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25 de fevereiro de 2026

Olhar da Pietà de São Pedro em Roma olhada por Michelangelo Buonarroti

Michelangelo, Pietà, 1497-1499
[Basilica di San Pietro,Città del Vaticano]
OLHARES DA ARTE
«Não sabes tu ‒ dizia ele a Ascanio Condivo ‒ que as mulheres castas se conservam muito mais frescas que as que não são castas? Quanto mais, por conseguinte, uma virgem que jamais teve o menor desejo imodesto a perturbar--lhe o corpo. Não te espantes pois, ‒ concluiu Miguel Ângelo ‒ se por tais razões, representei a Santíssima Virgem, Mãe de Deus, muito mais jovem do que a sua idade exigia e deixei ficar o filho com a sua própria idade.»
Gilles Néret, Miguel Ângelo, Köln, Taschen, 2000

Entramos na Basílica de São Pedro na Cidade do Vaticano e o nosso olhar é logo conquistado pelo esplendor inebriante do classicismo moderno. A totalidade das manifestações renascentistas, maneiristas e barrocas está reunido no maior edifício religioso do cristianismo católico para quem a quiser olhar de frente, de lado e de trás, para cima e para baixo, em todas as direções que o nosso olhar abarque. Olhamos e somos olhados de todos os cantos e recantos postos ao dispor do nosso olhar.

Num desses recessos obstruído pelos olhares perscrutadores duma multidão de romeiros devotos e turistas curiosos, o nosso olhar coletivo vira-se para a Pietà que Miguel Ângelo Buonarroti esculpiu em mármore de Carrara para o Cardeal Jean Bilhères de Lagranlas nos finais do século XV. O grande mestre florentino tinha então 23 anos e mereceu desde logo o apodo de Il Divino. A sua obra-prima inaugural foi colocada inicialmente em Santa Petronila e transferida em 1519 para São Pedro. 

Ali terá sido olhada um sem-número de vezes pelo obreiro entre 1546-1564, período em que continuou e/ou adaptou à sua maneira os planos arquitetónicos gizados por Donato Bramante, Giuliano da Sangallo e Filippo Brunelleschi para o complexo basilical maior da Santa Sé. Deu-lhe em grande parte, nesses derradeiros dezoito anos da sua longa e profícua vida o aspeto final com que a olhamos nos dias de hoje, tanto na sua magnificência da sua volumetria exterior como na do seu interior.

Olhamos para Cristo deitado nos joelhos da Virgem e notamos que nem um nem outro olha ou pode olhar para quem o está a olhar. Voltamos a olhar uma e outra vez e apercebemo-nos da extrema juventude da Mãe face ao ar envelhecido do Filho. A discrepância foi explicada pelo seu artífice, garantindo que só assim poderíamos olhar para a divindade de Maria perante o corpo humano de Jesus feito Deus. Voltamos a olhar e percebemos que a Arte tem, de facto, outras formas bem distintas de olhar. 

Michelagniolo - Michelangelo
[Grafia toscana antiga]

4 de junho de 2025

Olhar & Observar

                        IL SOFFITO DELLA CAPELLA SISTINA IN VATICANO                        
Quando sei a Roma, fai come i romani...

Quando passei de corrida por Roma, não entrei no Coliseu, não vi o Papa, e não visitei a Capela Sistina. Desisti de integrar a fila compacta que me separava cerca de 1,5km dos museus vaticanos e não sei quantas horas para concretizar o ingresso. Depois, não senti um apelo urgente para ver o Sumo Pontífice numa janelinha minúscula da Praça de São Pedro ou para entrar no Anfiteatro Flaviano dos combates de gladiadores, escravos e criminosos mil.  

A falta de tempo para visitar a totalidade dos monumentos papais e imperiais levou-me a selecionar apenas alguns e a virar-me em contrapartida para os exteriores. Deambulei pelos recintos abertos ao público do Vaticano, o mais pequeno estado do mundo; entrei na Basílica de São Pedro e admirei tudo aquilo que havia para ver; Percorri as ruas e ruelas da cidade das sete colinas ou talvez mais. Fui romano entre os romanos. Ecco in poche parole la situazione!

Para olhar e observar devidamente as histórias pintadas por Miguel Ângelo na abóbada e altar da Capela Sistina duas maneiras possíveis. Uma resulta desde logo inviável de realizar, por pressupor esvaziar o recinto das multidões de turistas que o visitam dia a dia e ter os meios necessários para vencer a distância que separa o nosso olhar dos frescos a observar. A outra, mais pragmática, sugere-nos recorrer à ajuda duma boa edição impressa da obra. Foi o que eu fiz.

Com uma edição da Taschen entre mãos, afiro a vantagem de olhar e observar as inúmeras cenas bíblicas, separadas do imenso painel central, lunetas laterais e cantos de esquina ali reunidas a não sei quantos metros do chão ou do monumental Juízo Final colocado ali à frente do nosso raio de visão. Destacar qualquer uma delas seria uma missão votada ao fracasso, máxime porque todas as demais sairiam injustiçadas e, lá diz o ditado, la vita è breve e l'arte è lunga.

23 de maio de 2025

Quatro onças de ouro anuais pelo reconhecimento papal dum reino

Assinatura de Afonso Henriques na Carta de Couto mosteiro de Tibães 

«Por isso, eu, Afonso, pela graça de Deus Rei de Portugal, prestei homenagem ao Papa, meu Senhor e Pai, nas mãos do Cardeal diácono D. Guido, Legado da Sé Apostólica. Constituo, pois, a minha terra  como censual de S. Pedro e da Santa Igreja de Roma, com o tributo anual de quatro onças de oiro, e disponho de todos quantos, depois da minha morte, obtiverem desta terra, paguem anualmente o mesmo censo a S. Pedro.»
Carta Claves Regni, de D. Afonso Henriques a Inocêncio II (13.12.1143)
«Em seguida, na verdade, tanto por cartas tuas, como intermédio de nosso venerável irmão João, Arcebispo de Braga, prometeste-nos também que tanto tu como os teus herdeiros haveis de pagar anualmente da mesma terra quatro onças de ouro ao Pontífice Romano.»
Carta Devotiam tuam, de Lúcio II a D. Afonso Henriques (1.05.1144)
Para significar que o referido reino pertence a S. Pedro, determinaste como testemunho de maior reverência pagar anualmente dois marcos de oiro a Nós e aos nossos sucessores. Cuidarás, por isso, de entregar, tu e os teus sucessores, ao Arcebispo de Braga pró tempore, o censo que a Nós e a nossos sucessores pertence.
Bula Manifestis probatum, deAlexandre III a D. Afonso Henriques (23.05.1179)

O rei morreu, viva o rei. Assim se dizia nas antigas monarquias e talvez se continue a dizer nas atuais. O mesmo se não pode dizer daquela que rege o mundo católico desde Roma. Entre a morte dum papa e a sua sucessão, há que realizar o obrigatório conclave cardinalício, sepultar solenemente o finado num local condigno do seu estatuto secular/espiritual, esperar a saída do fumo branco da chaminé da Capela Sistina, ouvir o anúncio oficial do nome eleito e proceder ao entronamento do novo soberano com toda a pompa e circunstância exigida pelo protocolo tradicional do Vaticano.

O apelo ditado pela feira de vaidades exige, sem lugar a escusas, que os mais altos dignitários da aldeia global marquem presença nas cerimónias mediatizadas à escala planetária. Reis e rainhas, presidentes e cônjuges, príncipes e princesas juntaram-se na Praça de São Pedro e seguiram ao vivo e a cores a história a acontecer minuto a minuto. Os mais altos dignitários portugueses não faltaram à chamada. Deixaram o dia da Liberdade e o das Eleições para trás e lá se perfilaram ordenadamente nas filas hierárquicas definidas pelo protocolo para serem vistos urbi et orbi.

O Presidente da República dum estado laico e respeitador de todos credos, como o nosso, justificou a presença com os seculares laços de amizade atestado pela Santa Sé para com a terra portucalense, reconhecida em 1179 como Reino soberano. Conversa fiada, dado que os documentos então lavrados nos dizem que a independência nacional passou a custar ao erário público a quantia anual de quatro onças de ouro, o que, ao câmbio moderno, daria algo como 12.000 €. Uma bagatela, mas, mesmo assim, bastante longe desse tal altruísmo esperado da Igreja de Cristo. 

5 de maio de 2025

Del conclave del collegio cardinalizio e dalla fumata bianca all'habemus papam

L'Habemus Papam per l'elezione di Martino V, 1415
[Chronik des Ulrich Richental]
«... Pietro Spano, lo qual giù luce in dodici libelli...»
[Quarta Parte - Cielo del Sole: anime dei saggi, (XII, 45, 2-3)]

Rezam os anais vaticanos ter um dos diletos servos portugueses em Cristo ocupado o trono de São Pedro de 1276 e 1277, num total de 242 dias. Digamos que em 2000 anos de devir histórico se tratar dum número assaz parco. O 187.º Papa recebeu na pia batismal o nome de Pedro Julião, no mundo académico o de Pedro Hispano e no pontifício o de João XXI. Visitei o seu túmulo na catedral de São Lourenço em Viterbo, cidade que o elegera em conclave e o vira finar vítima dum desmoronamento no palácio apostólico onde então residia.

Vistas bem as coisas, se a um cidadão português nascido em Lisboa é dado o apelido de Hispano, o mesmo nos é lícito dizer dum Lusitano nascido em 305 na antiga Egitânia e atual Idanha-a-Velha. É verdade que, à época, a Civitas Igæditanorum ainda integrava a Província da Lusitânia do Império Romano, facto de modo algum impeditivo de considerarmos São Dâmaso como o mais antigo papa português, por ter vindo ao mundo num território nacional, aquele que exerceu as funções de 37.º Sumo Pontífice Católico de 364 a 384.

Um critério similar não podemos aplicar a Maurício Bourdin, eleito papa em 1118 pelos cardeais gibelinos afetos ao Sacro-Imperador Romano-Germânico Henrique V, com o nome de Gregório VIII, depois de ter exercido as funções de Bispo de Coimbra e Arcebispo de Braga, e sido o reorganizador do Condado Portucalense no tempo de Henrique de Borgonha. É que além de ser originário do Limousin, no Ducado da Aquitânia, acabou por ser destituído das suas funções pontifícias em 1121, sendo relegado para a categoria de antipapa.

Os 133 cardeais eleitores preparam-se para nomear em conclave o 269.º Papa da Igreja Católica, entre os quais se contam 4 portugueses aptos a ocupar a Sede Vacante. A chaminé mensageira do escrutínio já está colocada no telhado da Capela Sistina e os mirones habitais começam a colocar-se em lugares estratégicos para testemunhar a passagem da fumata nera para a bianca, conducente à proclamação solene do ritual habemus papam na varanda central da Basílica de São Pedro. A ver vamos, para que depois the show must go on.

EPÍGRAFE
«... Pedro Hispano, cujo espírito, na Terra, brilha nos seus doze livros...»
Dante Alighieri, Divina Comédia - Paraíso, 1321
[Quarta Parte - Céu do Sol: alma dos sábios. (XII, 45, 2-3)]

São Dâmaso I - Gregório VIII - João XXI | August Franzen, Breve História da Igreja

8 de abril de 2025

Academia de Platão & Escola de Atenas

Raffaello Sanzio, Scuola di Atene (c. 1509-1510)
[Pallazzo Apostolico, Stanza della Segnatura, Vaticano]

O triunfo do pensamento helénico...

No tempo em que os descendentes de Heleno andavam ainda a estabelecer os alicerces da cultura europeia, Platão reunia-se com os seus discípulos no jardim ou bosque sagrado de herói ático Academo, nos arredores de Atenas. Com eles e para eles, fundaria a Ἀκαδήμεια Πλάτωνος (c. 387AEC) que resistiria com saúde e bem de até à sua dissolução pelo Imperador Bizantino Justiniano I (529EC), i.e., cerca de 915 anos depois.

Ainda hoje existem na cidade onde nasceu vestígios da Academia Platónica, por onde passaram tantos vultos do pensamento filosófico grego. Visitei as ruínas que dela restam numas férias de verão e não vi a sombra de nenhum deles. Só os pude imaginar sentados lado a lado, ao redor do mestre. A ouvi-lo falar com um e outro sobre as mais diversas temáticas que cerca de dois milénios e meio de devir histórico não conseguiram ainda apagar.

Alguns deles podem ser vistos hoje em dia na Scuola di Atene, que Raffaello Sanzio pintou alegoricamente a fresco na Stanze della Segnatura do Pallazzo Apostolico do Vaticano. Platão e Aristóteles a presidirem aos ilustres académicos ali representados. Figuras dum classicismo renascentista a trazer ao nosso olhar pós-moderno o classicismo antigo bebido na herança helénica. Um encontro casual no eixo intemporal da criatividade humana.

8 de fevereiro de 2019

O Vaticano por um buraco de fechadura

                Il buco della serratura               

« Nous avons fait quelques promenades ensemble. Un taxi nous déposait Piazza Albania et nous montions sur l'Aventin. C'était l'un des endroits de Rome que le Gros préférait, " à cause du calme ", me disait-il. Il allait regarder par le trou de la serrure du portail de Malte, d'où l'on aperçoit la coupole de Saint-Pierre dans le lointain, et cela provoquait toujours chez lui un fou rire qui m'étonnait. »
Formas  alternativas  de  espreitar
A última vez que voei para a Itália, fui surpreendido por uma greve geral de transportes no Aeroporto Internacional de Fiumicino. Uma donna nativa habituada a essas paralisações sazonais instruiu-me dos expedientes a tomar em tais situações. E assim chegámos sem mais sobressaltos a Roma. Como reportei em tempos esta história aqui por estas bandas, dispenso-me de a repetir. Falhou-me todavia um pequeno pormenor que me apraz registar para assim completar este diário-de-bordo come dovrebbe essere

Depois de ter visto Braga por um canudo lá do alto do miradouro do Santuário do Bom Jesus do Monte, algumas décadas passadas dei comigo a observar a Cidade do Vaticano desde a colina do Aventino pelo buraco de fechadura do portão da Villa del Priorato di Malta. Duas formas alternativas de espreitar à distância: a primeira a ampliar, a segunda a limitar. De máquina fotográfica em punho, esperei numa longa fila de turistas a minha vez e fixei devidamente o momento per memoria futura che ora è arrivata. 

Voltei a ver a cúpula de São Pedro em toda a sua magnificência desde o giardino degli aranci, mesmo ali ao lado. Viagem prévia do olhar a preparar a que os pés pisariam de seguida. Deixei-me fotografar com a signora romana naquela varanda panorâmica debruçada sobre a Cidade Eterna, a papal e a imperial. Deve andar por aí perdida numa pen drive de trazer no bolso. O mesmo não posso dizer dos contactos registados num bloco de notas entretanto extraviado. Cosi, non ci vedremo mai più. Ecco!

18 de outubro de 2018

Os romances de Saramago, o túmulo de João XXI e o exército de Qin Shi Huang

       L'Esercito di Terracotta a Viterbo      

[Mostra nell'Ex Convento dei Carmelitani Scalzi]

Mobilità a Viterbo

Prima: letteraria
O programa Erasmus de mobilidade internacional levou-me em outubro de 2012 à Università Degli Studi Della Tuscia - Viterbo, sob os auspícios da Cátedra Pedro Hispano. A minha visita como professor convidado da Facoltà di Lingue e Letterature Straniere Moderne centrou-se nos «Universos romanescos de José Saramago» e dirigiu-se sobretudo a alunos dos 1.º e 2.º ciclos do Dipartimento di Scienze Umanistiche della Comunicazione e del Turismo. Falámos das bagagens dum viajante e das sete histórias exemplares com cão. Escuso-me de entrar em pormenores académicos.

Seconda: papal
Dizem os anais do Vaticano ter sido Pedro Julião (1215-1277) o único papa português, mais conhecido pelo nome escolástico de Pedro Hispano e pontifício de João XXI. É longa a sua carreira de médico, filósofo, teólogo, matemático e professor. Breve a de 187.º sucessor de São Pedro (1276-1277). Depois de passar por Lisboa, Braga, Paris e Siena, acaba os dias em Viterbo, onde está sepultado numa tomba onorifica. Visitei-o na Cattedral di San Lorenzo, basilica minor vizinha ao Palazzo dei Papi. Encontro feliz este meu com a arte românica rendida ao fascínio da renascentista.    

Terza: bellica
Nos intramuros da Vetus Urbs latina, a città vecchia de Viterbium, pus-me a visitar os legados etruscos, romanos e cristãos do mais vasto centro histórico medieval da Europa. Na Piaza Fontana Grande, o Ex Convento dei Carmelitani Scalzi propôs-me a mostra dell'eser-cito di terracota dell'imperatore cinese Qin Shi Huang. Não pensei duas vezes e entrei, máquina fotográfica em punho. Depois a bateria falhou-me e o encontro inesperado ficou-me todo gravado na memó-ria. Recordo-o agora num achado providencial da Net. Admirável mundo novo este o nosso da realidade virtual.