13 de março de 2015

José Saramago, a estátua e a pedra: a superfície e o interior da obra

«A estátua é a superfície da pedra, o resultado de retirar pedra da pedra. Descrever a estátua, o rosto, o gesto, as roupagens, a figura, é descrever o exterior da pedra […] Quando terminei o Evangelho ainda não sabia que até então tinha andado a descrever estátuas. Tive de entender o novo mundo que se me apresentava ao abandonar a superfície da pedra e passar para o seu interior, e isso aconteceu com o Ensaio sobre a Cegueira.»
José Saramago, A estátua e a pedra (2013)
O último livro publicado de José Saramago, A estátua e a pedra (2013), não é um autógrafo de juventude, perdido numa gaveta sem fundo duma editora portuguesa, pragmaticamente à espera da consagração global do autor com prémios outorgados em nome de Camões e Nobel, para o revelar ao mundo sob a forma dum bestseller assegurado. Trata-se dum livro que fala de livros, dos seus, sobretudo de romances e contos, regidos todos eles pela metáfora da estátua e da pedra. Segundo notas introdutórias assinadas pelos lusitanistas italianos Giancarlo Depretis e Luciana Stegano Picchio, limita-se a transcrever a conferência de encerramento do colóquio Dialogo sulla cultura portoghese. Letteratura-musica-storia, proferida em 1997 na Universidade de Turim, em boa hora preservada para memória futura numa oportuna gravação magnética. Uma primeira versão impressa do texto, presumo, dado que a atual versão bilingue, lançada mundialmente em português e espanhol pela Casa dos Bicos na Feira do Livro de Bogotá, alude a duas obras compostas em data posterior.

Como é explicitado no subtítulo dado ao improviso, «o autor explica-se», a revisitação à totalidade da produção romanesca dada à estampa até então é o pretexto seguido para exclui-la, em definitivo, da órbita genérica da narrativa histórica. É que, a seu ver, a verdade histórica absoluta só existe na ideia mais ou menos fantasista dos relatores profissionais que lhe dão forma, moldada ao sabor subjetivo de cada um deles e dos interesses pessoais que os norteiam. A ficção, por muito verosímil que seja, é sempre uma reprodução grosseira do mundo autêntico que nos rodeia. Ao longo das 25 páginas do ensaio, são passados em revista os argumentos de 12 romances e duma coletânea de contos, protagonizados, em bloco, por indivíduos anónimos, personagens inventadas sem nenhuma relação direta com as personalidades imortalizadas pelas crónicas oficiais dum qualquer país com existência documentada numa carta geográfica. A história anda sempre muito perto na efabulação mas nunca é devassada em nome duma recriação artística intencional de realidades efetivamente acontecidas. Os heróis estão ausentes das esculturas verbais cinzeladas pelo escritor durante 55 anos de labuta intensa, carecem da beleza estereotipada a que o classicismo nos habituou e foram talhados sem planos, sem projetos, sem estratégias prévias para definir caminhos e atingir objetivos, à semelhança, aliás, da vida do próprio escultor de palavras que lhes deu vida nas folhas brancas de papel.

O encontro entre o autor e leitor plasmado na palestra-escrito define, também, a transição necessária do ciclo da estátua para o ciclo da pedra. A fronteira entre as duas fases de criação literária, a superficial e a profunda do objeto esculpido, está balizada pel’O evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e pelo Ensaio sobre a cegueira (1995). A permuta de estéticas não passa despercebida a ninguém, nem sequer aos frequentadores menos atentos da obra completa do romancista. Os atores e cenários demandados num primeiro ato de representação mimética da realidade inventada não se confundem, um só instante, com os postos em cena num segundo e derradeiro ato dramático. A descrição física dos rostos, gestos e roupagens definidora das tessituras narrativas da estátua é substituída pela descrição psíquica da pedra de que são feitas. A viagem pelo mundo do parecer cede lugar à viagem pelo mundo do ser. O intuito diegético de nos perguntar quem somos e para que servimos surge no horizonte, conquanto saibamos de antemão quão fugitiva e incerta é a resposta que venhamos a obter. 

A autorreflexão efetuada pelo contador de histórias à obra pretérita cessa com o Ensaio sobre a lucidez (2004). A tarefa de integrar os derradeiros textos publicados no universo da estátua ou da pedra afasta qualquer tipo de dificuldade. O ensaísta e escritor espanhol Fernando Gómez Aguilera fá-lo, para tranquilidade nossa, no epílogo à edição atualizada da conferência de Turim. Ficamos entretanto na expetativa que a Fundação José Saramago cumpra a promessa de converter em letras impressas as páginas manuscritas do inacabado Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. Penetrar no interior das palavras convocadas pela fábula que é o material de que a escrita é feita, lugar onde a imaginação dos poetas contracena com a realidade e os sonhos se revelam em toda a sua plenitude.

NOTA: 
Texto publicado no Pátio de Letras aquando do lançamento há cerca de dois anos da edição bilingue luso-castelhana entre nós deste livro que fala de livros. Reponho-o agora neste novo espaço, porque de vez é quando é bom revisitar Saramago e nunca é de mais falar dos amigos de quem se gosta.

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