7 de janeiro de 2015

Michel Houellebecq, as possibilidades duma ilha e da vida eterna

«Et l’amour, où tout est facile, | Où tout est donné dans l’instant ; | Il existe au milieu du temps | La possibilité d’une île.»
Michel Houellebecq, La possibilité d’une île (2005)
Faço tábua rasa das listas publicadas nos rankings da especialidade sobre os filmes que devíamos ver, os discos que devíamos ouvir, os livros que devíamos ler. Tudo isto antes de morrer, está bem de ver, porque depois desse instante capital da vida, a verificação dos Top Ten Lists se torna inviável. A menos que aceitemos a transmigração das almas ou a encarnação dos corpos ao longo dos séculos e milénios, com encontro garantido na intemporalidade. Michel Houellebecq desenvolve magistralmente a temática da imortalidade n’ A possibilidade de uma ilha (2005), romance de antecipação, desenhado ao modo das distopias clássicas da ficção científica. Ignoro se foi arrolado como um dos 1001 Books tidos como imprescindíveis para atingir a cultura literária padrão, canonizada por peritos da massificação global, pouco atentos à criação artística da realidade periférica envolvente. Como ainda estou à espera de ler o livro da minha vida, também me dispenso de colocá-lo nessa categoria. Em contrapartida, foi composto por um representante daquele número restrito de autores que me sugerem a descoberta completa da sua obra romanesca. O primeiro passo já foi dado. Os próximos já foram encetados. 

A estrutura discursiva centra-se num dupla narrativa separada por 2000 anos de devir genético, o relato de vida de Daniel 1 e os comentários que lhe são feitos por Daniel 24 e Daniel 25. Pacto autobiográfico duma estirpe biológica única, ligada-continuada pelo mesmo código de ADN e repartida-unificada por incarnações sucessivas de clonagem cibernética. Ecos dos universos utópicos de Aldous Huxley e do Admirável mundo novo (1932) são audíveis em ondas sucessivas. Em ambos os textos visionários se pode detetar um cronótopo vindouro em função dos saberes científicos disponíveis no momento da escrita. Paraísos celestiais com morada terrestre. Os dois partilham um culto insano pelo mito da eterna juventude dos corpos jovens. Os dois alimentam um ódio visceral pela degradação dos corpos velhos. A presença controlada de seres superiores, modificados, perfeitos, integrados em grupos privilegiados, opõe-se a uma massa imprecisa de seres inferiores, primitivos, selvagens, nascidos em plena natureza. A felicidade conquistada pelos primeiros contrasta com a infelicidade herdada pelos segundos. As barreiras de proteção lá estão para estabelecer a fronteira imperiosa entre uns e outros. 

As analogias pautadas devem-se mais às singularidades do género do que à imperícia dos fabuladores de edificarem Futuros possíveis, de gerarem sonhos aos incautos e pesadelos aos precavidos. Divergem, sobretudo, na conceção político-social que a fábula atribui aos sobreviventes das grandes catástrofes geológicas e revoluções biológicas que dividiram os cidadãos e deram origem a outras eras. As castas comunitárias predominantes na inglesa são substituídas pelas relações interindividuais exclusivas na francesa. O desejo material é anulado e a perceção espiritual é ativada. A solidão surge e o amor desaparece. Ao conquistar a juventude perpétua, preparada pela ciência persistente dos Sept Fondateurs e pelo saber convincente da Sœur suprême, o destino dos neo-humanos rejuvenescidos acaba por igualar o destino dos selvagens envelhecidos. A existência privada das emoções que dão sentido à eternidade reduz-se ao nada absoluto. Ironia trágica da própria condição humana. 

Maria 23 supera a angústia da morte e parte à procura da vida. Daniel 25 segue-lhe o exemplo. Enceta uma viagem de prospeção pelos antigos territórios dos homens à descoberta do lado exterior do mundo. As paisagens devastadas pela Grande Seca ocupam o Grande Espaço cinzento vazio de gentes. Faz-se acompanhar de Fox. Um cão. O único ser biológico com quem interage fisicamente desde que a vida real foi substituída pela vida virtual. Os derradeiros representantes genéticos da estirpe humana que deram pelo nome de Maria e Daniel recusam a condição de isolamento insular a que a ambição de imortalidade conduziu. Recorrem ao livre arbítrio, o modelo eutópico que Houellebecq preservou. Desconhecemos se se terão encontrado numa qualquer comunidade de seres sedentos de saborear o riso e o choro das origens. Mistério insondável. A possibilidade duma ilha enfrentar a sucessão de instantes existentes no meio do tempo é a única certeza visível no horizonte do estar e do deixar de estar. A ponte ontológica erigida pelos homens e mulheres de desfrutar a ciência, de conceber a arte, de entender a beleza, de preencher o vazio, de consumar o amor…

NOTA: 
Texto publicado há pouco mais dum ano no Pátio de Letras, no regresso dumas férias passadas na Bretanha francesa e nas ilhas normandas do Canal. Retomo-a com pequeníssimas variantes no dia em que Michel Houellebecq volta ao ataque com um explosivo Soumission, um romance de antecipação política com polémica já perfilada no horizonte. Enquanto aguardo pela leitura do novo livro, fiquem as impressões escritas de leituras já efetuadas no tempo.

2 comentários:

  1. Quando esta manhã republiquei este recensão crítica e a associei ao lançamento nesta mesma data do novo romance de Michel Houellebecq, mal me passou pela cabeça que algumas das antecipações ficcionadas pelo mais polémico escritor francês da atualidade se concretizariam quase de imediato na redação dum jornal parisiense. Não a referida em «La possibilite d’une île» (2005) mas sim na «Soumission» (2015). Como só conheço o argumento do texto mais recente pelas notícias veiculadas pela imprensa escrita, estou impossibilitado de verificar até que ponto os cenários previstos se ajustam aos cenários concretizados na redação do «Charlie Hebdo», semanário que com uma premonição involuntária acabara de caricaturar, com todo o humor que lhe é conhecido, o autor e o texto. Acasos do acaso que dão que pensar e repensar...

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  2. Uma temática bem sugestiva, com a imortalidade e a opção pelo livre arbítrio a semear esta resenha de interesse... Obrigada por reavivar a lembrança deste livro de ficção científica que faz refletir sobre o complexo ser que somos, enquanto não sigo as pisadas do livro agora lançado.

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