27 de setembro de 2015

O meteorito, o cubo e o croissant

Croissant Otomano

Artwork by Marco Rosella for Essen©

E uma bola em chamas desceu do céu. No local onde caiu, os homens encontraram uma pedra oval ainda fumegante. Erigiram um templo em forma de cubo para alojá-la. Dedicaram-no a Hubal, o deus lunar do quarto crescente, parceiro de Attal, a deusa solar da luz plena. A dádiva divina foi reservada ao culto de al-Uzza, a estrela da manhã, a irmã luciferina de al-Lat e de al-Manat, a lua cheia e o quarto minguante. Uma tríada de divindades femininas secundárias, as Banat al-Lah ou filhas de al-Lah.

Mais tarde chegou um ser alado das alturas trazer a mensagem do ser supremo ao seu profeta. E Muhammad ibn Abdallah começou a recitar os versículos da Submissão por toda a cidade de Meca. Depois mudou-se para Medina, para formar uma irmandade de submissos à nova fé. Um dia resolveu regressar ao ponto de partida. Pelo caminho, aproveitou para destruir todos os ídolos que encontrou pela frente. Pelo sim pelo não, poupou o meteorito sagrado guardado na Caaba desde o princípio dos tempos.

O poeta que se dizia profeta deixou atrás de si um império em construção. As quatro gerações que se lhe seguiram submeteram meio mundo a ferro e fogo. A Europa é ameaçada a nascente e a poente. Até que começaram a ser travados. As terras banhadas pela margem norte do Mediterrâneo empurraram-nos para a margem sul. Viena resistiu ao assédio otomano. Diz a tradição que se terá então inventado o croissant pasteleiro. E assim o mito lunar politeísta se transformou em contramito pantagruélico pagão.

Feitas as contas e arredondados os números, os adoradores da Pedra Negra continuam a rodopiar nos nossos dias em torno do nicho que a aloja. Sete voltas completas como uma mudança de fase do nosso satélite natural. A Lua em quarto crescente, o Sol em forma de estrela e as três filhas de Deus alinhadas em esferas planetárias continuam a encimar as cúpulas das mesquitas pelos quatro cantos da terra. Símbolos singulares dum monoteísmo iconoclasta. Os fantasmas das origens a macularem o porvir.

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