30 de dezembro de 2016

Aulas de código & prioridade nas filas

O nascimento das lendas nas camisetas em T


O Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária para 2020 recomenda a formação para quem renove a carta aos 65. Como es-tou com alguma preguiça para ler em plena quadra natalícia as 83 páginas do PENSE 2020, o melhor é tratar desde já da tal atualiza-ção antes que o nascimento das lendas impressa na T-Shirt se dê.

A nova lei do atendimento prioritário não esperou pelo ano novo para entrar em vigor. Por exclusão de partes, terei de esperar ainda pela primavera que vem para usufruir das regalias dos 65. Só terei então de marchar para as longas filas de espera munido duma bengala bem vistosa para assim provar a minha limitação física evidente.

A vida começa aos 65 afirma a camiseta-em-T. Só se esqueceu de dizer que a reforma só chega aos sessenta e seis anos e três me-ses. Dura lex, sed lex. Estranhas contas com que se medem os nossos percursos existenciais. Velhos para conduzir mas novos para trabalhar. Abençoada juventude esta que tão útil é para o país.

27 de dezembro de 2016

Carlos Ruiz Zafón: histórias do prisioneiro do céu e da cidade dos malditos

«−Ay, qué bien. La verdad es que cuesta tanto encontrar hoy por hoy libros con un mensaje positivo, de esos que te hacen sentir a gusto, y sin tantos crímenes y muertes y eso tipo de cosas que no hay quien entienda… ¿No le parece?»
Carlos Ruiz Zafón, El prisionero del cielo (2011)
O universo mágico do cemitério dos livros esquecidos voltou ao convívio do público leitor da aldeia global. Carlos Ruiz Zafón entra no santuário labiríntico das obras/autores votados ao ostracismo e recupera o título dum romance perdido de Julían Carax, para dar sequência à série literária que lhe deu renome internacional e parangonas registadas nos mass media dos quatro continentes. As aventuras e desventuras vividas pelos heróis e anti-heróis d’ A sombra do vento (2001) e d’ O jogo do anjo (2008) entram de novo em cena nas folhas impressas d’ O prisioneiro do céu (2011). Encontro há muito tempo esperado de velhos amigos/inimigos dos proprietários da livraria Sempere & Filhos, estabelecimento secular fundado em 1888 na rua Santa Ana da cidade condal, local de encontros e desencontros dos agentes transformadores dos sucessos fingidos em eventos possíveis, que dão sustentabilidade ao enredo e coerência à saga.

O regresso faz-se através de David Martín, autor amaldiçoado já nosso conhecido de romances góticos e de folhetins jornalísticos, coprotagonista por excelência deste terceiro ato da sequela. Condenado a ver o seu próprio nome apagado da república das letras publicadas, ele é o verdadeiro prisioneiro do céu anunciado na capa do livro, dado que se vê coagido a escrever sucessos comerciais em nome do seu carcereiro ou deus que tudo pode. É ele também que faz a ligação narrativa entre as duas gerações de livreiros centrais da efabulação, pai e filho, entre as duas metades do século XX convocadas pelo texto, separadas entre si pelos dramas humanos da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). As histórias dentro de histórias, como se de genuínas bonecas russas se tratasse ou de matrioskas ideadas com palavras, umas a remeterem para as outras, a saltarem alternadamente das décadas anteriores para as posteriores dos conflitos bélicos referidos, abonam-nos todas elas argumentos entrecruzados da história europeia recente, com um enfoque muito especial na cidade dos malditos ou das personagens-charneira das novelas em série pagas à peseta. 

Por vezes, pergunto-me como é que nestes nossos dias presentes da pós-pós-modernidade se pode continuar a gostar duma escrita feita de lugares comuns pintados de negro, que tanto se assemelha na forma e no conteúdo dos chamados romances de cordel com tramas de faca e alguidar, próprios dum ultrarromantismo novecen-tista que as estéticas naturalistas e realistas da Questão Coimbrã (1865-1866) e das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense (1871) combateram acaloradamente nos alvores da primeira modernidade. A resposta tarda sempre a chegar e vem sempre associada a uma mesma solução. O fascínio transmitido pelas intrigas, mistérios e peripécias reside, sobretudo, no ritmo vertiginoso como são apresentados ao leitor, faminto que está de mais charadas, enigmas e crimes para desvendar ou devorar. As maiores pérolas escondidas | reveladas por Zafón manifestam-se através das sonoridades conferidas ao discurso pelas palavras averbadas. Linguagem inebriante urdida com uma paixão que nos faz esquecer o banho de kitsch transmitido pelos sucessivos períodos, parágrafos e páginas que a albergam. Poesia em prosa ou prosa poética, para o caso tanto faz. Apercebemo-nos do caráter repetitivo da fábula e da limitação de recursos desenvolvidos, e ficamos à espera de mais, de muito mais, sem prestar demasiada atenção às falhas apontadas, para que o prazer da leitura se volte a concretizar, uma e outra vez, sem interrupções, sem intermissões, sem fim à vista. 

As três partes já dadas à estampa da série confrontam-nos com a história dum conjunto de personagens que atravessam a intriga à procura duma identidade perdida, por entre as sombras duma Barcelona imersa num sono repleto de cinzas e silêncios. Daniel Sempere suspeita estar também em vias de perder o nome e a alma que lhe têm dado sentido à vida. O relato termina num ambiente de incerteza que só o futuro poderá mitigar. A próxima etapa talvez ajude a clarificar a situação, dado que a história do protagonista mal acaba de começar.

NOTA:
Recebi este livro como prenda do Menino Jesus no Natal de há cinco anos, por recomendação expresso das minhas filhas que sabem quanto a escrita de Zafón me tocara nas duas etapas anteriores do universo mágico do cemitério dos livros esquecidos. Aproveitei a pausa oferecida pela quadra e dediquei-me à leitura da saga e logo a seguir aos Reis dei a minha opinião escrita nas páginas do Pátio de Letras. Chamei-o agora para este espaço de modo a fazer companhia aos restantes elementos da série. Qualquer dia vou ter de mergulhar n' O labirinto dos espí-ritoso derradeiro episódio da família Sempere. A publicidade que tem acompanhado o seu lan-çamento ser garante ser tão envolvente como os precedentes. Não duvido dessa ameaça um só momento.

25 de dezembro de 2016

A noite de Natal do Mário...

 «Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português»
[MNAA - LISBOA]


Dia de natal

Tristeza vai-te embora
Tristeza
pequena morte.
Chega a noite, vai-se o dia
e assim há de desaparecer este pobre diabo 
que eu sou
com calças rotas
camisola cosida.
esperavas um milagre nesta noite de natal?
A camisola não recebeste
as calças não tas deram.
Bem feito
para não acreditares em anjos.

mário
1960
IN Maria Rosa Colaço, A criança e a vida (Lisboa: ITAU, 1960)

21 de dezembro de 2016

Invernos de recolhimento e reflexão

INVERNO

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

O dia mais curto depois da noite mais longa

O inverno começa com o dia mais curto do ano e termina com o nú-mero de horas idêntico ao da noite. Equilíbrio efémero de imediato desfeito pela primavera dentro e só será recuperado na passagem meteórica do verão para o outono. Luta sem quartel entre equinócios e solstícios a marcar a roda contínua das estações.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) liga-o a Thanatos. À hera, às raí-zes e aos fungos. Deu-lhe um ar carrancudo de alguém que está de mal com a vida e ganhou um esgar duradoro no olhar. A seiva dos verdes anos secou de vez e deixou um tronco morto em seu lugar. O limão usado como emblema simboliza o azedume da velhice.

A tradição milenar que o maneirismo consagrou associa-o ao final dum ciclo de vida. Aquele que se situa entre o alfa e ómega da exis-tência humana. Tempo de recolhimento e reflexão. A linearidade do homem a perder aos pontos com a circularidade da natura. Sem apelo nem agravo. Imparavelmente. Dia após dia, noite após noite...

19 de dezembro de 2016

Mia Couto: Jesusalém, a terra onde Jesus havia de descrucificar

«A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.»
Mia Couto, Jesusalém (2009)
Celebra-se este ano o quinto centenário da publicação em Lovaina da obra magna de Sir Thomas More, a Utopia (1516). A data tem vindo a ser vivida com toda a pompa e circunstância que as academias das letras por esse mundo fora costumam dedicar sempre que podem a estes eventos e a que os mais comuns dos mortais costumam dar muito pouca ou nenhuma atenção. O título escolhido recaiu num termo utilizado por Platão na República (c. 347 AEC), para descrever uma sociedade perfeita a erigir num futuro mais ou menos distante, significando, por conseguinte, um não-lugar. O humanista inglês transpôs essa possibilidade para o presente, localizando-a, todavia, num espaço secreto, isolado do globo, a que só se acederia por mero acaso. Assim o fizeram os imitadores que lhe seguiram o exemplo, sem se aperceberem muito bem do caráter irónico contido no diálogo fundador. Os destaques vão regra geral para os casos paradigmáticos do italiano Fra Tommaso Campanella, na Cidade do Sol (1623), e para o do inglês Sir Francis Bacon, na Nova Atlântida (1627). Eutopias lhes chamaram os entendidos, quando os estudaram e inseriram num género literário conciso, por reunirem relatos otimistas que configuravam modelos políticos bem-sucedidos.

Razão terão tido os responsáveis pelos Livros RTP-LeYa, de se terem aproveitado da efeméride para incluírem na Coleção Essencial a reedição dum dos romances mais conhecidos de Mia Couto, o Jesusalém (2009). Pelo menos é o que dá a entender Miguel Real, que, ao prefaciá-lo, o considera uma das poucas distopias compostas em língua portuguesa. Verdade incontestável para referenciar uma categoria narrativa que se oporia às anteriormente referidas pelo seu caráter pessimista, concretizado agora num espaço-tempo antecipados que convinha evitar a todo o custo. Os modelos apontados como hipotéticas fontes seguidas pelo autor moçambicano se-riam as sempre citadas comunidades ideais de cidadãos condenados a serem felizes imaginadas por Aldous Huxley, n’ O admirável mundo novo (1932), e por George Orwell, no 1984 (1949). A continuidade diegética proposta é tão sedutora como falaciosa, dado que o miniestado totalitário alicerçado por Mateus Ventura, rebatizado Silvestre Vitalício, se situa numa coutada de caça abandonada e nos tempos da guerra civil que se seguiram à independência do país. No final da ficção, tudo volta à normalidade, sem o mais apagado vestígio utópico duma cidade alternativa vitoriosa, marcada pelos princípios claros-escuros da eutopia ou da distopia. Diga-se de passagem que na república das letras ninguém fica a perder com o facto. As grandes representantes do espírito criador humano não costumam pertencer a nenhum grupo genérico específico. Escapam a todas as tentativas de captura poética e recusam-se a dar origem a outras.

Jesusalém, a terra onde Jesus haveria de se descrucificar, sumiu-se tão completamente do mapa das quimeras fracassadas como surgi-ra no espírito doente do seu mentor. Faz lembrar um pouco o destino trágico infligido à Atlântida, imergida nas águas do mar para castigo da arrogância dos homens, nessa ânsia desmedida de afirmarem a sua superioridade face aos demais mortais. Aqui, a lenda reinventada por Platão remete-nos para um passado distante que não logra atingir as fronteiras do mito, muito embora se possa situar em qualquer parte do oceano que a nossa imaginação consiga enxergar. No texto do prémio Camões 2013, a procura da terra prometida para a realização de catarses vindouras funciona, sobretudo, como um exílio voluntário para o aprendiz de ditador e um cativeiro forçado para a restante comunidade. Número exíguo esse de três homens adultos, dois jovens e uma jumenta, para construir seja o que for, sem a presença feminina a assegurar uma nova estirpe de seres superiores. Essa ilha de bem-aventurados, submetida à vontade alucinada dum fugitivo das más influências da grande cidade e abrigado no isolamento purificador dum lugar situado para além de todos os lugares, estava condenado a desaparecer. Assim aconteceu antes que os leitores tivessem chegado ao derradeiro capítulo da terceira e derradeira parte da gesta. O regresso ao Lado-de-Lá era inevitável, até porque, no cronótopo efetivo em que vivemos, tudo se passa inexoravelmente no Lado-de-Cá. No dia em que a mulher morreu, faleceu o mundo para o fabricante de fantasias. No dia em que uma mulher surgiu como visita no meio do nada africano, a vida renasceu como uma revelação para todos. O regresso à realidade quotidiana da humanidade estava assegurado.

12 de dezembro de 2016

Labirinto de palavras

Theseus und dem Minotaurus im Labyrinth
(C. 275-300 EC)
[Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria]

Retóricas parlamentares...


      — Não posso nem pretendo, honrados juízes e meus bons co-munais, não pretendo nem posso, nem tenho intenção ou possibili-dade de negar e de pôr em dúvida que a proposta ou proposição do benemérito orador que acaba de falar seria daquelas que, dadas as condições, e admitida a possibilidade e conveniência das circuns-tâncias, era talvez, e porventura se apresentaria de um modo, e por tal dedução de causas e efeitos, que eu poderia, e todos nós de co-mum acordo estaríamos dispostos e inclinados a que, admitidos os princípios que são a base e fundamento essencial de toda a doutri-na, consultada somente a suprema, a supina consideração das ra-zões abstratas, e tais que o entendimento, a norma, a lei geral das mais elementares regras da boa administração e da reta congruência dos elementos mais vitais — ou antes daqueles que progridem por certa e invariável marcha desde o seu ponto de partida até o mais culminante; e bem assim firmados naqueles dados estatísticos por mim colhidos e que foram elaborados pela confrontação dos factos — e os factos são tudo na ciência! — Ciência que eu posso dizer com alguma vaidade, que peço me seja permitida, tenho levado desde o caos em que a achei, até outro caos... Quero dizer até onde são os limites confinantes da racionalidade bem entendida; pois se não pode negar que entre os dois máximos perigos do ser e do não ser — como daqui a alguns séculos tem de dizer um grande poeta inglês: To be, or not to be; o que então há de significar traduzido em romance: 
Ou ser capitão-mor ou não ser nada... 
      E citando estas futuras trovas, eu homem de alta ciência que desprezo trovadores e jugulares, sacrifico às musas como Sócra-tes... O conselho sabe quem é Sócrates e quem são as musas; mas quando não soubesse, bastaria dizer-lho eu...
Almeida Garrett, O Arco de Sant'Ana (1845 & 1850: cap. xxxii)

9 de dezembro de 2016

A palavra do ano

PASSAROLA

A Geringonça do Padre Bartolomeu de Gusmão

[Bibliothèque national de France]


Os sentidos escondidos das palavras


A Porto Editora pôs à votação pela oitava vez consecutiva a Palavra do Ano. Entre o Dia Restauração e a Noite de São Silvestre, os in-teressados deverão escolher uma das dez candidatas à tão subida honra de assim enriquecer o património vivo e precioso da língua. São elas: brexit, campeão, empoderamento, gerigonça, humanista, microcefalia, parentalidade, presidente, turismo e racismo.

Diz-me uma ciência secreta vinda não sei bem de onde que a esco-lha recairá na quarta palavra da lista. Aquela que a riqueza lexical e o dinamismo criativo do português importou do occitano antigo ger-gons, através do castelhano jeririgonza. Dizem os dicionários das academias envolvidas que o vocábulo se referiria a uma linguagem vulgar e difícil de entender ou a uma ação estranha e ridícula.

Desconheço qual a utilidade de eleger a palavra-vedeta deste ano se já me esqueci qual foi a vencedora do ano passado. Atrevo-me a dizer que será a mesma das restantes palavras convocadas na produção individual e social dos sentidos nos 365/366 dias em que o ciclo solar se completa. Serem usadas conjunta e solidariamente quando são necessárias para interpretar e construir a própria vida.

Neste sufrágio mediático exercerei o meu direito de abstenção. O re-sultado parece-me óbvio. A Geringonça acaba de festejar o primeiro aniversário e encontra-se de perfeita saúde. Parabéns. Levantou voo com sucesso como a Passarola do Padre Bartolomeu de Gusmão. A vontade dos homens cumpriu-se pela conjugação das palavras certas que souberam atualizar no momento do diálogo. Nada mais.

5 de dezembro de 2016

Thomas Mann, os exercícios do livre-arbítrio de Mário e o Mágico…

«Die Freiheit existiert, und auch der Wille existiert; aber die Willensfreiheit existiert nicht, denn ein Wille, der sich auf seine Freiheit richtet, stößt ins Leere.»
Thomas Mann, Mario und der Zauberer – Ein tragisches Reiseerlebnis (1930)
No percurso biográfico do homem, a predestinação e o alvedrio perseguem-se passo a passo. Nenhum ser vivente foi ouvido no ato de que nasceu e ninguém lhe ouvirá dizer o dia em que morreu. Entre o alfa e o ómega da sua existência efémera de ser diferenciado, terá de gerir a herança genética duma estirpe que não escolheu e que só poderá prolongar a meio gás. A menos que o fator incesto se meta de permeio e altere os cálculos. A vontade existe, mas está limitada pelo tempo. O antes e o depois não contam. Só o presente estabelece a ponte entre o que já foi e o que ainda está para ser. Thomas Mann desenvolve o tema da liberdade que existe latente em cada um de nós em Mário e o Mágico (1930), uma escassa centena de páginas dispostas em forma de novela com um pano de fundo dramático bem visível no horizonte. 

O relacionamento conturbado dos dois antagonistas que dão título à obra é-nos transmitida a posteriori pela voz vienense dum veraneante austríaco de férias familiares em Torre di Venere, estação balnear da costa italiana do mar Tirreno, em finais dos anos 1920. Fá-lo utilizando uma primeira pessoa do singular que se dirige de modo confessional a um interlocutor desconhecido na segunda pessoa do plural. O tom empregado no relato circunstanciado de recordações desagradáveis revela um grande constrangimento, funcionando como uma verdadeira catarse dos factos testemunhados a contra-gosto numa noite quente de agosto, em que o abominável Cavalieri Cipolla, forzatore, illusionista e prestigitatore, entrou em cena no barracão de tábuas convertido em sala improvisada duma soirée de magia e se começou a desenhar a inevitável catástrofe. 

A estrutura da tragédia é detetável em toda a representação mimética narrada. Um prólogo feito com palavras carregadas de sátira amarga e dura para descrever o ambiente político-social que antecedeu o espetáculo. Um párodo preenchido com a entrada tumultuosa e impaciente do público transformado num coro coletivo de emoções a ocupar a orquestra do teatro. Um conjunto de episódios / estásimos de avanços e pausas na ação, a ser preenchido à vez pelas falas dos atores-hipócritas e pelos apartes do narrador-corifeu. O êxodo rápido de todos, após a queda do farsante ao som de duas detonações de pistola abafadas pelos aplausos e gargalhadas dos assistentes. O Mágico desafiou os limites da liberdade individual de Mário e foi punido exemplarmente como é costume acontecer nestes arremedos de vida de seres aparentados com os deuses. Híbris lhe chamavam os gregos. Arrogância lhe chamamos nós. Para o caso tanto faz. 

Na parábola inventada pelo grande mestre das letras alemãs, o hipnotizador encartado é derrotado pelo camariere, um simples empregado de mesa que recusou ser humilhado publicamente, que não quis ser tratado como um novo Ganimedes mítico trazido para a modernidade decadente degli anni ruggenti vinti, que se opôs a ser um mero boneco articulado nas mãos dum manipulador profissional de segunda ordem. Na alegoria composta pelo já então prémio Nobel da literatura, a ascensão do regime fascista mussolínico está latente em cada página da ficção moldada com dados factuais. É um alerta que o novelista lança a todos os leitores, numa altura em que o espaço cénico europeu sucumbia um pouco por todo o lado aos avanços vertiginosos dos totalitarismos de partido único e saudação romana de braço estendido. Premonição confirmada pouco depois pela implantação do regime nazi no império hitleriano, que obrigariam o expatriado Thomas Mann a procurar o refúgio suíço e a aceitar a cidadania americana. 

A literatura não tem idade e não se mede pelo número de palavras selecionadas para gizar um enredo. É intemporal e imensurável. À distância duma guerra mundial e duma guerra fria, as querelas sem quartel dos nacionalismos travadas a montante e a jusante duma cortina-de-ferro que em tempos existiu voltam a assombrar as ribaltas do velho continente e da aldeia global. Todas elas são as-sustadoras e ultrapassam em muito as fronteiras palpáveis do reino da fantasia. Os truques de cartas e de números são manejados incansavelmente pelos tiranetes despóticos de meia-tigela já alojados neste terceiro milénio. A história só não se repete, porque a musa que a rege lá vai tendo o cuidado de expor os mesmos conflitos intergeracionais com roupagens renovadas. O homem está condenado a ser livre. Que o seja em vida, antes que a morte o surpreenda e remeta para o mundo acabado da perfeição. A dignidade da raça humana passa pela coragem de exercer o sinal do querer, de resistir ao poder da sugestão, de violar os ditames da prepotência, de ser o artífice do seu próprio destino. Custe o que custar e doa a quem doer. Anche se no vuole!...

NOTA:
As voltas e reviravoltas que a história dá são surpreendentes. Nos finais da década de 20 do século passado, a Europa e o mundo aproximava-se a passos de gigante da maior tragédia que a humanidade gizou.  As novas cortinas-de-ferro feitas de novíssimos muros-da-vergonha andam a proliferar perigosamente por aí como cogumelos em terra húmida e sombria. Os tiranetes já começaram a renovar as roupagens e já estão preparados para entrar em cena. Mais rapidamente do que seria de esperar há um par de anos quando publiquei este texto no Pátio de Letras. Trago-o agora para aqui para a avivar a memória se isso servir para alguma coisa...       

1 de dezembro de 2016

Fábulas Ibéricas do Galo e do Touro

Portugal & España 

Unidade na Diversidade

Revelou uma recente sondagem de opinião, realizada pelo Real Ins-tituto Elcano de Madrid, que cerca de sete em cada dez portugueses quereriam unir-se politicamente a Espanha, com vista ao fortaleci-mento da sua posição conjunta no seio da UE. A informação foi-me transmitida via FB por um aluno da Universidade de Sevilha, que ali conheci numa estancia de investigación.

Esse fait-divers, elaborado um pouco em contracorrente com a ten-dência atual de desagregação europeia, chamou-me à memória uma conversa recente com um colega e amigo dessa mesma universida-de. Estava-se nas vésperas do referendo que ditaria a independên-cia da Catalunha do estado espanhol e a hipótese da vitória indis-cutível do sim trazia-o num angústia total.

Para si, a união dos dois países enfraqueceria o ímpeto separatista das autonomias mais rebeldes. A capital seria Madrid, o idioma ado-tado o espanhol, o regime seguido a monarquia. Pasmei. Às dificul-dades que lhe fui apontando sobre a aceitação portuguesa duma tal fusão, achou sempre argumentos de peso para me converter à ideia peregrina exposta com tanta convicção.

No Dia da Restauração, apeteceu-me brincar com o caricato da si-tuação. Referir que o federalismo ibérico, defendido entre outros por Antero de Quental na Causa da decadência dos povos peninsula-res (1871), até me seduz nos seus princípios mais gerais. Assim se erija de modo que o caráter impulsivo do Touro hispânico não esbar-re com a genica telúrica do Galo lusitano.