22 de janeiro de 2018

Roberto Bolaño, sombras, desertos & enigmas dos detetives selvagens

«He sido cordialmente invitado a formar parte del realismo visceral. Por supuesto, he aceptado. No hubo ceremonia de iniciación. Mejor así.»
Roberto Bolaño, Los detectives salvajes (1998)
Os grandes marcos da criação literária assentam invariavelmente em motivos triviais traçados na mais perfeita simplicidade argumentativa. A cólera de Aquiles, a loucura do don Quijote, a magia do doutor Fausto, o idealismo do rei Artur, a lascívia do don Juan a inspirarem gerações de leitores ávidos de estímulos estéticos feitos de palavras ditas, desditas e reditas. Gilgamech persegue a imortalidade, Édipo conhece-se a si mesmo, Ulisses regressa a casa e vinga-se dos pretendentes de Penélope, Lazarilho tenta saciar a fome e singrar na vida, Romeu e Julieta perpetuam o amor que o destino lhes ajustou através da morte. Os exemplos podiam multiplicar-se até esgotarem os leitmotiv mais imitados pelas belas-letras universais. Umberto Eco exuma o segundo livro da Poética de Aristóteles numa biblioteca conventual com nome de rosa e entrega-o às chamas purificadoras dum incêndio providencial. José Saramago refaz a história do cerco de Lisboa com a mera troca de um sim por um não e problematiza o papel desempenhado pelos cruzados na conquista da cidade. Roberto Bolaño preenche as 600 páginas d' Os detectives selvagens (1998) com o rasto duma poetisa mexicana que publicou um único poema visual em toda a sua existência, feito com uma palavra, duas sílabas e três desenhos. Genial, apetece dizer.

Frequento o novelista chileno há relativamente pouco tempo. O boom editorial do 2666 foi o culpado. Por vezes, o ruído causado pelos bestsellers globais acaba por ser proveitoso. Não resistimos ao apelo publicitário e embarcamos na aventura peregrina da descoberta da obra-prima anunciada. Depois, damo-nos conta que a qualidade também pode conviver com a quantidade e passamos à exploração sistemática dos restantes títulos dos autores bafejados pelo sucesso, para que o prazer experimentado uma vez se volte a repetir ad æternum. Lidos os livros, a sensação que nos invade é a de que quem lê um lê todos. Curiosamente, fica-se com a vontade de ter um outro mais ali à mão, para recomeçar tudo de novo, à cata dum final decisivo para todas as histórias inacabadas que povoam cada um dos romances já publicados ou em vias de o serem. Pura ilusão. O segredo da escrita do arquiteto do infrarrealismo reside sobretudo no caráter lacunar dos relatos, na incapacidade de lhes dar um desfecho tranquilizador, porque cada um deles está ancorado na realidade quotidiana que nos envolve, modelo matricial de todos os heróis/anti-heróis imaginados pela ficção, até que a morte nos liberte e dê a possibilidade de vislumbrar a perfeição.

Juan García Madero ingressa no universo imagético do realismo visceral e regista nas páginas dum diário pessoal as impressões dessa experiência peculiar. Tem 17 anos e a vida toda pela frente. Fá-lo enquanto mexicano perdido na imensidade da capital do México, entre 2 de novembro e 31 de dezembro de 1975, e nos desertos de Sonora, entre 1 de janeiro e 15 de fevereiro de 1976. A balizar as efemérides documentadas nos dois períodos de espaço-tempo referidos, o leitor depara-se com 26 blocos de fragmentos narrativos, repartidos por 96 testemunhos individuais dispersos, proferidos nos quatro cantos do mundo, entre 1976 e 1996, por 53 personagens diferentes, a pedido dum número indeterminado de pesquisadores ou detetives selvagens. Nesses vinte anos de diligências ininterruptas, encontramos Arturo Belano e Ulisses Lima a rastrearem as pisadas da mítica Cesárea Tinajera e a serem também eles investigados, alternadamente, não se sabe muito bem por quem, por quê ou para quê. Sombras, desertos e enigmas selecionados a adensarem o conjunto de mistérios insondáveis, labirínticos, sinuosos que os microrrelatos coligidos nunca chegam a esclarecer cabalmente e que os leitores avisados deixaram de questionar ou se habituaram a ver como episódios soltos, isolados, singulares, expostos ao sabor da pena ou dos caprichos da fortuna.

Em síntese, trata-se de um extenso metadiscurso sobre a literatura latino-americana atual, uma sátira cerrada à república das letras e à sua relação utópica com a política, um olhar crítico à demanda assídua das portas do paraíso, aquelas que se abrem ao reconhecimento público almejado por todos os artistas e dão acesso aos passeios duma fama desejada e raras vezes alcançada. Bolaño aproveita a boleia e mergulha a fundo na fábula. Põe a máscara duma ou outra personagem e converte-se no detetive selvagem por excelência dos seus próprios percursos pelos domínios da escrita: aventureiro, andarilho, exilado, boémio, libertino, novelista e poeta. Ingredientes essenciais para dar sabor a uma vida breve e auspiciar sucesso a uma obra celebrada, paradigma de eternidade a muito poucos concedida, apanágio de seres privilegiados habituados a jogar às cartas com os deuses e a ganharem.

NOTA
De repente apeteceu-me voltar aos universos da escrita de Roberto Bolaño e trazer para este espaço as palavras que em tempos registei no Pátio de Letras sobre Os detetives selvagens. Tarefa pensada, tarefa efetuada.

1 comentário:

  1. Obrigada, Prof., pela oportunidade de reler este magnífico texto! Ainda não li este título, mas o prazer adiado será maior...

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