30 de janeiro de 2017

Italo Calvino: os diálogos de Marco Polo e Kublai Kan sobre as cidades invisíveis

«Non è detto che Kublai Kan creda a tutto quel che dice Marco Polo quando gli descrive le città visitate nelle sue ambascerie, ma certo l’imperatore dei tartari continua ad ascoltare il giovane veneziano con piú curiosità e attenzione che ogni altro suo messo o esploratore.» 
Italo Calvino, Le città invisibili (1972)
As suspeitas de que Marco Polo nunca terá estado na China vêm de longe. Datam das primitivas versões do Il Milione, relato de viagens que o mercador veneziano ditou a Rustichello da Pisa, entre 1296 e 1298, quando partilhavam o mesmo cárcere de Génova. O manuscrito do escritor italiano de língua francesa foi dado a conhecer ao mundo com o título de Le livre de Marco Polo, também designado por Devisement du monde ou Livre des merveilles. Baseiam-se essas dúvidas no facto da descrição dos países submetidos ao poder mongol, palmilhado pelo aventureiro medieval europeu ao longo de 24 anos, ter omitido a referência ao hábito de tomar chá ou de dobrar os pés das mulheres para torná-los mais pequenos, à caligrafia, à imprensa e aos livros, para além de ignorar Grande Muralha, começada a construir por Qin Shi Huang Di em 221 AEC e finalizada no século XV pela dinastia Ming. Lapsos inexplicáveis que os especialistas têm vindo a apontar ao longo dos tempos. Distraídas deveriam andar as Publicações Europa-América, quando reproduziram uma foto do mais conhecido monumento do chamado Império do Meio na capa da edição de bolso da tradução portuguesa. Atrevo-me a avançar que essas lacunas estariam salvaguardadas na declaração registada no corpo do texto: Há outras coisas que não vos conto*. E mais não digo para não correr o risco mais que certo de errar, que a minha ciência sobre o assunto é declaradamente escassa.

Entrei em contacto com o testemunho do viajante ocidental nas paragens orientais através duma das obras de divulgação cultural preparada para um público juvenil por Adolfo Simões Müller, que dava pelo nome apelativo de O mercador da aventura: a vida de Marco Polo e o seu livro (1966). Fi-lo através dum exemplar pertencente ou à biblioteca de turma do secundário ou à itinerante da Gulbenkian. A leitura do texto original ocorreu muito depois, numa altura em que trabalhos académicos então em curso sobre as dimensões do maravilhoso e das suas fronteiras escorregadias com o estranho me mandavam pesquisar as alusões ali documentadas sobre o papel-moeda e a porcelana, as histórias dos três Magos, do Velho da Montanha e do Prestes João das Índias, as palhinhas de ouro do rio Azul e, sobretudo, as pedras que ardem (carvão) e à água que se queima (petróleo), então desconhecidas no mundo cristão. Uma descoberta fascinante que me convidou a confrontar outras relações de viagens tidas como fraudulentas pelos seus contemporâneos, com um destaque especial às alegadas mentiras registadas por Fernão Mendes Pinto – o Fernão, mentes? Minto! das anedotas da época – na Peregrinação, publicado em 1614, três décadas após a morte do autor.

Chegou-me agora às mãos um romance já clássico de Italo Calvino, As cidades invísiveis (1972), onde o grande mestre das letras italianas lança para trás das costas as celeumas seculares contidas no roteiro de viagem ducentista e lhes dá uma dimensão simbólica mais compaginável com as visões vigentes nos nossos dias, exercício literário feito de reflexões, experiencias e conjeturas só exequível através da criatividade prodigiosa dum grande inventor de fábulas. Retoma o livro das maravilhas e idealiza uma série de relatos de viagem que Marco Polo apresenta de viva voz a Kublai Khan, com quem dialoga e troca impressões sobre as caraterísticas de cada uma das cinquenta e cinco cidades visitadas e descritas minuciosamente. Agrupa-as em cinco categorias, distribuídas por nove capítulos ou etapas de percurso. Dá-lhes o nome de mulheres. Associa-as à memória, ao desejo, aos sinais, às trocas, aos olhos, ao nome, aos mortos e ao céu. Considera-as subtis, contínuas e ocultas. Todas elas invisíveis a olho nu porque só podem ser vistas com os olhos da imaginação. A verdade que podia ser mentira transforma-se em mentira que poderá ser verdade. Nada impede que a estrutura utópica, edílica, onírica, insólita, impossível de que são feitas se transforme numa realidade vindoura possível.

A era do imperador mongol desloca-se livremente no fluxo cronotópico e estabelece a ligação entre as urbes exóticas do antes e as do porvir, com a modernidade da escrita de permeio. Muito se poderia dizer sobre a filosofia esplanada nos fragmentos dialógicos que alternam com os expositivos. Referir a solidão, angústias e inquietações do Grande Khan, a certeza que tinha da fragilidade do seu poder efémero sobre os seus inúmeros súbditos espalhados por todos os vastos domínios espalhados por grande parte do continente eurasiático, constituindo a maior extensão em território contíguo da História. O melhor será mesmo mergulhar nas palavras compostas em primeiríssima mão pelo seu criador para depois as colocar na boca dos interlocutores que lhe dão vida. É o mínimo que se pode fazer depois de lidos os livros aqui evocados ao correr da pena, imagem poética para referir o matraquear ruidoso do processador de texto.

NOTA
(*). As viagens de Marco Polo (Lisboa: Europa-América, s/d, xv: 25)

 

25 de janeiro de 2017

O hortelão real de Versalhes

Aucline Quiec avec privilège du roi - Vue et perspective du Jardin potager de Versailles

Jean-Baptiste de la Quintinie et le jardin potager du Roi-Soleil


« Le jardinier avait suivi les plans du Roi à la lettre : le jardin serait composé d'un espace central en creux constitué de seize carreaux encadrant une large pièce d’eau circulaire, auxquels seraient ad-joints, à l'entour, une trentaine de petits jardins rectangulaires sépa-rés les uns des autres par de hauts murs de refend. “ Dans cet es-pace parfaitement réparti et protégé du vent, écrivit-il à Neuville, je serai en mesure de cultiver ce que bon me semblera. Je taillerai, modèlerait mes arbres. Les fruitiers, exposés régulièrement et de toutes parts à la chaleur du ciel, donneront, j’en suis convaincu, le meilleur d’eux-mêmes. C’est merveille, pour moi, de contribuer à construire et à embellir ce monde  ” 
é
“ Pourquoi, demanda Neuville, avoir cerclé votre terre de remparts, séparé vos petits jardins par des murs infranchissables ? J'observe les plans que vous m'avez adressés, et je ne vois que cloisons, sé-parations rigoureuses, allées rectilignes. Pardonnez ma franchise, cher ami, mais je ne parviens pas à comprendre la présence de ces murailles qui ferment le monde au lieu de l’agrandir. Pourquoi vous couper ainsi de l'univers, quand aujourd'hui tout nous appelle au-dehors, quand le monde s'agrandit sous nos pas et que nos yeux touchent aux étoiles lointaines ? ”

“ Votre franchise me touche, lui répondit le jardinier. Ces murs dont vous déplorez l'existence, je les ai voulus comme des tuteurs pour mes fruitiers. J'ai surtout voulu ces espaces enclos comme des abris. Vous ne devinerez jamais combien il m'est agréable de trouver refuge au creux d'une parcelle isolée, à toute heure du jour ou de la nuit, bien loin de tout. Et là, la tête penchée sur chacun de ces territoires cachés, le monde s'anime librement : l'herbe pousse la fleur qui la gêne, la limace escalade avec précaution une feuille de laitue, la sauterelle bondit prodigieusement d'une herbe à une autre, la fourmi transporte avec elle une graine plus grosse qu'elle. Et moi, moi je n'existe plus au cœur de ces petits univers qui me sont, chacun, bien plus grands que vos galaxies tout entières. Quand viendrez-vous ici où tout vous attend, où je vous attends ? ”»

20 de janeiro de 2017

George Steiner, Anno Domini: três histórias de guerra em tempo de paz

«Recollection came upon him vivid and exact. Quis viridi fontes indu-ceret umbra?–Who shall veil the spring with shadow and leaf? […] As the pain slunk back to its lair, that line of Virgil had sung in his brui-sed thoughts. With it the gate of memory swung open and behind it drowsed the rust-green gables and slow canals of the North Country.»
George Steiner, Anno Domini. Three stories of the war (1964)
Falar de alguns autores e obras torna-se, por vezes, uma tarefa particularmente complexa. Sobretudo quando nos referimos a alguém que se tem vindo a destacar em áreas tão diversificadas como a tradução, o ensaio, a crítica, a pedagogia, a filosofia e a ficção. É o que se passa com George Steiner, escritor e académico anglo-franco-americano, nascido numa família austríaca de origem judaica, fluente em três línguas modernas (alemão-francês-inglês), duas clássicas (latim e grego) e sabe-se lá que outras mais. Sobra-nos a escolha das temáticas a desenvolver e falta-nos o engenho e arte para as comentar como merecem. Fico-me por um conjunto de histórias de guerra contadas em tempo de paz, publicado há quatro décadas e só agora vertido para português com o título algo provocatório de Anno Domini (1964 | 2008). O habitual atraso a que já vamos estando habituados.

A revisitação dos palcos do drama faz-se através de três atos autónomos de temática comum, feita à boa maneira helénica das trilogias trágicas dos séculos dourados da cultura ática antiga. Os atores do «Sem regresso», de «O bolo» e do «Delicioso março», munidos das máscaras, túnicas e coturnos adequados, entram em cena para revelar aos espetadores desse teatro especial, alojado nas páginas dum livro de contos, os fragmentos de vida-morte contidos nas peças convocadas das sombras exumadas do passado, com o firme propósito de iluminar eficazmente o presente. A catarse, imperiosa nestes casos, faz-se através do diálogo travado entre a lembrança e o esquecimento, entre a inscrição e o ostracismo, entre as luzes e as trevas, para que o mundo espectral dos caídos habite a memória futura dos seus filhos, para que as feridas causadas pelas partes beligerantes sejam saradas, para que as cinzas do holocausto não voltem a ocupar no porvir próximo os projetos dos homens.

O primeiro auto contado da coletânea está ancorado na velha questão franco-germânica das hegemonias europeias perdidas. Cinco anos após a invasão aliada da Normandia, o ex-capitão alemão Werner Falk enceta uma viagem «sem regresso» a Harfleur, à quinta Yvebecques, único lugar onde se sentira em paz em tempo de guerra. A ilusão de apagar os fantasmas dessa época conturbada é rapidamente desfeita e a vitória do ódio sobre o amor acontece. O coro de aldeãos aplaude o sacrifício perpetrado e abandona a skene a entoar o cântico final do éksodos.

O cenário e muda-se para Liège, para a casa de repouso de Saint-Aubain, refúgio dum maquisard americano de Belmont e duma judia de Bruxelas. Os dois jovens esquecem-se das dificuldades impostas pela ocupação nazi da Bélgica, entregam-se um ao outro e acabam por ser vencidos pela conjuntura antissemita então vigente. O sobrevivente regressa no pós-guerra ao local onde fora feliz por breves instantes. Leva consigo uma réplica de «o bolo» de moka que era servido aos hóspedes nas tardes de domingo. Mas o coro das vozes alucinadas dos residentes perdera a aptidão de relembrar os nomes dos mortos em consonância legítima com a história.

O tríptico encerra no rasto do deus romano da guerra, subentendido num «delicioso março», o mês primaveril dedicado às artes marciais de Marte. A ação salta de Londres para Varsóvia, com referências ao Cairo e desfecho em Cracóvia, e é protagonizada por dois Padres do Deserto, ex-combatentes do exército inglês na grande guerra civil europeia que envolveu meio mundo ou talvez um pouco mais. Os amores impossíveis e interditos anteriormente focados dão lugar aos equívocos e marginais praticados à revelia das convenções que regem os relacionamentos consentidos entre géneros.

O fio condutor dos eventos representados ao público-leitor por palavras escritas pode ser entendido, neste contexto, como uma explicitação de três modos distintos de encarar o conceito de herói: a coragem de voltar ao local da catástrofe e aí ser imolado, a cobardia de fugir da fatalidade e ser poupado pelos deuses, a coragem de assumir as contingências da vida e sucumbir à cobardia do suicídio. Ironias trágicas à procura de soluções alternativas que deem novos sentidos à condição humana e incentivos ao livre arbítrio dos mortais de vencer os desígnios fantasiosos dos imortais. Agora e sempre, para que todos ergamos o dia-a-dia do nosso destino individual, nesta era comum, do senhor ou Anno Domini.

NOTA:
A História nunca se repete mas por vezes assemelha-se de modo flagrante. Os tiranetes deste mundo bem se esforçam nesse sentido. A leitura atenta de certos textos centrados nestas problemáticas de guerra e paz torna-se urgente em determinados momentos. Publiquei esta reflexão há quatro anos e alguns dias mais no Pátio de Letras e trago-a agora para aqui, numa altura em que  anos sentimos cada vez mais em guerra em tempo de paz.

16 de janeiro de 2017

Não vá, smartphone!

METAMORFOSES DO TELEMÓVEL


Quando a televisão era a preto e branco, só havia um canal em todo o país e as transmissões se reduziam a meia dúzia de horas por dia, vi no episódio duma qualquer série policial uma cena insólita que só poderia pertencer a uma mais que improvável antecipação absurda fantasiada pela ficção científica. Um agente da brigada de investigação chamado a atuar entrava muito rapidamente num automóvel de serviço, puxava dum telefone vulgaríssimo em tudo idêntico aos que estávamos habituados a ver agarrados a uma ficha, pegou no cabo e ligou-o pelo cabo ao isqueiro da viatura. Depois, marcou rapidamente o número como se estivesse em casa e começou a falar com o maior à-vontade do mundo. Extraordinário.

Passadas décadas, dobrado o século e entrado num novo milénio, eis-me de posse duma maquineta de trazer no bolso que me permite comunicar com qualquer parte do globo, sem a utilização de fios e sem dígitos para discar. Serve de câmara fotográfica e de filmar, de agenda, de alarme, de calculadora, de calendário, de carteira, de mensageiro, de relógio. Faculta-me o acesso à Internet, aos e-mails, aos blogues, ao Facebook, ao Skype. Dá-me as notícias ao minuto, a localização num mapa, a meteorologia, a programação de rádios e televisões. Oferece-me mil e uma operações mais que nem sonhava existirem. Dá pelo nome de smartphone e, pasme-se, até serve para telefonar. A ficção científíca tornou-se ciência pura. Extraordinário.

13 de janeiro de 2017

Pena de morte & brandos costumes

Patíbulo da praça de Belém, 13 de janeiro de 1759
c. 1760, gravura a água-forte, colorida, 34 x 41,8 cm
[Museu da Cidade, Lisboa]
LETTRE 
«Ainsi donc, la peine de mort a été abolie au Portugal, petit peuple à la gran-de histoire. Je m’engage sur l’honneur qui m’incombe de cette ilustre victoire! Humble ouvrier du progès, chaque nouveau pas fait battre mon coeur. Et celui-ci est sublime. Abolir la mort légalement, laissant à la mort divine tout son mystère, est un auguste progès entre tous. Je félicite votre parlement, vos penseurs, vos écrivains et vos philosophes! Je félicite votre pays. Le Portugal montre l’exemple à l’Europe. Profitez d’avance de cette immense gloire. L’Europe finira par suivre le Portugal. Mort à la mort. Guerre à la guerre. Haine à la haine. Vive la vie! La liberté est une ville immense dans laquelle nous sommes tous des citoyens. Je vous serre la main comme un compatriote de l’humanité.»
Cumprem-se hoje mais de dois séculos e meio que os acusados de terem atentado contra a vida de Sua Majestade Fidelíssima Dom José I (1714-1777), pela Graça de Deus, Rei de Portugal e Algar-ves, foram executados em Belém, num patíbulo erguido expres-samente para esse fim. Nessa manhã de 13 de janeiro de 1759, o suplício infligido aos onze malogrados regicidas, todos eles ligados à família dos Távoras, foi exemplar. A Marquesa, por decapitação; os filhos e um cunhado, pelo garrote; o Marquês e cunhado, por es-magamento dos ossos dos braços e das pernas com uma maça de ferro seguido de garrote. Dos cinco serviçais condenados, três fo-ram garrotados, o quarto foi queimado vivo e o quinto foi entregue ao fogo em esfinge. No final, o cadafalso e os despojos de nobres e plebeus foi reduzido a cinzas e os resto lançados às águas do Tejo. O espetáculo terminara. A corte e a populaça podiam regressar a casa com a alma lavada e em paz com o mundo.    

O episódio macabro perpetrado pela coroa foi criticado em toda a Europa e tocou fundo na sensibilidade frágil da herdeira do trono, a futura Dona Maria I (1734-1816), pela Graça de Deus, Rainha de Portugal, Brasil e Algarves. Assim que assumiu o poder, tentou a to-do o custo remediar o mal feito, dando início a um longo processo legislativo que conduziria à abolição total da pena de morte (1777-1974), antecedido pela última execução feminina no dia 1 de julho de 1772 e consagrado pela masculina em abril de 1846. Portugal não terá sido o primeiro país a erradicar a pena capital nos seus reinos e senhorios, mas foi de certeza um dos pioneiros nessa caminhada sem tréguas pela defesa do direito à vida dos seus cidadãos. Razão tinha Victor Hugo de felicitar a ilustre vitória alcançada por esse pequeno povo com uma grande história. Talvez seja a partir daí que a barbárie até então vigente tenha começado a ceder passo aos brandos costumes dos tempos modernos.

9 de janeiro de 2017

Livros de novelas e de cavalarias

Óscar Alves - As Meninas - Qualquer outra personagem - 2004

Contos exemplares à maneira barroca

Juro a V. M. que toda a vida me enfadárão as damas dos livros de Cavalerias, porque sempre as achava acompanhadas de cachorros, de leoẽs, e de enãos. Taõ inimigo sou destas taes sevandilhas, que nẽ em livros mentirosos as sofro; veja V. M. que será nas cousas verdadeiras? Mas o que he humor, ou capricho meu, não he razaõ que se assente por regra géral. Seja advertido para quem tiver outro tão mao gosto...

Ainda fico com escrupulo sobre a lição em que muitas se ocupaõ. O melhor livro he a almofada, e o bastidor; mas nem por isso lhe negarei o exercicio delles. Estas que sempre querem ler comedias, e que sabem romances dellas de còr, e os dizem às vezes entoados, não gabo. Outras saõ mortas por livros de novellas; taes pellos de cavallarìas. Aqui he mais perigosa a affeição, que o uso. Bem vejo que se lhes pòde permitir este desenfado; mas seja com maior cautela a aquellas que excessivamẽte se lhe entregarem: visto que podemos temer se ama nelle antes a semelhança dos pensamentos, que a variedade da lição. Não quizera que ninguem gostasse senão de aquillo de que era justo que tivesse gosto. Contarei a V. M. hũa cousa que a meu pesar me lembra.

Caminhava por Espanha, e entrando em hũa pousada bem cheo de neve, não houve algum remedio para que a hospeda, ou suas filhas, que eraõ duas, me quizessem abrir hum aposento, em que recolherme; e quanto eu mais apertava, me desenganavão melhor de que nenhũa se levantaria donde estava, sem acabar deouvir ler certa novella, cuja historia hia muito gostosa, e enredada. E tal era a sofreguidão cõ que ouvião, que nem ameaçãdoas com que iria a outra pousada, quizerão desistir de seu exercicio, antes me convidavão que ouvisse os lindos requebros, que Cardenio estava dizendo a Estefania: que tudo isto rezava a boa da novella. Emfim eu me fui apear a outra parte, e voltando em breve tempo por aquelle lugar, e perguntando pella curiosa leitora, e ouvintes, me disserão que muito poucos dias despois as novellas foraõ tanto adiãte, que cada hũa das filhas de aquella estalajadeira fizera sua novella, fugindo com seu mancebo do lugar, como boas aprendizes da doutrina, que tão bem estudáraõ.

Dom Francisco Manuel de Melo, Carta de guia de casados, 1650

6 de janeiro de 2017

Os magos do Oriente e o dia de Reis

GRÃO VASCO
«Adoração dos Reis Magos» (c. 1501-1506)

[Museu Nacional Grão Vasco - Viseu]
«Tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: "Onde está o rei dos Judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo." Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: "Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vi sair o Príncipe que há de apascentar o meu povo de Israel." Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exatas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: "Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrades, vinde comunicá-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem." Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; a, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.»
(Mt 2, 1-12)
A história é antiga e vem registada no Evangelho de São Mateus, com que abre o Novo Testamento. Em mais nenhum local do livro sagrado do monoteísmo cristão volta a ser referida. Mas como quem conta um conto acrescenta um ponto, os magos vindos do Oriente passaram a ser três, foram elevados à categoria de reis e começaram a chamar-se Gaspar, Melchior e Baltasar. Com o passar dos tempos, o mitologia católica finaliza a quadra natalícia com este episódio simbólico, celebrado no dia 6 de janeiro de todos os anos. 

Tão pouco nos é revelado o país de onde eram oriundos o que não inibiu a tradição de lhes atribuir uma etnia diferente. Dois  brancos e um negro. Afinal, África era tão ou mais exótica do que a própria Ásia. A imaginação renascentista de Grão Vasco (c1475 - c1542), deslocou um desses adoradores do menino para a terra há pouco descoberta dos Pataxó brasileiros, esse admirável mundo novo da América já rendido à nova fé messiânica. Assim urgia propagar aos quatro ventos para memória futura. E assim o foi e sem delongas...

5 de janeiro de 2017

Mark Pryor, histórias secretas do livreiro parisiense de obras raras

«If peace had a smell, it would be the smell of a library full of old, leather-bound books.»
Mark Pryor, The Bookseller (2012)
A aquisição dum livro que nunca se viu, escrito por um autor de quem nunca se ouviu falar, pode resultar numa experiência de leitura dececionante e inibidora de outras futuras, por fugir a todas as expectativas até então acalentadas. Fui levado este verão ao engodo por uma palavra-chamariz muito especial. Aquela que estava registada em letras garrafais na respetiva capa, dava um sentido inequívoco ao título e sintetizaria o argumento da obra a que se reportava. Foi-me apresentado por um anúncio digital que me chamou a atenção numa navegação sem terra à vista na galáxia virtual da Internet. Há certas sonoridades verbais que funcionam como se de verdadeiros iscos se tratasse, ajustadas com mestria a ratoeiras de eficácia inegável. Foi o caso. Caiu-me na rifa o romance de Mark Pryor que dá pelo nome estimulante de O livreiro (2012), o primeiro tomo duma série policial, centrada no mundo do crime e na descoberta dos seus mistérios, pelo trabalho árduo de Hugo Marston, um decifrador amador de enigmas, e desenhado à maneira clássica dos relatos detetivescos. O sucesso do projeto parece estar assegurado, dado que a editora encarregada da sua publicação já deu à estampa seis volumes diferentes, devidamente publicitados nos locais habituais. Não me parece que me ponha desesperadamente à sua procura para fruição recreativa, por muito emocionantes que os enredos nos sejam prometidos. Um dia destes começam a ser adaptados ao pequeno ecrã por um qualquer canal televisivo anglo-saxónico especialista na matéria, sobretudo quando se trata dum cidadão inglês a residir nos EUA. O tempo de desvendar os tramas urdidos no bas-fond da marginalidade fora-da-lei não deve ultrapassar, a meu ver, a hora e meia que a linguagem das imagens em movimento lhe costuma dedicar.

A história está ancorada na decifração dos segredos guardados nas entranhas de um dos livros raros negociados numa banca parisiense instalada nas cercanias da Pont Neuf, por um velho bouquiniste, atividade inadvertidamente traduzida para bookseller e livreiro. O problema que nos vai acompanhando ao longo da investigação é a de saber qual deles nos conduzirá ao desenlace esperado da intriga. Se os dois que o inspetor de serviço lhe comprou ou se o que o vendedor tinha consigo quando foi raptado em plena luz do dia. As hipotéticas revelações oferecidas pelo Agatha Christie, na primeira edição de 1935 de Death in the Clouds, são rapidamente descartadas, o mesmo acontecendo com um pouco mais de esforço no Une saison en enfer, composto por Arthur Rimbaud em 1873, no exemplar assinado pelo autor e dedicado a Paul Verlaine. Falsas pistas gradualmente substituídas por uma outra tão verdadeira como as anteriores, posta a nu com a mensagem contida num microdot inserido no canto inferior direito da guarda do Vom Kriege, de Carl von Clausewitz, um tratado incompleto que fala das guerras napoleónicas, publicado post-mortem em 1832, a denunciar a atividade colaboracionista do membro da ancestral e prestigiada família gaulesa dos condes Roussillon d’Auvergne, durante a ocupação germânica imposta pelas guerras hitlerianas de conquista da Europa e do mundo. As causas da morte de Maximilian Ivan Koche, sobrevivente do Holocausto e caçador de nazis, bem como o de outros colegas seus bouquinistes, devera-se a uma rede internacional de tráfico de drogas interessada em estabelecer pontos de atuação junto às margens do Sena. Tessituras diegéticas penosas de tratar, cujas relações com o mundo livreiro se transforma num mero pretexto para dificultar a resolução final de todos os dados contidos numa equação a várias incógnitas que aqui não convém desvendar.

O universo dos livros foi-me sugerido pela leitura apressada duma obra onde os livros acabam por desempenhar um papel um tanto ou quanto subalterno no cômputo geral das situações possíveis da vida decalcadas pela ficção, mas que, mesmo assim, nos convidam a refletir sobre a realidade específica que os define. Descobrir, por exemplo, a razão lógica que faz com uma editio princeps seja mais importante do que as que se lhe seguiram, se o conteúdo que as une continua a ser o mesmo. Pessoalmente, prefiro mil vezes que o exemplar que tenho entre mãos cheire a tinta acabada de imprimir do que cheire a velho recoberto de bolor. Idiossincrasias de certo modo questionadas no próprio texto que agora me ocupa. O antigo agente do FBI e atual funcionário da embaixada americana na Cidade Luz não pensou duas vezes no conteúdo dos livros que tinha selecionado para impressionar a mulher a quem os queria oferecer. O mesmo se não passará com o autor que tão bem se aproveitou das personagens-tipo de Hercule Poirot e Sherlock Holmes, várias vezes citados e imitados ao longo do relato, ou mesmo de Miss Marple e outros heróis/heroínas mais ou menos conhecidos deste género narrativo que o terão ajudado a construir o seu modelo particular. Podia ter escolhido pior. Valha-nos isso. Que se mantenha nesta linha discursiva e consiga adaptar-se às exigências dos tempos de início de um novo século e milénio. Os amantes da literatura do estranho puro só terão de agradecer.

2 de janeiro de 2017

Contas simples de somar e subtrair

Contadores do tudo e do nada

Hoje, quando acordei, o meu conta-passos informou-me que eu deveria ter dado 3637. Nem mais nem menos. Como pouco passava das 8.30h da manhã, interroguei-me como é que podia rentabilizar o meu exercício físico ideal mantendo-me ainda na cama. A resposta, afinal, talvez resida em dormir com o tal podómetro de modo a que este também possa contabilizar as caminhadas que eventualmente possa fazer quando estou a sonhar.

Pouco importa as passadas que dei ou deixei de dar. As contagens que agora me ocupam não carecem dum robô exímio a regular-me os movimentos. Faço-as mentalmente. Subtraio todos os dias um dígito ao número total que ainda preciso para atingir o 0 absoluto há muito almejado. Nem mais nem menos do que 555 em números re-dondos de cronómetro regressivo. Tantos quantos me faltam para atingir a idade oficial da reforma. Os 66 anos e 3 meses.

É nesta ordem inversa de contar números que os sentidos dados às duas infâncias se cruzam. A genica da 1.ª a concorrer com a fadiga da 2.ª. Em ambas desejamos envelhecer para sermos senhores dos nossos narizes sem prestar contas a ninguém. Ao querermos a todo o custo ter a idade que não temos, esquecemo-nos de fruir devidamente aquela que temos. Ironia trágica esta nossa de trocarmos o tudo pelo nada, nestas nossas contas de somar e subtrair.