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Georges Moustaki, Le Métèque (1969) |
Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents Avec mes yeux tout délavés qui me donnent l'air de rêver, moi qui ne rêve plus souvent. Avec mes mains de maraudeur, de musicien et de rôdeur qui ont pillé tant de jardins. Avec ma bouche qui a bu, qui a embrassé et mordu sans jamais assouvir sa faim.
Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec de voleur et de vagabond. Avec ma peau qui s'est frottée au soleil de tous les étés et tout ce qui portait jupon. Avec mon cœur qui a su faire souffrir autant qu'il a souffert sans pour cela faire d'histoires. Avec mon âme qui n'a plus la moindre chance de salut pour éviter le purgatoire.
Avec ma gueule de métèque, de juif errant, de pâtre grec et mes cheveux aux quatre vents. Je viendrai ma douce captive, mon âme sœur, ma source vive, je viendrai boire à tes 20 ans. Et je serai prince de sang, rêveur ou bien adolescent comme il te plaira de choisir.
Et nous ferons de chaque jour toute une éternité d'amour que nous vivrons à en mourir.
Em algum momento da sua chegada a Paris, em 1951, Giuseppe Mustacchi, Yussef Mustacchi, Ζωρζ Μουστακ ou Georges Moustaki (Alexandria, 1933 - Nice, 2013) terá sido apelidado de «meteco», nome dado em Atenas aos estrangeiros residentes na cidade e por extensão xenófoba aos imigrantes instalados em França. As suas origens judaico-italo-gregas, nado num país árabe, terão contribuído para esse epíteto que inspiraria uma canção evocativa do termo em 1969, tornando-o num dos compositores-autores-intérpretes de maior sucesso da sua geração.
Dizem que escrever um bestseller é fácil, o difícil é escrever vários. Duvido que assim seja, mas, se assim fosse, também seria possível expandir esta máxima para outras artes criativas, como a música. Quem compuser um sucesso discográfico dificilmente comporá um segundo. De qualquer modo, em nenhum dos casos se poderá garantir que a quantidade de livros ou discos vendidos ande de mão dadas com a qualidade de cada um deles por si só. As obras-primas não se fazem a metro nem se tropeça com nenhuma delas ao virar da esquina.
O primeiro grande sucesso de Georges Moustaki tem a duração de 2.29min, tempo mais do que suficiente para compor e interpretar uma autodescrição em três estrofes e um refrão, cantada e musicada, a que deu o título sugestivo de Le métèque (1969). Seguiram-se-lhe muitos outros hits discográficos nos diversos cantos da aldeia global, mas este manteve-se sempre o seu verdadeiro cartão de visita, aquele que muito provavelmente abrira caminho para se naturalizar francês em 1985, aquele que há muito obtivera o estatuto de cidadão do mundo.
Meio século e picos após os primeiros acordes versificados, ainda nos apetece trautear, cantarolar, assobiar e ouvir à exaustão a voz melodiosa daquele judeu errante e pastor grego, de rosto exótico, olhos desbotados e cabelo ao vento. E assumir depois como nossas aquelas mãos de saqueador, músico e vagabundo, senhores duma pele que roçou o sol de todos os verões e sermos também nós outros tantos príncipes de sangue, sonhadores e adolescentes, para fazer de cada dia uma eternidade de amor e assim vivermos na máxima plenitude.

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