3 de novembro de 2014

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor, uma sedutora de anjos, poetas & heróis

«Habituei-me a ser criticada | por ler livros, | por falar de ciência, de política e de filosofia, | por saber inglês e latim, | por ter demasiadas Luzes para uma mulher. | Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem...»
Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)
Quando no início da década de 70, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa publicaram as Novas cartas portuguesas (1972), a polémica instalou-se no reino cadaveroso ou oásis de mediocridade consentida em que o país dos brandos costumes e jardim à beira-mar plantado se havia transformado. As autoras foram levadas à barra dos tribunais, o livro foi proibido pela censura e o processo das Três-Marias foi convertido num caso singular de mediatismo nacional e internacional. As traduções nos mais diversos idiomas proliferaram e as escassas reedições efetuadas após a queda do regime ditatorial têm teimado em manter a obra sistematicamente esgotada. A questão da condição feminina, equacionada nesse texto composto de fragmentos narrativos, parece continuar a amedrontar a política editorial seguida entre nós, afastando o público leitor dum contacto mais estreito com essa réplica coetânea dos amores marginais revelados nas cinco Lettres portugaises (1669). As tais que Mariana Alcoforado, a religiosa do convento da Conceição de Beja, terá composto e endereçado ao Chevalier de Chamilly, o amante francês que a seduzira e abandonara.

O efeito caleidoscópico de testemunhos convocados pela arte de efabular o universo feminino da criação estética volta à ribalta da república das letras, cerca de quarenta anos volvidos, pelas mãos de Maria Teresa Horta em As luzes de Leonor (2011), longo mosaico ficcionado de prosa poética e poesia integral, em que cada frase é um verso e cada parágrafo uma estrofe. A quinta neta da marquesa de Alorna esboça, neste relato polifónico, uma viagem de revisitação à mulher, poetisa, política, sábia e sonhadora que também foi sua avó, personagem multifacetada, imaginada em forma de papel e tinta, para dar corpo a uma personalidade controversa, recriada através de depoimentos autênticos pronunciados a muitas vozes e sentires. As Marianas epistolares, moldadas pelo barroquismo seiscentista vigente durante as guerras de restauração da monarquia lusitana, saem de cena e dão lugar às Leonores novelescas, forjadas por um iluminismo combativo ainda em construção nas antevésperas das guerras peninsulares movidas pelo império napoleónico. 

Os diálogos | monólogos travados à distância de sete gerações são gizados com o recurso constante a documentos oficiais e particulares, feitos e refeitos, repartidos por mil e tantas páginas bem contadas, vinte e cinco capítulos enquadrados por um prólogo e um epílogo, contextualizados por meio século de histórias dentro da história portuguesa e europeia, a promover a passagem do despotismo aristocrático para o liberalismo constitucional. As cartas, diários, cadernos, citações e poemas entrelaçados no romance outorgam um protagonismo estrutural às Raízes | Memórias discursivas, evocadoras de Leonor de Távora, a marquesa executada por ordem do Marquês de Pombal em Belém, ministro plenipotenciário do rei D. José, e de Leonor de Almeida, a condessa expulsa do país por ordem de Pina Manique, intendente-geral da polícia do príncipe-regente D. João. Pelo meio desta escrita neorromântica, tecida de subjetividades dispersas, ficam os lamentos líricos dum misterioso Angelus, ser alado seduzido pela luminosidade etérea de Alcipe, a sedutora de anjos, poetas e heróis. 

A reconstituição-reconstrução da vida de Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, encetada ao longo de treze anos de escrita por Maria Teresa Horta está incompleta. A moldura escolhida para pintar o retrato impressionista da defensora das Luzes está balizada pelos tempos conturbados que marcaram o Processo dos Távoras e antecederam o Bloqueio Continental. Efemérides datadas com repercussões duradouras dentro e fora das fronteiras nacionais. Desconhecemos se a neta da Condessa de Oeynhausen-Granvensburgo, valida da rainha-louca D. Maria e dama de honor da princesa-regente D. Carlota Joaquina, frequentadora das cortes de Maria Antonieta de França e Maria Teresa de Áustria, animadora dos salões cultos de Viena, Paris, Madrid e Lisboa, retomará a tarefa hercúlea de traçar os passos da avó nos derradeiros tempos da sua existência de exílio forçado em terras estranhas e de retiro escolhido na terra natal. Nada nos impede porém de acreditar que a mão sem peso da poetisa iluminista aflore de novo o cimo do ombro da poetisa iluminada e que as confidências das duas se voltem a ouvir apesar dos dois séculos de silêncios que as separam.

NOTA: 
Publiquei este texto no Pátio de Letras em março de 2013, depois de me ter feito companhia de leituras durante quase um ano. Dou-lhe uma nova visibilidade neste espaço de histórias com histórias dentro porque nunca é de mais falar-se do que se gosta. Lidos os livros, fiquem os roteiros da viagem à espera de novas etapas de percurso.

4 comentários:

  1. Renovo o comentário que foi uma feliz ideia de nos trazer para este espaço os textos publicados no Pátio de Letras, uma forma de lembrar as sugestões de leitura abalizadas por quem sabe do que fala.
    O enquadramento literário-histórico-mitológico deste romance alicia à leitura sobre esta personagem sedutora, apimentada pela reflexão sobre a condição feminina. A chamada de atenção para a linguagem poética da autora é mais um aliciante pois envolve os acontecimentos históricos num véu mais diáfano... Obrigada pela partilha deste excelente texto, Prof.!

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  2. Excelente, esta "(re)degustação". Gostei de reler. Obrigada, Artur.

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