26 de dezembro de 2014

Histórias do Menino Jesus

Le nouveau-né 
Georges de La Tour (1593-1652)
[Musée des Beaux Arts de Rennes]
No tempo em que eu acreditava no Menino Jesus, fazia um presépio monumental com imagens de barro pintado a ocuparem um cenário forrado com musgo recolhido num pinhal estremenho da redondeza. Os caminhos eram traçados com areia fina da praia atlântica e os rios corriam com papel prateado dos chocolates comidos ao longo do ano. Os Reis Magos moviam-se todos os dias uns centímetros até chegarem no dia certo à gruta de Belém, onde a Sagrada Família se mantinha imóvel há mais de duas semanas à sua espera.

No tempo em que eu acreditava no Menino Jesus, as prendas eram abertas na manhã de Natal, depois de terem sido retiradas do sapatinho colocado de véspera na chaminé. Essa era de facto a noite mais longa do ano, aquela em que saberia de fonte segura se me tinha portado bem durante trezentos e sessenta e quatro dias completos para merecer uma prenda embrulhada em papel colorido no início do tricentésimo sexagésimo quinto. Como era de esperar, saí-me sempre bem nessa prova dos nove das faltas expiadas.

No tempo em que eu acreditava no Menino Jesus, o Pai Natal era uma figura de segundo plano pouco visível no meu horizonte de eventos previsíveis. A árvore de Natal era um acessório dispensável e associada a uma festividade pagã pouco recomendável num ambiente católico do tempo da outra senhora. Resumia-se a um pinheirito enfezado mediterrânico enfeitado à pressa com umas farripas de algodão a imitar a neve que, por essa altura, cobririam de branco os majestosos abetos das paisagens escandinavas.

No tempo em que eu acreditava no Menino Jesus, ia à catequese semanal, confessava pecados imaginários e comungava depois do ato de contrição, nunca fui à Missa do Galo. Falta lamentável só agora corrigida, muito depois de me ter libertado dessas práticas de submissão rigorosa ao divino. Aos odores das filhós acabadas de fritar poderei agora associar o odor do incenso queimado em honra do recém-nascido mais famoso do mundo. A mistura natalícia assim obtida não deixa de ter o seu quê de singularidade digna de registo.  

7 comentários:

  1. Uma interessante reflexão! No tempo em que eu acreditava no menino Jesus (e por isso mesmo ia à catequese), o presépio e a árvore de Natal eram absolutamente imprescindíveis. Mas nunca fui à Missa do Galo... O odor a incenso apenas o respirei em momentos imprevisíveis, quando entrei numa igreja julgando que estaria vazia e encontrei uma missa a decorrer.

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    1. Nunca é tarde para ir à Missa do Galo e ficar engasgado com o forte odor a incenso. Uma noite dum qualquer Natal, sem darmos por isso, lá somos arrastados para assistir à celebração, ainda que sejamos compelidos a sair antes do Ite Missa Est... :)

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  2. Oh Artur, revejo-me inteiramente nesta "Histórias do Menino Jesus".
    O primeiro desgosto que tive na vida, estou a falar a sério, foi no dia em que, teria eu 6 anos, na escola, em Setúbal,descobri, por conversas que ouvi a colegas, que não era o Menino Jesus que nos visitava de noite, descendo a chaminé.

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    1. Essa verdade devastadora foi-me dada por um colega de escola, teria eu também 6 / 7 anos. Fê-lo com um ar de pessoa crescida que há muito havia abandonado o mundo infantil das histórias de fadas boas e bruxas más. Desmenti-o veementemente mas depois acabei por me render às evidências...

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  3. Não lembro de haver Pai Natal nenhum. Era o Menino Jesus que colocava as prendas no sapato. Uma noite, levantei-me e vi quem estava a por as prendas no sapato. De manhã não quis nada porque não foi o Menino que lá as colocou.

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  4. No tempo em que acreditava no Menino Jesus,,,nem sabia que havia o tal Pai Natal,,nem havia Árvores de Natal,,,,, A minha mãe fazia um presépio que com os anos se foi tornando cada vez maior,,,,,,Uns dias antes íamos ,,,apanhar,,,musgo à mata ,Na noite de Natal punhamos o sapatinho na chaminé,,,,e logo excitadissimas para a cama, ,,,Na manhã seguinte o nosso pai acordava-nos , dizendo sempre que tinhamos umas prendinhas no sapato e que ,,,,ainda tinha visto um pezinho do menino a sair da chaminé !!!
    Não sei quando deixámos de acreditar,,, creio que fingimos durante uns anos para não desiludir o nosso pai,,,que era o que mais gostava da ,,,,,festa,,,

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    1. Olhe Leticia não tenho nada a tirar nem a acrescentar às suas palavras, porque comigo passava-se exatamente o mesmo, ou por outra, acrescento só que na idade mais infantil eu e os meus irmãos eramos obrigados a ir para a cama e combinávamos não fechar os olhos para vermos o menino Jesus a descer a chaminé. Está-se mesmo a ver o que acontecia...

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