15 de dezembro de 2017

Real, real, real, por el-Rei de Portugal!

Veloso Salgado - Coroação de D. João IV - 1908

[Lisboa, Museu Militar: Sala da Restauração]

GUERRA DE PALAVRAS

Do levantamento-aclamação à coroação-restauração


Duas semanas após o levantamento aristocrático do Primeiro de Dezembro de 1640, o até então Duque de Bragança é formalmente aclamado Rei de Portugal, tendo ficado conhecido nos anais históricos como Dom João IV, o Restaurador. A cerimónia decorreu num palanque junto à varanda do Paço da Ribeira, tendo sido testemunhada pelos conspiradores e presenciada pela arraia-miúda concentrada no vasto terreiro palaciano que dava para o Tejo. Coroação lhe chamou Veloso Salgado, seguindo os parâmetros dum romantismo tardio que o inspiraram na recriação da cena.

A notícia da cessação da Monarquia Dual caiu como uma bomba em Madrid, tendo sido particularmente sentida pela Majestade Católica de Filipe IV de Castela, por se ter visto despojado dos reinos e senhorios da Coroa de Portugal. A entronização do novo soberano em Lisboa e a fundação duma nova dinastia, sob a égide da Sereníssima Casa de Bragança, ramo lateral das de Borgonha e Avis-Beja, desencadeou um longo conflito de vinte e oito anos. Na época foi designado por Guerra da Aclamação, a que a leitura nacionalista recente rebatizou de Guerra da Restauração.

A restauração dum rei natural e deposição dum estrangeiro afirma a independência da Monarquia Lusitana face à Hispânica. Revela, também, uma oposição ao projeto do Conde-Duque de Olivares de converter os reinos ibéricos em meros satélites do Rei-Planeta, em torno do qual orbitariam para sempre. A História lá nos vai dizendo que a substituição duma legalidade obsoleta por uma atualizada costuma recorrer a atos de rebeldia contra o poder instituído. Só assim se muda um regime, se aclama uma nova ordem, se recupera um governo autónomo e liberto de vontades alheias.

Anónimo - Juramento e Aclamação de D. João IV (c. 1640)
[Paço Ducal de Vila Viçosa - Fundação Casa de Bragança]

8 de dezembro de 2017

História exemplar das quatro concubinas de Takenobu Matsuura senhor de Hirado

   Toyohara Chikanobu - The shogun celebrating New Year's Day (1838 - 1912)   

A pergunta retórica do senhor de Chikugo...

Takenobu Matsuura, senhor de Hirado, tinha quatro concubinas que constante-mente se tomavam de ciúmes e brigavam entre si. Não as podendo suportar por mais tempo, Takenobu correu com elas do seu castelo. Mas talvez não seja esta uma história muito própria para padres celibatários...
– Acho que esse Matsuura não era nada parvo... – Como Inoue se mostrasse conciliador, o padre ganhara ânimo e desafogava deste modo a tensão.
– Diz isso a sério, padre? Que peso me tira dos ombros! É que acontece com o nosso Japão, e não apenas com Hirado, o que aconteceu a Matsuura. – Rodopiando a tigela nas mãos, o senhor de Chikugo prosseguiu: – As mulheres, neste caso, chamam-se Portugal, Espanha, Holanda e Inglaterra. Uma vez aqui chegadas, ciosas umas das outras, encheram de intrigas e mexericos os ouvidos do marido, o Japão. À medida que ouvia a tradução do intérprete, foi o padre compreendendo onde queria o governador chegar. Estava bem longe de ser um disparate o que Inoue dizia. Quantas vezes, estando ainda em Goa e Macau, ouvira dizer que países protestantes como a Inglaterra e a Holanda, e católicos como Portugal e Espanha, ávidos todos de sucesso neste país, se caluniavam reciprocamente na presença dos japoneses! Por seu lado, envolvidos na mesma rivalidade, os missionários recorriam a idêntica moeda, chegando a proibir severamente os seus convertidos japoneses de todo e qualquer contacto com ingleses e holandeses. – Padre, se tem por inteligente o procedimento de Matsuura, terá de admitir que os motivos que levaram o Japão a proscrever o cristianismo não são assim tão levianos e absurdos.
Enquanto falava, o magistrado exibia um amplo sorriso nas faces rosadas e nédias, ao mesmo tempo que fitava intensamente o padre. Para japonês, Inoue tinha uns olhos estranhamente castanhos e claros, e não se lhe via nas suíças, a menos que fossem tingidas, um só cabelo branco.
– Como a nossa Igreja prega a monogamia – observou o padre ironizando deliberadamente – ou seja, como só consente uma mulher para cada homem, tem o senhor carradas de razão quando entende que se devem despedir as concubinas. Sendo assim, que diria o senhor se o Japão escolhesse uma só dessas quatro mulheres para sua legítima esposa?
– E quem seria essa legítima esposa? Portugal?
– Nada disso! A Igreja católica.
Quando o intérprete, com a sua habitual impassibilidade estereotipada, passou a resposta a Inoue, este desfez o rosto de circunstância até aí afivelado e desatou a gargalhar desalmadamente. Dada a idade que tinha, era um riso demasiado estridente, mas nos olhos dominadores que fitavam o padre não havia a mais pequena emoção. Os olhos, esses não riam.
– Padre, não acha melhor que esse homem chamado Japão deixe de pensar nas mulheres de outros países e se volte unicamente para uma mulher da sua terra, uma mulher da sua plena confiança?
Shusaku Endo, Silêncio (1966)
[Lisboa: Dom Quixote, 2010, cap. 7, pp. 176-177]

4 de dezembro de 2017

Patrick Modiano, a biografia sonhada ou imaginada do livrete de família

«J'observais ma fille, à travers l'écran vitré. Elle dormait, appuyée sur sa joue gauche, la bouche entrouverte. Elle avait à peine deux jours et on ne discernait pas les mouvements de sa respiration. [...] J'avais pris ma fille dans mes bras et elle dormait, la tête renversée sur mon épaule. Rien ne troublait son sommeil. || Elle n'avait pas encore de mémoire.»
Patrick Modiano, Livret de famille (1977)
Voltei ao meu convívio com Patrick Modiano, passada a euforia da primeira visita a um romancista até então inteiramente desconhecido. Descobri-o quando em 2014 se tornou no 15.º autor de língua francesa a ser laureado com o Nobel da Literatura. Li duma assentada alguns das suas criações mais antigas e dei-me um pequeno repouso para empreender uma nova investida na sua escrita. Fi-lo agora com o Livret de famille (1977), o segundo título duma coletânea de 10 romans publicados em 2013 pela Quarto-Gallimard. Não encontrei nenhuma tradução recente ou antiga para português. Provavelmente terá escapado até à presente data ao crivo seletivo dos editores lusófonos. É pena, porque congrega em si um conjunto de atrativos capazes de motivar uma leitura atenta e proveitosa como foi a minha.

O leitmotiv seguido nesta partitura cantada a capella inspirou-se no «Livrete de Família», um documento oficial existente em diversos países, destinado a reunir um conjunto de extratos de registos do estado civil dum agregado familiar. A estrutura do romance que me ocupa neste momento aproveita-se, precisamente, desse corpus de atos específicos da cidadania certificados legalmente, para compilar uma série de excertos da vida real/sonhada do autor-narrador-personagem, prática comum de ficcionar a vida e que lhe conferiu um renome concreto no universo das letras. Converte-o numa sucessão de flashes de espaço-tempo, caleidoscópicos, compilados ao sabor caprichoso da memória e com muitas incógnitas de permeio. Anacrónicos, dispersos, lacunares. Fragmentos incompletos, atualizados pela escrita, para contar pequenas histórias desgarradas, enigmáticas, patrimónios pessoal de todos nós, centradas nos pais, avós, tio, irmão, padrinhos, namoradas-amantes, mulher, filha, amigos e conhecidos. Recorda momentos perdidos/recuperados da infância e juventude. Certificados de nascimento, batizado, casamento e óbito. Demanda dum tempo pretérito em quinze etapas, tantas quantos o número de capítulos que constituem o relato de relatos.

A organização dos episódios trazidos à presença do leitor segue a dinâmica própria da corrente do pensamento. Surgem quando têm de surgir e desaparecem quando têm de desaparecer. Salvaguarda-se o essencial e prescinde-se do acessório. Os instantes que os modelam saltitam com inteira liberdade de uns para os outros, nos eixos espaciotemporais que regem o relato. O Patrick Modiano, aquele que assume o papel compósito de relator-relatado, salta dos 15 anos para os 20 e destes para os 18, 14 ou 17. Sempre ao sabor do acaso. Alterna Paris com Roma, Lausanne com Túnis ou Changai com Berlim. Do casamento dos pais passa o seu próprio casamento. Do batizado da filha para o seu próprio batizado e ao do irmão. De permeio lá recorda uma caçada de montaria na Borgonha ou a visita a um moinho na Bretanha. Fala da adaptação dos diálogos para um filme que terá conhecido o circuito comercial. Refere a sua participação como autor de letras de canções que alguém terá cantado com maior ou menor sucesso. Inicia a escrita da biografia dum esquecido artista de variedades que se dispensa de revelar se terá ou não terminado. O testemunho de factos acontecidos ou fantasiados pululam sem cessar ao sabor da pena e do momento.

A demanda incessante por uma clarificação das origens familiares são uma constante representada nos textos inaugurais do Patrick Modiano fabulador de destinos pessoais e alheios. Partes descontínuas duma obra única e que constituem, a seu ver, a espinha dorsal da sua produção futura. Os tempos conturbados da Guerra e da Ocupação, da Gestapo e do Holocausto, dos Colaboradores e dos Resistentes. Ao longo das muitas páginas novelescas repartidas por volumes de dimensão mediana, interroga-se incessantemente sobre as suas raízes judaicas, sobre o papel algo ambíguo traçado pelos progenitores nesse conflito bélico mundial, sobre as motivações que os terão unido e separado. Questões que ficam sempre por clarificar, que ficam sempre em aberto, que ficam sempre dependentes do romance seguinte. As perguntas sem resposta repetem-se ciclicamente de livro para livro, de relato para relato, de sequela para sequela. Livretes de família todos eles, com mais ou menos pedigree no caminho, com mais ou menos boutiques obscuras no canto da rua, com mais ou menos cafés de juventudes perdidas num horizonte mais ou menos longínquo.

1 de dezembro de 2017

Histórias antigas com história dentro

General George Washington riding a white horse holding a sword
(Painted wood board)
[De Young Museum, San Francisco, California, USA]

Primeiro de Dezembro de 1640

Uma vez, fui passear com três amigos.
Fomos para o campo e chegámos lá e sentámo-nos. E um disse assim: - Conta uma história mas que seja verdadeira.
E eu comecei: - Lembram-se quando cá estavam os espanhóis?
- Lembramo-nos muito bem.
- Pois isto foi no 1.º de Dezembro quando nasceu a liberdade. Eu estava mesmo em frente do palácio real. Às nove horas da manhã abriram as portas do palácio e os conjurados entraram por ali dentro que não foi brincadeira. Mataram os soldados que estavam de guarda ao palácio. Um soldado pegou numa faca e ía dar uma facada a um conjurado. Eu vi aquilo e peguei logo na minha espada de pau feita do cabo da vassoura e fui muito devagarinho por detrás dele e dei-lhe uma cacetada na cabeça que ele até desmaiou. E o conjurado disse-me: - Olá! Então tu salvaste-me a vida? Espera lá fora que eu já te recompenso. E ele foi lá para dentro e eu entrei pela porta da cozinha e dei um chuto no cozinheiro que logo se arrumou para o lado. Então, cheguei lá dentro e vi o senhor Vasconcelos a tomar o pequeno-almoço. E eu disse-lhe: - Olá! Já sabe que hoje acabou a paródia? E ele disse que não sabia e então escondeu-se à pressa no armário dos livros e eu perdi-o de vista.
E já estava tudo derrotado e só faltava esse fulano e a prima do Rei. Então, chamei os conjurados e como vi o armário a mexer, disse: - Está ali dentro!
Eles foram, tiraram-no cá para fora e veio um conjurado à varanda e diz: - Liberdade! Liberdade! Viva El-Rei D. João IV!...
Atiraram o senhor Miguel para a rua e já só faltava a prima. Então, estava ela a ler a Crónica Feminina e eu peguei no livro e espetei-lho na cara. Ela disse: - Quem é que me está a faltar ao respeito? E um conjurado disse: - Se a senhora não quiser sair pela porta, sai pela janela. E ela disse: - Tão amável!... E saiu pela porta mas foi presa.
E os conjurados disseram então: - Viva este rapazinho que nos ajudou tanto e me salvou a vida!
Depois deram-me um cavalo de pau e uma espada de verdade. E a minha espada de pau está agora num museu.
E os meus amigos bateram palmas e disseram: - Foi verdade que fizeste isso tudo? E eu disse: - É. E então fomos para casa muito contentes. E eu disse: - Agora que venham cá chatear mais esses senhores espanhóis que eu lhes digo o que faço: dou um biqueiro em cada um que até andam de asa.

João Manuel – 10 anos
IN Maria Rosa Colaço, A criança e a vida (Lisboa: ITAU, 1960)

22 de novembro de 2017

Ildefonso Falcones e as gestas, sagas e crónicas dos herdeiros da terra

«—Pues eso es lo importante en esta vida: a ninguno nos complace la humillación o la sumisión; el problema es saber cómo escapar de ellas.»
Ildefonso Falcones, Los herederos de la tierra (2016)
Os recentes acontecimentos vividos na Catalunha apanharam-me a meio da leitura dum livro centrado na Barcelona medieval e nos problemas que o Principado teve de enfrentar após a morte de Martim I (1410) sem deixar um sucessor legítimo. Extraordinária coincidência esta, a de cair por acaso nos capítulos que tratam das deliberações do Compromisso de Caspe (1412), aquele que entregaria a Coroa de Aragão a Fernando de Antequera, um infante de Castela da Casa de Trastâmara, em detrimento dos restantes candidatos, os condes de Luna e de Urgel e os duques de Calábria e de Gândia. A recreação literária de factos acontecidos e fantasiados apareceu-me associada num evento registado pelas crónicas coevas do início do século XV com repercussões muita vivas no início do XXI. Uma independência que se começava então a perder e que se pretende agora recuperar. De modo involuntário, Ildefonso Falcones conseguiu elucidar-me da fisionomia histórica do país que o viu nascer e tão bem tem sabido descrever nas páginas dos romances que lhe tem dedicado, como será o caso deste que acabo de visitar, Os herdeiros da terra (2016).

As velhas usatges, ou costumes e normas de funcionamento próprios dos condados catalães, estabelecidos nos tempos da rainha Petronila de Aragão e do conde Ramon Berenguer IV de Barcelona, são frequentemente referidos ao longo das quase novecentas páginas que compõem a obra. Entre janeiro de 1387 e setembro de 1423, o cronista do relato põem-nos ao corrente dos percursos de vida chamados à liça pelos eixos centrais e laterais da trama narrativa. Cerca de quatro décadas de destinos cruzados na teia urbana medieval da Cidade Condal, tendo como cenários privilegiados as ruas e ruelas, praças e ramblas que a formam e conformam, em conventos e mosteiros, palácios e casebres, igrejas e capelas, hospitais e hospícios, caves e tabernas, masias e castells, em ambiente aristocrata e popular, em espaços públicos e privados, nas judiarias e no burgo cristão em geral, sempre à sombra das grandes instituições reais e principescas do Consell de Cents, das Corts Generals, do Consulat del Mar e da Generalitat.

O novo bestseller das letras hispânicas foi apresentado aos seus potenciais leitores como uma continuação da saga de Arnau Estanyol, o bastaix que ajudou a construir a basílica de Santa Maria, A catedral do mar. Essa notação editorial encontra-se registada na contracapa da obra, que pouco mais avança sobre o enredo, que nos será transmitidos à medida que a ação vai sendo revelada. Os episódios sucedem-se uns aos outros a um ritmo vertiginoso. Falam-nos do mar e da terra, da lealdade e da traição, da vingança e do amor, da dor e da justiça, arrumados aos pares, nas quatro partes da vida de Hugo Llor, o herói da fábula e representante por excelência d'Os herdeiros da terra. Escravos e libertos, mouros e judeus, camponeses e vilões, conversos e contumazes, arraia-miúda e pés-descalços. Nada mais. A nobreza aragonesa, valenciana e catalã, associada à maiorquina e siciliana, assume o papel ingrato de má-da-fita. A plebe sem nome de família destes mesmos reinos e principado acaba por assumir o papel devido de vencedora de todos os conflitos postos em jogo.

O real e o imaginário cruzam-se neste relato de relatos, individuais e coletivos, nesta crónica dum tempo pretérito cujos ecos longínquos lograram chegar aos nossos dias, cujo legado se concentra na demanda sem tréguas pela liberdade. Esse o sonho do protagonista, aquele que o fez desempenhar ao longo dos anos de infância, jovem e adulto os ofícios de moço de recados dos estaleiros militares e privados, moço de gateiro caçador de ratos, leiloeiro e corretor de vinhos, vinhateiro ganhão, adegueiro condal e real, jornaleiro e taberneiro, para além de cúmplice de corsário e espião de estado. Descreve um percurso existencial muito próximo do traçado pelos pícaros literários dos séculos de ouro peninsulares. Sobrevive a todas as dificuldades que o destino lhe oferece e logra sempre sair por cima. Exemplarmente. As guerrilhas de interesse entre Bernat Estanyol e Roger Puig chegam ao fim com a morte dos dois. Só o núcleo familiar de Hugo Llor sobrevive a ventos e marés da fortuna. Preparado para dar continuidade a uma nova sequela, a publicar, quiçá, dentro duma dezena de anos, para deleite dos leitores e proveito dos editores.

16 de novembro de 2017

As lágrimas de dor e alegria de Dom Pedro de Portugal, Rei dos Catalães

PAINE POUR JOIE

Le mot associé aux armes du connétable de Portugal

Chronique générale de l’Espagne et du Portugal

[Paris, BNF, Ms. Port. 9, fol. 1, vers 1454-1463]

Altos e baixos da roda da fortuna

Quando o D. Fernando I de Portugal morreu, sucedeu-lhe no trono a filha D. Beatriz, então casada com Juan I de Castela. O receio da substituição dos Borgonha lusitanos pelos Trastâmara hispânicos deu início a uma crise dinástica que passou à História com a designação de Interregno de 1383-85. O impacto só foi solucionado com a vitória decisiva do Mestre de Avis em Aljubarrota e da sua eleição como D. João I de Portugal nas Cortes de Coimbra. Do seu casamento com D. Filipa de Lencastre nasceria a Ínclita Geração.

D. Pedro de Avis e Urgell (1429-1466) pertence a essa linhagem celebrada por Camões n' Os Lusíadas. Filho do duque D. Pedro de Coimbra, regente do reino durante a menoridade de D. Afonso V, foi nomeado neste período Condestável de Portugal, cargo que exerceu até à morte do pai na Batalha de Alfarrobeira (1449). Caído em desgraça, é obrigado a exilar-se em Castela, onde sobrevive como escritor. A ele se deve a Sátira de felice e infelice vida (c. 1453-1455), novela em prosa cujo original português se perdeu.

Quando Martí I de Aragão morreu sem descendentes, abriu uma crise dinástica que se prolonga até ao Compromisso de Caspe. O Infante de Castela Fernando de Antequera vence a disputa, dá fim ao Interregno de 1410-12 e sobe ao trono até então vago. O conflito estava longe de terminar, dado que em 1464 D. Pedro de Portugal foi reconhecido pela Genaralitat do Principado da Catalunha como Rei de Aragão e Valência, Conde de Barcelona e Senhor de Maiorca e Sardenha, por ser neto do Conde Jaume II de Urgell.

Os altos e baixos que o destino lhe reservou ao longo da vida, terão inspirado o filho do Infante das Sete Partidas a escolher a sua divisa pessoal, gravada num escudo em forma de lágrima. A figura alegórica da «roda da fortuna» como corpo e o mote «Paine pour joie» (sofrer para fruir) como alma. Dificilmente o ex-Condestável de Portugal e Rei dels Catalans podia ter escolhido um emblema que melhor resumisse as adversidades e satisfações que o seu percurso pessoal pelos trilhos do poder lhe haviam reservado. 
Pere IV, dit «El Conestable de Portugal», Pacífic de Barcelona, 1464-1466.
[Museu Nacional d’Art de Catalunya]


12 de novembro de 2017

Crónica outonal da castanha na brasa

 CASTANHAS ASSADAS  

Quem quer quentes e boas...


No dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho. O magusto este ano foi traído pela falta de qualidade da castanha trazida do híper, imprópria para assar em casa. Assim nem foi preciso trocar a água-pé pela jeropiga, nem o fogareiro a carvão pelo forno da cozinha. A inauguração oficial do outono ficou adiado sine die, neste tempo estival que ameaça prolongar-se até ao Natal.

A castanha é de quem a come e não de quem a apanha. Diz quem sabe. Quentes e boas como as da feira de Santa Iría. Apetitosas e a saber a sal. QB. Casca solta e estaladiça. Cada uma a fazer inveja às restantes. E quem come uma come um cento, ainda que as tenha de repartir por várias etapas. À entrada do Fórum de Faro ou na rua de Santo António acima e abaixo.

A castanha tem três capas de inverno: a primeira mete medo, a segunda é lustrosa e a terceira é amarga. Numa época em que o clima nos troca as voltas, vivamos as memórias da estação. Ouvir os pregões do homem das castanhas. Vê-las a saltar na brasa. Cinzentas e amarelas. Cheirá-las. Levar uma dúzia para casa. Saboreá-las. Matar a fome e chorar por mais.

9 de novembro de 2017

Parlez-moi d'amour, de chansons, de photos et de cinéma...


 Du temps où j'avais encore un état civil... 


Hier, nous nous promenions, ma petite fille et moi, au jardin d'Accli-matation et nous arrivâmes, par hasard, en bordure de ce manège. Trente-trois ans avaient passé. Les bâtiments en brique des écuries où se réfugiait mon père n'avaient certainement pas changé depuis, ni les obstacles, les barrières blanches, le sable noir de la piste. Pourquoi ici plus que dans n'importe quel autre endroit, ai-je senti l'odeur vénéneuse de l'Occupation, ce terreau d'où je suis issu ?
Temps troubles. Rencontres inattendus. Par quel hasard mes parents passèrent-ils le réveillon 1942, au Beaulieu, en compagnie de l'acteur Sessue Hayakawa et de sa femme Flo Nardus ? Une photo traînait au fond du tiroir du secrétaire, où on les voyait assis à une table, tous les quatre, Sessue Hayakawa, le visage aussi impassible que dans Macao, l'Enfer du Jeu, Flo Nardus, si blonde que ses cheveux paraissaient blancs, ma mère et mon père, l’air de deux jeunes gens timides... Ce soir-là, Lucienne Boyer se produisait au Baulieu en vedette, et juste avant qu'on annonçât la nouvelle année, elle a chanté une chanson interdite, parce que l'un de ses auteurs était juif :
« Parlez-moi d’amour
Redites-moi
Des choses tendres… »
Depuis, Sessue Hayakawa a disparu. Que faisait, à Paris, sous l'Occupation, cette ancienne vedette japonaise d'Hollywood ?

Patrick Modiano, Livret de famille, 1977
[Romans : Quarto Gallimard, 1973, 325-326]

6 de novembro de 2017

Bruce Chatwin: a saga esclavagista do vice-rei de Ajudá

«Dom Francisco (…) came from San Salvador da Bahia in 1812 and, over thirty years, was the “best friend” of the King of Dahomey, keeping him supplied with rum, tobacco, finery and Long Dane guns which were made not in Denmark but in Birmingham. | In return of these favours, he enjoyed the title of Viceroy of Ouidah, a monopoly over the sale of slaves.»
Bruce Chatwin, The Viceroy of Ouidah (1980)
São admiráveis os caminhos sinuosos como certos livros nos chegam às mãos e o processo de leitura que lhe anda associado. Uma sugestão casual dum amigo, um título apelativo ao ouvido, um exemplar algures à nossa espera. O acaso trouxe-me ao convívio de Bruce Chatwin, crítico de arte e de arquitetura, jornalista e escritor de viagens. Deu-se-me a conhecer através d’ O vice-rei de Ajudá (1980), romance que encontrei meio escondido numa estante de obras esquecidas ou tidas como fora de prazo. Olhou para mim com determinação e ordenou-me, perentório: Lê-me! Não me apeteceu obedecer-lhe de imediato. Mudei-o para o monte de calhamaços destinados a serem visitados durante as férias. O momento chegou este verão. Peguei-lhe um pouco a contragosto, com a ideia fisgada de lhe prestar alguma atenção durante os longos momentos de espera nas estações de caminho-de-ferro e dos aeroportos visitados. A solução foi proveitosa. Entre o ponto de partida e o ponto de chegada, o passeio pelo interior do texto cumpriu satisfatoriamente o trânsito completo pela centena e meia de páginas que lhe dão corpo e revelam os segredos. As impressões de percurso seguem sem mais delongas. 

A ficção está ancorada no comércio atlântico de escravos, perpetrado ao longo de quatro séculos, entre as costas da Mina e da Guiné e as costas do Novo Mundo, descoberto, conquistado e colonizado pelos povos ibéricos e por todos aqueles que os imitaram no Velho Mundo. Crime hediondo de genocídio cometido pelos esclavagistas europeus, em íntima colaboração com os esclavagistas africanos e em perfeita sintonia com os esclavagistas americanos. Nesta matéria de opressão do homem pelo homem não há inocentes. Todos são culpados. Sem exceção. Problema da humanidade em explorar a sua própria espécie. A cor da pele é irrelevante. Os procedimentos são idênticos. O cronista inglês dos tempos modernos inspirou-se nos factos verdadeiros das histórias acontecidas e imaginou os feitos verídicos de histórias possíveis. Francisco Félix de Souza, personalidade real de carne-e-osso, sai de cena e Francisco Manoel da Silva, personagem fictícia de papel-e-tinta, põe a máscara de vice-rei de Ajudá e dá início aos diversos atos do drama. No teatro de operações, a fortaleza seiscentista portuguesa, construída no Reino de Daomé, sob o patrocínio de São João Batista, assistir-se-á ao advento, consolidação e queda duma dinastia de negreiros brasileiros. 

As aventuras peregrinas do fundador duma família espalhada pelo mundo, escritas a ferro e fogo com muito sangue à mistura, iniciam-se em terras de Santa Cruz, no Sertão ganadeiro. O traçado pícaro é visível. Órfão de pai cangaceiro com um ano de idade, vê a mãe ligar-se a um índio mestiço e perecer vitimada pela seca. É protegido até aos treze por um padre português exilado do reino por comportamento pouco canónico. Vagueia pela catinga nordestina. Faz-se aprendiz de açougueiro, almocreve, boiadeiro e garimpeiro. Estaciona em aldeias indígenas e comboia ciganos que traficavam escravos. Casa-se. Engravida a mulher. Abandona-a e ao filho recém-nascido. Regressa às deambulações solitárias. Experimenta alguns momentos fugidios de arrependimento e de refúgio nas promessas da religião. Entrega-se, ato contínuo, à bebida nas tabernas, ao riso, ao jogo das cartas. Instala-se na Baía. Em 1812, com 27 anos, abandona a Cidade de Todos os Santos, atravessa o grande Mar Oceano, desembarca em Ajudá, numa sombria manhã de maio. O resto da história encontra-se sintetizado na frase que serve de epígrafe a este relato de leitura. Fico-me por aqui. A paráfrase não deve nunca substituir o fluir diegético do original

O romance desenhado em forma de saga assenta arraiais na escravatura negra. Aquela que as diligências interesseiras da Inglaterra aboliriam definitivamente em 1834. Aquela que as pressões tardias das potências ocidentais levariam Portugal a seguir-lhe as pisadas em 1869. O Brasil fá-lo pela Lei Áurea de 1888. O ciclo de vida vivida do patriarca negociante de vidas por viver chega ao fim e o império por si erigido esboroa-se como um castelo de areia ressequido pelo sol. A distinção entre senhores e servos não partiu com ele. Outros tipos de escravatura ficaram. Alguns chamam-lhe branca, que é o conjunto de todas as cores. A relação dessas novas formas de servidão está ainda por traçar.

NOTA:
Trazido do Pátio de Letras para estas Histórias d' Arthur d' Algarbe, agora que a descriminação racial e as práticas de escravatura moderna voltaram a assombrar-nos nestes nossos dias tumultuosos de início de milénio. 

1 de novembro de 2017

A violência titânica da terra

MÚSICA MUNDANA
Robert Fludd, Utriusque Cosmi, 1617

O primeiro elemento...

No dia de Todos os Santos de 1755, a terra tremeu resvés Campo de Ourique e caiu o Carmo e a Trindade. As velas dos templos pegaram fogo e consumiram o casario de Lisboa. Uma onda gigante de água atlântica inundou a cidade. Pelo ar coberto de fumo ecoou o clamor dos que haviam sobrevivido à catástrofe.

Diz-se que el-Rei D. José I terá questionado Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Conde Ourém e Marquês de Pombal, sobre o que se devia fazer. Este ter-lhe-á respondido: Sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos. Palavras sábias também atribuídas ao General Pedro d'Almeida, Marquês de Alorna.

A atitude do Secretário de Estado contrastou com a da Santa Inquisição. O terramoto desse 1 de novembro seria um castigo divino aos pecados humanos. Um auto-de-fé foi organizado como penitência. O fogo voltou à terra e as cinzas suspensas no ar acabaram nas águas do Tejo. A purificação estava concluída.

25 de outubro de 2017

A Casa de Avis e os padroeiros de Lisboa

SÃO CRISPIM E SÃO CRISPINIANO

[Painéis centrais dos Painéis de São Vicente]
Já então eu publicara na revista O mundo português a descoberta de que, ao contrário do que se pensava, existiam sim dois santos, que tinham as condições requeridas para poderem ser os santos dos Painéis. | Eram dois e estavam ligados à história da conquista de Lisboa aos mouros [...] (A) hipótese de se tratar dos santos Crispim e Crispiniano, irmãos mártires gémeos e primeiros padroeiros de Lisboa, por ter tido na véspera do seu dia que a cidade fora conquistada aos mouros, e no seu dia, 25 de outubro, que D. Afonso I entrara na cidade.
Theresa Schedel de Castello Branco
Os painéis de S. Vicente de Fora. As chaves do mistério
Lisboa: Quetzal, 1994, 118-119
Muito se tem dito sobre as cinquenta e oito personalidades representadas no Políptico das Janelas Verdes (c. 1470), um conjunto de seis tábuas pré-renascentistas, atribuídas a Nuno Gonçalves (séc. xv) e geralmente referenciado como Painéis de São Vicente. A oscilação na titulação da pintura quatrocentista advém das dúvidas que a sua interpretação tem suscitado desde a sua descoberta ocasional no Mosteiro de São Vicente de Fora e do seu depósito no Museu de Arte Antiga ou das Janelas Verdes.

Há quem queira, todavia, associar a obra a São Vicente de Huesca (séc. iv), martirizado em Valência, no tempo do imperador romano Diocleciano. O que nunca ficou esclarecido pelos defensores desta tese é a razão da dupla figuração nos painéis centrais. As hipóteses alternativas pecam pela mesma dificuldade e acrescentam outras. Poderemos questionar-nos até que ponto se torna credível optar por Santo Estêvão, Santa Catarina, Santiago Menor, Infante Santo D. Fernando ou mesmo por um arauto da Era do Espírito Santo.

O número global de individualidades arroladas é difícil de contar, centrando-se sobretudo nos diversos membros da Casa de Avis, com um especial enfoque no misterioso Senhor do Chapeirão, a quem se continua a chamar insistentemente de Infante D. Henrique. Os casais reais constituídos por D. Duarte e D. Leonor de Aragão ou por D. Afonso V e Isabel de Coimbra, bem como o Príncipe Perfeito D. João II e a Princesa Santa D. Joana, concorrem entre si para ocupar um espaço privilegiado no retrato áulico de grupo.

A aceitação do duplo santo no retábulo pode justificar-se por ter sido achado na primeira igreja edificada fora da cerca moura. D. Afonso Henriques até converteu São Vicente em padroeiro de Lisboa em 1173, quando trasladou as suas relíquias para a futura capital do reino. Acontece que em 1147 já oferecera o padroado da cidade a São Crispim e São Crispiniano, por ter sido no seu dia que entrara em Lixbura. Dois gémeos idênticos, aí está uma boa solução para o enigma fulcral da obra-prima da pintura nacional.        
Nuno Gonçalves, Painéis de São Vicente (c. 1470)

18 de outubro de 2017

Surrealismos duma admiração interrogativa

DISCUSSÃO

– Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes, camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os mesmos direitos. Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer, era outra coisa. Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos. Acho um snobismo.
– Eu sou democrático – rugi entre dentes, como resposta. – Tenho amigos no exílio, todos democráticos. Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem, ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático. Eras capaz de fazer isso?
– Não sou democrático.
Não havia resposta a dar. Nenhuma. Ele não era democrático, não sabia de democracia.
Eu sim, sou democrático, até quis ir à América, que me afirmaram que lá é que é a democracia. Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista! Viram isto!?
Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic (1973)

12 de outubro de 2017

Ana Margarida de Carvalho: o céu dos pardais é a barriga dos gatos em cujos olhos se não pode morar

«Não são os deuses que dormem, nós é que os sonhamos...»
Ana Margarida de Carvalho, Não se pode morar nos olhos de um gato (2016)
Filha de peixe sabe nadar. As barbatanas da aprendiza a sulcarem as águas da escrita a milhas náuticas do pai. Habituei-me às braçadas vigorosas do Mário e sinto dificuldade de seguir as da Ana Margarida. O humor sarcástico e bem-disposto do Carvalho-pai a sobrepor-se ao horror demolidor e mal-encarado da Carvalho-filha. Registos diferentes com os quais a literatura se faz. Ou se gosta ou não se gosta. Desconheço meios termos possíveis. Iniciei-me estas férias de verão com um muito proverbial Não se pode morar nos olhos de um gato (2016). Não me deixou insensível. Cumpriu de modo eficiente e convincente a sua missão de semear tumultos, de alimentar alvoroços, de suscitar emoções.

A síntese da contracapa quase nos dispensa a leitura do romance. Quase que lhe adivinhamos os pormenores que virão ao virar das trezentas e cinquenta páginas que o compõem. Pálida ideia do que a realidade nos oferecerá. Em contrapartida, as badanas de capa pouco adiantam ao texto que acompanham. Limitam-se a dar visibilidade aos pareceres críticos lavrados na devida altura e por obrigação de ofício, pela rede fixa de mediadores de opinião às qualidades já premiadas da obra de estreia, a condicionarem os juízos de valor ainda por tecer daquela que mal acabei de abrir e tenho entre mãos. Marketing editorial a que já estamos habituados. 

O início da fábula é precedido por duas advertências ao leitor, que se podem resumir ao dito popular: os gatos não são para aqui chamados. O título do livro, ao que nos é dado observar, foi retirado duma frase/verso de Alexandre O'Neill, Poema do desamor. Primeiro exemplo duma intertextualidade explícita a que se seguirão muitos outros casos de referências literárias implícitas. Extratos das cantigas trovadorescas de escárnio e maldizer e do vernáculo vicentino da Trilogia das Barcas são fáceis de identificar. Provérbios, lengalengas, orações, pragas, esconjuros. A estrutura discursiva de base centra-se, todavia, nos relatos compilados por Bernardo Gomes de Brito na História trágico-marítima (1735-1736). As relações e notícias de naufrágios, de sucessos infelizes, e acontecidos aos navegadores portugueses nos mares das Índias e Américas dos séculos xvi e xvii são trasladados para os finais do xix com ato de presença nas costas brasileiras. Refere ainda a ficha técnica que a autora escreve de acordo com a antiga ortografia. Bem podia tê-lo feito ao modo do oitocentos que a inspirou, para dar um cunho mais verosímil ao discurso. Ficou-se pela fixação de preceitos e regras intermédios, numa tentativa vã de marcar a diferença, numa época como a nossa em que predomina a indiferença pura e dura.

Passados os prolegómenos e entrados no âmago dos eventos reportados, topamos com um pungente rosário de contas por benzer ou por contar, numa estrutura barroca tecida segundo os preceitos matriciais judaico-cristãos do sofrimento infligido e merecido. Novela de novelas cortesãs, enfiada de contos exemplares de percursos existenciais pouco edificantes dos sobreviventes da tempestade, calmaria, incêndio, rebelião e afundamento do navio clandestino de escravos. Alcançam uma praia isolada do mundo por altas falésias e uma extensão de areia que as marés farão submergir intermitentemente ao sabor das marés. Fome, sede, doença, febre, morte a pontuarem os dias e as noites. Cativeiro partilhado a contragosto por todos os companheiros de infortúnio, à semelhança dos danados do Huis Clos de Jean-Paul Sartre, condenados ao inferno dos outros. Todos são obrigados a conviver sem possibilidade de fuga. Uma mãe e uma filha, um capataz, um escravo, um criado, um padre, um menino e uma santa de pau carunchosa a iniciar a procissão de penitentes. Cada um deles a testemunhar memórias fragmentárias, recordações duma infância distante, lembranças dum tempo que já não é e à espera dum tempo que talvez seja.

Lidas as confissões, exames de consciência e contrições assumidas, os resistentes aos caprichos do destino são retratados de modo magistral pela entidade ficcional que lhes deu vida na mancha gráfica dum livro. Relação de relações composta com um virtuosismo verbal alucinante, magnífica na capacidade de dar vida à arte da escrita. Violenta como as águas tumultuosas do mar ou agreste como os ventos indomáveis das tempestades. Flashes da condição humana. Cruel, impiedosa, implacável, insensível, inelutável. Sonho dos deuses ou castigo dos homens de sonharem os deuses. Algo será. Entretanto, antecipemos a falência geral dos órgãos e sintamos os cheiro das rosas.

5 de outubro de 2017

Da coisa pública ou de um só

 CÂNDIDO DA SILVA (?) - LITOGRAFIA ALUSIVA À PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA (1910)

  República vs. Monarquia  


Faz 117 anos que a Monarquia multissecular lusitana (868-1910) de condes, duques, príncipes e reis foi substituída pela República dos presidentes. O princípio hereditário dos filhos-de-algo caiu por terra e o eletivo dos filhos-do-vulgo começou a ser testado desde então. A chefia do país perdeu o caráter vitalício feito à medida de um só para se subordinar à vontade de todos. O 5 de Outubro que hoje se celebra num feriado restaurado não é um número redondo nem bicudo. Representa o livre-arbítrio de escolher quem deve representar superiormente a res publica ou coisa  pública. 

Face aos recentes acontecimentos da Catalunha, pergunto-me se o divórcio conflituoso que separou as Coroas de Portugal e Castela em 1640 se teria resolvido com uma separação amistosa, caso Lisboa tivesse obedecido cegamente a Madrid. Se na altura tivéssemos seguido as orientações legalistas do Conde-Duque de Olivares, é bem certo que ainda hoje seríamos uma Monarquia subordinada aos Borbones hispânicos e aos ditames de Mariano Rajoy. Nem os Braganças lusitanos teriam ascendido ao poder no séc. xvii, nem sido substituídos pela República no séc. xx.

. Hola República. . Hola país nou . Hola EuropaAssim rezavam as bandeiras e os cartazes das arruadas de Barcelona. Uma nova República terá nascido na Catalunha. Um novo país terá ressurgido na Hispânia. Um novo estado terá emergido na Europa. A vontade já está estampada em forma de letra escrita e de palavra gritada em liberdade ao mundo. Hola llibertat. . Hola món. No dia em que se celebra o advento da coisa pública portuguesa contra a de um só, saúde-se o desejo referendado pela coisa pública catalã de mudar de paradigma. Que se diga: Adéu Borbó i hola República...

28 de setembro de 2017

Das autonomias & das independências

C A T A L U N Y A

  Senyera  Estelada  

Um estado-nação ou um estado de nações

«Es Cataluña la provincia más oriental de España, puesta por los romanos en la Citerior, después en la Tarraconense, nombre derivado a su tercera parte de la antigua ciudad de Tarragona, famosa en aquellas edades y ésta célebre por sus militares acontecimientos. De los pueblos celtas o celtíberos fue llamada Celtiberia, pero en siglos más próximos, entre godos y alanos, que la ocuparon, mudó el primero nombre, llamándose de las naciones dominantes Gotia Alania o Gocia Alonia, y agora Catalunia o Cataluña, obedeciendo a los tiempos en la variedad de los nombres en la del imperio.» 
Dom Francisco Manuel de Melo
Historia de los movimientos, separación y guerra de Cataluña (1465: I, 69)
A Espanha que nós conhecemos não é nem nunca foi um autêntico estado-nação. A união dinástica criada pelos soberanos das Coroas de Aragão e Castela (1469) nunca foi mais do que uma manta de retalhos ou um estado de nações distintas. Os reinos, domínios e senhorios governados a título pessoal pelos Reis Católicos nunca permitiram que se passasse de facto das Espanhas plurais dos Habsburgos austríacos para a singular dos Bourbons franceses.

Há mais de quinhentos anos que assim é. Portugal viu-se envolvido nessa teia hispânica de países que ia muito além dos limites físicos da península ibérica. A Monarquia Dual luso-castelhana (1580-1640) chegou ao fim quando deixou de fazer sentido. À falta dum referendo legal, apelou-se à força das armas. A Guerra da Restauração (1640-1668) repôs a soberania real perdida pelos Avis e a Sereníssima Casa de Bragança tomou com ambas as mãos as rédeas do poder.

A tentativa falhada do Principado da Catalunha de se libertar da alçada castelhana nessa mesma centúria de Seiscentos repetiu-se mais vezes nas seguintes. Saíram sempre goradas. As autonomias monárquicos e republicanos nunca igualaram as independências obtidas por outras parcelas do império espanhol. Um novo round Madrid-Barcelona está marcado para o primeiro dia de outubro. Só falta saber se findo o combate haverá um vencedor por knockout.

21 de setembro de 2017

Espelhismos reais a cores e a preto e branco

Pompeo Batoni,  D. João V de Portugal e Algarves (séc. xviii)
[Palácio Nacional da Ajuda - Lisboa]
Nem sempre rainha, nem sempre galinha
A RTP1 tem vindo a transmitir nas noites de quarta-feira uma série de pendor histórico com um número contado de episódios e fim à vista, baseada na figura de Madre Paula de Odivelas (1701-1768), mãe de um dos três Meninos da Palhavã e amante mais conhecida de Sua Majestade Fidelíssima D. João V, pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves (1689-1750; rei: 1706), cognominado o Grande ou o Magnânimo.

O mesmo canal de televisão pública portuguesa já fizera outro tanto com as duas primeiras temporadas das três já realizadas de Versailles, produzida pela BBC Two e centrada na história do mais famoso palácio real europeu da era barroca, residência e sede do poder político de Sa Majesté Très Chrétienne, Louis XIV, par la Grâce de Dieu, Roi de France et de Navarre (1638-1715; roi: 1643), dit le Grand ou le Roi-Soleil.

Muitas simetrias se têm apontado a estes monarcas absolutos, acusando-se o Bragança de ter imitado a magnificência efetiva ou de aparato do Bourbon. Miragens coloridas à parte, onde mais se espelharam foi nos affaires d'amour com monjas conventuais e cortesãs palacianas. Por algum motivo, o Rei-Sol Português ficou conhecido entre os seus súbitos pelos epítetos despetivos a preto e branco de Freirático e Mulherengo.

Ao que parece, faltava à rainha consorte austríaca a beleza que sobrava ao real consorte lusitano. Vendo-se preterida pelo marido, queixou-se ao confessor, que chamou o pecador à razão. O soberano ouviu-o e incumbiu o cozinheiro-mor de só servir galinha ao prelado. A repetição da dieta levou o capelão real a lamentar-se ao monarca. Este ter-lhe-á então dito: Pois é, senhor padre, nem sempre galinha, nem sempre rainha.

14 de setembro de 2017

Carlos Ruiz Zafón, o labirinto dos espíritos e a cidade dos espelhos ou das maravilhas

«El laberinto se alzaba frente a mí en un espejismo infinito. Una espiral de escalinatas, túneles, puentes y arcos tramados en una ciudad eterna construida con todos los libros del mundo ascendía hasta una inmensa cúpula de cristal.»
Carlos Ruiz Zafón, El laberinto de los espíritus, 2016
Enchi-me de coragem durante um ano escolar inteiro para viajar pelos derradeiros episódios da tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos de Carlos Ruiz Zafón. Cerca de nove meses, para ser mais exato. O tempo duma gestação completa com parto normal. Durante a primeira quinzena de agosto destas férias de verão, dediquei-me à leitura exclusiva das novecentas e tantas páginas d' O labirinto dos espíritos (2016). Ultrapassada a linha de meta da maratona, respirei fundo, pus o volumoso tomo que o alberga de lado e descansei um pouco para recobrar o fôlego das emoções de percurso. Imensas e intensas.

Quando no final d' O prisioneiro do céu (2011) se afirma que a história em vez de ter terminado mal havia começado, não duvidei um só instante da sua veracidade. Depois de ter seguido as peripécias em cadeia d' O jogo do anjo (2008) herdadas d' A sombra do vento (2001), não duvidei que assim fosse. Cheguei a pensar poder tratar-se de novos dados trazidos à intriga por Sofia Gispert, a última personagem a entrar em palco, rodeada de secretismo e promessa dum desenlace favorável ao destino familiar dos Sempere, livreiros da cidade condal e protagonistas da saga. Afinal era uma falsa pista. Uma manobra de diversão do autor ou inferência apressada do leitor. O fio condutor da narrativa é entregue a Alicia Gris, criatura de sombras, mulher fatal, animal urbano, pérfida, misteriosa, noturna, um pouco de tudo e um muito de nada, anjo e demónio, heroína e vilã. Tudo depende do ponto de vista da ficção, assente num conjunto de lances detetivescos insólitos, onde os policias-bandidos vão sendo eliminados um a um pelos marginais-justiceiros, num maniqueísmo feito de pernas para o ar. Robins dos Bosques de totalitarismos recentes, aqueles que atravessam a derradeira centúria do segundo milénio, revisitados pela vontade expressa da literatura intemporal.

O desenho estrutural dos quatro romances da série optam por uma solução de compromisso. Após ter oscilado entre os domínios do natural e do sobrenatural e de se ter insinuado na terra de ninguém da hesitação, o maravilhoso desfaz-se, o fantástico esclarece-se e o estranho instala-se. Os enigmas desaparecem e a fábula cumpre-se. Os géneros teóricos definidos por Tzvetan Todorov* encontram-se todos representados neste longo rosário novelesco de traçado neogótico, a meio caminho entre o amor/morte e o ódio/vida, o que, para todos os efeitos, quererá dizer mais ou menos o mesmo. Segue a técnica do folhetim ou da entrega periódica por fascículos. Quando se julga que os maus vão ser castigados e os bons premiados, volta tudo ao princípio. O desenlace há muito esperado terá de esperar por uma ocasião mais oportuna, chame-se ele conclusão, desfecho, termo, remate ou epílogo.

Os relatos obscuros de vida de Julian Carax, David Martín e Víctor Mataix, os autores obscuros de livros esquecidos, estão concluídos. O destino existencial de Juan, Daniel e Julian Sempere está traçado. As crónicas de Barcelona, a cidade dos malditos, dos mistérios e das sombras, abriram um período de pousio forçado. O labirinto dos espíritos, dos espelhos ou das maravilhas - imagem pálida e distante do país imaginado por Lewis Caroll para as Aventuras de Alice - inscreveu o derradeiro ponto final. O pano desceu de vez sobre a ribalta, traçando a fronteira inexorável entre a boca de cena e a plateia. Desconheço qual será o próximo projeto do grande artífice atual das letras catalãs. Tudo me leva a antecipar que se manterá fiel aos registos da escrita a que nos habituou neste último quarto de século. A sonoridade das palavras gravadas no papel sobrepor-se-á, de certeza, a todos os enredos gizados ao jeito dos filmes a preto e branco de Série B, com muitas pinceladas de loucura e cordura à mistura. Razão mais do que suficiente para correr a uma qualquer livraria do aquém ou além Guadiana, para adquirir os primeiros fascículos dessa nova série de folhetins de cordel, compilados num livro que talvez fale doutros livros e com entrega sazonal garantida.

NOTA
(*) Tzvetan Todorov, Introduction à la littérature fantastique, Paris, Le Seuil, 1970.

11 de setembro de 2017

A fúria fustigadora do ar

MÚSICA DAS ESFERAS

Robert Fludd,  Utriusque Cosmi, 1617

O terceiro elemento...

Dizem os manuais de geografia física que o vento é o ar em movimento. Dizem também que todos eles circulam sempre das altas para as baixas pressões. A direção que tomam, nos sentidos horário ou anti-horário, depende do hemisfério em que soprem, o Norte ou o Sul. Terão assim direito a integrar-se nas categorias genéricas dos Ciclones (B) e dos Anticiclones (A).

A intensidade com que se fazem sentir condiciona também a sua designação específica. Aragem, brisa, vendaval, tornado, tufão, furacão e outra vez ciclone. Os locais onde se formam conduz a um léxico eólico muito extenso. Áfrico, austro, gregal, levante, mistral, siroco, tramontana, zéfiro, para só referir aqueles que se formam na bacia mediterrânica nossa vizinha.

O ar é o único elemento primordial que não se deixa ver. É o mais misterioso dos quatro. Inspirador de mitos e lendas. Foi com um leve sopro que Iavé deu a Adão o dom divino da vida. Foi com um gesto protetor que Éolo encerrou num odre os ventos nocivos do regresso de Ulisses a Ítaca. Depois é o que se sabe. O Génesis e a Odisseia de Homero dão os pormenores.

Muito zangados estão os deuses com os homens. Muitos pecados terão cometido para merecer tais castigos. O Harvey ainda não tinha acabado de assolar as costas do Caribe mais as do Golfo e já se avistava no horizonte a força destrutiva do Irma e do José com o Katia à arreata, ciclones tropicais do Atlântico Norte com presença no catálogo do Centro Nacional de Furacões.

É um fartar vilanagem. A cólera dos imortais a fustigar os erros dos mortais é ilimitada. Os Senhores dos Ventos e das Chuvas, dos Incêndios e das Secas não têm descanso. Mandam titãs e titânides de todos os panteões a agitar o Ar, a entornar a Água, a atear o Fogo e a estancar a Terra. Estranha cobardia esta da prepotência divina de se vingar da fragilidade humana.

6 de setembro de 2017

Persistências em contracorrente


O tempo é o melhor juíz de todas as coisas, afirma o ditado popular com toda a razão que a cultura popular lhe costuma conceder. Por algum motivo se recorre sempre nestas ocasiões à sentença latina que diviniza cabalmente essa tal sabedoria imemorial, mãe de todas as ciências: Vox Populi, Vox Dei...

O Arthur d'Algarbe anda há três anos agora completados a contar histórias, pessoais e alheias, em contracorrente e com persistência. Histórias aos quadradinhos, com arte e com filmes. Histórias com história. Com livros, com música, com números, com palavras, com sentidos. Histórias de vida e de morte...

Histórias do tudo e do nada. Histórias em conta-corrente. Banhas-da-cobra. Diário-de-bordo. Conto-a-conto. Verso-a-verso. Extractus e faits divers. Livrarias & Livreiros. Mitos & Contramitos. Equinócios & Solstícios. Efemérides-Retóricas-Helénicas. Um diz que disse para todos os anuários. Agora e até ver...

1 de setembro de 2017

Espreguiçadeira, acessórios & C.ª

O render da guarda...

Não há bem que sempre dure...

Dei o descanso merecido à espreguiçadeira no canto do quintal, arrumei o guarda-sol do jardim junto aos de ir ver o mar, despedi-me da toalha de praia e dos calções de banho. Guardei o panamá de pano na mochila de verão e vou dar um uso moderado de fim de semana às camisetas estampadas e aos chinelos de enfiar.

Está na hora de substituir os trajes de repouso pelos de combate. Uniformes os dois. O do ócio e o do negócio. O de usar ao ar livre e o de vestir paredes adentro. Os que fazem os monges e os que os desfazem. Olhei para a mochila de inverno e juntei um ou outro livro de lazer aos do dever. Equilibrar assim as rotinas sazonais.

28 de agosto de 2017

Crónica estival duma bola-de-berlim

 BOLINHAS-DE-BERLIM 

Barquilheiros & Bolinheiros

Nas praias do oeste estremenho da minha infância e adolescência, gritava-se a plenos pulmões: Barquilheeeero, Bolacha Americana!... O pregão ecoava por entre as barracas de lona estampada com riscas coloridas. Aldeias de armar e desmontar todos os verões, com ruas de areia branca e vista para o mar azul.

Nas praias do sotavento algarvio das minhas maturidades pós-adolescentes, grita-se: Boliiiinhas, com creme sem creme, com alfarroba ou chocolate!... O pregão continua a ecoar por entre os guarda-sois garridos plantados a esmo ao longo da costa. Florestas estivais de abrir e fechar no areal à beira-mar.

Nas praias do sul pré-mediterrânico, começa a gritar-se: Saladiiiinhas de Fruta! O pregão ecoa solitário. Sem sucesso. A fruta come-se fresca em casa, a bolinha quente acabada de fritar. A bola-de-berlim continua rainha em terras republicanas. Mistérios gastronómicos dos sentidos que Pantagruel saberá explicar.