafundas criadas não é bem aceite pelos produtores que o internam por insanidade mental.

A tia Júlia e o escrevedor não é o primeiro nem o último romance de Mario Vargas Llosa. Nem pouco mais ou menos. É aquele em que se traça a história de alguém que deseja a todo o custo singrar nos universos da escrita, que se inspira nas histórias reais de vida para compor uma série de contos que um olhar crítico mais atento acon-selha a remeter para o caixote do lixo. Conhecemos o argumento de seis deles. Ignoro se algum terá sido recuperado e publicado em livro. A obra do autor é vasta e as minhas leituras diminutas. Com-posto 33 anos antes de ter sido galardoado com o prémio Nobel da Literatura, o relato autobiográfico do mestre dos sete ofícios acaba por ser uma premonição do próprio percurso do romancista. A arte de criar enredos está toda presente nas formas narrativas convoca-das: a novela de aprendizagem, o folhetim radiofónico e o conto realista. A academia sueca apercebeu-se desse percurso ímpar e agiu em conformidade. O nosso aplauso e está tudo dito…

NOTA:
Compus este texto há meia dúzia de anos para o Pátio de Letras. Trago-o para aqui agora, porque está centrado num autor que aprendi a gostar muito antes dos académicos suecos se terem lembrado dele e porque este é um dos meus livros preferidos.

24 de outubro de 2016

E a cítara virou guitarra-elétrica e a flauta gaita-de-beiços


Μνιν ειδε, θε, Πηληϊδεω χιλος
ολομνην, μυρί᾿ χαιος λγε᾿ θηκε,
πολλς δ᾿ φθμους ψυχς ϊδι προαψεν
ρων, ατος δ λρια τεχε κνεσσιν
οωνοσ τε πσι· Δις δ᾿ τελεετο βουλ,
ξ ο δ τ πρτα διασττην ρσαντε
τρεδης τε ναξ νδρν κα δος χιλλες.
Όμηρος - λιδος (I, 1-7)

Do canto épico à folk music...


O Nobel da Literatura foi atribuído este ano a Bob Dylan, por ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana. As reações pró/contra surgiram em catadupa. A mais sig-nificativa será a indiferença do próprio laureado. Um silêncio ensur-decedor. Atitude surpreendente para alguns, naturalíssima para outros, mas pouco original para todos os que guardam na memória o registo doutros casos similares e identicamente polémicos.

Boris Pasternak foi obrigado a renunciar em 1958 ao prémio, para assim evitar as sanções do regime soviético contra si e familiares. As importantes conquistas alcançadas na poesia lírica e na tradição épica russa, apontadas pelos académicos suecos, desencadearam a cólera do Kremlin contra Estocolmo. Uma guerra fria de Aqueus e Troianos dos nossos dias sem a presença heroica de Aquiles e Heitor de antanho a darem corpo à fábula e sentido ao canto.     

Jean Paul-Sartre foi o eleito em 1964, pela influência profunda que o seu trabalho, rico em ideias e preenchido com o espírito da liberdade e a busca da verdade, tem exercido nas gerações atuais. Indiferente as razões evocadas, recusa a distinção, pois ao recebê-la arriscaria a sua identidade como filósofo. De pouco lhe valeu. Continua a fazer parte do rol dos heróis modernos do Parnaso e o valor do prémio foi-se para outros bolsos. Há coerências que saem caras.

Mario Vargas Llosa, galardoado em 2010, reagiu com sarcasmo a partilhar a galeria das celebridades literárias com um baladeiro. Con-sidera que a sociedade está marcada pelo espetáculo em todas as atividades, incluindo a cultura e a política, perguntando-se se na próxima edição a sorte não recairá sobre um futebolista. Uma opinião entre muitas outras. Os detratores e entusiastas da ideia que se digladiem entre si. Têm o campo livre. Por mim, fico-me por aqui.

21 de outubro de 2016

Saramago: sete histórias com cães

CANE

Bibbia di Borso d'Este

[Modena, Biblioteca Estense Universitaria, Mss. Lat. 422 and Lat.423]

1. CONSTANTE: uma história de perdizes...

Constante, era esse o nome do animal, corre na direção da perdiz, pensou se calhar que ela tinha sido ferida, por meio dos tojos, que ali o mato era cerrado como poucas vezes se tem visto, e havia umas pedras grandes que tapavam a vista, foi o caso que se me sumiu o cão, e por mais que eu chamasse Constante, Constante, e assobiasse, não apareceu, que ainda foi vergonha maior voltar para casa sem o animal, para não falar do desgosto, que o bicho só lhe faltava conversar. [...] Passados dois anos calhou ir para aqueles lados [...] e então veio-me à lembrança o sucedido, meti-me pelo meio das pedras, foi o cabo dos trabalhos, não sei que ideia é que me levava, parecia que alguém me estava a aconselhar, não desistas, Sigismundo Canastro, e de repente que é que eu vejo, o esqueleto do meu cão ali de pé a marrar o esqueleto da perdiz, e estavam naquilo há dois anos, cada qual em sua firmeza, parece que o estou a ver, o meu cão Constante, com o focinho esticado, a pata levantada, não houve vento que o deitasse abaixo nem chuva que lhe soltasse os ossos.
Levantado do chão (1980)

2. ARDENT | CONSTANTE: os nomes do cão… 

Quis José Anaiço lançar água na fervura dos risos que a sugestão de Maria Guavaira levantara, e propôs que fosse dado ao cão o nome de Constante, tinha lembrança de haver lido esse nome num livro qualquer, Agora não me lembro, mas Constante, se entendo bem a palavra, contém todas as que foram sugeridas, Fiel, Piloto, Fronteiro, Combatente, e até Anjo-da-Guarda, porque se nenhum destes for constante perde-se a fidelidade, desorienta-se o piloto, o fronteiro abandona o posto, o combatente entrega as armas, e o anjo-da-guarda deixa-se seduzir pela menina a quem devia defender das tentações. 
A jangada de pedra (1986)

3. CÃO: o cão que chegou no fim da história…

Entra no quarto, que uma luz fraca apenas ilumina, e despe-se cautelosamente, evitando fazer ruído, mas desejando no fundo que Maria Sara acorde, para nada, só para poder dizer-lhe que a história chegou ao fim, e ela, que afinal não dormia, pergunta-lhe, Acabaste, e ele respondeu, Sim, acabei, Queres dizer-me como termina, Com a morte do almuadem, E Mogueime, e Ouroana, que foi que lhes aconteceu, Na minha ideia, Ouroana vai voltar para a Galiza, e Mogueime irá com ela, e antes de partirem acharão em Lisboa um cão escondido, que os acompanhará na viagem…
História do cerco de Lisboa (1989)

4. CÃO DAS LÁGRIMAS: o cão que chora…

A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não, e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem a ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar pratos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele.
Ensaio sobre a cegueira (1995)

5. ACHADO: o nome do cão perdido…

Não lhe chamarei Constante, foi o nome de um cão que não voltará à sua dona e que não a encontraria se voltasse, talvez a este chame Perdido, o nome assenta-lhe bem, Há outro que ainda lhe assentaria melhor, Qual, Achado, Achado não é nome de cão, Nem Perdido o seria, Sim, parece-me uma ideia, estava perdido e foi achado, esse será o nome…
A caverna (2000)

6. TOMARCTUS: o cão da casa...

O estranho nome foi-lhe posto por Tertuliano Máximo Afonso, é o que sucede quando se tem um dono erudito, em lugar de ter batizado o animal com um apelativo que ele pudesse captar sem dificuldade pelas vias diretas da genética, como teriam sido os casos de Fiel, Piloto, Sultão ou Almirante, herdados e sucessivamente transmitidos de gerações em gerações, em vez disso foi-lhe por o nome de um canídeo que se diz ter vivido há quinze milhões de anos e que, segundo andam certificando os paleontólogos, é o fóssil Adão destes animais de quatro patas que correm, farejam e cocam as pulgas, e que, como é natural nos amigos, mordem de vez em quando.
O homem duplicado (2002)

7. CONSTANTE: o cão das lágrimas…

O comissário sentou-se com todas as cautelas, guardando a distância, Tranquilo é o nome dele, perguntou, Não, chama-se Constante, mas para nós e para os meus amigos é o cão das lágrimas, pusemos-lhe o nome de Constante por ser mais curto, Cão das lágrimas porquê, Porque há quatro anos eu chorava e este animal veio lamber-me a cara… 
Ensaio sobre a lucidez (2004)

17 de outubro de 2016

Chico Buarque e a demanda do irmão alemão

«E assim como o Christian se dá o direito de emular poetas russos, serei capaz de escrever um romance inspirado na Alemanha dos anos 30, tão presente nas minhas leituras e fantasias. Posso romancear por exemplo a história de Anne Ernst, cuja foto com meu irmão no colo guardo no bolso da camisa e várias vezes por dia tenho a compulsão de olhar.»
Chico Buarque, O irmão alemão (2014)
Chico Buarque descobriu aos 22 anos que tinha um meio-irmão europeu, fruto dum relacionamento pré-matrimonial que o pai tivera em Berlim, quando ali exercera as funções de correspondente de O Jornal, entre 1929 e 1930. A curiosidade instala-se-lhe no espírito e a demanda do paradeiro do parente nascido no seio do Terceiro Reich, nas antevésperas da Segunda Guerra Mundial e da divisão/unificação da Alemanha, ter-se-á iniciado nesse preciso momento. Ocupá-lo-á durante toda a vida. Decorrido cerca de meio século, o compositor, intérprete, contista e poeta brasileiro resolve transpor para um romance de iniciação semibiográfico o resultado das pesquisas efetuadas. Dá-lhe o título apelativo de O irmão alemão (2014), disponível nas livrarias das duas margens atlânticas do grande mar Oceano. Fá-lo acompanhar dum conjunto de documentos autênticos que acabam por fornecer ao leitor a ilusão de a realidade subjetiva do autor se fundir com a realidade objetiva do narra-dor. Habilidades literárias há muito tempo urdidas pelos contadores de histórias imaginadas como se fossem genuínas, subterfúgios poéticos intemporais que nunca deixaram de exercer um fascínio avassalador em todos aqueles que as escutam, sempre ávidos de degustar à exaustão os efeitos inebriantes que os envolvem.

Deixemos de parte as informações fornecidas na contracapa, badanas do livro, notas e fotos complementares da edição, e viajemos pelo interior da fábula. O Francisco de Holanda desaparece do horizonte de eventos e surge-nos o Francisco de Hollander. Este sabe da existência do familiar perdido por uma carta encontrada entre as páginas 36 e 37 de O ramo de ouro, a muito provável coletânea de mitos e lendas de todo o mundo organizada por Sir James George Frazer em 1890, depositado numa prateleira alta da biblioteca lá de casa junto a quatro volumes de Camões. É através do engenho e arte do protagonista que se chega à presença de Sérgio Günther, o autêntico e o inventado, o de carne e osso e o de papel e tinta. Fá-lo em dezassete capítulos ou etapas cronológicas. Uma aventura feita com palavras achadas nos meandros mais profundos dos sonhos fantasiados em estado de vigília e com os olhos abertos. A infância e juventude são revisitadas a pente fino com uma linguagem solta e descomprometida própria da idade de relator. O conhecimento do irmão brasileiro presente é confrontada com o desconhecimento do irmão alemão ausente. Entre um e outro, fabrica arduamente um conjunto de cenários possíveis com que a tessitura narrativa se vai alimentando, crescendo e medrando. As histórias da História instalam-se no discurso. Fala-se de tortura, prisões e ditadura. O devaneio criativo invade-o a cada instante. Arquiteta factos sobre o passado do pai e destino da madrasta. Inventa-lhe um marido pianista. Transporta-os para espaços hipotéticos. Contacta-os em pensamento. Visita-os em São Paulo. Constrói uma bateria alternativa de soluções verosímeis do enigma que só terá um desfecho almejado na reta final do escrito. A 20 de maio de 2013, embarca na Lufthansa para Berlim. Ali ouve por acaso num táxi a gravação da voz do irmão unilateral na faixa dum CD. Ali recupera a voz do pai quando era jovem. Ali encontra semelhanças com a voz do irmão bilateral quando tinha 30 anos. Ali acha as memórias póstumas do irmão alemão já levado desta vida pela morte.

Terminada a viagem pelo interior do livro, penso na carreira que o autor traçou ao longo de décadas na música popular brasileira (MPB) e chego à conclusão do quão difícil é atingir o nível de excelência em todas as áreas. Cantigas, marchinhas, sambas, enredos e óperas são únicas. Inigualáveis. A vertente ficcionista pura é boa. Ótima mesmo. Soa bem ao ouvido de quem ouve com atenção o que a vista enxerga em cada uma das linhas impressas no texto que temos entre mãos. Sinestesia notável de sentidos revelados mas insuficientes no cômputo geral da obra magma produzida. Cada um nasce para o que nasce e o Chico Buarque terá nascido para contar histórias cantadas. Um verdadeiro aedo-rapsodo dos dias que correm. Juízo de valor pessoal. Sem dúvida. Opinião discutível. Decerto. A obra romanesca até já foi premiada e contestada. Sinal significativo de vitalidade interveniente neste nosso universo de competitividades desenfreadas. A demonstrar que as fronteiras entre as artes maiores e as menores são muito fluídas. Dependem de quem as estabelece. Sobretudo agora que os académicos suecos resolveram atribuir em nome do inventor da dinamite o galardão máximo da literatura internacional a um cantautor morte americano de língua inglesa. Coisas deste nosso mundo globalizado pelos padrões anglo-saxónicos vigentes. Realidade com a qual nos fomos habituando e conformando como se fosse eterna mas que mais tarde ou mais cedo terá de chegar ao fim. Pelo menos são essas as lições que os tempos passados tentam passar aos presentes. Quem sabe se num futuro próximo a língua portuguesa não virá a ser reconhecida através desta associação das letras e das notas. Candidatos não faltam por aí a dar com um pau.

10 de outubro de 2016

O buraco da fechadura

Há quem procure ver neste tipo de livros memorialistas oportunidades para vinganças ou ajustes de contas. Pelo meu lado, nunca o fiz, não o faço e não o farei. O objetivo deste livro é deixar contribuições para a História — e, se não o fizesse com verdade, mais tarde ou mais cedo assaltar- me- iam os remorsos. A vingança, como o crime, nunca compensa.
José António Saraiva. Eu e os políticos (2016)
Li de fio a pavio o livro proibido do antigo diretor do Expresso e do Sol e não encontrei nenhum contributo especialmente relevante para a história política portuguesa recente. Encontrei bisbilhotices de bastidor, intrigas de corredor, boatos de alcoviteira. O foco de todas as polémicas veio-me ter às mãos sem que eu lhe tivesse realmente pegado. Enxerguei-o em formato digital num PDF que me foi enviado por correio-e. Presente envenenado que aceitei, abri e esguardei com toda a atenção que o ofertante me merecia.

E assim acabei por ler pelo buraco da fechadura indiscreto os mexe-ricos que o cronista não quisera ou não pudera escrever até hoje. Fiquei a saber da existência dum governante que tem uma caligrafia de terceira classe mal tirada, duma jornalista que obtém notícias em primeira-mão com a arte muito feminina de se insinuar junto dos mi-nistros, dum político que passa as noites a comer chocolate ou dum outro de corpo atarracado e mão sapuda que nunca aprendeu a conduzir porque foi governante muito cedo...

A listagem de tricas, cusquices e rumores dum diz-que-disse ou talvez-tivesse-dito, próprio de língua-de-palmo-e-meio, prossegue ao longo de duas centenas e meia de páginas bem contadas, repartidas por quarenta e duas figuras públicas ordenadas alfabeticamente. Uma devassa gratuita e continuada ad infinitum de confissões, desabafos e confidências mal guardadas. Escárnios e maldizeres pós-modernistas que deixariam de boca aberta o trovador mais ousado dos cancioneiros medievais galego-portugueses.

Acabada a leitura e arrumada a escrita só me resta borrifar o livro com as gotas do Lethes, o rio do esquecimento. Clicar na tecla Del. Enviá-lo para a reciclagem. Apagar com caráter definitivo da memó-ria - real e virtual - os ecos da tagarelice de trazer por casa ou à mesa de café, bar ou restaurante. Deixar os ajustes de conta por conta dos visados. Fala-se por aí duma providência cautelar em cur-so. Umas fotos de cariz sexual pairam no ar. Jogos de bastidor au-sentes das contas do meu rosário. Ponto final e ite, missa est.   

6 de outubro de 2016

Carlos Ruiz Zafón, Marina e os mistérios de Barcelona

«A veces dudo de mi memoria y me pregunto si únicamente seré capaz de recordar lo que nunca sucedió.»
Carlos Ruiz Zafón, Marina (1999)
Viciei-me na arte de contar de Carlos Ruiz Zafón com A sombra do vento (2001) e O jogo do anjo (2008). Li-os de seguida como se tratasse de duas partes da mesma obra. Depois, tal como muitos outros leitores da aldeia global, virei-me para os títulos mais antigos. A escolha recaiu em Marina (1999), um texto charneira situado na fronteira entre dois universos de escrita, o luminoso da novela de aventuras para jovens e o sombrio do romance gótico para adultos. Encontrei-o à minha espera numa livraria. Resgatei-o e dei-lhe vida ao ouvir tudo aquilo que tinha para me dizer. Revelou-me muitas coisas surpreendentes. Fico-me pelos meros apontamentos.

A revelação de enigmas guardados num cemitério dos livros esquecidos não voltou a ocorrer. Em contrapartida, o desejo de desvendar os mistérios de Barcelona, a cidade feiticeira, a metrópole modernista, onde as peripécias de contorno folhetinesco se vão sucedendo a um ritmo vertiginoso, ao sabor da imaginação do autor e prazer do leitor, repetiu-se mais uma vez. A fluência do discurso, o ritmo da escrita e a magia das palavras são os culpados. Avassaladores, inebriantes, únicos.

A pedra de toque novelesca é-nos transmitida por uma borboleta negra de asas abertas, gravada nos lugares mais bizarros ou a es-voaçar à volta das personagens mais nebulosas, nos momentos mais insólitos da intriga. Atrás de si paira sempre o fedor dos pân-tanos e dos poços envenenados. Pormenor reiterado à exaustão pela instância narrativa, a fim de balizar a luta sem quartel pela sobrevivência. É que, como é sugerido, a diabólica Teufel, habitante de torres, caves e túneis privados de luz, tem a capacidade de ressuscitar de entre os mortos. Enterra o corpo antes dessa meta-morfose macabra e alimenta-se depois das próprias crias.

Em termos gerais, o romance propõe-nos uma reflexão continuada sobre os mistérios da condição humana, através do relato alternado de três histórias de amor e morte: a nuclear de Óscar Drai e Marina Blau, a celestial de Germán Blau e Kirsten Auermann e a infernal de Mijail Kolvenik e Eva Frinova. Tudo somado, atravessam todo o Séc. XX e têm como pano de fundo privilegiado a malha urbana da cidade condal, convertida na efetiva protagonista das diversas peri-pécias trágicas que nela se vão traçando.

A ação central do livro decorre entre setembro de 1979 e maio de 1980, período simbólico de nove meses, durante o qual dois jovens de 15 anos veem nascer, crescer e fenecer um primeiro amor de adolescência. À distância confortável de quinze anos, o herói sobre-vivente revisita os locais onde os eventos se deram e confia as suas recordações às páginas de um diário pessoal, aquele que che-gou até nós sob a forma de um romance de aprendizagem.

Quando a leitura termina, esquecemo-nos de que todos os contos são mentiras, mas que nem todas as mentiras são contos, e senti-mos uma vontade muito forte de partir à descoberta de Barcelona, a cidade misteriosa, na esperança vã de vislumbrar o Grande Teatro Real, o Palacete de Sarriá ou a Torre do Parque Güell, ao encontro dos palcos em que se representaram as cenas mais marcantes do drama. Sentimos o impulso imperioso de nos sentarmos ao volante de um velho Tucker dos anos cinquenta, à procura da praia secreta virada para o Mediterrâneo, local idílico que os heróis pisaram uma única vez, a meio da sua história de amor, e onde Óscar verá lançar as cinzas de Marina, produto final da sua história de morte.

Carlos Ruiz Zafón confessa no prólogo que acompanha a reedição mais recente de Marina (2008) ser esse um dos seus livros favo-ritos, aquele que permanecia tão presente na sua memória como no dia em que o acabara de escrever (1997), rematando com uma ideia que depois incorporará na ficção, na boca da heroína. Afirmava esta que, por vezes, as coisas mais reais só acontecem na imaginação e que nós nos lembramos do que nunca aconteceu.

NOTA: Cruzei-me há dias com uma saga medieval de Ildefonso Falcones centrada na cidade condal de Barcelona e lembrei-me de imediato do contributo desenvolvido por Carlos Ruiz Zafón no âmbito deste género poético agora associado à variante da novela negra de contornos góticos. Após a primeira leitura desta Marina, compus um pequeno texto para o Pátio de Letras, que passado precisamente sete anos transfiro para este novo espaço da blogosfera, com as atualizações exigidas pelos efeitos do tempo no revestimento gráfico das palavras e como forma de prestar homenagem a um bestseller famoso com muitas histórias ainda para contar ou relembrar.

3 de outubro de 2016

As viagens do lagarto

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De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, mas isto de fadas foi chão que deu uvas, já ninguém acre-dita, e por mais que venha jurar e trejurar, o mais certo é rirem-se de mim. Afinal de contas, será a minha simples palavra contra a troça de um milhão de habitantes. Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará.
José Saramago, A bagagem do viajante (1973) | O lagarto (2016)
José Saramago voltou a ser notícia nas separatas dos jornais e nas estantes das livrarias. Acaba de ser dada à estampa um texto seu com ilustrações de José Francisco Borges. Dá pelo nome de O lagarto (2016) e foi apresentado oficialmente no FOLIO - Festival literário internacional de Óbidos. Por breves instantes pensei tratar-se de mais um inédito perdido resgatado do silêncio. Ilusão pura. As gavetas e baús que em tempos albergaram manuscritos literários convertíveis em livros há muito estão vazios.

Adquiri um exemplar no dia do lançamento. Trata-se duma história de fadas sem fadas já publicada n' A bagagem do viajante (1973). Trata-se duma fábula dos nossos dias acontecida em espaço urbano conhecido. Um sardão verde com olhos de cristal surgiu do nada no Chiado para espanto de quem se atreveu a dirigir a vista para aquele corpo coberto de escamas, rabo longo, patas rápidas e língua bífida. E o sucesso contado e desenhado prossegue ao longo duma dúzia de páginas por numerar que constituem o álbum.  

O Natal está a chegar e com ele as novidades literárias. Saramago estará presente com um conto exemplar dos anos 70 a falar-nos de répteis sáurios doutros tempos que poderão voltar a assustar-nos nos nossos dias. Cuidado. É preciso estar bem atento para saber decifrar as alegorias da ficção. Essa a lição da historieta. Saber ler as entrelinhas da escrita nos alvores do terceiro milénio como se fazia nos derradeiras décadas do segundo. O alerta está aí em forma de insólito. Um relato infantil para gente crescida.