16 de agosto de 2017

Charles Dumont: Non, je ne regrette rien

TIMBRES CHARLES DUMONT 2013

Rei morto, rei posto...

No dia em que Elvis Presley morreu, encontrava-me de férias em França, numa viagem que me levaria pelos diversos departamentos do antigo Duché de Bretagne. Soube da morte do rei do Rock and roll norte-americano pela rádio. O locutor de serviço lá lhe traçou uma breve resenha biodiscográfica acompanhada de algumas dos temas que o tornaram conhecido em todo o mundo. Na noite desse mesmo 16 de agosto de 1977, ouvi pela primeira vez a voz de Charles Dumont. The king is dead, long live the king.

O verão estava no auge e a estação balnear de La Baule vivia o seu festival anual. Instalara uma tenda de circo no areal da praia da Côte d'Amour. Cenário mais do que adequado para receber o rei da Chanson de Charme francesa. Iniciou o concerto com o Non, je ne regrette rien. Interpretou ao piano a canção que musicara em 1956, com letra de Michel Vaucaire, e que Edith Piaf gravaria em 1960. No dia em que a voz de Elvis Presley se calou, foi-me dado a conhecer a de Charles Dumont. Le roi est mort, vive le roi.

Quando o Pardal de Paris bateu asas e voou para outras paragens, o seu compositor preferido entrou em cena e começou a cantar todas as canções que lhe dedicara. Reinventou-as. Compôs outras. Muitas mais. Deu-lhes vida como poucos o saberiam fazer. Na noite do dia em que Charles Dumont se me revelou a reinterpretar a tal cantiga celebrizada por Edith Piaf, la chanteuse de guinguette et vedette de music-hall, apeteceu-me ouvi-lo de novo ao piano como há quatro décadas. AquiLa reine est morte, vive le roi.

5 de agosto de 2017

Ana Hatherly, o Mestre e a Discípula que andava à procura da Alegria

«O Mestre é um homem que aparece. Está-se sempre a rir e ri de tudo, mas diz: há coisas que a gente não deve querer. Em francês soava melhor: il y a des choses qu'il ne faut pas vouloir. [...] Porém a Discípula não gostava de rir nem tão pouco de chorar e é por isso que andava à procura da Alegria, já que essa devia excluir o riso e o choro.»
Ana Hatherly, O Mestre (1963)
Tenho entre mãos a versão definitiva do texto de estreia de Ana Hatherly na ficção, O Mestre (1963), dado à estampa pela Ulisseia-Babel em 1910. Li-o dum jato. Para trás ficaram os inúmeros prefácios, posfácios e comentários que acompanham esta 5.ª edição da novela. A introdução da autora e as leituras de Maria Alzira Seixo, Silvina Rodrigues Lopes, Simone Pinto Monteiro de Oliveira e José Carlos Barcellos ficaram para o fim. Com todo o respeito que esses nomes mais ou menos sonantes da crítica portuguesa e brasileira me merecem, reservei-me o privilégio de descobrir em primeira mão todos os meandros do relato sem interferências contaminantes de terceiros.

Lido e relido o livro em todas as suas componentes constitutivas, apercebi-me que os mestres d' O Mestre já disseram tudo ou quase tudo sobre as histórias do Mestre e da Discípula. Pouco ou nada terá ficado por dizer. Deixemos essas demonstrações do saber académico nos espaços impressos que lhe foram dedicados. Apetece, em contrapartida, pegar nos considerandos que a criadora disse sobre a obra criada. Ouvi-la através das palavras escritas foi como se a tivesse a ouvir de novo com as palavras ditas no período de tempo em que eu fui o discípulo e ela a mestre. Já me referi a esse momento decisivo da minha formação e fico-me portanto por aí no que ao assunto toca, o de Ana Hatherly entre os mestres...

Diz a mestra de mais duma década ao discípulo de escritas barrocas, de errâncias pícaras e bizantinas, caberem os diálogos-monólogos travados nessa invenção de situações verosímeis na categoria do realismo direto simbólico, centrado na dificuldade da comunicação humana. Afirma tê-lo feito sem recorrer aos expedientes usuais dos relatos surrealistas. Quem sou eu para duvidar. Agrega noutro passo da autointerpretação dos factos narrados tratar-se duma digressão programática pelos meandros do experimentalismo, movimento que dominaria o seu trabalho nas décadas de 60 e 70. Confessa depois, a concluir, entender toda a malha discursiva da fábula como uma máscara de si mesma. Discípula e mestre. Nem mais nem menos.

A voz que obscurece da Autora cala-se e cede a palavra ao Leitor para encontrar a Lição que ilumine os sentidos convocados pela Obra. Descobrir a tal Alegria que a Discípula procurava no Mestre. Só assim se entenderá. Os dez capítulos de fragmentos compostos em dez dias aí estão a desafiar a capacidade interpretativa de todos nós. Em termos pessoais, direi que o Mestre do romance curto ou conto longo não é a mestre que conheci na década de 90. Pelas mesmas razões, o discípulo da vida real não se confunde com a Discípula da vida imaginada nas páginas duma novela de filiação genérica imprecisa. É que os mestres e discípulos da Vida não se podem confundir com os mestres e discípulos dos Livros...

Arcádia (1963); Moraes (1976); Quimera (1995); 7 Letras (2006)


31 de julho de 2017

Ils disent que le temps mourra bientôt...

The court of Sayf al-Dawla, ruler of the Hamdanid dynasty, in the years before Al-Ma’arri’s birth

Morceaux d'un journal de 16655


Le 2 septembre 1665
On parle souvent du mal de mer, et rarement du mal des montures, comme s’il était moins dégradant de souffrir sur le pont d’un bateau que sur le dos mouvant d’une mule, d’un chameau ou d’un canasson.
C’est pourtant de cela que je souffre depuis trois jours, sans toutefois me résoudre à interrompre le voyage. Mais j’ai très peu écrit.
Nous avons atteint hier soir la modeste ville de Maarra, et c’est seulement à l’abri de ses murs à moitié écroulés que je me suis senti revivre, et que j’ai retrouvé le goût du pain.
Ce matin, j’étais partir flâner dans les ruelles marchandes, lorsque se produisit un incident des plus étranges. Les libraires d’ici ne m’avaient jamais vue, aussi ai-je pu les interroger sans détour au sujet du Centième Nom. Je n’ai récolté que des moues d’ignorance – sincère ou feinte, je ne sais. Mais devant la dernière échoppe, la plus proche de la grande mosquée, alors que je m’apprêtais à rebrousser chemin, un très vieux bouquiniste, à qui je n’avais encore pour placer un livre dans mes mains. Je l’ouvris au hasard, et – par une impulsion que je ne m’explique toujours pas – je me mis à lire à voix claire ces lignes sur lesquelles mes yeux étaient tombés en premier :
Ils disent que le Temps mourra bientôt
Que les jours sont à bout de souffle
Ils ont menti.
Il s’agit d’un ouvrage d’Abou-l-Ala, le poète aveugle de Maarra. Pourquoi cet homme l’a-t-il posé ainsi dans mes mains ? Pourquoi le livre s’est-il ouvert justement à cette page ? Et qu’est-ce qui m’a poussé à en faire lecture au milieu d’une rue passante ?
Un signe ? Mais quel est donc ce signe qui vient démentir tous les signes ?
J’ai acheté au vieux libraire son livre ; sans doute sera-t-il, au cours de ce voyage, le moins déraisonnable de mes compagnons.
[...]

Le 29 septembre 1665
Je butine de temps à autre quelques vers au hasard dans ce livre d’Abou-l-Ala, qu’un vieux libraire de Maarra posa dans mes mains il y a trois ou quatre semaines. Aujourd’hui, j’ai découverts ceux-ci :
Les gens voudraient qu’un imam se lève
Et prenne la parole devant une foule muette
Illusion trompeuse ; il n’y a pas d’autre imam que la raison
Elle seule nous guide de jour comme de nuit.
Je me suis empressé de les lire a Maïmoun, et nous avons eu, en silence, des sourires complices.
Un chrétien et un juif conduits sur le chemin du doute par un poète musulman aveugle ? Mais il y a plus de lumière dans ses yeux éteints que dans le ciel d’Anatolie.
Amin Maalouf, Le Périple de Baldassare (Paris : Grasset, 2000, pp. 62-63, 100)

28 de julho de 2017

Os fazedores mediáticos da realidade

JORNAIS VELHOS


O QUARTO PODER EM FORMATO IMPRESSO 

Aprendi a ler com as histórias aos quadradinhos d' O Primeiro de Janeiro. Antes de entrar na escola primária já tentava decifrar os sentidos escondidos das palavras registadas nos balões de fala e pensamento das BD, publicadas no caderno infantil com que o jornal diário do Porto brindava a criançada todos os domingos.

Quando aprendi a decifrar as legendas das vinhetas sem recurso às imagens desenhadas, já me tinha virado para outros diários da época. Pouco me recordo dessas leituras primeiriças. Lembro-me vagamente das «Lendas de Portugal» e d' «O é bom observador?», dos ora extintos O Século e Diário Popular. Parca memória.

Publiquei as minhas primeiras resenhas escritas nos suplementos literários do Diário de Lisboa e do Diário de Notícias. Tinha acabado de conhecer o universo romanesco de José Saramago e dediquei alguns parágrafos ao Memorial do Convento e Ao ano da morte de Ricardo Reis. Devo ter guardado alguma cópia algures por aí.

Por essa altura ainda me entretinha a ler de fio a pavio as páginas eruditas do Jornal de Letras. Fui seu assinante uma dezena de anos. Depois, cansei-me de vez dos elogios mútuos tecidos cada semana pelos membros residentes desse clube fechado da palmadinha nas costas, fazedores mediáticos encartados da república das letras.

Agora vou a banhos sem nenhum jornal debaixo do braço. O quarto poder impresso não seria uma boa companhia. Nem sequer para fazer um barquito de papel. Parto sem rádios, sem televisões, sem notícias on-line e leads armadilhados para formatar consciências. Vou em busca das notícias do dia-a-dia, com copyrigth pessoal e à la une.


24 de julho de 2017

Franz Kafka, o processo kafkiano de Josef K.

«Jemand mußte Josef K. verleumdet haben, denn ohne daß er etwas Böses getan hätte, wurde er eines Morgens verhaftet. Die Köchin der Frau Grubach, seiner Zimmervermieterin, die ihm jeden Tag gegen acht Uhr früh das Frühstück brachte, kam diesmal nicht. Das war noch niemals geschehen...
Ler todos os livros que é fundamental ler não é tarefa fácil que possa ser tida como uma pera doce. Muito longe disso. cumpri esse dever cultural com alguns deles e tenho alguns outros em fila de espera. Poucos dum lado, bastantes do outro. As obras-primas eleitas pelos especialistas preenchem um número razoável de títulos nem sempre coincidentes entre si. Não acertam quase nunca nessa triagem canónica, pondo em causa os propósitos académicos que os norteiam. Dispenso-me de revelar os já riscados ou a riscar dessas listagens de celebridades globais. Seria tornar pública uma lacuna pessoal e um ato de injustiça para todos eles. Confessar que em determinado momento escolhera uns em detrimento doutros. Fico-me com o que acabei de percorrer com o olhar neste preciso momento. Aquele que foi deixado manuscrito por Franz Kafka e impresso postumamente com o título de O processo (1925).

A passagem pelos labirintos processuais instaurados a Josef K. num tempo e num espaço imprecisos torna-se um empreendimento particularmente penoso. Esse terá sido com toda a probabilidade o principal objetivo do seu mentor real, o romancista e contista austro-húngaro de língua alemã, nascido em Praga no seio duma família judaica. Fazer-nos passar pelos mesmos trâmites existenciais do protagonista, encarnar a angústia por si sentida de se ter visto envolvido nas teias da justiça sem saber do que é acusado. Nunca o saberá. Nunca o saberemos. A oratória das autoridades envolvidas na inquirição judicial assenta âncora no mais completo nonsense. Confuso, ilógico, absurdo. O universo kafkiano estava inventado. Conceito que muitos usam sem ter lido uma única linha da escrita do autor que lhe deu origem, tal como ocorre com outros termos de utilização universal e quotidiana, com a sonoridade tonitruante de maquiavélico, sádico ou masoquista.

A páginas e linhas tantas, afirma-se que o processado julgara não ter entendido uma única palavra de todo o discurso proferido pelo advogado supostamente de defesa. Dificilmente seria possível reagir doutro modo. Essa também a impressão predominante que me assaltou enquanto tentava decifrar os sentidos escondidos em cada um dos fragmentos narrativos que dão corpo ao relato fragmentário que tinha entre mãos. Por vezes, lembrei-me do irracional onírico imaginado por Lewis Carroll para a Alice no país das maravilhas ou a Alice no outro lado do espelho. Essa sensação algo insólita desvaneceu-se rapidamente, quando os sonhos inofensivos da jovem inglesa se transformaram num pesadelo infindável do gerente bancário sem nacionalidade concreta revelada. O modus faciendi inquisitorial das ditaduras político-religiosas de todas as cores e feitios toma conta da ribalta. O imaginário eufórico do mundo infantil é ignorado. O real disfórico do mundo adulto é convocado. O espectável, o sensato e a ordem rendem-se aos ditames do imprevisível, do despropósito e da alienação.

Um dos mais influentes criadores da modernidade atual antecipou-se sem se dar conta de todos os movimentos que lhe deram origem. Surrealista, existencialista, simbolista. Libertou-se das exigências da lógica e da razão, documentou a falta de sentido da vida e da morte, equacionou a incoerência que pode assumir a linguagem humana. Inseriu-se de corpo e alma nos meandros da literatura do absurdo. Rompeu barreiras, abriu caminhos, partiu prematuramente. Deixou-nos os textos. Inacabados. Sem soluções de continuidade. Fechamos o livro que temos entre mãos com a sensação desagradável de vazio, de ter mergulhado no mais abissal dos abismos. De nos faltar o tudo para preencher o nada. Estranha sensação esta com que as histórias simuladas do faz-de-conta por vezes nos brindam para confrontar as histórias acontecidas do dia-a-dia.

Revela um artigo publicado recentemente ser uma obra de Kafka a mais representativa da literatura da República Checa. Não esta que tenho vindo a destacar, mas sim A metamorfose (1915), que continuo a desconhecer. O argumento é promissor. Fascinante mesmo. O absurdo é senhor e rei. Vou pensar muito seriamente se terei coragem suficiente que chegue para me atirar a mais este elefante sagrado das letras universais. Estou convencido que terei de esperar ainda algum tempo para o fazer...

21 de julho de 2017

Pilha de livros


Intermitências da espera...


Ao longo do ano são trazidos para casa e amontoados a um canto à espera de ser vistos com olhos de ler... 

De vez em quando sai um da fila de espera para ser tocado demoradamente com mãos de sentir...

Durante alguns dias de verão os restantes saem da sala de espera para apanhar ares noutras paragens...

Esta pilha de livros está de partida para o sol e o mar a repetir o ditado que quem espera sempre alcança...   

17 de julho de 2017

Mario Vargas Llosa: o sonho do celta, fantasias e quimeras

«Escuchó unos movimientos, rezos de los sacerdotes y, por fin, otra vez un susurro de Mr. Ellis pidiéndole que bajara la cabeza y se inclinara algo, please, sir. Lo hizo, y, entonces, sintió que le había puesto la soga alrededor del cuello. Todavía alcanzó a oír por última vez un susurro de Mr. Ellis: “Si contiene la respiración, será más rápido, sir”. Le obedeció.»
Mario Vargas Llosa, El sueño del celta (2010)
O problema das biografias literárias de personalidades históricas assenta no facto de já se conhecer, em linhas gerais, o alfa e o ómega dos percursos que traçaram em vida. Tudo deriva da notoriedade granjeada ao longo desse intervalo de tempo e que a memória dos homens tenha querido ou sabido preservar. O cronista só acrescenta pormenores verídicos à fábula e outorga um aparato estético ao discurso. Por vezes, enfatiza a faceta brilhante do herói, outras a sombria do anti-herói. Opções legítimas tomadas pelo autor de serviço em demanda do leitor ideal ou tido como tal.

Mario Vargas Llosa deixou-se seduzir pela figura controversa de Sir Roger Casement (1864-1916), diplomata britânico e nacionalista irlandês, revolucionário gaélico e humanista universal, patriota para uns e traidor para outros. Percorreu de ponta a ponta os relatórios públicos e diários secretos que nos deixou, centrou-se no combate sem tréguas sustido em três continentes em prol da liberdade dos povos colonizados e compôs uma interpretação pessoal dos acontecimentos a que deu a forma de romance. Chamou-lhe O sonho do celta (2010), apropriando-se do título homónimo dado pelo retratado a um longo e esquecido poema épico, escrito em 1906, sobre o passado mítico da Irlanda.

A ação inicia-se no cárcere londrino de Pentonville Prison, numa manhã chuvosa de abril de 1916, onde o condenado se manterá até à execução da pena capital por enforcamento, ocorrida cerca de três meses mais tarde. Os dias e as noites são ocupados num ajuste de contas constante enredado entre as sombras do passado e as luzes do presente, erigido em intermináveis monólogos interiores tecidos na mais profunda solidão e em escassos diálogos milimetricamente cronometrados com o carcereiro e uma ou outra rara visita que a severa e justiça de Jorge V lhe foi magnanimamente concedendo.

A organização novelesca faz-se também através da alternância deste bloco narrativo recente com um outro de eventos pretéritos, aquele que nos conduz à infância, juventude e maturidade do protagonista, repartido por três espaços cénicos maiores, onde o seu destino trágico se teceu e firmou: Congo, Amazónia e Irlanda. Em todos eles, denunciou os abusos das grandes potências contra os países subjugados, escudadas sempre no argumento de o fazerem em nome da civilização. Esclavagismo, tortura, exploração e genocídio são alguns dos meios utilizados para atingir os fins almejados. Na etapa africana, relatou as iniquidades cometidas por Leopoldo II da Bélgica no Estado Livre do Congo; na americana, as atrocidades praticadas pela Peruvian Rubber Company sobre os nativos peruanos; na europeia, a violação do direito à independência irlandesa por parte da Grã-Bretanha.

As batalhas travadas no hemisfério sul valeram-lhe o título de cavaleiro e as mais subidas distinções, as encetadas no hemisfério norte a destituição de todas as honrarias e a condenação à morte. A mão imperial que é pródiga a outorgar não vacila um único instante quando toca a despojar. Recorre a todos os expedientes disponíveis para levar a bom termo os altos interesses do estado. Os crimes humanitários revelados nas páginas oficiais do Blue Book são apagados e os desvios sexuais relatados nas páginas íntimas dos Black Diaries são divulgados.

Os perseguidores de êxitos fáceis na república das letras esfregariam as mãos de satisfação e explorariam até às raias do razoável um filão comercial tão auspicioso, sobretudo quando o erotismo divulgado roça a suspeita de pedofilia. Vargas Llosa não cometeu o duplo erro de branquear o perfil negro posto a nu nos escritos privados ou de o empolar desmesuradamente na textura narrativa. Refere-o com naturalidade e dá-lhe o peso relativo merecido. A seu ver, todas as pessoas são feitas de contradições. Casement não fugiria muito a esse destino de anjo e demónio, de herói e mártir. Depois nem precisava de ter vivido todas as obscenidades pestilentas que escreveu com o próprio punho. Bastava imaginar que as tinha vivido e passá-los para um papel que só ele leria. O ficcionista atesta, assim, que não existe perfeição ao cimo da terra e que, de quando em quando, temos de ser nós a fazer de juízes supremos para aferir com lisura e rigor o bem e o mal e decidir com isenção e eficácia os pequenos/grandes deslizes que nos definem como seres humanos plenos.

NOTA:
Quando a arte contar histórias alheias tecidas por Mario Vargas Llosa se cruza com as histórias pessoais vividas por Sir Roger Casement surge O sonho do celta, um testemunho histórico feito romance. Li-o e comentei-o há tempos no Pátio de Letras. Trago-o agora aqui para esta estante de livros, de fantasias e quimeras.

13 de julho de 2017

A agenda semanal do confessor

Sante Scaldaferri

Deus e o Diabo na Terra do Sol

(1995)

Era uma vez um vigário...

Num lugar que ninguém sabe, pela praia ou pelo mato, pela ilha ou pela terra, era uma vez um vigário. Era uma vez a freguesia desse vigário, era uma vez sua igreja, era uma vez o povo que nesse sítio morava, onde havia muitas beatas e muita gente misseira e benigna. O vigário, antes da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar. Depois da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar, e então o padre não fazia outra coisa que cuidar das desobrigas daquele povo carolo. Aí o padre pensou, pensou, pensou e chegou num resultado, que foi fazer por escrito um ror de coisas, ror esse que preparou para ler na missa. Quando chegou a missa, o padre pegou do ror e leu da seguinte maneira: minhas prezadas devotas, povo desta freguesia, já estou ficando velho e cansado e não tenho mais tempo e sustança para tanta confissão todo dia. Por isso que doravante vamos obedecer à seguinte disposição, que eu mesmo pensei muito bem pensado e escrevi muito bem escrito, estando tudo muito bem ajuizado: no domingo, eu confesso as preguiçosas e as que não têm asseio; na segunda, as que furtam e as que mentem; na terça, as que bebem; na quarta, as que enganam o marido ou pecam ao contubérnio; na quinta, as crocas e as maldizentes; na sexta, as feiticeiras, as mandingueiras e as treiteiras; no sábado, as comilonas e as invejosas. Que quando o vigário terminou de dizer isso, ninguém disse nada na hora, mas toda a gente se olhou assim, e daquele dia em diante não teve mais beata que quisesse confissão naquela freguesia e o vigário descansou à larga com seu bom vinho de missa, pé de pato mangalô três vez.

João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro (1984)

10 de julho de 2017

A punição divina da água...

FOUR ELEMENTS, SEASONS AND ZODIAC

Miniature from a english medieval manuscript (Séc. XI)

O segundo elemento...

Afirmam os mitos etiológicos dos grandes sistemas religiosos ter o homem sido criado pela vontade divina de converter estátuas de argila em seres vivos e cientes da sua própria existência. O processo ter-se-á efetuado pela mistura bem dosada dos quatro elementos primordiais: terra, água, ar e fogo. Esta a convicção ameríndia tupi-guarani, africana nagô-ioruba, mesopotâmica assírio-babilónica ou bíblica judaico-cristã.

A relação entre mortais e imortais nem sempre se mostrou pacífica. O Deus do Génesis fartou-se da iniquidade humana e derramou sobre a terra toda a água que cabia num dilúvio universal. Só se salvou quem coube na Arca de Noé: patriarca e família, animais e plantas atuais. A história hebraica seria o eco distante duma outra suméria mais antiga protagonizada por Atrahasis, o supersábio da Epopeia de Gilgamesh.

Corre na Net um vídeo promocional a alertar para a chegada eminente dum tsunami que engolirá toda a Península Ibérica. A vinda é certa. Só não se sabe a data. Dá pelo nome de La gran ola | A grande onda, foi realizado por Fernando Arroyo e alerta para os perigos que a conjugação explosiva dos fenómenos naturais com a ação do homem na prospeção de hidrocarbonetos nas costas de Portugal e Espanha.

O alerta está lançado. Amarelo, laranja, vermelho roxo. De todas as cores. Em tempo de seca severa e no rescaldo dos incêndios, só mesmo a profecia científica dum maremoto apocalíptico. Punitivo. Depois do castigo divino do fogo a punição divina da água. Eucaliptos e petróleo convertidos em bodes expiatórios de todas as catástrofes. Algo de errado haverá nesses seres de barro moldados à imagem e semelhança dos deuses.

5 de julho de 2017

Do básico ao essencial...

Passando a palavra para que não se perca no tempo...

LIVROS RTP

Em 6 de novembro de 1970 ainda me encontrava a frequentar no ICL um curso que não me levaria a lado nenhum. Nesse mesmo dia e ano, logo pela manhã, adquiri num quiosque do largo de Camões o primeiro exemplar da «Biblioteca Básica Verbo - Livros RTP», pela módica quantia de 15$00. Tratava-se da Maria Moisés, um conto de Camilo Castelo Branco, e vinha acompanhado a título de oferta do segundo volume da coleção, Cem obras-primas da pintura europeia. Ainda os guardo na minha estante pessoal de livros de bolso e de todos os tamanhos adquiridos ao longo dos tempos.

Em 2016, passado quase meio século sobre esse lançamento editorial inédito, surgiu no mercado livreiro a coleção «Essencial RTP - Leya». O tamanho reduzido foi substituído pelo normal, continuando a manter-se um preço acessível às bolsas menos recheadas. Por apenas 10€00 mensais, o leitor poderá aceder a algumas das obras de referência da literatura contemporânea. Desconfio que o sucesso semanal alcançado na primeira iniciativa esteja longe de ser alcançado, a ponto de esgotar edições ou atingir os números astronómicos de vendas medidos aos milhões.

O meu contributo para atingir essas cifras colossais é modesta. Acedi a uma dezena de relatos da série inicial e a um único da atual. A frequência da FL exigiu-me edições alternativas e a viagem pelo universo das letras levou-me ao encontro dos textos entretanto publicados. É possível que nos próximos meses me deixe cativar por um ou outro que me suscite uma vontade imperiosa de visitar. Quem sabe se nesta passagem do básico ao essencial não toparei o tal livro da minha vida. Quizá o último que terei entre mãos, à falta de tempo para mais aventuras de demanda do inefável.


28 de junho de 2017

Crónicas da aldeia e cenas da vida do Porto de Júlio Dinis

INCIPITS
José das Dornas era um lavrador abastado, sadio, e de uma tão feliz disposição de génio, que tudo levava a rir; mas desse rir natural, sincero, e despreocupado que lhe fazia bem, e não do rir dos Demócritos de todos os tempos — rir cético, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar.
Entre os súbditos da rainha Vitória, residentes no Porto, ao começar a segunda metade do século dezanove, nenhum havia mais benquisto e mais obsequiado, e poucos se apontavam como mais fleumáticos e genuinamente ingleses, do que Mr. Richard Whitestone.
Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuíno dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
A tradição popular em Portugal, nos assuntos de história pátria, não se remonta além do período da dominação árabe nas Espanhas. [...] Esta mesma noção histórica do povo é a que dá lugar à outro frequente facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palácio, um solar de família, distinto dos edifícios comuns por uma qualquer particularidade arquitetónica mais saliente, ouvireis no sítio designá-lo por nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda aí memória da sua fundação, a crónica lhe assinalará infalivelmente, como data, a lendária e misteriosa época dos Mouros.
Diz-me uma memória antiga ter sido por volta dos meus dez anos de existência pacata numa pequena cidade estremenha que li pela primeira vez, de fio a pavio, uma obra completa de ficção. Terei sido influenciado pelo visionamento duma versão cinematográfica homónima, transmitida pela RTP, muito provavelmente na rubrica 7.ª Arte, que ia para o ar todas as noites de terça-feira, apresentada pelo cineasta Fernando Garcia. A história contada a preto-e-branco pelas imagens em movimento do celuloide foi confrontada com o cor-de-rosa da história desenhada com letras de molde nas páginas do romance. Depois de me ter deliciado a ouvir cantar as canções do filme realizado por Leitão de Barros em 1935, passei a interpretá-las também eu na presença dos versos inseridos por Júlio Dinis n' As pupilas do senhor reitor, divulgados em folhetim no Jornal do Porto em 1866 e lançados em livro em 1867. Ainda hoje os sei trautear sem grande esforço de execução lírica das coplas, xácaras, quadras e cantigas, musicadas todas elas ao gosto popular.

A lembrança longínqua que guardo desse encontro permanece muito viva nos faits-divers de recorte literário ocorridos num tempo declaradamente pretérito, os tais que têm pautado de modo persistente a minha incursão de décadas pelos universos criativos que lhe dão forma. Voltei ao seu convívio no momento em que se celebram os 150 anos da sua publicação, com toda a discrição envergonhada a que o nosso meio cultural nos habituou. Aproveitei a boleia e pus-me a reler o painel completo pintado à pena por Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871), o médico que enquanto escritor ficou conhecido pelo pseudónimo de Júlio Dinis. Retirei os quatro volumes da estante e entrei na sua intimidade com o mesmo empenho com que o fizera nos meus tempos de menino e moço. Edições antigas que nunca quis substituir, dadas à estampa pela Livraria Civilização do Porto, pela fabulosa quantia de 15$00 em formato cartonado. Encontrei-as com a natural patine que a sua vetusta idade lhes foi impiedosamente outorgando.

Parece-me desnecessário trazer para aqui os argumentos de cada um dos títulos que compõem o corpus romanesco visitado. O melhor é mesmo arregaçar as mangas, pôr as mãos à obra e ler os originais em modo impresso ou digitalizado. Dizem os entendidos da matéria tratar-se de textos que fizeram a passagem das estéticas românticas para as realistas, incorporando-os na categoria genérica dos romances de consciência e de caráter, decalcadas no modelo oitocentista no recorte inglês de George Eliot, Thakeray, Dickens e Jane Austen ou no francês de Balzac. Assim será, mas pouco importa para o caso. A entidade criadora limitou-se a integrá-los em duas categorias registadas no campo dos subtítulos: a «Crónica da Aldeia» (Pupilas, Morgadinha e Fidalgos) e «Cenas da vida do Porto» (Família). Nada mais. Um naturalismo rústico e urbano a contar episódios povoados por heróis-heroínas coetâneos da época em que foram idealizados e tanto agradaram ao público a que se destinavam. Paradigmáticos na sua função lúdica e pedagógica de exemplaridade formativa.

Os excessos da novela passional de Camilo Castelo Branco são ignorados pela estrutura sentimental preconizada pelo jovem romancista, que o substitui na preferência dos leitores da geração que o viu nascer e morrer. Apresenta-nos um universo de seres que desprezam a maldade do mundo e se convertem ao lado positivo da vida. Os protagonistas casam-se sempre no final do livro, sem terem de passar pelo crivo apertado dos triângulos amorosos e paixões cruzadas, pelos efeitos devastadores da tísica e a companhia indesejada de corujas e ciprestes, pelo ambiente lúgubre dos cemitérios visitados à meia-noite e pelos esqueletos abraçados até à eternidade num túmulo conjugal do além. Os lances macabros são substituídos por um ambiente de conto infantil sem fadas madrinhas ou almas do outro mundo. Há nas Pupilas uma madrasta má que se redime antes de dar o último suspiro. Há também na Família uma gata borralhenta que é levada ao altar por um quase-príncipe, depois dum lenço perdido num baile ter facilitado o reconhecimento e o tal happy-end exigido nos relatos tradicionais de transmissão oral. Simples, eficiente e a dispensar mais palavras para explicar o êxito do modelo, numa altura em que a Questão Coimbrã do Bom Senso e Bom Gosto (1865) daria lugar às Conferências Democráticas do Casino Lisbonense (1871). O caminho para as sucessivas Modernidades dos séculos XIX e XX estava definitivamente aberto.

24 de junho de 2017

O espião moscovita disfarçado de garrafa de gin


INTERVALO

Sobe ordenou o senador Spiralgold ao seu piloto privativo.
O helicóptero zumbiu e tomou altura, oscilando levemente.
Acelera! disse apressado o senador para o piloto atento.
O piloto carregou no botão. O fundo abriu-se e o senador Spiralgold esbor-rachou-se no solo, com eficácia.
Coisas que acontecem comentou para o piloto o espião moscovita dis-farçado de garrafa de gin.
Mário-Henrique Leiria, Contos do gin-tonic (1973)
Obs.:
No primeiro sábado do verão, que dizem ser o Dia Nacional do Gin Tónico...

21 de junho de 2017

Verões de festa e alegria

ESTATE

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

O dia mais longo depois da noite mais curta

O verão é a estação do ano por que todos ansiamos enquanto du-ram as restantes. Aos outonos da prosperidade e decadência, aos invernos do recolhimento e reflexão e às primaveras da pureza e re-novação, sucedem os estios da festa e alegria. É o triunfo do dia sobre a noite, da luz sobre as trevas, do cosmos sobre o caos.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) representa-o como Vertumno. Atribui-lhe as feições joviais da divindade etrusca que promovia a mudança da vegetação e a maturação dos frutos. A alcachofra eleita como emblema simboliza a regeneração da vida e a ressu-rreição dos mortos, porque volta a florescer depois de queimada.

Nas guerras sem trégua de gato e rato, de alecrim e manjerona ou do ser e parecer, as estéticas maneiristas dizem-nos que no final da refrega nunca há vencedores nem vencidos absolutos. Equinócios e solstícios saem sempre empatados. As mesmas horas, os mesmos minutos, os mesmos segundos de claros-escuros anuais.

18 de junho de 2017

José Saramago e as desconcertantes errâncias de Caim pelo mundo

«A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.»
José Saramago, Caim (2009)
Caim (2009) de José Saramago não é uma obra maior. Os tripulantes da barcarola voadora e da jangada de pedra, os levantados do chão e assediados do cerco de Lisboa, os sumidos no ano da morte aí estão a impedi-lo. Estará, talvez, ao nível dum Salomão, o tal elefante quinhentista em trânsito terrestre entre Lisboa e Viena de Áustria. Também não é, decididamente, uma obra menor. O estilo inconfundível do autor nunca o permitiria. Está lá todo. Cada vez mais pujante. Só que nos conta histórias muito antigas, sabidas e ressabidas, desgastadas pelo uso e abuso que têm sido alvo no decorrer dos últimos dois / três últimos milénios.

Polémicas à parte, o romance mais não faz do que revisitar o livro dos livros e tentar reduzir ao absurdo a lógica ancestral ali coligida, à luz dos conhecimentos atualmente postos à nossa disposição. A ideia dum deus cruel e vingativo, engendrado pelo imaginário coleti-vo dos inventores de mitos que conduziram ao monoteísmo, é dis-secada pela instância narrativa, como se tivesse sido criada pelas mentes sofisticadas dos nossos dias. O resultado afigura-se-nos um pouco frustrante.
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A gesta ficcionada de Caim quase se confunde com as fortunas e adversidades dos andarilhos marginais que a inventiva castelhana dos séculos dourados pôs à disposição de todos nós. Oriundo de uma linhagem caída na desgraça (Adão e Eva), este protótipo bíblico de pícaro malfadado desenvolve um processo de ciúmes pelo irmão mais novo (Abel) e mata-o. Marcado na testa com o estigma do Senhor, é obrigado a encetar uma ininterrupta peregrinação pelo mundo, o que lhe proporcionará uma longa e penosa aprendizagem das tragédias da vida, ou, se preferirmos, das intermitências da morte. Transformado por força de circunstâncias mal apuradas num viajante involuntário do tempo, de deslocar consigo o presente da sua existência, ora para a frente ora para trás, o ilustre proscrito é levado a testemunhar alguns dos episódios mais sangrentos do Génesis e do Êxodo, que nunca se coíbe de comentar e criticar.

Protegido uma ou outra vez com oportunos nomes de empréstimo (Abel e Noah) e entregue a providenciais atividades laborais de subsistência (agricultor, pisador de barro, porteiro, ajudante de alveitar, rastreador, cuidador de burros), dedica-se à ingrata tarefa de recolher a prova irrefutável da profunda maldade do senhor. Adão e Eva são expulsos do jardim do Éden só por terem querido saber distinguir o bem do mal, votando todos os descendentes ao anátema do pecado original. Caim tira a vida a Abel, mas em contrapartida dá um filho a Noah, engravidando-lhe a mulher Lilith. Consegue salvar a vida de Isaac, impedindo Abraão de o sacrificar ao altíssimo, mas não obtém o perdão do Senhor, também conhecido como Deus.

A imprudência divina de criar o homem e a mulher à sua imagem e semelhança terá sido o maior erro da sua eterna presença. Depois, intentou emendar essa distração, massacrando a torto e a direito culpados e inocentes, para grande espanto de Caim. Em desespero de causa, tenta afogar toda a população terrestre, incumbindo Noé de fundar uma nova era na história da humanidade e dos restantes seres viventes. Caim não permitirá que o erro se volte a repetir. Enfrenta o Senhor e derrota-o em todas as frentes, conseguindo o estatuto de herói que os anti-heróis pícaros clássicos nunca lograram obter. O exemplo do amo celestial tinha-lhe servido de suprema e eficientíssima lição. É a morte que dá verdadeiramente sentido à vida.

José Saramago terá cometido a ingenuidade de ler a Bíblia em sentido próprio, de a ter reduzido a um mero rosário de relatos fabulosos que o mais elementar bom senso remete para o universo dos sentidos figurados. A própria Igreja aconselha esta fuga em frente. Mas, ao fazê-lo, a versão do romancista acaba por ser tão válida como qualquer outra. A qualidade literária tem muito pouco a ver com o sagrado. A efabulação termina com a frase lapidar: A história acabou, não haverá nada mais que contar. Conhecendo o autor como conhecemos, duvidamos que essa decisão seja de fiar. Bem vistas as coisas, os leitores só têm a lucrar com uma tal eventualidade.

NOTA:
No dia em que José Saramago cumpriu a sua peregrinação por esta vida, lembrei-me de trazer aqui o texto que compus há sete anos e picos sobre Caim e tornei público no Pátio de Letras, pretexto para reler o derradeiro romance que nos legou.

16 de junho de 2017

A aliança das rosas

ALIANÇA ANGLO-PORTUGUESA
[16 de junho de 1373]
Prato de porcelana da Vista Alegre comemorativo do 600.º aniversário

Ambas as coisas...

A Fábrica de Porcelana da Vista Alegre produziu em 1973 um prato comemorativo do 600.º aniversário da mais antiga aliança diplomáti-ca do mundo, assinada em 16 de junho de 1373, em Westminster, em nome de D. Fernando I de Portugal e de Eduardo III de Inglater-ra. Está decorado com as armas reais das casas de Borgonha e Plantageneta, e os atuais brasões da República Portuguesa e do Reino Unido, sobre fundo azul e ouro. Faz-se ainda acompanhar dum dístico elucidativo da efeméride e de duas rosas heráldicas identificativas dos dois soberanos, a branca do bisneto da Rainha Santa Isabel e a vermelha do avô da Rainha Filipa de Lencastre.

O tratado estabelecido pelas duas coroas frutificaria ao longo dos séculos, para proveito mútuo das partes envolvidas. As rivalidades com Castela, pela soberania dos tronos peninsulares, ou com Fran-ça, pela hegemonia dos impérios globais, levaria ao reforço desse acordo. Entre todos, destacam-se os tratados de Windsor (1386) e Methuen (1703). Pelo meio, ficaram os pactos acordados pelas ca-sas de Bragança e Stuart, aquando da Guerra de Restauração (1640-1668). À luz das relações luso-britânicas, viver-se-á o Blo-queio Continental (1806-1814). À sua sombra, o Mapa Cor-de-Rosa desencadeará a humilhação portuguesa do Ultimato Inglês (1890).

Todas as rosas têm espinhos. As da paz e as da guerra. El-rei D. Fernando I, o Formoso ou o Inconstante, enquadra-se bem neste conceito. Tanto assinava tratados de amizade como os rasgava de seguida. Manteve a palavra com Inglaterra, quebrou-a com Castela. Esta caráter bipolar é confirmado na sentença que dá alma ao cor-po da divisa Cur non untrunque, pedida emprestada a Santo Agos-tinho (Confissões: xii, 32). «Por que não ambas as coisas?». Ser brando com uns e duro com outros. Estar bem com Deus e com o Diabo. Por um qualquer motivo, lembrei-me do Brexit. Sair da Euro-pa e ficar na Europa. Ubiquidade britânica que o tempo esclarecerá.

10 de junho de 2017

Falar a língua em que se mamou...

Samuel Usque
Consolação às tribulações de Israel
Ferrara, 1553


Prologo

Algũs  ſeñores  quiſerom dizer antes que
ſoubeſem  minha  razam, que fora milhor
auer cõpoſto  em  lingoa  caſtelhana, mas
eu  creo que niſſo nam errey, porque ſen-
do o  meu principal  yntento falar cõ Por
tugheſes e repreſentando a  memoria  de-
ſte  noſſ deſterro  buſcarlhe  per  muitos
meos  e  longo  rodeo,  algum  aliuio aos
trabalhos  que  nelle  paſſamos,  deſconue
niente  era  fugir da  lingua que mamey e
buſcar outra preſtada per a falar aos meus
naturais; E  dado  caſo  que  A  volta ou-
ue muitos do desterro de Caſtela,
e os meus paſſado a daly ajam
ſido, mais razaõ parece
que tenha agora co
nta com o pre-
ſente e
ma-
yor can-
tida-
de.

CONSOLACAM AS TRIBVLACOENS DE ISRAEL 
COMPOSTO POR SAMVEL VSQVE.

NOTA:
Assim se ortografava no tempo de Samuel Usque, assim se ortografava também no tempo de Luís de Camões, assim se demonstra deter cada tempo os seus usos de ortografar a língua que se mamou na infância...