18 de outubro de 2017

Surrealismos duma admiração interrogativa

DISCUSSÃO

– Desconfio que a democracia não resulta. Juntam-se astronautas, bodes, camponeses, galinhas, matemáticos e virgens loucas e dão-se a todos os mesmos direitos. Isso parece-me um erro cósmico. Desculpa.
Desculpei mas fiquei ofendido. Que a democracia era aquilo mesmo, e ainda com conversa fiada como brinde, isso sabia eu. Que mo viessem dizer, era outra coisa. Fiquei ainda mais ofendido, até porque não gosto de erros cósmicos. Acho um snobismo.
– Eu sou democrático – rugi entre dentes, como resposta. – Tenho amigos no exílio, todos democráticos. Foram para lá por serem democráticos. É um sacrifício que poucos fazem, ir para o exílio e ser professor universitário exilado e democrático. Eras capaz de fazer isso?
– Não sou democrático.
Não havia resposta a dar. Nenhuma. Ele não era democrático, não sabia de democracia.
Eu sim, sou democrático, até quis ir à América, que me afirmaram que lá é que é a democracia. Recusaram-me o visto no passaporte, disseram que eu era comunista! Viram isto!?
Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic (1973)

12 de outubro de 2017

Ana Margarida de Carvalho: o céu dos pardais é a barriga dos gatos em cujos olhos se não pode morar

«Não são os deuses que dormem, nós é que os sonhamos...»
Ana Margarida de Carvalho, Não se pode morar nos olhos de um gato (2016)
Filha de peixe sabe nadar. As barbatanas da aprendiza a sulcarem as águas da escrita a milhas náuticas do pai. Habituei-me às braçadas vigorosas do Mário e sinto dificuldade de seguir as da Ana Margarida. O humor sarcástico e bem-disposto do Carvalho-pai a sobrepor-se ao horror demolidor e mal-encarado da Carvalho-filha. Registos diferentes com os quais a literatura se faz. Ou se gosta ou não se gosta. Desconheço meios termos possíveis. Iniciei-me estas férias de verão com um muito proverbial Não se pode morar nos olhos de um gato (2016). Não me deixou insensível. Cumpriu de modo eficiente e convincente a sua missão de semear tumultos, de alimentar alvoroços, de suscitar emoções.

A síntese da contracapa quase nos dispensa a leitura do romance. Quase que lhe adivinhamos os pormenores que virão ao virar das trezentas e cinquenta páginas que o compõem. Pálida ideia do que a realidade nos oferecerá. Em contrapartida, as badanas de capa pouco adiantam ao texto que acompanham. Limitam-se a dar visibilidade aos pareceres críticos lavrados na devida altura e por obrigação de ofício, pela rede fixa de mediadores de opinião às qualidades já premiadas da obra de estreia, a condicionarem os juízos de valor ainda por tecer daquela que mal acabei de abrir e tenho entre mãos. Marketing editorial a que já estamos habituados. 

O início da fábula é precedido por duas advertências ao leitor, que se podem resumir ao dito popular: os gatos não são para aqui chamados. O título do livro, ao que nos é dado observar, foi retirado duma frase/verso de Alexandre O'Neill, Poema do desamor. Primeiro exemplo duma intertextualidade explícita a que se seguirão muitos outros casos de referências literárias implícitas. Extratos das cantigas trovadorescas de escárnio e maldizer e do vernáculo vicentino da Trilogia das Barcas são fáceis de identificar. Provérbios, lengalengas, orações, pragas, esconjuros. A estrutura discursiva de base centra-se, todavia, nos relatos compilados por Bernardo Gomes de Brito na História trágico-marítima (1735-1736). As relações e notícias de naufrágios, de sucessos infelizes, e acontecidos aos navegadores portugueses nos mares das Índias e Américas dos séculos xvi e xvii são trasladados para os finais do xix com ato de presença nas costas brasileiras. Refere ainda a ficha técnica que a autora escreve de acordo com a antiga ortografia. Bem podia tê-lo feito ao modo do oitocentos que a inspirou, para dar um cunho mais verosímil ao discurso. Ficou-se pela fixação de preceitos e regras intermédios, numa tentativa vã de marcar a diferença, numa época como a nossa em que predomina a indiferença pura e dura.

Passados os prolegómenos e entrados no âmago dos eventos reportados, topamos com um pungente rosário de contas por benzer ou por contar, numa estrutura barroca tecida segundo os preceitos matriciais judaico-cristãos do sofrimento infligido e merecido. Novela de novelas cortesãs, enfiada de contos exemplares de percursos existenciais pouco edificantes dos sobreviventes da tempestade, calmaria, incêndio, rebelião e afundamento do navio clandestino de escravos. Alcançam uma praia isolada do mundo por altas falésias e uma extensão de areia que as marés farão submergir intermitentemente ao sabor das marés. Fome, sede, doença, febre, morte a pontuarem os dias e as noites. Cativeiro partilhado a contragosto por todos os companheiros de infortúnio, à semelhança dos danados do Huis Clos de Jean-Paul Sartre, condenados ao inferno dos outros. Todos são obrigados a conviver sem possibilidade de fuga. Uma mãe e uma filha, um capataz, um escravo, um criado, um padre, um menino e uma santa de pau carunchosa a iniciar a procissão de penitentes. Cada um deles a testemunhar memórias fragmentárias, recordações duma infância distante, lembranças dum tempo que já não é e à espera dum tempo que talvez seja.

Lidas as confissões, exames de consciência e contrições assumidas, os resistentes aos caprichos do destino são retratados de modo magistral pela entidade ficcional que lhes deu vida na mancha gráfica dum livro. Relação de relações composta com um virtuosismo verbal alucinante, magnífica na capacidade de dar vida à arte da escrita. Violenta como as águas tumultuosas do mar ou agreste como os ventos indomáveis das tempestades. Flashes da condição humana. Cruel, impiedosa, implacável, insensível, inelutável. Sonho dos deuses ou castigo dos homens de sonharem os deuses. Algo será. Entretanto, antecipemos a falência geral dos órgãos e sintamos os cheiro das rosas.

5 de outubro de 2017

Da coisa pública ou de um só

 CÂNDIDO DA SILVA (?) - LITOGRAFIA ALUSIVA À PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA (1910)

  República vs. Monarquia  


Faz 117 anos que a Monarquia multissecular lusitana (868-1910) de condes, duques, príncipes e reis foi substituída pela República dos presidentes. O princípio hereditário dos filhos-de-algo caiu por terra e o eletivo dos filhos-do-vulgo começou a ser testado desde então. A chefia do país perdeu o caráter vitalício feito à medida de um só para se subordinar à vontade de todos. O 5 de Outubro que hoje se celebra num feriado restaurado não é um número redondo nem bicudo. Representa o livre-arbítrio de escolher quem deve representar superiormente a res publica ou coisa  pública. 

Face aos recentes acontecimentos da Catalunha, pergunto-me se o divórcio conflituoso que separou as Coroas de Portugal e Castela em 1640 se teria resolvido com uma separação amistosa, caso Lisboa tivesse obedecido cegamente a Madrid. Se na altura tivéssemos seguido as orientações legalistas do Conde-Duque de Olivares, é bem certo que ainda hoje seríamos uma Monarquia subordinada aos Borbones hispânicos e aos ditames de Mariano Rajoy. Nem os Braganças lusitanos teriam ascendido ao poder no séc. xvii, nem sido substituídos pela República no séc. xx.

. Hola República. . Hola país nou . Hola EuropaAssim rezavam as bandeiras e os cartazes das arruadas de Barcelona. Uma nova República terá nascido na Catalunha. Um novo país terá ressurgido na Hispânia. Um novo estado terá emergido na Europa. A vontade já está estampada em forma de letra escrita e de palavra gritada em liberdade ao mundo. Hola llibertat. . Hola món. No dia em que se celebra o advento da coisa pública portuguesa contra a de um só, saúde-se o desejo referendado pela coisa pública catalã de mudar de paradigma. Que se diga: Adéu Borbó i hola República...

28 de setembro de 2017

Das autonomias & das independências

C A T A L U N Y A

  Senyera  Estelada  

Um estado-nação ou um estado de nações

«Es Cataluña la provincia más oriental de España, puesta por los romanos en la Citerior, después en la Tarraconense, nombre derivado a su tercera parte de la antigua ciudad de Tarragona, famosa en aquellas edades y ésta célebre por sus militares acontecimientos. De los pueblos celtas o celtíberos fue llamada Celtiberia, pero en siglos más próximos, entre godos y alanos, que la ocuparon, mudó el primero nombre, llamándose de las naciones dominantes Gotia Alania o Gocia Alonia, y agora Catalunia o Cataluña, obedeciendo a los tiempos en la variedad de los nombres en la del imperio.» 
Dom Francisco Manuel de Melo
Historia de los movimientos, separación y guerra de Cataluña (1465: I, 69)
A Espanha que nós conhecemos não é nem nunca foi um autêntico estado-nação. A união dinástica criada pelos soberanos das Coroas de Aragão e Castela (1469) nunca foi mais do que uma manta de retalhos ou um estado de nações distintas. Os reinos, domínios e senhorios governados a título pessoal pelos Reis Católicos nunca permitiram que se passasse de facto das Espanhas plurais dos Habsburgos austríacos para a singular dos Bourbons franceses.

Há mais de quinhentos anos que assim é. Portugal viu-se envolvido nessa teia hispânica de países que ia muito além dos limites físicos da península ibérica. A Monarquia Dual luso-castelhana (1580-1640) chegou ao fim quando deixou de fazer sentido. À falta dum referendo legal, apelou-se à força das armas. A Guerra da Restauração (1640-1668) repôs a soberania real perdida pelos Avis e a Sereníssima Casa de Bragança tomou com ambas as mãos as rédeas do poder.

A tentativa falhada do Principado da Catalunha de se libertar da alçada castelhana nessa mesma centúria de Seiscentos repetiu-se mais vezes nas seguintes. Saíram sempre goradas. As autonomias monárquicos e republicanos nunca igualaram as independências obtidas por outras parcelas do império espanhol. Um novo round Madrid-Barcelona está marcado para o primeiro dia de outubro. Só falta saber se findo o combate haverá um vencedor por knockout.

21 de setembro de 2017

Espelhismos reais a cores e a preto e branco

Pompeo Batoni,  D. João V de Portugal e Algarves (séc. xviii)
[Palácio Nacional da Ajuda - Lisboa]
Nem sempre rainha, nem sempre galinha
A RTP1 tem vindo a transmitir nas noites de quarta-feira uma série de pendor histórico com um número contado de episódios e fim à vista, baseada na figura de Madre Paula de Odivelas (1701-1768), mãe de um dos três Meninos da Palhavã e amante mais conhecida de Sua Majestade Fidelíssima D. João V, pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves (1689-1750; rei: 1706), cognominado o Grande ou o Magnânimo.

O mesmo canal de televisão pública portuguesa já fizera outro tanto com as duas primeiras temporadas das três já realizadas de Versailles, produzida pela BBC Two e centrada na história do mais famoso palácio real europeu da era barroca, residência e sede do poder político de Sa Majesté Très Chrétienne, Louis XIV, par la Grâce de Dieu, Roi de France et de Navarre (1638-1715; roi: 1643), dit le Grand ou le Roi-Soleil.

Muitas simetrias se têm apontado a estes monarcas absolutos, acusando-se o Bragança de ter imitado a magnificência efetiva ou de aparato do Bourbon. Miragens coloridas à parte, onde mais se espelharam foi nos affaires d'amour com monjas conventuais e cortesãs palacianas. Por algum motivo, o Rei-Sol Português ficou conhecido entre os seus súbitos pelos epítetos despetivos a preto e branco de Freirático e Mulherengo.

Ao que parece, faltava à rainha consorte austríaca a beleza que sobrava ao real consorte lusitano. Vendo-se preterida pelo marido, queixou-se ao confessor, que chamou o pecador à razão. O soberano ouviu-o e incumbiu o cozinheiro-mor de só servir galinha ao prelado. A repetição da dieta levou o capelão real a lamentar-se ao monarca. Este ter-lhe-á então dito: Pois é, senhor padre, nem sempre galinha, nem sempre rainha.

14 de setembro de 2017

Carlos Ruiz Zafón, o labirinto dos espíritos e a cidade dos espelhos ou das maravilhas

«El laberinto se alzaba frente a mí en un espejismo infinito. Una espiral de escalinatas, túneles, puentes y arcos tramados en una ciudad eterna construida con todos los libros del mundo ascendía hasta una inmensa cúpula de cristal.»
Carlos Ruiz Zafón, El laberinto de los espíritus, 2016
Enchi-me de coragem durante um ano escolar inteiro para viajar pelos derradeiros episódios da tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos de Carlos Ruiz Zafón. Cerca de nove meses, para ser mais exato. O tempo duma gestação completa com parto normal. Durante a primeira quinzena de agosto destas férias de verão, dediquei-me à leitura exclusiva das novecentas e tantas páginas d' O labirinto dos espíritos (2016). Ultrapassada a linha de meta da maratona, respirei fundo, pus o volumoso tomo que o alberga de lado e descansei um pouco para recobrar o fôlego das emoções de percurso. Imensas e intensas.

Quando no final d' O prisioneiro do céu (2011) se afirma que a história em vez de ter terminado mal havia começado, não duvidei um só instante da sua veracidade. Depois de ter seguido as peripécias em cadeia d' O jogo do anjo (2008) herdadas d' A sombra do vento (2001), não duvidei que assim fosse. Cheguei a pensar poder tratar-se de novos dados trazidos à intriga por Sofia Gispert, a última personagem a entrar em palco, rodeada de secretismo e promessa dum desenlace favorável ao destino familiar dos Sempere, livreiros da cidade condal e protagonistas da saga. Afinal era uma falsa pista. Uma manobra de diversão do autor ou inferência apressada do leitor. O fio condutor da narrativa é entregue a Alicia Gris, criatura de sombras, mulher fatal, animal urbano, pérfida, misteriosa, noturna, um pouco de tudo e um muito de nada, anjo e demónio, heroína e vilã. Tudo depende do ponto de vista da ficção, assente num conjunto de lances detetivescos insólitos, onde os policias-bandidos vão sendo eliminados um a um pelos marginais-justiceiros, num maniqueísmo feito de pernas para o ar. Robins dos Bosques de totalitarismos recentes, aqueles que atravessam a derradeira centúria do segundo milénio, revisitados pela vontade expressa da literatura intemporal.

O desenho estrutural dos quatro romances da série optam por uma solução de compromisso. Após ter oscilado entre os domínios do natural e do sobrenatural e de se ter insinuado na terra de ninguém da hesitação, o maravilhoso desfaz-se, o fantástico esclarece-se e o estranho instala-se. Os enigmas desaparecem e a fábula cumpre-se. Os géneros teóricos definidos por Tzvetan Todorov* encontram-se todos representados neste longo rosário novelesco de traçado neogótico, a meio caminho entre o amor/morte e o ódio/vida, o que, para todos os efeitos, quererá dizer mais ou menos o mesmo. Segue a técnica do folhetim ou da entrega periódica por fascículos. Quando se julga que os maus vão ser castigados e os bons premiados, volta tudo ao princípio. O desenlace há muito esperado terá de esperar por uma ocasião mais oportuna, chame-se ele conclusão, desfecho, termo, remate ou epílogo.

Os relatos obscuros de vida de Julian Carax, David Martín e Víctor Mataix, os autores obscuros de livros esquecidos, estão concluídos. O destino existencial de Juan, Daniel e Julian Sempere está traçado. As crónicas de Barcelona, a cidade dos malditos, dos mistérios e das sombras, abriram um período de pousio forçado. O labirinto dos espíritos, dos espelhos ou das maravilhas - imagem pálida e distante do país imaginado por Lewis Caroll para as Aventuras de Alice - inscreveu o derradeiro ponto final. O pano desceu de vez sobre a ribalta, traçando a fronteira inexorável entre a boca de cena e a plateia. Desconheço qual será o próximo projeto do grande artífice atual das letras catalãs. Tudo me leva a antecipar que se manterá fiel aos registos da escrita a que nos habituou neste último quarto de século. A sonoridade das palavras gravadas no papel sobrepor-se-á, de certeza, a todos os enredos gizados ao jeito dos filmes a preto e branco de Série B, com muitas pinceladas de loucura e cordura à mistura. Razão mais do que suficiente para correr a uma qualquer livraria do aquém ou além Guadiana, para adquirir os primeiros fascículos dessa nova série de folhetins de cordel, compilados num livro que talvez fale doutros livros e com entrega sazonal garantida.

NOTA
(*) Tzvetan Todorov, Introduction à la littérature fantastique, Paris, Le Seuil, 1970.

11 de setembro de 2017

A fúria fustigadora do ar

MÚSICA DAS ESFERAS

Robert Fludd,  Utriusque Cosmi, 1617

O terceiro elemento...

Dizem os manuais de geografia física que o vento é o ar em movimento. Dizem também que todos eles circulam sempre das altas para as baixas pressões. A direção que tomam, nos sentidos horário ou anti-horário, depende do hemisfério em que soprem, o Norte ou o Sul. Terão assim direito a integrar-se nas categorias genéricas dos Ciclones (B) e dos Anticiclones (A).

A intensidade com que se fazem sentir condiciona também a sua designação específica. Aragem, brisa, vendaval, tornado, tufão, furacão e outra vez ciclone. Os locais onde se formam conduz a um léxico eólico muito extenso. Áfrico, austro, gregal, levante, mistral, siroco, tramontana, zéfiro, para só referir aqueles que se formam na bacia mediterrânica nossa vizinha.

O ar é o único elemento primordial que não se deixa ver. É o mais misterioso dos quatro. Inspirador de mitos e lendas. Foi com um leve sopro que Iavé deu a Adão o dom divino da vida. Foi com um gesto protetor que Éolo encerrou num odre os ventos nocivos do regresso de Ulisses a Ítaca. Depois é o que se sabe. O Génesis e a Odisseia de Homero dão os pormenores.

Muito zangados estão os deuses com os homens. Muitos pecados terão cometido para merecer tais castigos. O Harvey ainda não tinha acabado de assolar as costas do Caribe mais as do Golfo e já se avistava no horizonte a força destrutiva do Irma e do José com o Katia à arreata, ciclones tropicais do Atlântico Norte com presença no catálogo do Centro Nacional de Furacões.

É um fartar vilanagem. A cólera dos imortais a fustigar os erros dos mortais é ilimitada. Os Senhores dos Ventos e das Chuvas, dos Incêndios e das Secas não têm descanso. Mandam titãs e titânides de todos os panteões a agitar o Ar, a entornar a Água, a atear o Fogo e a estancar a Terra. Estranha cobardia esta da prepotência divina de se vingar da fragilidade humana.

6 de setembro de 2017

Persistências em contracorrente


O tempo é o melhor juíz de todas as coisas, afirma o ditado popular com toda a razão que a cultura popular lhe costuma conceder. Por algum motivo se recorre sempre nestas ocasiões à sentença latina que diviniza cabalmente essa tal sabedoria imemorial, mãe de todas as ciências: Vox Populi, Vox Dei...

O Arthur d'Algarbe anda há três anos agora completados a contar histórias, pessoais e alheias, em contracorrente e com persistência. Histórias aos quadradinhos, com arte e com filmes. Histórias com história. Com livros, com música, com números, com palavras, com sentidos. Histórias de vida e de morte...

Histórias do tudo e do nada. Histórias em conta-corrente. Banhas-da-cobra. Diário-de-bordo. Conto-a-conto. Verso-a-verso. Extractus e faits divers. Livrarias & Livreiros. Mitos & Contramitos. Equinócios & Solstícios. Efemérides-Retóricas-Helénicas. Um diz que disse para todos os anuários. Agora e até ver...

1 de setembro de 2017

Espreguiçadeira, acessórios & C.ª

O render da guarda...

Não há bem que sempre dure...

Dei o descanso merecido à espreguiçadeira no canto do quintal, arrumei o guarda-sol do jardim junto aos de ir ver o mar, despedi-me da toalha de praia e dos calções de banho. Guardei o panamá de pano na mochila de verão e vou dar um uso moderado de fim de semana às camisetas estampadas e aos chinelos de enfiar.

Está na hora de substituir os trajes de repouso pelos de combate. Uniformes os dois. O do ócio e o do negócio. O de usar ao ar livre e o de vestir paredes adentro. Os que fazem os monges e os que os desfazem. Olhei para a mochila de inverno e juntei um ou outro livro de lazer aos do dever. Equilibrar assim as rotinas sazonais.

28 de agosto de 2017

Crónica estival duma bola-de-berlim

 BOLINHAS-DE-BERLIM 

Barquilheiros & Bolinheiros

Nas praias do oeste estremenho da minha infância e adolescência, gritava-se a plenos pulmões: Barquilheeeero, Bolacha Americana!... O pregão ecoava por entre as barracas de lona estampada com riscas coloridas. Aldeias de armar e desmontar todos os verões, com ruas de areia branca e vista para o mar azul.

Nas praias do sotavento algarvio das minhas maturidades pós-adolescentes, grita-se: Boliiiinhas, com creme sem creme, com alfarroba ou chocolate!... O pregão continua a ecoar por entre os guarda-sois garridos plantados a esmo ao longo da costa. Florestas estivais de abrir e fechar no areal à beira-mar.

Nas praias do sul pré-mediterrânico, começa a gritar-se: Saladiiiinhas de Fruta! O pregão ecoa solitário. Sem sucesso. A fruta come-se fresca em casa, a bolinha quente acabada de fritar. A bola-de-berlim continua rainha em terras republicanas. Mistérios gastronómicos dos sentidos que Pantagruel saberá explicar.

21 de agosto de 2017

Amin Maalouf, o périplo de Baldassare em busca do centésimo nome de Deus

« Dieu a-t-il un centième nom, caché, qui viendrait s'ajouter aux quatre-vingt-dix-neuf que nous connaissons ? S'il en a un, quel est-il ? Est-ce un nom hébreu ? un nom syriaque ? un nom arabe ? Comment le reconnaître si on le voyait dans un livre ou si on l’entendait ? Qui, par le passé, l’a connu ? Et quels pouvoirs ce nom confère-t-il à ceux qui le détiennent ? »
Amin Maalouf, Le périple de Baldassare (2000)
Quando os livros falam de livros, o prazer da leitura duplica, triplica, quadruplica ou eleva-se à enésima potência, consoante o número de títulos referidos, citados ou comentados. Amin Maalouf faz parte desse escol de criadores de heróis da imaginação, em que o universo da palavra escrita em páginas de papel preenche a malha gráfica de histórias contadas com histórias dentro, também elas por contar ou recontar, tantas vezes quantas o olhar ávido do leitor assim o reclamar. As peripécias andarilhas de percurso relatadas em O périplo de Baldassare (2000), Prix Jacques Audiberti-Ville d’Antibes, no ano da sua publicação, não fogem a esse desenho diegético de fino traço, onde os momentos de proveito e deleite se cruzam em cada etapa da viagem, para dar corpo à fábula e sentido ao discurso. 

Baldassare Embriaco, genovês do Oriente e negociante de curiosidades, confidencia às laudas dum diário pessoal repartido por quatro cadernos as razões que o levaram a encetar a recuperação dum livro lendário de Abou-Maher al-Mazandarani, A revelação do nome escondido, mais conhecido pela designação de O centésimo nome, aquele que daria a conhecer aos eleitos o verdadeiro nome de Deus, para juntar aos noventa e nove epítetos restantes de Al-ilah (Alá)registados no Alcorão. Fá-lo também na convicção de que assim garantiria a salvação dum mundo condenado inexoravelmente ao desaparecimento total. Redige-o em italiano codificado com carateres árabes, enquanto viaja pelos três continentes do Velho Mundo, como se se tratasse dum verdadeiro roteiro de bordo. Inicia o relato quatro meses antes do bíblico Ano da Besta e conclui-o no primeiro dia de 1667, passado o perigo prognosticado no décimo terceiro capítulo do Apocalipse de São João, quando o número cabalístico de 666 se transforma no de 1666. O final dos tempos estava previsto no derradeiro livro dos livros. As superstições da época assim o exigiam.

O ponto de partida do périplo anunciado no título do romance situa-se no medieval Senhorio de Gibelet (1104-1302), fundado por um familiar do protagonista-relator no âmbito das Cruzadas Cristãs à Terra Santa. Prossegue por terra e mar, em etapas de duração variável pela Síria e Cilícia, pelos montes de Taurus e planalto da Anatólia, estreito dos Dardanelos e ilha de Quios, navega nas águas do Egeu e do Mediterrâneo, Atlântico e Mancha, visita uma primeira vez Génova e dirige-se a Londres, com passagem por Minorca, Tânger, Lisboa e Amesterdão, para regressar de modo definitivo a Génova, de onde o seu avoengo Guilherme Embriaco partira 563 anos antes. O verdadeiro périplo de Baldassare, o histórico e o ficcionado, acabava de terminar. Pelo meio ficou um livro oferecido, vendido, procurado, perseguido, descoberto, perdido, recuperado. Aberto para a leitura, fechado para o entendimento. É que apenas os dignos teriam acesso à chave da sua decifração. Só a pureza dum novo Galaaz permitiria pronunciar o sagrado nome da divindade suprema dos três monoteísmos.

Lidos os livros, o real e o imaginado, o diarista apercebe-se das suas limitações de pecador para conhecer os desígnios do Senhor e desiste de o fazer. Apercebe-se, também, que as calamidades previstas para esse ano aziago se tinham limitado, grosso modo, ao Grande Incêndio de Londres, que lavrou de 2 a 5 de setembro de 1666. Parte da cidade de Carlos II Stuart e Catarina de Bragança foi engolida por um inferno de chamas, mas o resto do mundo ficou incólume à catástrofe. Sobreviveu. As profecias da extinção apocalíptica dos tempos ficaram adiadas sine die, e, com elas, as tentativas de renovação de fé dos arautos iluminados das três religiões do Livro: os Impacientes muçulmanos do Imã Escondido, o advento do Messias judaico Sabbatai Zevi, as histórias do futuro do jesuíta português António Vieira. As histórias com História dentro contadas à maneira de Amin Maalouf chegam ao fim quando já não há mais nada a registar nos cadernos de Baldassare Endriaco. O balanço da peregrinação encontrara o seu ponto final. O cronista por ter encontrado a paz, a harmonia e o amor há muito almejados. O romancista por ter outras histórias a contar noutros livros. Abramo-los nós leitores e vivamos as suas escritas com todo prazer garantido que as obras do autor nos habituaram a usufruir ou sigamos as sugestões de leitura aí registadas. Fico-me como os versos de Abou-l-Ala, o poeta cego de Maarra, contemporâneo das Cruzadas e crítico acérrimo de todas as verdades impostas pela força na Torah, no Alcorão e nos Envangelhos. Uma boa pesquisa a encetar neste final de férias grandes de verão em que tanto se tem falado de cruzamento de culturas, diálogo de civilizações e tolerância de crenças.      

16 de agosto de 2017

Charles Dumont: Non, je ne regrette rien

TIMBRES CHARLES DUMONT 2013

Rei morto, rei posto...

No dia em que Elvis Presley morreu, encontrava-me de férias em França, numa viagem que me levaria pelos diversos departamentos do antigo Duché de Bretagne. Soube da morte do rei do Rock and roll norte-americano pela rádio. O locutor de serviço lá lhe traçou uma breve resenha biodiscográfica acompanhada de algumas dos temas que o tornaram conhecido em todo o mundo. Na noite desse mesmo 16 de agosto de 1977, ouvi pela primeira vez a voz de Charles Dumont. The king is dead, long live the king.

O verão estava no auge e a estação balnear de La Baule vivia o seu festival anual. Instalara uma tenda de circo no areal da praia da Côte d'Amour. Cenário mais do que adequado para receber o rei da Chanson de Charme francesa. Iniciou o concerto com o Non, je ne regrette rien. Interpretou ao piano a canção que musicara em 1956, com letra de Michel Vaucaire, e que Edith Piaf gravaria em 1960. No dia em que a voz de Elvis Presley se calou, foi-me dado a conhecer a de Charles Dumont. Le roi est mort, vive le roi.

Quando o Pardal de Paris bateu asas e voou para outras paragens, o seu compositor preferido entrou em cena e começou a cantar todas as canções que lhe dedicara. Reinventou-as. Compôs outras. Muitas mais. Deu-lhes vida como poucos o saberiam fazer. Na noite do dia em que Charles Dumont se me revelou a reinterpretar a tal cantiga celebrizada por Edith Piaf, la chanteuse de guinguette et vedette de music-hall, apeteceu-me ouvi-lo de novo ao piano como há quatro décadas. AquiLa reine est morte, vive le roi.

5 de agosto de 2017

Ana Hatherly, o Mestre e a Discípula que andava à procura da Alegria

«O Mestre é um homem que aparece. Está-se sempre a rir e ri de tudo, mas diz: há coisas que a gente não deve querer. Em francês soava melhor: il y a des choses qu'il ne faut pas vouloir. [...] Porém a Discípula não gostava de rir nem tão pouco de chorar e é por isso que andava à procura da Alegria, já que essa devia excluir o riso e o choro.»
Ana Hatherly, O Mestre (1963)
Tenho entre mãos a versão definitiva do texto de estreia de Ana Hatherly na ficção, O Mestre (1963), dado à estampa pela Ulisseia-Babel em 1910. Li-o dum jato. Para trás ficaram os inúmeros prefácios, posfácios e comentários que acompanham esta 5.ª edição da novela. A introdução da autora e as leituras de Maria Alzira Seixo, Silvina Rodrigues Lopes, Simone Pinto Monteiro de Oliveira e José Carlos Barcellos ficaram para o fim. Com todo o respeito que esses nomes mais ou menos sonantes da crítica portuguesa e brasileira me merecem, reservei-me o privilégio de descobrir em primeira mão todos os meandros do relato sem interferências contaminantes de terceiros.

Lido e relido o livro em todas as suas componentes constitutivas, apercebi-me que os mestres d' O Mestre já disseram tudo ou quase tudo sobre as histórias do Mestre e da Discípula. Pouco ou nada terá ficado por dizer. Deixemos essas demonstrações do saber académico nos espaços impressos que lhe foram dedicados. Apetece, em contrapartida, pegar nos considerandos que a criadora disse sobre a obra criada. Ouvi-la através das palavras escritas foi como se a tivesse a ouvir de novo com as palavras ditas no período de tempo em que eu fui o discípulo e ela a mestre. Já me referi a esse momento decisivo da minha formação e fico-me portanto por aí no que ao assunto toca, o de Ana Hatherly entre os mestres...

Diz a mestre de mais duma década ao discípulo de escritas barrocas, de errâncias pícaras e bizantinas, caberem os diálogos-monólogos travados nessa invenção de situações verosímeis na categoria do realismo direto simbólico, centrado na dificuldade da comunicação humana. Afirma tê-lo feito sem recorrer aos expedientes usuais dos relatos surrealistas. Quem sou eu para duvidar. Agrega noutro passo da autointerpretação dos factos narrados tratar-se duma digressão programática pelos meandros do experimentalismo, movimento que dominaria o seu trabalho nas décadas de 60 e 70. Confessa depois, a concluir, entender toda a malha discursiva da fábula como uma máscara de si mesma. Discípula e mestre. Nem mais nem menos.

A voz que obscurece da Autora cala-se e cede a palavra ao Leitor para encontrar a Lição que ilumine os sentidos convocados pela Obra. Descobrir a tal Alegria que a Discípula procurava no Mestre. Só assim se entenderá. Os dez capítulos de fragmentos compostos em dez dias aí estão a desafiar a capacidade interpretativa de todos nós. Em termos pessoais, direi que o Mestre do romance curto ou conto longo não é a mestre que conheci na década de 90. Pelas mesmas razões, o discípulo da vida real não se confunde com a Discípula da vida imaginada nas páginas duma novela de filiação genérica imprecisa. É que os mestres e discípulos da Vida não se podem confundir com os mestres e discípulos dos Livros...

Arcádia (1963); Moraes (1976); Quimera (1995); 7 Letras (2006)

31 de julho de 2017

Ils disent que le temps mourra bientôt...

The court of Sayf al-Dawla, ruler of the Hamdanid dynasty, in the years before Al-Ma’arri’s birth

Morceaux d'un journal de 16655


Le 2 septembre 1665
On parle souvent du mal de mer, et rarement du mal des montures, comme s’il était moins dégradant de souffrir sur le pont d’un bateau que sur le dos mouvant d’une mule, d’un chameau ou d’un canasson.
C’est pourtant de cela que je souffre depuis trois jours, sans toutefois me résoudre à interrompre le voyage. Mais j’ai très peu écrit.
Nous avons atteint hier soir la modeste ville de Maarra, et c’est seulement à l’abri de ses murs à moitié écroulés que je me suis senti revivre, et que j’ai retrouvé le goût du pain.
Ce matin, j’étais partir flâner dans les ruelles marchandes, lorsque se produisit un incident des plus étranges. Les libraires d’ici ne m’avaient jamais vue, aussi ai-je pu les interroger sans détour au sujet du Centième Nom. Je n’ai récolté que des moues d’ignorance – sincère ou feinte, je ne sais. Mais devant la dernière échoppe, la plus proche de la grande mosquée, alors que je m’apprêtais à rebrousser chemin, un très vieux bouquiniste, à qui je n’avais encore pour placer un livre dans mes mains. Je l’ouvris au hasard, et – par une impulsion que je ne m’explique toujours pas – je me mis à lire à voix claire ces lignes sur lesquelles mes yeux étaient tombés en premier :
Ils disent que le Temps mourra bientôt
Que les jours sont à bout de souffle
Ils ont menti.
Il s’agit d’un ouvrage d’Abou-l-Ala, le poète aveugle de Maarra. Pourquoi cet homme l’a-t-il posé ainsi dans mes mains ? Pourquoi le livre s’est-il ouvert justement à cette page ? Et qu’est-ce qui m’a poussé à en faire lecture au milieu d’une rue passante ?
Un signe ? Mais quel est donc ce signe qui vient démentir tous les signes ?
J’ai acheté au vieux libraire son livre ; sans doute sera-t-il, au cours de ce voyage, le moins déraisonnable de mes compagnons.
[...]

Le 29 septembre 1665
Je butine de temps à autre quelques vers au hasard dans ce livre d’Abou-l-Ala, qu’un vieux libraire de Maarra posa dans mes mains il y a trois ou quatre semaines. Aujourd’hui, j’ai découverts ceux-ci :
Les gens voudraient qu’un imam se lève
Et prenne la parole devant une foule muette
Illusion trompeuse ; il n’y a pas d’autre imam que la raison
Elle seule nous guide de jour comme de nuit.
Je me suis empressé de les lire a Maïmoun, et nous avons eu, en silence, des sourires complices.
Un chrétien et un juif conduits sur le chemin du doute par un poète musulman aveugle ? Mais il y a plus de lumière dans ses yeux éteints que dans le ciel d’Anatolie.
Amin Maalouf, Le Périple de Baldassare (Paris : Grasset, 2000, pp. 62-63, 100)

28 de julho de 2017

Os fazedores mediáticos da realidade

JORNAIS VELHOS


O QUARTO PODER EM FORMATO IMPRESSO 

Aprendi a ler com as histórias aos quadradinhos d' O Primeiro de Janeiro. Antes de entrar na escola primária já tentava decifrar os sentidos escondidos das palavras registadas nos balões de fala e pensamento das BD, publicadas no caderno infantil com que o jornal diário do Porto brindava a criançada todos os domingos.

Quando aprendi a decifrar as legendas das vinhetas sem recurso às imagens desenhadas, já me tinha virado para outros diários da época. Pouco me recordo dessas leituras primeiriças. Lembro-me vagamente das «Lendas de Portugal» e d' «O é bom observador?», dos ora extintos O Século e Diário Popular. Parca memória.

Publiquei as minhas primeiras resenhas escritas nos suplementos literários do Diário de Lisboa e do Diário de Notícias. Tinha acabado de conhecer o universo romanesco de José Saramago e dediquei alguns parágrafos ao Memorial do Convento e Ao ano da morte de Ricardo Reis. Devo ter guardado alguma cópia algures por aí.

Por essa altura ainda me entretinha a ler de fio a pavio as páginas eruditas do Jornal de Letras. Fui seu assinante uma dezena de anos. Depois, cansei-me de vez dos elogios mútuos tecidos cada semana pelos membros residentes desse clube fechado da palmadinha nas costas, fazedores mediáticos encartados da república das letras.

Agora vou a banhos sem nenhum jornal debaixo do braço. O quarto poder impresso não seria uma boa companhia. Nem sequer para fazer um barquito de papel. Parto sem rádios, sem televisões, sem notícias on-line e leads armadilhados para formatar consciências. Vou em busca das notícias do dia-a-dia, com copyrigth pessoal e à la une.


24 de julho de 2017

Franz Kafka, o processo kafkiano de Josef K.

«Jemand mußte Josef K. verleumdet haben, denn ohne daß er etwas Böses getan hätte, wurde er eines Morgens verhaftet. Die Köchin der Frau Grubach, seiner Zimmervermieterin, die ihm jeden Tag gegen acht Uhr früh das Frühstück brachte, kam diesmal nicht. Das war noch niemals geschehen...
Ler todos os livros que é fundamental ler não é tarefa fácil que possa ser tida como uma pera doce. Muito longe disso. cumpri esse dever cultural com alguns deles e tenho alguns outros em fila de espera. Poucos dum lado, bastantes do outro. As obras-primas eleitas pelos especialistas preenchem um número razoável de títulos nem sempre coincidentes entre si. Não acertam quase nunca nessa triagem canónica, pondo em causa os propósitos académicos que os norteiam. Dispenso-me de revelar os já riscados ou a riscar dessas listagens de celebridades globais. Seria tornar pública uma lacuna pessoal e um ato de injustiça para todos eles. Confessar que em determinado momento escolhera uns em detrimento doutros. Fico-me com o que acabei de percorrer com o olhar neste preciso momento. Aquele que foi deixado manuscrito por Franz Kafka e impresso postumamente com o título de O processo (1925).

A passagem pelos labirintos processuais instaurados a Josef K. num tempo e num espaço imprecisos torna-se um empreendimento particularmente penoso. Esse terá sido com toda a probabilidade o principal objetivo do seu mentor real, o romancista e contista austro-húngaro de língua alemã, nascido em Praga no seio duma família judaica. Fazer-nos passar pelos mesmos trâmites existenciais do protagonista, encarnar a angústia por si sentida de se ter visto envolvido nas teias da justiça sem saber do que é acusado. Nunca o saberá. Nunca o saberemos. A oratória das autoridades envolvidas na inquirição judicial assenta âncora no mais completo nonsense. Confuso, ilógico, absurdo. O universo kafkiano estava inventado. Conceito que muitos usam sem ter lido uma única linha da escrita do autor que lhe deu origem, tal como ocorre com outros termos de utilização universal e quotidiana, com a sonoridade tonitruante de maquiavélico, sádico ou masoquista.

A páginas e linhas tantas, afirma-se que o processado julgara não ter entendido uma única palavra de todo o discurso proferido pelo advogado supostamente de defesa. Dificilmente seria possível reagir doutro modo. Essa também a impressão predominante que me assaltou enquanto tentava decifrar os sentidos escondidos em cada um dos fragmentos narrativos que dão corpo ao relato fragmentário que tinha entre mãos. Por vezes, lembrei-me do irracional onírico imaginado por Lewis Carroll para a Alice no país das maravilhas ou a Alice no outro lado do espelho. Essa sensação algo insólita desvaneceu-se rapidamente, quando os sonhos inofensivos da jovem inglesa se transformaram num pesadelo infindável do gerente bancário sem nacionalidade concreta revelada. O modus faciendi inquisitorial das ditaduras político-religiosas de todas as cores e feitios toma conta da ribalta. O imaginário eufórico do mundo infantil é ignorado. O real disfórico do mundo adulto é convocado. O espectável, o sensato e a ordem rendem-se aos ditames do imprevisível, do despropósito e da alienação.

Um dos mais influentes criadores da modernidade atual antecipou-se sem se dar conta de todos os movimentos que lhe deram origem. Surrealista, existencialista, simbolista. Libertou-se das exigências da lógica e da razão, documentou a falta de sentido da vida e da morte, equacionou a incoerência que pode assumir a linguagem humana. Inseriu-se de corpo e alma nos meandros da literatura do absurdo. Rompeu barreiras, abriu caminhos, partiu prematuramente. Deixou-nos os textos. Inacabados. Sem soluções de continuidade. Fechamos o livro que temos entre mãos com a sensação desagradável de vazio, de ter mergulhado no mais abissal dos abismos. De nos faltar o tudo para preencher o nada. Estranha sensação esta com que as histórias simuladas do faz-de-conta por vezes nos brindam para confrontar as histórias acontecidas do dia-a-dia.

Revela um artigo publicado recentemente ser uma obra de Kafka a mais representativa da literatura da República Checa. Não esta que tenho vindo a destacar, mas sim A metamorfose (1915), que continuo a desconhecer. O argumento é promissor. Fascinante mesmo. O absurdo é senhor e rei. Vou pensar muito seriamente se terei coragem suficiente que chegue para me atirar a mais este elefante sagrado das letras universais. Estou convencido que terei de esperar ainda algum tempo para o fazer...

21 de julho de 2017

Pilha de livros


Intermitências da espera...


Ao longo do ano são trazidos para casa e amontoados a um canto à espera de ser vistos com olhos de ler... 

De vez em quando sai um da fila de espera para ser tocado demoradamente com mãos de sentir...

Durante alguns dias de verão os restantes saem da sala de espera para apanhar ares noutras paragens...

Esta pilha de livros está de partida para o sol e o mar a repetir o ditado que quem espera sempre alcança...   

17 de julho de 2017

Mario Vargas Llosa: o sonho do celta, fantasias e quimeras

«Escuchó unos movimientos, rezos de los sacerdotes y, por fin, otra vez un susurro de Mr. Ellis pidiéndole que bajara la cabeza y se inclinara algo, please, sir. Lo hizo, y, entonces, sintió que le había puesto la soga alrededor del cuello. Todavía alcanzó a oír por última vez un susurro de Mr. Ellis: “Si contiene la respiración, será más rápido, sir”. Le obedeció.»
Mario Vargas Llosa, El sueño del celta (2010)
O problema das biografias literárias de personalidades históricas assenta no facto de já se conhecer, em linhas gerais, o alfa e o ómega dos percursos que traçaram em vida. Tudo deriva da notoriedade granjeada ao longo desse intervalo de tempo e que a memória dos homens tenha querido ou sabido preservar. O cronista só acrescenta pormenores verídicos à fábula e outorga um aparato estético ao discurso. Por vezes, enfatiza a faceta brilhante do herói, outras a sombria do anti-herói. Opções legítimas tomadas pelo autor de serviço em demanda do leitor ideal ou tido como tal.

Mario Vargas Llosa deixou-se seduzir pela figura controversa de Sir Roger Casement (1864-1916), diplomata britânico e nacionalista irlandês, revolucionário gaélico e humanista universal, patriota para uns e traidor para outros. Percorreu de ponta a ponta os relatórios públicos e diários secretos que nos deixou, centrou-se no combate sem tréguas sustido em três continentes em prol da liberdade dos povos colonizados e compôs uma interpretação pessoal dos acontecimentos a que deu a forma de romance. Chamou-lhe O sonho do celta (2010), apropriando-se do título homónimo dado pelo retratado a um longo e esquecido poema épico, escrito em 1906, sobre o passado mítico da Irlanda.

A ação inicia-se no cárcere londrino de Pentonville Prison, numa manhã chuvosa de abril de 1916, onde o condenado se manterá até à execução da pena capital por enforcamento, ocorrida cerca de três meses mais tarde. Os dias e as noites são ocupados num ajuste de contas constante enredado entre as sombras do passado e as luzes do presente, erigido em intermináveis monólogos interiores tecidos na mais profunda solidão e em escassos diálogos milimetricamente cronometrados com o carcereiro e uma ou outra rara visita que a severa e justiça de Jorge V lhe foi magnanimamente concedendo.

A organização novelesca faz-se também através da alternância deste bloco narrativo recente com um outro de eventos pretéritos, aquele que nos conduz à infância, juventude e maturidade do protagonista, repartido por três espaços cénicos maiores, onde o seu destino trágico se teceu e firmou: Congo, Amazónia e Irlanda. Em todos eles, denunciou os abusos das grandes potências contra os países subjugados, escudadas sempre no argumento de o fazerem em nome da civilização. Esclavagismo, tortura, exploração e genocídio são alguns dos meios utilizados para atingir os fins almejados. Na etapa africana, relatou as iniquidades cometidas por Leopoldo II da Bélgica no Estado Livre do Congo; na americana, as atrocidades praticadas pela Peruvian Rubber Company sobre os nativos peruanos; na europeia, a violação do direito à independência irlandesa por parte da Grã-Bretanha.

As batalhas travadas no hemisfério sul valeram-lhe o título de cavaleiro e as mais subidas distinções, as encetadas no hemisfério norte a destituição de todas as honrarias e a condenação à morte. A mão imperial que é pródiga a outorgar não vacila um único instante quando toca a despojar. Recorre a todos os expedientes disponíveis para levar a bom termo os altos interesses do estado. Os crimes humanitários revelados nas páginas oficiais do Blue Book são apagados e os desvios sexuais relatados nas páginas íntimas dos Black Diaries são divulgados.

Os perseguidores de êxitos fáceis na república das letras esfregariam as mãos de satisfação e explorariam até às raias do razoável um filão comercial tão auspicioso, sobretudo quando o erotismo divulgado roça a suspeita de pedofilia. Vargas Llosa não cometeu o duplo erro de branquear o perfil negro posto a nu nos escritos privados ou de o empolar desmesuradamente na textura narrativa. Refere-o com naturalidade e dá-lhe o peso relativo merecido. A seu ver, todas as pessoas são feitas de contradições. Casement não fugiria muito a esse destino de anjo e demónio, de herói e mártir. Depois nem precisava de ter vivido todas as obscenidades pestilentas que escreveu com o próprio punho. Bastava imaginar que as tinha vivido e passá-los para um papel que só ele leria. O ficcionista atesta, assim, que não existe perfeição ao cimo da terra e que, de quando em quando, temos de ser nós a fazer de juízes supremos para aferir com lisura e rigor o bem e o mal e decidir com isenção e eficácia os pequenos/grandes deslizes que nos definem como seres humanos plenos.

NOTA:
Quando a arte contar histórias alheias tecidas por Mario Vargas Llosa se cruza com as histórias pessoais vividas por Sir Roger Casement surge O sonho do celta, um testemunho histórico feito romance. Li-o e comentei-o há tempos no Pátio de Letras. Trago-o agora aqui para esta estante de livros, de fantasias e quimeras.