4 de outubro de 2015

O triunfo da velha senhora

Quentin Matsys, Vieille femme grotesque (1513)
[National Gallery de Londres]

A velha senhora grotesca vestiu o trajo de gala, arrumou o cabelo na coifa, apertou os atilhos do corpete, retocou as pregas do cen-dal, cobriu o colo e o rosto de carmim vivo, sentou-se no toucador da alcova e perguntou à imagem projetada à sua frente: «Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém  mais bela do que eu?»

O interpelado fitou-a cara a cara e respondeu: «Não vos inquieteis, se-nhora minha! No mundo até pode haver, mas aqui neste reino do Faz-de-Conta a vossa beleza peregrina conta. O Ali-babá rendeu-se ao Abre-te Sésamo dos 40 ladrões. Os choramigas já partiram no tapete-voador à procura do génio da lâmpada noutras paragens...»

E continuou por ali fora com o blá-blá-blá de banha-da-cobra usual. Não se coibiu de dizer que depois da abalada geral só tinham ficado os zombies desejosos de ficar adormecidos por mais 100 anos de tranquila inércia e apetite acrescido de sofrer, agora que os muros-da-vergonha se voltaram a erguer no velho mundo.

A velha senhora grotesca olhou para espelho mágico e disse para os seus botões: «Felizmente que os contos da carochinha mudaram de figurino e as bruxas-más do passado viraram nas fadas-boas do presente». E preparou-se para imperar sobre os submissos sem-memória compulsivos. Infalível, majestosa, triunfante.

2 comentários:

  1. Um texto tão crítico que até faz doer porque sabemos que a velha senhora continua a imperar neste país de bananas à beira-mar plantado...

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  2. Talvez esta maquillage de pacotilha seja mais efémera do que os saudosistas da velha senhora conjeturaram e a república das bananas seja mandada de uma vez por todas às urtigas. Só espero estar cá para ver...

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