21 de fevereiro de 2018

Histórias da carochinha de reis e rainhas

 H. C. Andersens papirklip

Sørøver med grøn jakke. Juletræspynt

[H.C. ANDERSEN MUSEUM]

   COM SORTE OU SEM SORTE  DOS CONSORTES   


Etimologicamente falando, «rei» é aquele que «rege», do latim rĕgĕre > rēge, aquele que dirige, que  conduz, que governa, que exerce o poder soberano. Visto por este prisma, após a vitória das revoluções liberais e o advento das monarquias constitucionais, os chefes de estado coroados transformaram-se num anacronismo político que a inércia dos povos tem preservado sem saber muito bem porquê. Talvez porque pensem que a subida ao trono se tenha feito pela Graça de Deus quando de facto se continua a perpetuar pela mera e eficiente graça da genética.    

Henri Marie Jean André de Laborde de Monpezat, aspirante ao título de Conde da extinta Monarquia Francesa, conseguiu o de Príncipe ao casar-se com a futura Rainha da Dinamarca. O desejo de obter o título de Rei Consorte nunca se concretizou. De nada lhe valeu trocar de nacionalidade, render-se ao luteralismo ou ter dado dois herdeiros à Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg. Sua Alteza Real o Príncipe Henrik teve de se contentar com uma coroa fechada de três arcos e deixar a Sua Majestade a Rainha Margarida II a de cinco. Noblesse oblige.

Neste capítulo da titularia das caras-metades reais a igualdade de género ainda não assentou arraiais. Tem faltado às testas coroadas atuais o bom senso da Rainha D. Maria I de converter o consorte no Rei D. Pedro III, com quem partilhou o poder ainda absoluto. O mesmo fez a Rainha D. Maria II, ao transformar o pai dos herdeiros da Coroa de Portugal no Rei D. Fernando II, muito embora a Carta Constitucional tenha limitado a governação conjunta dos dois. Histórias da carochinha com reis e rainhas de antanho que continuam a ser contadas com sucesso nos nossos dias.

14 de fevereiro de 2018

O casamento dos reis de boa memória

Casamento de D. João I e de D. Filipa Lencastre
[Jean Wavrin, Chronique de France et d' Angleterre (séc. xv)]


    CASAMENTOS, ALIANÇAS & TRATADOS    


Passados mais de cem anos sobre a queda da monarquia, a vox populi continua a afirmar de modo convicto que De Espanha nem bom vento nem bom casamento, como se em regime republicano a cara-metade do chefe de estado, homem ou mulher, tivesse alguma importância para o destino político dum país que esteja assente na eleição democrática e universal do supremo magistrado da nação. O mesmo se poderia dizer doutros enlaces reais se o rigor histórico para aí estivesse voltado e lhe apetecesse de facto ripostar.

Refira-se o escândalo do divórcio de Maria Francisca de Saboia de D. Afonso VI e subsequente casamento com o cunhado D. Pedro II, tornando-se a prima de Luís XIV de França e Navarra duas vezes rainha consorte de Portugal e Algarves. Com repercussões algo distintas, estará a união de Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, Escócia e Irlanda, que, para além de ter levado consigo para Londres uns saquitos de chá ainda se fez acompanhar das praças de Bombaim na Índia e de Tânger em Marrocos.

Celebra-se nestas datas o aniversário da união de D. João I com D. Filipa de Lencastre, com que se inicia a Dinastia de Avis e confirma o Tratado de Windsor, assinado a 9 de maio de 1386. Os futuros pais da Ínclita Geração de Infantes casaram-se em 1387 no Porto, tendo a solenidade civil decorrido a 2 de fevereiro no paço episcopal e a religiosa a 14 na Sé. Uma aliança estratégica das coroas reais de Portugal e de Inglaterra bem-sucedida, que levou a posteridade a designar sem rebuço os cônjuges de Reis da Boa-Memória. 

7 de fevereiro de 2018

Chá com Tê ou sem Tê...

Etimologias com Vista Alegre


CAMELLIA SINENSIS
plantacomestível árvore

É bem conhecida a história do five o'clock tea introduzido na corte inglesa pela infanta portuguesa Catarina de Bragança, quando se tornou a rainha de Sua Majestade Graciosa Carlos II Stuart. Já a contei aqui e aqui uma e outra vez. Só faltaria esclarecer como a camellia sinensis, conhecida entre nós por chá, se converteu no além-Mancha em tea. Mistério linguístico ou talvez não.

Conta uma versão mais apressada tratar-se duma leitura bastante evidente do sinograma chinês {茶}, onde o grafema latino {t} estaria de modo aparente inserido numa casa com telhado, chaminés e alpendres bem visíveis. Fantasia alimentada pela nossa ignorância quase absoluta da realidade cultural chinesa e de certo modo também da britânica. Chinesices exóticas no horizonte.

Afinal tudo se deve à realização fonética divergente dum mesmo logograma, que em cantonês e mandarim se pronuncia «chá» e em malaio «tê». O primeiro vocábulo terá sido ouvido pelos portugueses no Japão e o segundo pelos ingleses no sul da China, que assim o difundiram na parte oeste do continente europeu. Histórias antigas que a moderna filologia comparada tem ajudado a clarificar.

31 de janeiro de 2018

Penelope Fitzgerald, o mundo dos livros, dos sonhos e das vicissitudes da vida numa livraria de aldeia

«A good book is the precious life-blood of a master-spirit, embalmed and treasured up on purpose to a life beyond life, and as such it must surely be a necessary commodity.»
Penelope Fitzgerald, The Bookshop (1978)
Gosto de livros que falem de livros. Dos bons e dos maus. De livros acerca de livros. Se tratarem de livrarias e de bibliotecas ainda melhor. Das fixas e das itinerantes. A referência a arte, cultura e literatura, a editores e leitores, a escritores e pensadores, a autores conhecidos e desconhecidos, a obras marcantes ou discretas, só enriquece o meu gosto pela escrita a cheirar a tinta, propiciadora duma metalinguagem de palavras que se desdobram sobre si mesmas. Penelope Fitzgerald consegue tudo isto e muito mais n'A livraria (1978), romance de época a visitar a nossa, com toda aquela frescura que só os textos de eleição conseguem lograr.

O argumento é fácil de traçar. Florence Green, uma viúva de meia-idade, resolve abrir a primeira e única livraria numa vila costeira do East Suffolk. História banal se nos ficássemos pelas linhas gerais e omitíssemos as entrelinhas. Se nos esquecêssemos de situar a ação em Hardborough (lugarejo difícil), no ambiente provinciano e conservador inglês de meados do século passado, balizado pelo início de 1959 e finais de 1960. Dois anos inteiros para inaugurar, gerir e encerrar as portas da Livraria Old House na Higt Street duma aldeola fictícia, imaginada para criar ilusões de verídico. Nada mais, nada menos. O entusiasmo inicial esfuma-se e o desalento final instala-se. A luta sem tréguas entre exterminadores e exterminados ocupa os dez capítulos do relato distribuídos por centena e meia de páginas. Romance breve com um final triste lhe terá chamado aquela que lhe deu vida para deleite de todos nós, independentemente dos trilhos de percurso convocados.

O stock de títulos disponíveis no novo estabelecimento é proporcional à importância e interesses dos seus potenciais visitantes. Predomi-nam os títulos de obras utilitárias ou de escoamento fácil, tais como os guias técnicos ou sobre a realeza e o SAS (Special Air Service), arrumados de acordo com a sua própria hierarquia social. Cada cor seu paladar. De ficção pura e dura é que haveria pouca ou nenhuma escolha nas prateleiras oferecidas ao público. A exceção é preen-chida com as notícias pormenorizadas da consulta de informações, encomenda dum lote de 250 exemplares e lançamento ousado duma edição da Lolita, de Vladimir Nabokov, publicada em 1955 e alvo das mais desencontradas críticas sobre o seu verdadeiro valor literário. O sucesso da iniciativa foi enorme os lucros da venda escrupulosamente anotados nos livros de deve e haver e de histórias contadas. Só na primeira semana, a caixa registou 82 libras, 10 xelins e 6 dinheiros, o que à data seria uma conta calada considerável. A sensação de prosperidade sentida pela retalhista é fugaz. A frente unida pela moral e bons costumes não deixaria de aproveitar esse incidente para pôr o tal ponto final no projeto.

O poder político de Mistress Gamart, proprietária da influente mansão The Stead  (O lugar), leva a melhor sobre o estatuto aristocrático de Mr. Brundish, proprietário da secular Holt House (Casa do Bosque | Covil da Fera), e o mundo dos livros, dos sonhos e das vicissitudes da vida numa livraria de aldeia encontra o seu ponto sem retorno ou desfecho que a protagonista a todo o custo tentou evitar. Na velha casa com meio milénio de existência ficou o inofensivo poltergeist residente, a que os locais se habituaram a chamar de rapper por se manifestar ruidosamente na casa de banho e no corredor do piso de cima. Sobre a concretização do intento de transformar o velho edifício de interesse público num Centro Cultural na povoação nada é dito no relato. É tratado como um não-assunto que a autora deixou em aberto à imaginação dos leitores. É que uma terra sem uma livraria é uma terra que não merece a pena ser referida nas páginas dum livro. É uma terra onde dificilmente se poderá falar de cultura.

26 de janeiro de 2018

Os mil cento e cinquenta anos da terra portucalense

Ceci n'est pas un pays

         CELEBRAÇÕES & DEPENDÊNCIAS          

Portugal começou o seu historial multissecular como uma presúria instalada no Porto, cidade acabada de conquistar aos muçulmanos em 868 por Vímara Peres. Afonso III das Astúrias confiou a Terra Portucalense a este vassalo galego, que a administrou como entidade distinta da Galécia com o título de Presor e Conde de Portucale. O primeiro Condado Portucalense acabava de ser fundado, faz um destes dias precisamente 1150 anos.

Iniciava-se também nesta data o processo de separação definitiva da antiga Portugália da Galiza (1128) e de Leão (1143). Os condes converteram-se em duques e o condado em reino. Tudo pela força das palavras e das armas. O reconhecimento de Afonso Henriques como rei e de Portugal como reino é oficializado pelo papa Alexandre II na bula Manifestis Probatum (1179). O país é retirado da órbita do Império Hispânico e colocado no da Santa Sé.

De independência se passou a falar a partir deste momento, como se o poder temporal de Roma se não continuasse a fazer sentir ao longo dos séculos no destino dos povos a si submetidos. Que o diga Sancho II, deposto pelo papa Inocêncio IV em 1246, a demonstrar a dependência efetiva da Coroa de Portugal da Tiara do Vigário de Cristo em todos os domínios da Respublica Christiana. Conceitos que mais tarde ou mais cedo teremos de rever.

Batalha de São Mamede 1128 - Net

22 de janeiro de 2018

Roberto Bolaño, sombras, desertos & enigmas dos detetives selvagens

«He sido cordialmente invitado a formar parte del realismo visceral. Por supuesto, he aceptado. No hubo ceremonia de iniciación. Mejor así.»
Roberto Bolaño, Los detectives salvajes (1998)
Os grandes marcos da criação literária assentam invariavelmente em motivos triviais traçados na mais perfeita simplicidade argumentativa. A cólera de Aquiles, a loucura do don Quijote, a magia do doutor Fausto, o idealismo do rei Artur, a lascívia do don Juan a inspirarem gerações de leitores ávidos de estímulos estéticos feitos de palavras ditas, desditas e reditas. Gilgamech persegue a imortalidade, Édipo conhece-se a si mesmo, Ulisses regressa a casa e vinga-se dos pretendentes de Penélope, Lazarilho tenta saciar a fome e singrar na vida, Romeu e Julieta perpetuam o amor que o destino lhes ajustou através da morte. Os exemplos podiam multiplicar-se até esgotarem os leitmotiv mais imitados pelas belas-letras universais. Umberto Eco exuma o segundo livro da Poética de Aristóteles numa biblioteca conventual com nome de rosa e entrega-o às chamas purificadoras dum incêndio providencial. José Saramago refaz a história do cerco de Lisboa com a mera troca de um sim por um não e problematiza o papel desempenhado pelos cruzados na conquista da cidade. Roberto Bolaño preenche as 600 páginas d' Os detectives selvagens (1998) com o rasto duma poetisa mexicana que publicou um único poema visual em toda a sua existência, feito com uma palavra, duas sílabas e três desenhos. Genial, apetece dizer.

Frequento o novelista chileno há relativamente pouco tempo. O boom editorial do 2666 foi o culpado. Por vezes, o ruído causado pelos bestsellers globais acaba por ser proveitoso. Não resistimos ao apelo publicitário e embarcamos na aventura peregrina da descoberta da obra-prima anunciada. Depois, damo-nos conta que a qualidade também pode conviver com a quantidade e passamos à exploração sistemática dos restantes títulos dos autores bafejados pelo sucesso, para que o prazer experimentado uma vez se volte a repetir ad æternum. Lidos os livros, a sensação que nos invade é a de que quem lê um lê todos. Curiosamente, fica-se com a vontade de ter um outro mais ali à mão, para recomeçar tudo de novo, à cata dum final decisivo para todas as histórias inacabadas que povoam cada um dos romances já publicados ou em vias de o serem. Pura ilusão. O segredo da escrita do arquiteto do infrarrealismo reside sobretudo no caráter lacunar dos relatos, na incapacidade de lhes dar um desfecho tranquilizador, porque cada um deles está ancorado na realidade quotidiana que nos envolve, modelo matricial de todos os heróis/anti-heróis imaginados pela ficção, até que a morte nos liberte e dê a possibilidade de vislumbrar a perfeição.

Juan García Madero ingressa no universo imagético do realismo visceral e regista nas páginas dum diário pessoal as impressões dessa experiência peculiar. Tem 17 anos e a vida toda pela frente. Fá-lo enquanto mexicano perdido na imensidade da capital do México, entre 2 de novembro e 31 de dezembro de 1975, e nos desertos de Sonora, entre 1 de janeiro e 15 de fevereiro de 1976. A balizar as efemérides documentadas nos dois períodos de espaço-tempo referidos, o leitor depara-se com 26 blocos de fragmentos narrativos, repartidos por 96 testemunhos individuais dispersos, proferidos nos quatro cantos do mundo, entre 1976 e 1996, por 53 personagens diferentes, a pedido dum número indeterminado de pesquisadores ou detetives selvagens. Nesses vinte anos de diligências ininterruptas, encontramos Arturo Belano e Ulisses Lima a rastrearem as pisadas da mítica Cesárea Tinajera e a serem também eles investigados, alternadamente, não se sabe muito bem por quem, por quê ou para quê. Sombras, desertos e enigmas selecionados a adensarem o conjunto de mistérios insondáveis, labirínticos, sinuosos que os microrrelatos coligidos nunca chegam a esclarecer cabalmente e que os leitores avisados deixaram de questionar ou se habituaram a ver como episódios soltos, isolados, singulares, expostos ao sabor da pena ou dos caprichos da fortuna.

Em síntese, trata-se de um extenso metadiscurso sobre a literatura latino-americana atual, uma sátira cerrada à república das letras e à sua relação utópica com a política, um olhar crítico à demanda assídua das portas do paraíso, aquelas que se abrem ao reconhecimento público almejado por todos os artistas e dão acesso aos passeios de uma fama desejada e raras vezes alcançada. Bolaño aproveita a boleia e mergulha a fundo na fábula. Põe a máscara duma ou outra personagem e converte-se no detetive selvagem por excelência dos seus próprios percursos pelos domínios da escrita: aventureiro, andarilho, exilado, boémio, libertino, novelista e poeta. Ingredientes essenciais para dar sabor a uma vida breve e auspiciar sucesso a uma obra celebrada, paradigma de eternidade a muito poucos concedida, apanágio de seres privilegiados habituados a jogar às cartas com os deuses e a ganharem.

NOTA
De repente apeteceu-me voltar aos universos da escrita de Roberto Bolaño e trazer para este espaço as palavras que em tempos registei no Pátio de Letras sobre Os detetives selvagens. Tarefa pensada, tarefa efetuada.

17 de janeiro de 2018

As descobertas da América

Il planisfero di Cantino

[Biblioteca Estense di Modena - Itália - 1502]

DO ACHAR AO REVELAR

Ciclicamente surge no Facebook a notícia de o Real Canadian Portuguese Historical Museum, de Toronto, ter confirmado a descoberta da América por um português. Atribui-se ao navegador João Vaz Corte-Real, que terá chegado ao Novo Mundo em 1472, i.e., dezanove anos antes de Cristóvão Colombo. Este feito está longe de ser reconhecido pelas academias históricas e científicas internacionais, que continuam a olhar com muita reserva para as alegadas provas encontradas pelos defensores da tese lusitana. A Pedra de Dighton, situada em Berkley nos EUA, continua um mistério que o tempo um dia talvez decifre a contento de todos.

Contam as sagas vikings ter Bjarni Heriolfsson vislumbrado em 986 uma terra a ocidente da Grønland, a «Terra Verde» (Gronelândia). Uma tempestade impedi-o de ali aportar. Coube a Leif Eriksson a façanha de pisar em 1001 Helluland, a «Terra da Pedra Plana» (ilha de Baffin). Mais a sudoeste, avistaram Markland, a «Terra da Floresta» (Labrador), tendo acabado por desembarcar um pouco mais adiante em Vinland, a «Terra do Vinho» (Terra Nova), onde invernaram. O Canadá tinha sido achado. Só lhe faltava ser revelado ao mundo. A criação duma colónia nessa Nova Thul falhou e a descoberta nunca foi divulgada pelos escandinavos.

O verdadeiro descobridor oficial da América é e será sempre Cristóvão Colombo, porque foi o primeiro a revelar ao mundo ter descoberto terras até então desconhecidas. Pouco importa ter morrido com a convicção de ter chegado à Índia. Pouco importa saber se era genovês, castelhano ou português. Pouco importa que o continente passasse a ser conhecido como América e não Colômbia. Neste assunto, o florentino Américo Vespúcio demonstrou ser bem mais expedito nessa matéria do que todos os restantes navegadores que o antecederam na tarefa hercúlea de dar novos mundos ao mundo e de lhes dar um nome a condizer...