24 de julho de 2017

Franz Kafka, o processo kafkiano de Josef K.

«Jemand mußte Josef K. verleumdet haben, denn ohne daß er etwas Böses getan hätte, wurde er eines Morgens verhaftet. Die Köchin der Frau Grubach, seiner Zimmervermieterin, die ihm jeden Tag gegen acht Uhr früh das Frühstück brachte, kam diesmal nicht. Das war noch niemals geschehen...
Ler todos os livros que é fundamental ler não é tarefa fácil que possa ser tida como uma pera doce. Muito longe disso. cumpri esse dever cultural com alguns deles e tenho alguns outros em fila de espera. Poucos dum lado, bastantes do outro. As obras-primas eleitas pelos especialistas preenchem um número razoável de títulos nem sempre coincidentes entre si. Não acertam quase nunca nessa triagem canónica, pondo em causa os propósitos académicos que os norteiam. Dispenso-me de revelar os já riscados ou a riscar dessas listagens de celebridades globais. Seria tornar pública uma lacuna pessoal e um ato de injustiça para todos eles. Confessar que em determinado momento escolhera uns em detrimento doutros. Fico-me com o que acabei de percorrer com o olhar neste preciso momento. Aquele que foi deixado manuscrito por Franz Kafka e impresso postumamente com o título de O processo (1925).

A passagem pelos labirintos processuais instaurados a Josef K. num tempo e num espaço imprecisos torna-se um empreendimento particularmente penoso. Esse terá sido com toda a probabilidade o principal objetivo do seu mentor real, o romancista e contista austro-húngaro de língua alemã, nascido em Praga no seio duma família judaica. Fazer-nos passar pelas mesmos trâmites existenciais do protagonista, encarnar a angústia por si sentida de se ter visto envolvido nas teias da justiça sem saber do que é acusado. Nunca o saberá. Nunca o saberemos. A oratória das autoridades envolvidas na inquirição judicial assenta âncora no mais completo nonsense. Confuso, ilógico, absurdo. O universo kafkiano estava inventado. Conceito que muitos usam sem ter lido uma única linha da escrita do autor que lhe deu origem, tal como ocorre com outros termos de utilização universal e quotidiana, com a sonoridade tonitruante de maquiavélico, sádico ou masoquista.

A páginas e linhas tantas, afirma-se que o processado julgara não ter entendido uma única palavra de todo o discurso proferido pelo advogado. Dificilmente seria possível reagir doutro modo. Essa também a impressão predominante que me assaltou enquanto tentava decifrar os sentidos escondidos em cada um dos fragmentos narrativos que dão corpo ao relato fragmentário que tinha entre mãos. Por vezes, lembrei-me do irracional onírico imaginado por Lewis Carroll para a Alice no país das maravilhas ou a Alice no outro lado do espelho. Essa sensação algo insólita desvaneceu-se rapidamente, quando os sonhos inofensivos da jovem inglesa se transformaram num pesadelo infindável do gerente bancário sem nacionalidade concreta revelada. O modus faciendi inquisitorial das ditaduras político-religiosas de todas as cores e feitios toma conta da ribalta. O imaginário eufórico do mundo infantil é ignorado. O real disfórico do mundo adulto é convocado. O espectável, o sensato e a ordem rendem-se aos ditames do imprevisível, do despropósito e da alienação.

Um dos mais influentes criadores da modernidade atual antecipou-se sem se dar conta de todos os movimentos que lhe deram origem. Surrealista, existencialista, simbolista. Libertou-se das exigências da lógica e da razão, documentou a falta de sentido da vida e da morte, equacionou a incoerência que pode assumir a linguagem humana. Inseriu-se de corpo e alma nos meandros da literatura do absurdo. Rompeu barreiras, abriu caminhos, partiu prematuramente. Deixou-nos os textos. Inacabados. Sem soluções de continuidade. Fechamos o livro que temos entre mãos com a sensação desagradável de vazio, de ter mergulhado no mais abissal dos abismos. De nos faltar o tudo para preencher o nada. Estranha sensação esta com que as histórias simuladas do faz-de-conta por vezes nos brindam para confrontar as histórias acontecidas do dia-a-dia.

Revela um artigo publicado recentemente ser uma obra de Kafka a mais representativa da literatura da República Checa. Não esta que tenho vindo a destacar, mas sim A metamorfose (1915), que continuo a desconhecer. O argumento é promissor. Fascinante mesmo. O absurdo é senhor e rei. Vou pensar muito seriamente se terei coragem suficiente que chegue para me atirar a mais este elefante sagrado das letras universais. Estou convencido que terei de esperar ainda algum tempo para o fazer...

21 de julho de 2017

Pilha de livros


Intermitências da espera...


Ao longo do ano são trazidos para casa e amontoados a um canto à espera de ser vistos com olhos de ler... 

De vez em quando sai um da fila de espera para ser tocado demoradamente com mãos de sentir...

Durante alguns dias de verão os restantes saem da sala de espera para apanhar ares noutras paragens...

Esta pilha de livros está de partida para o sol e o mar a repetir o ditado que quem espera sempre alcança...   

17 de julho de 2017

Mario Vargas Llosa: o sonho do celta, fantasias e quimeras

«Escuchó unos movimientos, rezos de los sacerdotes y, por fin, otra vez un susurro de Mr. Ellis pidiéndole que bajara la cabeza y se inclinara algo, please, sir. Lo hizo, y, entonces, sintió que le había puesto la soga alrededor del cuello. Todavía alcanzó a oír por última vez un susurro de Mr. Ellis: “Si contiene la respiración, será más rápido, sir”. Le obedeció.»
Mario Vargas Llosa, El sueño del celta (2010)
O problema das biografias literárias de personalidades históricas assenta no facto de já se conhecer, em linhas gerais, o alfa e o ómega dos percursos que traçaram em vida. Tudo deriva da notoriedade granjeada ao longo desse intervalo de tempo e que a memória dos homens tenha querido ou sabido preservar. O cronista só acrescenta pormenores verídicos à fábula e outorga um aparato estético ao discurso. Por vezes, enfatiza a faceta brilhante do herói, outras a sombria do anti-herói. Opções legítimas tomadas pelo autor de serviço em demanda do leitor ideal ou tido como tal.

Mario Vargas Llosa deixou-se seduzir pela figura controversa de Sir Roger Casement (1864-1916), diplomata britânico e nacionalista irlandês, revolucionário gaélico e humanista universal, patriota para uns e traidor para outros. Percorreu de ponta a ponta os relatórios públicos e diários secretos que nos deixou, centrou-se no combate sem tréguas sustido em três continentes em prol da liberdade dos povos colonizados e compôs uma interpretação pessoal dos acontecimentos a que deu a forma de romance. Chamou-lhe O sonho do celta (2010), apropriando-se do título homónimo dado pelo retratado a um longo e esquecido poema épico, escrito em 1906, sobre o passado mítico da Irlanda.

A ação inicia-se no cárcere londrino de Pentonville Prison, numa manhã chuvosa de abril de 1916, onde o condenado se manterá até à execução da pena capital por enforcamento, ocorrida cerca de três meses mais tarde. Os dias e as noites são ocupados num ajuste de contas constante enredado entre as sombras do passado e as luzes do presente, erigido em intermináveis monólogos interiores tecidos na mais profunda solidão e em escassos diálogos milimetricamente cronometrados com o carcereiro e uma ou outra rara visita que a severa e justiça de Jorge V lhe foi magnanimamente concedendo.

A organização novelesca faz-se também através da alternância deste bloco narrativo recente com um outro de eventos pretéritos, aquele que nos conduz à infância, juventude e maturidade do protagonista, repartido por três espaços cénicos maiores, onde o seu destino trágico se teceu e firmou: Congo, Amazónia e Irlanda. Em todos eles, denunciou os abusos das grandes potências contra os países subjugados, escudadas sempre no argumento de o fazerem em nome da civilização. Esclavagismo, tortura, exploração e genocídio são alguns dos meios utilizados para atingir os fins almejados. Na etapa africana, relatou as iniquidades cometidas por Leopoldo II da Bélgica no Estado Livre do Congo; na americana, as atrocidades praticadas pela Peruvian Rubber Company sobre os nativos peruanos; na europeia, a violação do direito à independência irlandesa por parte da Grã-Bretanha.

As batalhas travadas no hemisfério sul valeram-lhe o título de cavaleiro e as mais subidas distinções, as encetadas no hemisfério norte a destituição de todas as honrarias e a condenação à morte. A mão imperial que é pródiga a outorgar não vacila um único instante quando toca a despojar. Recorre a todos os expedientes disponíveis para levar a bom termo os altos interesses do estado. Os crimes humanitários revelados nas páginas oficiais do Blue Book são apagados e os desvios sexuais relatados nas páginas íntimas dos Black Diaries são divulgados.

Os perseguidores de êxitos fáceis na república das letras esfregariam as mãos de satisfação e explorariam até às raias do razoável um filão comercial tão auspicioso, sobretudo quando o erotismo divulgado roça a suspeita de pedofilia. Vargas Llosa não cometeu o duplo erro de branquear o perfil negro posto a nu nos escritos privados ou de o empolar desmesuradamente na textura narrativa. Refere-o com naturalidade e dá-lhe o peso relativo merecido. A seu ver, todas as pessoas são feitas de contradições. Casement não fugiria muito a esse destino de anjo e demónio, de herói e mártir. Depois nem precisava de ter vivido todas as obscenidades pestilentas que escreveu com o próprio punho. Bastava imaginar que as tinha vivido e passá-los para um papel que só ele leria. O ficcionista atesta, assim, que não existe perfeição ao cimo da terra e que, de quando em quando, temos de ser nós a fazer de juízes supremos para aferir com lisura e rigor o bem e o mal e decidir com isenção e eficácia os pequenos/grandes deslizes que nos definem como seres humanos plenos.

NOTA:
Quando a arte contar histórias alheias tecidas por Mario Vargas Llosa se cruza com as histórias pessoais vividas por Sir Roger Casement surge O sonho do celta, um testemunho histórico feito romance. Li-o e comentei-o há tempos no Pátio de Letras. Trago-o agora aqui para esta estante de livros, de fantasias e quimeras.

13 de julho de 2017

A agenda semanal do confessor

Sante Scaldaferri

Deus e o Diabo na Terra do Sol

(1995)

Era uma vez um vigário...

Num lugar que ninguém sabe, pela praia ou pelo mato, pela ilha ou pela terra, era uma vez um vigário. Era uma vez a freguesia desse vigário, era uma vez sua igreja, era uma vez o povo que nesse sítio morava, onde havia muitas beatas e muita gente misseira e benigna. O vigário, antes da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar. Depois da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar, e então o padre não fazia outra coisa que cuidar das desobrigas daquele povo carolo. Aí o padre pensou, pensou, pensou e chegou num resultado, que foi fazer por escrito um ror de coisas, ror esse que preparou para ler na missa. Quando chegou a missa, o padre pegou do ror e leu da seguinte maneira: minhas prezadas devotas, povo desta freguesia, já estou ficando velho e cansado e não tenho mais tempo e sustança para tanta confissão todo dia. Por isso que doravante vamos obedecer à seguinte disposição, que eu mesmo pensei muito bem pensado e escrevi muito bem escrito, estando tudo muito bem ajuizado: no domingo, eu confesso as preguiçosas e as que não têm asseio; na segunda, as que furtam e as que mentem; na terça, as que bebem; na quarta, as que enganam o marido ou pecam ao contubérnio; na quinta, as crocas e as maldizentes; na sexta, as feiticeiras, as mandingueiras e as treiteiras; no sábado, as comilonas e as invejosas. Que quando o vigário terminou de dizer isso, ninguém disse nada na hora, mas toda a gente se olhou assim, e daquele dia em diante não teve mais beata que quisesse confissão naquela freguesia e o vigário descansou à larga com seu bom vinho de missa, pé de pato mangalô três vez.

João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro (1984)

10 de julho de 2017

A punição divina da água...

FOUR ELEMENTS, SEASONS AND ZODIAC

Miniature from a english medieval manuscript (Séc. XI)

O segundo elemento...

Afirmam os mitos etiológicos dos grandes sistemas religiosos ter o homem sido criado pela vontade divina de converter estátuas de argila em seres vivos e cientes da sua própria existência. O processo ter-se-á efetuado pela mistura bem dosada dos quatro elementos primordiais: terra, água, ar e fogo. Esta a convicção ameríndia tupi-guarani, africana nagô-ioruba, mesopotâmica assírio-babilónica ou bíblica judaico-cristã.

A relação entre mortais e imortais nem sempre se mostrou pacífica. O Deus do Génesis fartou-se da iniquidade humana e derramou sobre a terra toda a água que cabia num dilúvio universal. Só se salvou quem coube na Arca de Noé: patriarca e família, animais e plantas atuais. A história hebraica seria o eco distante duma outra suméria mais antiga protagonizada por Atrahasis, o supersábio da Epopeia de Gilgamesh.

Corre na Net um vídeo promocional a alertar para a chegada eminente dum tsunami que engolirá toda a Península Ibérica. A vinda é certa. Só não se sabe a data. Dá pelo nome de La gran ola | A grande onda, foi realizado por Fernando Arroyo e alerta para os perigos que a conjugação explosiva dos fenómenos naturais com a ação do homem na prospeção de hidrocarbonetos nas costas de Portugal e Espanha.

O alerta está lançado. Amarelo, laranja, vermelho roxo. De todas as cores. Em tempo de seca severa e no rescaldo dos incêndios, só mesmo a profecia científica dum maremoto apocalíptico. Punitivo. Depois do castigo divino do fogo a punição divina da água. Eucaliptos e petróleo convertidos em bodes expiatórios de todas as catástrofes. Algo de errado haverá nesses seres de barro moldados à imagem e semelhança dos deuses.

5 de julho de 2017

Do básico ao essencial...

Passando a palavra para que não se perca no tempo...

LIVROS RTP

Em 6 de novembro de 1970 ainda me encontrava a frequentar no ICL um curso que não me levaria a lado nenhum. Nesse mesmo dia e ano, logo pela manhã, adquiri num quiosque do largo de Camões o primeiro exemplar da «Biblioteca Básica Verbo - Livros RTP», pela módica quantia de 15$00. Tratava-se da Maria Moisés, um conto de Camilo Castelo Branco, e vinha acompanhado a título de oferta do segundo volume da coleção, Cem obras-primas da pintura europeia. Ainda os guardo na minha estante pessoal de livros de bolso e de todos os tamanhos adquiridos ao longo dos tempos.

Em 2016, passado quase meio século sobre esse lançamento editorial inédito, surgiu no mercado livreiro a coleção «Essencial RTP - Leya». O tamanho reduzido foi substituído pelo normal, continuando a manter-se um preço acessível às bolsas menos recheadas. Por apenas 10€00 mensais, o leitor poderá aceder a algumas das obras de referência da literatura contemporânea. Desconfio que o sucesso semanal alcançado na primeira iniciativa esteja longe de ser alcançado, a ponto de esgotar edições ou atingir os números astronómicos de vendas medidos aos milhões.

O meu contributo para atingir essas cifras colossais é modesta. Acedi a uma dezena de relatos da série inicial e a um único da atual. A frequência da FL exigiu-me edições alternativas e a viagem pelo universo das letras levou-me ao encontro dos textos entretanto publicados. É possível que nos próximos meses me deixe cativar por um ou outro que me suscite uma vontade imperiosa de visitar. Quem sabe se nesta passagem do básico ao essencial não toparei o tal livro da minha vida. Quizá o último que terei entre mãos, à falta de tempo para mais aventuras de demanda do inefável.


28 de junho de 2017

Crónicas da aldeia e cenas da vida do Porto de Júlio Dinis

INCIPITS
José das Dornas era um lavrador abastado, sadio, e de uma tão feliz disposição de génio, que tudo levava a rir; mas desse rir natural, sincero, e despreocupado que lhe fazia bem, e não do rir dos Demócritos de todos os tempos — rir cético, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.
Entre os súbditos da rainha Vitória, residentes no Porto, ao começar a segunda metade do século dezanove, nenhum havia mais benquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleumáticos e genuinamente ingleses, do que Mr. Richard Whitestone.
Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuíno dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
A tradição popular em Portugal, nos assuntos de história pátria, não se remonta além do período da dominação árabe nas Espanhas. [...] Esta mesma noção histórica do povo é a que dá lugar à outro frequente facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palácio, um solar de família, distinto dos edifícios comuns por uma qualquer particularidade arquitetónica mais saliente, ouvireis no sítio designá-lo por nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda aí memória da sua fundação, a crónica lhe assinalará infalivelmente, como data, a lendária e misteriosa época dos Mouros.
Diz-me uma memória antiga ter sido por volta dos meus dez anos de existência pacata numa pequena cidade estremenha que li pela primeira vez, de fio a pavio, uma obra completa de ficção. Terei sido influenciado pelo visionamento duma versão cinematográfica homónima, transmitida pela RTP, muito provavelmente na rubrica 7.ª Arte, que ia para o ar todas as noites de terça-feira, apresentada pelo cineasta Fernando Garcia. A história contada a preto-e-branco pelas imagens em movimento do celuloide foi confrontada com o cor-de-rosa da história desenhada com letras de molde nas páginas do romance. Depois de me ter deliciado a ouvir cantar as canções do filme realizado por Leitão de Barros em 1935, passei a interpretá-las também eu na presença dos versos inseridos por Júlio Dinis n' As pupilas do senhor reitor, divulgados em folhetim no Jornal do Porto em 1866 e lançados em livro em 1867. Ainda hoje os sei trautear sem grande esforço de execução lírica das coplas, xácaras, quadras e cantigas, musicadas todas elas ao gosto popular.

A lembrança longínqua que guardo desse encontro permanece muito viva nos faits-divers de recorte literário ocorridos num tempo declaradamente pretérito, os tais que têm pautado de modo persistente a minha incursão de décadas pelos universos criativos que lhe dão forma. Voltei ao seu convívio no momento em que se celebram os 150 anos da sua publicação, com toda a discrição envergonhada a que o nosso meio cultural nos habituou. Aproveitei a boleia e pus-me a reler o painel completo pintado à pena por Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871), o médico que enquanto escritor ficou conhecido pelo pseudónimo de Júlio Dinis. Retirei os quatro volumes da estante e entrei na sua intimidade com o mesmo empenho com que o fizera nos meus tempos de menino e moço. Edições antigas que nunca quis substituir, dadas à estampa pela Livraria Civilização do Porto, pela fabulosa quantia de 15$00 em formato cartonado. Encontrei-as com a natural patine que a sua vetusta idade lhes foi impiedosamente outorgando.

Parece-me desnecessário trazer para aqui os argumentos de cada um dos títulos que compõem o corpus romanesco visitado. O melhor é mesmo arregaçar as mangas, pôr as mãos à obra e ler os originais em modo impresso ou digitalizado. Dizem os entendidos da matéria tratar-se de textos que fizeram a passagem das estéticas românticas para as realistas, incorporando-os na categoria genérica dos romances de consciência e de caráter, decalcadas no modelo oitocentista no recorte inglês de George Eliot, Thakeray, Dickens e Jane Austen ou no francês de Balzac. Assim será, mas pouco importa para o caso. A entidade criadora limitou-se a integrá-los em duas categorias registadas no campo dos subtítulos: a «Crónica da Aldeia» (Pupilas, Morgadinha e Fidalgos) e «Cenas da vida do Porto» (Família). Nada mais. Um naturalismo rústico e urbano a contar episódios povoados por heróis-heroínas coetâneos da época em que foram idealizados e tanto agradaram ao público a que se destinavam. Paradigmáticos na sua função lúdica e pedagógica de exemplaridade formativa.

Os excessos da novela passional de Camilo Castelo Branco são ignorados pela estrutura sentimental preconizada pelo jovem romancista, que o substitui na preferência dos leitores da geração que o viu nascer e morrer. Apresenta-nos um universo de seres que desprezam a maldade do mundo e se convertem ao lado positivo da vida. Os protagonistas casam-se sempre no final do livro, sem terem de passar pelo crivo apertado dos triângulos amorosos e paixões cruzadas, pelos efeitos devastadores da tísica e a companhia indesejada de corujas e ciprestes, pelo ambiente lúgubre dos cemitérios visitados à meia-noite e pelos esqueletos abraçados até à eternidade num túmulo conjugal do além. Os lances macabros são substituídos por um ambiente de conto infantil sem fadas madrinhas ou almas do outro mundo. Há nas Pupilas uma madrasta má que se redime antes de dar o último suspiro. Há também na Família uma gata borralhenta que é levada ao altar por um quase-príncipe, depois dum lenço perdido num baile ter facilitado o reconhecimento e o tal happy-end exigido nos relatos tradicionais de transmissão oral. Simples, eficiente e a dispensar mais palavras para explicar o êxito do modelo, numa altura em que a Questão Coimbrã do Bom Senso e Bom Gosto (1865) daria lugar às Conferências Democráticas do Casino Lisbonense (1871). O caminho para as sucessivas Modernidades dos séculos XIX e XX estava definitivamente aberto.