29 de setembro de 2014

Gabriel García Márquez, memórias tristes dum ancião solitário com sede de amor...

«… es un triunfo de la vida que la memoria de los viejos se pierda para las cosas que no son esenciales, pero que raras veces falle para las que de verdad nos interesan.»
Gabriel García Márquez, Memoria de mis putas tristes (2004)
Na noite em que soube da morte de Gabriel García Márquez, comecei a ler pela segunda vez a Memória das minhas putas tristes (2004), a última novela que publicou e terá escrito. Durante todo essa sexta-feira santa, sábado de aleluia e domingo de Páscoa, voltei à companhia privilegiada do mestre das letras hispânicas com dimensão universal, há muito condenado a ficar para sempre entre nós, apesar de ter partido para uma outra dimensão e estar impedido, por força das circunstâncias, de passar para o papel as suas histórias imaginadas no seio dum realismo maravilhoso que ajudou a criar e a divulgar pelos quatro cantos da terra. Decorrida uma década sobre a primeira visita ao livro com um título abertamente provocador, o fascínio da viagem voltou a instalar-se em toda a sua plenitude, a demonstrar que em arte não existem palavras feias nem bonitas. Tudo depende de quem as diz, a quem as dirige e de como o faz. O professor falhado de gramática castelhana e latim, o alimentador medíocre de notícias e articulista de rotineiras notas dominicais num periódico de La Paz e de críticas musicais esporádicas nas gazetas da capital boliviana, voltou a celebrar o seu nonagésimo aniversário, aquele em que projetou oferecer-se uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.

A referência histórica à assinatura do tratado da Holanda que pôs fim à guerra civil colombiana dos Mil Dias (1902), tinha então 32 anos, associado a outros pequenos pormenores como a morte dos pais, permite-nos situar o início do relato a 29 de agosto de 1960 e a sua conclusão no mesmo dia e mês de 1961, quando acabava de perfazer os 91 e planeava ultrapassar a simbólica barreira dos 100. Nesse curto período de tempo, procederá a um balanço breve de toda a sua medíocre existência, apenas amenizada pela leitura assídua e audição atenta dos clássicos e pela lembrança revigorante das centenas de prostitutas a quem tinha pagado para passar uns curtos instantes de solidão partilhada, cujos nomes, idade, local e estilo tivera o cuidado de registar para identificação futura das suas tristes meretrizes. O real e o imaginário tomam conta do discurso e a memória do grande amor da sua vida perpassa pela centena de páginas do testemunho pessoal, repartido por cinco capítulos ou atos dum verdadeiro hino às paixões humanas: a virgem adormecida, a noiva abandonada, a mulher pintada, a ninfa desaparecida e a deusa regressada. Poema épico desenhado em prosa ou corrido mexicano cantado ao ouvido da amada: La cama de Delgadina de ángeles está rodeada...

O derradeiro texto de Gabito ou Gabo para os amigos – entre os quais se encontram, naturalmente, todos os leitores das fábulas por si reveladas à grande aldeia global – é, também ele, um autêntico ensaio sobre a velhice, a que se sente por dentro e a que se deixa ver por fora, uma reflexão sobre o processo de envelhecimento e de todas as misérias e glórias que lhe estão associadas. As falhas de memória, a falência da juventude eterna, os escombros do passado e os vazios do porvir, a ausência de fronteiras entre os factos sonhados e os factos vividos, entre a alucinação e o milagre, as ambiguidades da idade que se tem e da idade que se sente, o horror de comprovar que se envelhece mais e pior nos retratos do que na realidade. Observações  experientes  de  alguém que conhece muito bem a matéria e que teve a oportunidade de viver para contá-la. 

Disseram os mass media de todo o mundo, com todo o aparato sensacionalista costumeiro em ocasiões análogas, ter Gabriel García Márquez morrido a 17 de abril de 2014, uma quinta-feira de endoenças, na Cidade do México. Pura ilusão, se cada vez que abrimos um dos seus livros ali está ele a contar-nos histórias fabulosas mergulhadas no realismo mágico de que são feitas. As personagens a que deu voz nos seus retábulos de vidas fingidas de tantas outras existidas é que têm razão. Sempre que as visitamos nos livros em que habitam, voltam a revelar-se em mortes anunciadas e anos de solidão, em enterros, naufrágios e funerais, protagonistas de amores em tempos de cólera, de prazeres e outros demónios. Labirintos, viagens, fantasmas. Incríveis e tristes histórias, relatos clandestinos e crónicas peregrinas, como a desse nonagenário memorialista que, no derradeiro parágrafo das suas confidências pessoais, revela ter encontrado finalmente a vida real, com o coração a salvo e condenado a morrer dum bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos seus cem anos.

NOTA: 
Texto publicado no Pátio de Letras no dia em que soube que a livraria tinha fechado as portas para sempre. Com me parece que a atualidade da novela recenseada se mantém, passo para este novo espaço a minha leitura pessoal, com as palavras que Gabriel García Márquez me ajudou a encontrar. Lidos os livros, fiquem as memórias da viagem...

26 de setembro de 2014

Pátio de Letras & Espaço de Memórias

Maria Helena Vieira da Silva
Bibliothèque en Feu (1974)
CAM - FCG - LISBOA

Siempre imaginé que el paraíso sería algún tipo de biblioteca.
Jorge Luís Borges

Uma cidade sem uma livraria não é uma cidade a sério. Uma cidade que é incapaz de manter as que tem não merece o direito de existir. No decorrer duma escassa geração, vi desaparecer uma dezena delas ao meu redor. Em seu lugar, vi surgir uma sapataria, uma farmácia, uma cervejaria, um salão de cabeleireiro, uma loja de peúgas, uma butique, uma garrafeira, uma bijutaria, um café. Podia ser pior. Ficarem os espaços ao abandono, encerrados e entaipados, como se vê tanto por aí. E lá vão desaparecendo também por contágio estações de caminho de ferro, escolas primárias, maternidades, cinemas, tribunais e o diabo a sete. Os exemplos são mais que muitos. Uma cidade que priva os seus moradores dos bens essenciais ou os expulsa para a periferia, uma cidade que cria o deserto no seu interior, essa cidade qualquer dia destes desaparece e ninguém dá por isso.

A mais recente livraria a fechar portas na cidade onde moro ainda não teve tempo de se transformar em coisa nenhuma. Vive a paredes meias com um bar, aquele a que esteve associada enquanto subsistiu e que lhe conseguiu sobreviver. In vinus veritas. Estarei certamente a exagerar um pouco. Os livros vendem-se agora nos supermercados. Nas pequenas e grandes superfícies. São transportados para casa no meio dos detergentes, mercearias e enlatados. Começam a ver-se cada vez mais nas estações de correios que ainda não fecharam definitivamente as portas aos utentes, também eles em via de extinção. Em vez de selos para as cartas que ninguém escreve adquire-se um bestseller de tiragem global, de preferência light, traduzido para português. É a chamada banalização da cultura ou apagamento dum país.

O Pátio de Letras durou seis anos. Entre 12 de julho de 2008 e 30 de agosto de 2014, ambicionou ser um espaço de memórias onde o espírito crítico se sentisse em casa; um espaço de encontro de pessoas e ideias, onde a cultura fluísse com a naturalidade com que se respira e conversa com os amigos. Estas palavras foram trazidas da nota de despedida composta pela autora do projeto na hora de fechar as portas e arrumar a casa. Fi-lo quase ipsis verbis e sem ter formulado um pedido formal de autorização. Fi-lo enquanto frequentador habitual desse espaço de reflexões pessoais e emo-ções partilhadas. Fi-lo porque me vi privado dum cantinho especial onde eu e os livros nos tratávamos por tu. As aspirações acalen-tadas pela criadora do conceito cumpriram-se na totalidade. O direito a ser diferente vingou enquanto pôde ser diferente. Depois acabou.

Durante cinco anos contribui com algumas palavras para o blogue da livraria. Entre 23 de setembro de 2009 e 31 de agosto de 2014, postei 55 textos compostos depois de lidos os livros no Leya no Pátio. Estão todos agrupados numa etiqueta pessoal que tomei de empréstimo. Continuam em liberdade no ciberespaço, confiantes que o universo virtual seja mais compreensivo com as palavras do que o real costuma ser e as deixe andar por aí à espera de navegantesComecei com o João Aguiar e terminei com o Gabriel García Márquez. O prazer da leitura associou-se ao prazer da escrita. Um dia destes porei o Arthur d’Algarbe a revisitar as histórias do Arthur Erre Guê e pô-las em linha mais uma vez. Quem sabe para que lado os fados nos levarão...

23 de setembro de 2014

Alabardas, espingardas & casas pardas

Gil Vicente, Exortação da guerra. Lisboa: Edições Vercial, 2010
Oh, deixai de edificar | tantas câmaras dobradas, | mui pintadas e douradas, | que é gastar sem prestar! | Alabardas, alabardas! | Espingardas, espingardas! | Não queirais ser genoeses, | senão muito portugueses | e morar em casas pardas.
Gil Vicente, Exortação da guerra (1513: III, clix, 404-412)
A dar crédito nas didascálias preparadas por Luís Vicente na Compilaçam de todalas obras de Gil Vicente (1562), a tragicomédia Exortação da guerra teria sido representada ao mui alto e nobre rei D. Manuel I de Portugal, na cidade de Lisboa, por ocasião da partida para Azamor do ilustre e mui magnífico senhor D. Jaime I, duque de Bragança e Guimarães, corria então a era de 1514. Informação preciosa que nos permitiria celebrar, com toda a pompa e cerimónia exigidas, uma efeméride com meio milénio de existência. A história, todavia, apressa-se a afirmar que o embarque para a tomada de mais uma praça do reino do Algarve de além-mar em África se realizou a 15 de agosto de 1513, tendo a batalha sido travada a 28 e 29 seguintes e a entrada vitoriosa do conquistador ocorrido no primeiro dia do mês de setembro. Pequena incorreção que o filho do dramaturgo terá cometido à distância dos anos e que as edições modernas da obra têm vindo a retificar, sem dar grandes explicações sobre o facto.

Maria Velho da Costa deixa de parte o argumento da peça quinhentista e apropria-se duma das suas estâncias mais conhecidas para dar o título a um romance, as Casas pardas (1977). Os nove versos selecionados são ainda transcritos na íntegra em forma de epígrafe inicial na ficção, mas identifica-os como tendo sido pronunciados por uma qualquer personagem vicentina do Auto da Lusitânia (1532). O criador do teatro português volta a ser vítima dum trato de polé descarado. Aquele que transforma um incitamento à guerra patriótica contra os mouros numa farsa palaciana composta para celebrar o nascimento do príncipe D. Manuel, malogrado herdeiro de D. João III de Portugal e de D. Catarina de Áustria. Para a compreensão do texto mais recente, pouca importância têm as coordenadas exatas da fonte revelada. As guerras são outras. Fala-nos dos últimos momentos de vida do império fundado pelos soberanos da Casa de Avis e em queda livre nos tempos ditatoriais do apregoado Estado Novo. Os claros-escuros de luminosidade ondulante fundem-se num cinzento absoluto para descrever o país dos brandos costumes, o tal reino cadaveroso de paz podre no terrunho natal e de pelejas perdidas em terra alheia.

José Saramago também se deixa contaminar pela força das armas documentadas na estância vicentina em apreço, para dar nome a um outro romance. Inspira-se para tal nos versos centrais da mesma e envereda por um compósito e sugestivo Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. Compôs uma escassa vintena de páginas, tomou notas sobre a trama a desenvolver e um dia deixou de escrever e não falou mais no assunto. Terá legado à imaginação dos leitores o acabamento da história. Quem sabe. As últimas palavras manuscritas do escritor já foram transformadas em forma de letra impressa. Dizem os mass media nacionais que a edição portuguesa passou a ocupar o lugar em todas as livrarias do país. Hoje, dia 23 de setembro de 2014. Nem mais nem menos. Falta-me confirmar a veracidade da notícia. Dentro de muito pouco tempo vou tirar a prova dos nove. Resisti à tentação de ler os parágrafos iniciais da obra inconclusa, publicadas na imprensa como rastilho publicitário de pré-lançamento. Sei mesmo assim tratar-se dum ensaio antibélico e que o protagonista se chama artur qualquer coisa. Um dia destes ainda regresso aqui para tirar as dúvidas a limpo e dizer um pouco de minha justiça. Vontade não me falta.

18 de setembro de 2014

História exemplar...

Lisboa: Editorial Estampa (1973)
CARREIRISMO

- Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
- Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
- Voltou passados vinte e dois anos, com chofer fardado.
- Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve um enfarte.

Mário-Henrique Leiria, Contos do gin-tonic (1973)

15 de setembro de 2014

Pepetela, o sombreiro meridional do reino de Benguela


«E muitas vezes relembrava o episódio do grande chefe jaga cujo machado tinha um punho com ouro apanhado a sul de uma baía chamada da Torre ou das Vacas. Aí não havia brancos nem caçadores de escravos. Mas como chegar tão longe? | Há visões que entram na cabeça das pessoas, inadvertidamente. | Foi como a de uma baía larga de mato rasteiro e calmas águas, dominada por um morro com forma de chapéu largo, um sombreiro.»
Pepetela,  A sul. O sombreiro (2011)
O romance histórico está na moda. Parece que os demiurgos de tramas virtuais necessitam da ajuda de tramas reais para urdirem as raias ideais do verosímil. As personalidades de que a memória guardou um registo coletivo são revestidas com a máscara dramá-tica da fantasia e travestidas em personagens de faz-de-conta. Hipócritas lhes chamavam os gregos e lá teriam as suas razões. Pepetela pega numa mão cheia de vultos sonantes dos anais oficiais regidos pela musa Clio, põe-nos a contracenar com a outra mão repleta de figurantes anónimos de existência plausível e brinda-nos com um A sul. O sombreiro (2011), título algo obscuro para narrar partes da vida de Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, considerado desde a primeira frase como um filho de puta, o maior que alguma vez terá pisado aquele solo. Opiniões não se discutem e as palavras têm afinal o peso que lhes quisermos atribuir, convencionais todas elas e feitas à medida do ocasião.

Independentemente da opinião que os povos tenham erigido em torno da figura controversa do antigo capitão-general do Reino de Angola, dos seus antecessores e sucessores imediatos no cargo, heróis ou anti-heróis encartados, bem como doutros figurões mais que as crónicas seiscentistas tiveram o cuidado de preservar ou esquecer para sempre, convém averbar que o relato se ocupa de muitas outras minudências, ancoradas nos pretéritos tempos da Monarquia Dual ibérica luso-castelhana. Reinava então entre nós Filipe II de Portugal e III das Espanhas, soberano todo-poderoso do primeiro império global. O tal onde o sol nunca se punha. A ação decorre no litoral oceânico da então designada Etiópia Ocidental, situada entre o senhorio da Guiné e os reinos do Loango, Kongo e Ngola. Os eventos convocados estão focados nos sucessos protagonizados por africanos, brasileiros e europeus, por brancos, negros e mulatos, uma mescla de cores, etnias e convicções religiosas, todos eles encarniçados na criação das fronteiras duma nova ordem mundial, aquela que volvidas quatro centúrias chegou até aos nossos dias e ainda anda por aí a experimentar soluções definitivas sempre adiadas.

Os eventos evocados são exibidos a várias vozes, umas mais audíveis do que outras, como costuma acontecer numa acalorada cavaqueira de indivíduos ansiosos com palavras urgentes para dizer. Encontro de culturas e debate de ideias. A revelarem que nas relações humanas o bem e o mal são inseparáveis, como o verso e o reverso duma mesma moeda. Os modelos perfeitos pertencem ao universo da utopia. As tradições seculares fabricadas em espaços e tempos desencontrados é que erguem as balizas intransponíveis entre o certo e o errado. Paraísos e infernos terrestres sem lugar a purgatórios celestiais. Só quando as olhamos de perto nos damos conta que as intrigas, vinganças e violências são universais. O imperialismo, a escravatura e o racismo fazem parte da natureza do homem na sua totalidade. O hipotético descendente mestiço de Diogo Cão é tido como um negro com trajes de branco. O governador português é dado como um branco vestido de preto. O hábito lá vai fazendo o monge de quando em vez, a ponto dum nativo africano educado por colonos europeus ser visto como um branco de cor preta. As botas altas e um chapéu de abas largas ditaram-lhe a cor efetiva com que é esguardado pelos outros.

O tráfico de gentes, armas e minas atravessam o senhorio da conquista, navegação e comércio do triângulo atlântico do mar oceano português. E nestas travessias geoestratégicas entre três continentes, neste vai-e-vem incessantemente repetido, brotou, medrou e finou um império. Sobreviveu, todavia, uma língua comum, reinventada todos os dias há mais de oitocentos anos, quinhentos dos quais a nível planetário. Pepetela atualiza-a nesta crónica atual de eventos pretéritos, nesta ficção de feitos centrados numa cidade meridional com pretensão a reino, dominada por um morro com forma de chapéu largo ou sombreiro. Fá-lo à sua maneira. Com aquele aroma exótico e sabores desconhecidos, temperado com iguarias nunca vistas ou tocadas. Sinestesias verbais em forma de rimance. O novo mundo descoberto a sugerir percursos alternativos ao velho mundo a descobrir. Poesia em prosa. Origem, raiz e pátria deste nosso tagarelar quotidiano. Uma lufada de ar fresco espalhado pelos quatro cantos da terra.

13 de setembro de 2014

Retóricas do rei prudente

Alonso Sánchez Coello
 «Felipe II das Espanhas, vestido como Filipe I de Portugal»
 (1580)
Yo lo heredé, yo lo compré, yo lo conquisté. Yo lo heredé, porque me lo resolvieron muchos doctores; yo lo compré, para evitar repugnan-cias; yo lo conquisté, para quitar dudas. Y como lo heredado, com-prado y conquistado es de quien lo heredó, compró y conquistó, de la misma manera Portugal por todas las cabezas es mío, y no de la señora Catalina, que no lo heredó, ni lo compró, ni lo conquistó como yo…
ANÓNIMO, Arte de furtar (1652: XVI, ix, 116)

11 de setembro de 2014

As viagens do elefante

O Salomão das companhias de teatro Trigo Limpo (Portugal) e Flor de Jara (Espanha)
No tempo em que os Habsburgos governavam o mundo, Dom João III de Portugal ofereceu ao seu sobrinho Maximiliano da Áustria o elefante asiático Salomão. Depois de ter viajado nas caravelas lusitanas desde Goa até Lisboa e de ter permanecido algum tempo em Belém junto às águas calmas do Tejo, trocou os mares oceanos da Índia e do Atlântico pelos caminhos terrestres do Velho Mundo, com as rotas mediterrânicas de permeio. Atravessou a península hispânica e a italiana, transpôs as cordilheiras alpinas, fez-se às águas revoltas do Danúbio e entrou triunfalmente em Viena, coração do Sacro-Império Romano-Germânico. Corriam então os anos áureos de 1551-1552 e a época era pródiga em embaixadas exóticas. Dom Manuel I já brindara o papa Leão X com um outro paquiderme em 1514 e um rinoceronte em 1515-1516. O povo de Roma batizou-os de Annone e Ganda e a arte renascentista de Rafael e Dürer ofereceu-lhes a imortalidade. A moda inventada pelo Venturoso e estava lançada e bem viva ainda no reinado do Piedoso.

No início do terceiro milénio, em que as relações internacionais se tratam de forma bem mais pragmática, José Saramago foi convidado por uma leitora de português da Universidade de Salzburgo a falar aos seus alunos. Quiseram os fados da cidade de Mozart que o já então Prémio Nobel da literatura jantasse no restaurante O Elefante. As figuras esculpidas em madeira e postas em fila na sala, como ornamento, despertaram a curiosidade do conferencista. Tratava-se, isso mesmo, do famoso viandante, aquele que a casa de Avis-Beja havia oferecido à casa de Áustria. A representação da Torre de Belém e doutros monumentos europeus enunciavam o percurso trilhado cinco centúrias atrás. O episódio é-nos contado pelo próprio escritor nas páginas que antecedem A viagem do elefante (2008), relação ficcional dos acontecimentos factuais composto em forma de romance. Porventura a mais divertida fábula que o autor dos ciclos da estátua e da pedra nos legou. E assim a história sucedida se transformou numa história inventada.

Contam as crónicas de agora que o elefante diplomata das crónicas de antanho está de regresso. Anda por aí de terra-em-terra a revisitar os locais ibéricos por onde deambulou até chegar ao seu destino. As histórias que a história conta são pouco precisas na identificação do trajeto exato seguido pela comitiva real. Um dia destes ainda o vemos surgir no horizonte a pisar o mesmo chão que nós pisamos. A liberdade poética da república das letras é bem capaz disso e muito mais. Saramago imaginou algumas etapas alternativas a seu belo prazer e deleite de todos nós. Sim, porque tal como reza O livro dos itinerários, «sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam». Nada impede as trupes itinerantes do Teatro Limpo e do Teatro Flor de Jara de terem o mesmo entendimento e e de nos trazerem o elefante viajante até à nossa beira. Aproveitemos a visita e escutemos o que tem para nos dizer. Atentamente. É que no fim de tanto andar dum lado para o outro, terá muitas coisas nunca ditas para nos dizer…

7 de setembro de 2014

Língua comum

Natureza viva...
Nada melhor do que escolher o último dia de férias para falar das leituras de férias. Colocar três delas lado a lado e fazer a conta-corrente das impressões de viagem que o seu convívio de semanas me proporcionou. Exóticas no seu todo. A cheirar a terra e a mar. Pejadas de história com histórias dentro. Ecos multisseculares de convívio musculado. Aguerrido, quezilento, brigão. Um trato revelado na língua comum mais falada no hemisfério sul.

Passamos o olhar pelas palavras feitas de letras e ouvimos os heróis que as povoam a contar-nos as suas vidas como se nos conhecêssemos há uma eternidade. Esse o principal segredo da literatura. Fazer de cada leitor um confidente de histórias fingidas como se fossem verdadeiras. Um cúmplice incondicional. As estremas entre umas e outras desaparecem do horizonte e deixam campo livre à imaginação.

Depois as páginas que nos falam aos ouvidos chegam ao final do seu percurso e obrigam-nos a travar um diálogo silencioso com os amigos que vimos partir e ainda mantemos entre mãos. Até podemos partilhar com os outros essas tais emoções de trajeto mas o efeito do primeiro contacto desfaz-se. Ninguém lê um livro da mesma maneira. Ninguém vê o mundo do mesmo modo. As subjetividades envolvidas impedem-no.

Os três autores convocados lidam com a língua portuguesa como poucos. Todavia fazem-no de modo distinto. Os registos angolanos de Pepetela e de José Eduardo Agualusa não se confundem com os brasileiros de João Ubaldo Ribeiro. Cada um deles estabeleceu relações muito estreitas com a realidade portuguesa. A colonial e a dos nossos dias. Em nada se confundem com o linguajar europeu que conhecemos e praticamos no nosso dia-a-dia coloquial.

A lusofonia tem destas coisas espantosas. Une-nos a todos na diversidade e divide-nos na unidade. Pena é que um manancial tão auspicioso nos ponha de costas voltadas quando à nossa realidade cultural. Fazemos gala em ignorar-nos uns aos outros. Como se o outro fosse o inimigo. Malhas que o império ainda hoje tece aos meninos de sua mãe, que somos todos nós. O poeta que tinha no português a sua pátria lá continua a ter as suas razões…

6 de setembro de 2014

Os dois lados do mundo

EXPOSIÇÃO 
O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge. 30 anos de Escrita Publicada
A Escola da Cabeça d’Águia era uma casa com uma porta, duas janelas e mais nada. No primeiro dia em que me levaram até lá, fiquei feliz porque ia encontrar crianças da minha idade. Elas lá estavam, divertidas, barulhentas, grandes olhos, faces magras. Também era a primeira vez que me colocavam na mão uma caneta de tinta de molhar e ela escorregou-me da mão, borrou a folha, e rebolou pelo chão. Tive de gatinhar debaixo das carteiras para a encontrar. Foi então que eu reparei que a maior parte dos pés dos meus colegas estavam descalços. Vi os seus pés pousados no chão e percebi que a turma se dividia em duas metades – os que tinham e os que não tinham sapatos. Nessa noite, procurei sapatos em casa que servissem aos meus colegas, e havia várias caixas, mas de criança encontrei um par, e eu queria encontrar botas, sapatos vários. A minha mãe descobriu o que eu andava a fazer e disse-me – «Para quê tudo isso? Desengana-te, por mais que faças nunca vais calçar toda a gente». E assim foi. Passei muitos anos sem contar este episódio, até que desisti desse silêncio. Passado todo este tempo, a Humanidade continua a divertir-se, exactamente, nesses mesmos dois grupos – Os que andam e os que não andam descalços. Só na Literatura conseguimos encontrar sapatos para todos. Talvez essa seja uma das razões por que escrevo. Talvez escreva desde aquele dia em que a caneta escorregou pelo tampo espalhando tinta no papel e conduzindo-me ao chão do mundo.
Lídia Jorge, in República das mulheres (2010)

Conta-corrente em contracorrente

LE REPAS DE FÊTE
Histoire d'Olivier de Castille et d'Artus d'Algarbe
(Paris, BnF)
Abrir um blogue numa altura em que as redes sociais conquistaram o ciberespaço é mesmo andar a contracorrente. Sobretudo quando se é um leigo na matéria e o universo do virtual está sempre a tropeçar com os mecanismos de leitura e escrita há muito adquiridos do mundo real.

O nome escolhido para lhe dar voz surgiu do título dum romance de cavalaria que encontrei por acaso numa viagem de descobertas pela NET, L’histoire d’Olivier de Castille et d’Artus d’Algarbe (1474). Presumo tratar-se dum dos protagonistas do livro que até ao momento ainda não visitei.

As histórias que este Arthur d'Algarbe tem para contar dependem das caminhadas que for dando por aí, pela república das letras e reinos vizinhos. Sem precipitações e ao sabor da pena. Apresentadas como uma conta-corrente por partidas simples ou dobradas das impressões de percurso.