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27 de março de 2026

José Saramago e o regresso a uma segunda vida de Francisco de Assis

«Então será como nascer outra vez. No instante do nascimento todos somos iguais em pobreza. Vimos ao mundo nus, fracos, inocentes.»
José Saramago, A segunda vida de Francisco de Assis (1987)

Celebra-se este ano, com toda a pompa e circunstância a que os canais habituais do poder nos habituaram, o oitavo centenário da morte de Giovanni di Pietro de Bernardone. Dito assim às cruas, fica-se sem se saber muito bem a razão desta iniciativa a alguém que dificilmente identificamos com quem seja ou tenha sido. O mistério começa a desvendar-se, quando nos apercebemos tratar-se do fundador da ordem mendicante dos Frades Menores, mais conhecida por Franciscanos, a tal que teve a perícia de renovar o Catolicismo do seu tempo, afastando os seus membros da clausura dos mosteiros e criando a prática da pregação itinerante. Afinal de contas, as comemorações solenes referem-se a São Francisco de Assis, que a Igreja de Roma canonizou em 1228, regia então Gregório IX a cadeira papal de São Pedro na Santa Sé.

No preciso momento em que se festeja o Dia Mundial do Teatro, decidi associar esta efeméride instituída em 1961 ao texto dramático que José Saramago centrou num dos santos mais populares do Cristianismo universal, A segunda vida de Francisco de Avis (1987), levado à cena cerca de quatro décadas pelo Novo Grupo Teatro Aberto, aquando do seu lançamento pela Caminho. Desengane-se, todavia, quem supuser que o Prémio Nobel português da Literatura se limitou a lavrar à distância dos séculos, por palavras escritas e declamadas, distribuídas por dois atos e um número não explicitado de cenas, um panegírico encomiástico ao padroeiro dos animais e da ecologia. A primeira vida não é omitida, mas a segunda anunciada no título toma conta do discurso, até ser revelada nos derradeiros parágrafos da peça, como um projeto a concretizar num futuro não registado no livro ou representado em palco.

O leitmotiv da história conta-se em poucas palavras. O dramaturgo imagina o regresso de Francisco de Assis ao mundo contemporâneo e encontra a ordem religiosa por si fundada convertida numa empresa multinacional de sucesso, baseada nos princípios capitalistas dos lucros elevados, nos jogos das bolsas de valores e no maneio especulativo de ativos. O problema instala-se a partir do momento em que questionamos a localização temporal da ação. Saber se o protagonista veio do passado para um futuro que corresponde ao nosso presente de leitores/espetadores, ou se se limitou a aterrar num mundo transformado/alternativo, em que a realidade medieva tivesse sido substituída pela realidade do nosso dia a dia atual. Só a liberdade literária poderá responder à nossa dúvida, lembrando-nos que no mundo da ficção tudo é possível, desde que aceitemos as novas leis que opõem real e imaginário. Umberto Eco, v.gr., explica-os através da alotopia/ucronia*, o que, em vernáculo puro, se pode traduzir por insólito maravilhoso ou simples alegoria.

Refeito da surpresa observada na ordem por si fundada e goradas as tentativas de reverter a situação criada pelos seus antigos irmãos na austeridade militante e devolver a companhia à sua pureza original, Francesco, Il Poverello, aquele que renunciara à fortuna familiar para viver na mais profunda humildade muda de estratégia. Resolve abandonar os seus confrades doutros tempos e iniciar um novo percurso de redenção para ganhar o céu no final do seu percurso pela terra. Assume o verdadeiro nome, o João com que fora batizado, e reconhece que a pobreza não é santa, pelo que deverá ser eliminada do mundo. O seu novo objetivo assenta na máxima que, se vai para outra vida, outro homem terá de ser. Convida os opositores a segui-lo na nova missão mas só é acompanhado por Clara, Leão e Junípero, figuras centrais da tradição franciscana e do carisma da Ordem. A segunda vida de Francisco de Assis está ainda por escrever e não é relatada nas páginas da peça, que Pica, a mãe do herói, se compromete solenemente a fazer.

* Umberto ECO, «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. [1985]. Lisboa: Difel, 1989, p. 202.

27 de março de 2025

Luís de Camões, três autos, farsas ou comédias ao gosto maneirista

 
Alcmena
Ah senhor Amphitrião | Onde está todo meu bem | Pois meus olhos vos não vem, | Fallarei c'o coração, | Que dentro n’alma vos tem. | Ausentes duas vontades, | Qual corre móres perigos, | Qual soffre mais crueldades, | Se vós entre os inimigos, | Se eu entre as saudades? | Que a ventura, que vos traz | Tão longe da vossa terra, | Tantos desconcertos faz, | Que se vos levou á guerra, | Não me quis leixar em paz. | Bromia, quem, com vida ter, | Da vida já desespera | Que lhe poderás dizer?
Luís de Camões, Auto dos Anfatriões (1587)

No momento em que se cumpre o quinto centenário do nascimento de Camões, nada melhor do que aproveitar o Dia Mundial do Teatro para dar voz a três peças por si gizadas nesse século dourado das letras lusitanas. Lembrar que o grande poeta lírico das Rimas e épico d'Os Lusíadas também emprestou o seu engenho e arte dramática aos autos, farsas ou comédias de sabor popular vicentino e cultura clássica greco-latina. Gizou-as em português e castelhano, em redondilha maior com algumas cenas prosificadas, publicadas todas elas com caráter póstumo: Anfitriões e Filodemo, juntamente com outros autores maneiristas em 1587 e separadamente em 1615; El-rei Seleuco, algo tardiamente em 1645; e a obra conjunta camoniana em 1782.

Tudo leva a crer que a Comedia dos Enfantriões tenha sido redigida e representada nos últimos anos que o autor terá passado em Coimbra, provavelmente depois de D. João III ter transferido a Universidade para essa cidade em 1537, até então sediada em Lisboa. Tê-lo-á feito enquanto hipotético colegial de Humanidades, onde se terá afeito aos mitos greco-romanos, mormente no do amor de Júpiter por Alcmena, a fiel esposa de Anfitrião, o rei lendário de Tirinto que empresta o nome ao auto. Aproveitando-se da ausência do rival, por se achar a combater os Teléboas, a suprema divindade olímpica toma a forma física do marido legítimo da amada, com quem passa uma noite, advindo desse ardil o nascimento de Hércules. As demais peripécias legadas pela tradição clássica antiga são atualizadas por Camões a seu modo, tal como Plauto o fizera em latim na homónima Amphitruo (c. 206 AEC) e outros o farão também por sua vez.

Pensa-se que a redação da Comedia d'El-Rey Selevco se situe entre 1543 e 1545, a anteceder o seu desterro da Corte para o Ribatejo em 1546. É que segundo a tese tradicional ainda seguida hoje em dia por alguns, o autor teria feito alusões veladas ao casamento em terceiras núpcias de D. Manuel I com D. Leonor de Áustria, até então destinada ao príncipe herdeiro D. João. Está por provar a veracidade da suspeita, o que não impede de se fixar uma série de paralelismos entre os factos históricos conhecidos e o argumento dramático levado a cena. Tal como Plutarco já havia contado nas Βίοι Παράλληλοι (100-120 EC), as Vidas paralelas compostas em grego que Camões terá lido em latim, o príncipe herdeiro da Síria apaixona-se pela madrasta e adoece, levando o pai a cedê-la ao filho em casamento, para evitar assim seu sofrimento e livrar da lei da morte. A versão portuguesa quinhentista segue em linhas gerais a fonte clássica que o inspirara e adapta-o mais uma vez à sua visão maneirista estes enredos singulares de manifesto agrado popular.

A entrada em cena dos interlocutores da Comedia de Filodemo, a mais longa e elaborada da trilogia, é antecedida por um minucioso Argumento, quase dispensando a representação sequente. Camões retoma aqui a divisão em cinco atos, já ensaiado nos dois Anfitriões, o real e o falso, ausente nos amores cruzados de pai-filho-madrasta do imediato, estruturado num extenso Prólogo dialogado e num ato da peça. A ação reparte-se por duas gerações, separadas entre si por um naufrágio e pela morte dos pais dos protagonistas mais jovens. No final, um casal de irmãos acaba por se casar com um outro casal de irmãos e tudo termina em bem. Com um cheirinho fugaz às relações e notícias que mais tarde Bernardo Gomes de Brito reunirá na História Trágico-Marítima (1735-1736), os amores de Filodemo-Dionisa e de Venadoro-Florimana, compostos e representados na Índia por volta de 1555, enviam-nos para a roda das novelas pastoris e dos livros de cavalarias, muito em voga então, num período maneirista de transição veloz dos ideais renascentistas para os barrocos pós-tridentinos.

Lidas as três comédias e confrontados as suas linhas compositivas, apuramos que a vertente clássica presente na designação genérica e temas abordados em duas delas são derrotadas pelo pendor tradicional desenvolvido na sua totalidade. O decassílabo heroico ou sáfico de desenho épico e lírico das rimas construídas segundo os modelos da medida nova é substituído pelo septissílabo usual nas formas cultivadas pela medida velha. O tom sério, grave, sóbrio das grandes formas teatrais greco-latinas são substituídas pelo pendor jocoso, burlesco, cómico dos autos de sabor vicentino. O trágico deixa-se contaminar pelo cómico e surge-nos horizonte a tragicomédia, a comédia formal sai de cena e dá lugar à farsa real. Esta a trajetória de Camões, num século marcado pela mudança de tempos e vontades, mas também e sempre fiel à raízes ancestrais que moldaram de forma particular e indelével do ser portuguesa ou, se preferirmos, lusitana.

Editiones principes: 1587, 1615, 1615, 1645