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18 de fevereiro de 2025

Rato de biblioteca

Carl Spitzweg, Der Bücherwurm, 1850
[Berlim, Museum Georg Schäfer]
«Os livros escrevem-se para se fazerem ouvir, não para estarem calados [...] não se escreve só por escrever, escreve-se para fazer mal a quem quer fazer mal. Um mal de palavras contra um mar de murros e pontapés e instrumentos de morte.»
Elena Ferrante, História da menina perdida (2014)

Nos dias em que havia um canal de televisão entre nós, sobrava muito mais tempo livre dedicado à leitura. A realidade é que nessa época cinzenta de brandos costumes, os livros não eram um bem essencial. Nem de longe. Os preços proibitivos para os rendimentos não permitiam o luxo de os adquirir. A ida às bibliotecas impunha-se. Assim estas estivessem à nossa disposição e nos oferecessem os títulos a que ansiávamos aceder.

O prazer pela leitura revelou-se-me muito cedo. Primeiro limitei-me à decifração periclitante das histórias aos quadradinhos que me chegavam às mãos. Lembro-me das tiras coloridas publicadas por alguns jornais de tiragem nacional. Depois restava-me o prazer de entrar nas livrarias do meu burgo, para olhar as capas dos livros e tocar num ou outro se me fosse possível. Ficaram-me os nomes sonantes da Parnaso, Tália e Tertúlia.

O gosto pelos livros impressos a cheirar a tinta atingiu o seu pleno quando a carrinha da Gulbenkian começou a visitar a minha cidade, carregada de tomos na biblioteca itinerante sobre rodas. Por essa altura, também, passei a usufruir dos exemplares acabadinhos de chegar à biblioteca de turma que a minha turma do Ciclo Preparatório começara a organizar de Língua, História Pátria, como então julgo se chamava a disciplina de Português.

Não sou nem nunca fui um rato de biblioteca. Sempre que recorri aos seus (em)préstimos fi-lo pela ausência de livros em casa. Foi esta necessidade absoluta que me levou a frequentar com algum afinco a biblioteca municipal do parque da cidade da rainha. Nesse in illo tempore distante, explorei estante atrás de estante, autor atrás de autor, livro atrás de livro. Depois, comecei a compor a minha própria biblioteca pessoal com a qual coabito.

Junto a mim, tenho agora comigo a Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante, ancorada na história das duas amigas geniais que tinham uma paixão muito especial pela leitura e alguma aptidão pela escrita. Tanto uma como outra eram leitoras assíduas à biblioteca do bairro onde viviam. Uma delas requeria em seu nome e da família o número máximo permitido, que os livros se escrevem para serem ouvidos e não para estarem calados. Nem mais.

12 de fevereiro de 2025

Computadores: a mão luminosa de Deus na escrita do Decálogo no Monte Sinai

                 Left right human brain concept                 
«Nos dias que se seguiram ela quis que nos encontrássemos na Basic Sight. Fechámo-nos na sua sala e ela sentou-se ao computador, uma espécie de televisor com um teclado, muito diferente daquele que havia algum tempo mostrara a mim e às meninas. Carregou no botão de abertura, meteu retângulos escuros dentro de blocos cinzentos. Aguardei, perplexa. No ecrã apareceram soluços luminosos. Lila começou a bater no teclado, fiquei de boca aberta. Nada que se pudesse comparar a uma máquina de escrever, mesmo que fosse elétrica. Ela acariciava as teclas cinzentas, com as pontas dos dedos e o texto nascia no ecrã em silêncio, verde como erva acabadas de despontar. Aquilo que ela tinha na cabeça, agarrado a qualquer córtex do cérebro, parecia derramar-se para o exterior por milagre e fixar-se no nada do ecrã. Era potência  que apesar de passar pelo ato, continuava a ser potência, um estímulo eletroquímico que se transformava imediatamente em luz. Pareceu-me a escrita de Deus como ela devia ter sido no Sinai, no tempo dos mandamentos, impalpável e tremenda, mas com um efeito concreto de pureza.»
Elena Ferrante, História da menina perdida (2014) [Vol IV, cap. 101, pp.273-274]
No tempo em que os computadores se chamavam pomposamente cérebros eletrónicos e tinham o tamanho colossal duma casa, entrei pela primeira vez em contacto com o universo obscuro da cibernética. O meu batismo nesse universo inexplorado deu-se numa disciplina de informática que o antigo Instituto Comercial de Lisboa começara a ministrar nesses dias conturbados de vastas mudanças e eu ainda frequentava a contragosto. Viviam-se então os anos revolucionários dos cravos de abril, numa altura em que eu me preparava para trocar os números das contabilidades, economias e finanças pelas letras das línguas, literaturas e culturas clássicas e modernas.

Tudo nasceu numa mera sala de aulas do antigo edifício bizantino de traçado ortodoxo ali às Chagas, onde em tempos funcionara a embaixada russa dos czares. Era-nos proposto solver um problema de lana-caprina e esquematizar todas as fases da sua resolução através da representação gráfica num ordinograma devidamente submetido a um conjunto de símbolos normalizados, fornecidos pela linguagem Cobol. O diagrama esquemático explicativo da sequência de operações em curso era depois traduzida passo a passo em fórmulas matemáticas precisas, com recurso à numeração binária, em cartões perfurados confiados de seguida ao computador.

Quando me mudei de armas e bagagem para a Faculdade de Letras da Clássica, os personal computers ainda não estavam na moda. Bati todos os meus trabalhos académicos com o teclado HCESAR novinha em folha que nem sequer era elétrica. Outra realidade que a vindoura tornaria obsoleta. Só troquei o matraquear estrepitoso da máquina de escrever pelo processador silencioso de texto do meu primeiro comutador pessoal muito mais tarde, quando passei a frequentar a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova. Uma mutação épica indescritível, que me catapultou definitivamente da noite para o dia para o domínio eletrónico cósmico do luminoso digital.

O computador parecido com um televisor antigo, munido dum teclado como o das máquinas de escrever e dum apêndice de navegação chamado rato já desapareceram do meu horizonte de operações. Levaram consigo a enorme torre de armazenamento de dados e as disquetes de armazenamento de dados. me rendi à mobilidade dum portátil. Abençoadas ficções memorialistas mais ou menos autobiográficas postas ao dispor dos leitores, a ajudá-los a recordar as mudanças constantes do quotidiano que a anamnese real não regista. Reviver, v.gr., o esforço mental sentido em tempos para plasmar num fluxograma como fazer uma torrada ou fritar um ovo.

Cartão perfurado IBM não usado

6 de fevereiro de 2025

Elena Ferrante, história de maturidade e velhice napolitana e da menina perdida

«Se una creatura di pochi anni muore, è morta, è finita, presto o tardi ci si rassegna. Ma se scompare, se non se ne sa più niente, non c’è una cosa che resti al poso suo, nella tua vita. Non tornerà più o tornerà? E se ritornerà, ritornerà viva o morta? Ogni momento ti domandi dov'è. Fa la zingarella per strada? Sta a casa di gente ricca senza figli? Le fanno fare cose brutte e poi vendono le fotografie e i film? L'hanno squartata e hanno ceduto a caro prezzo il suo cuore per metterlo dentro il petto di un altro bambino? Gli altri suoi pezzi stanno sotto terra, li hanno bruciati? O sotto terra ci sta intera, perchè è morta incidental-mente dopo che l'hanno rapita? E se la terra e il fuoco non se la sono presa, e lei sta diventando grande chissà dove,che aspetto ha adesso? Come diventerà in seguito? Se la incontreremo per strada la riconosceremo? E se la riconosceremo chi ci ridarà tutto quello che abbiamo perso di lei? Tutto quello che è successo quando non c'eravamo e lei, che era piccola, si è sentita abbandonata?»
Elena Ferrante, Storia della bambina perduta (2014)

Cheguei ao final do percurso de vida de duas meninas napolitanas que sonhavam escrever um livro para serem famosas e ricas. Uma redigiu «A fada azul», um conto infantil de meia dúzia de páginas, a outra um romance de sucesso com um título desconhecido. A primeira era ainda uma criança, a segunda era já uma adolescente e tornou-se numa autora bem-sucedida com o passar dos anos, senhora duma vasta obra traduzida para diversos idiomas. Sabemo-lo em pormenor nesta quarta etapa da saga das amigas geniais, aquela a que Elena Ferrante chamou História da menina perdida (2014), centrada num episódio de feição trágica, que, de certo modo, poria termo decisivo à convivência de décadas de Elena Greco e Raffaela Cerrullo e por arrastamento do próprio relato em si.

Ao invés das tetralogias temáticas gregas do período ático antigo, não encontramos nesta versão fictícia moderna composta em italiano um conjunto sequencial de três tragédias de cariz marcadamente soturno seguido dum drama satírico ligeiro que amenizaria o clima sinistro da peça na sua totalidade. É que no quotidiano real tratado no quarteto romanesco, as alegrias e tristezas, o amor e o ódio, a vida e a morte andam sempre a par e passo, de mãos dadas, não se fixando hermeticamente num único género poético pré-definido. Há lugar para todos eles e miudamente em simultâneo, máxime quando se está perante um fluxo enunciativo de sete décadas, iniciado logo após a Segunda Guerra Mundial e concluído já entrados num novo século e milénio. O devir histórico do país transalpino com forma de bota está integralmente espelhado nas 1375 páginas repartidas por quatro grossos volumes, a que não faltarão alusões q.b. ao restante destino europeu e universal.

Nesta história duma menina perdida anunciada logo na capa do livro, há também essa outra história da coprotagonista desaparecida. Aliás, o ponto de partida que motivou a escrita dos percursos de vida de toda uma geração plena de indivíduos oriundos dum bairro não identificado da capital da Campânia, distribuídos por uma dezena de famílias devidamente arroladas no índice de personagens que antecede o tecido narrativo propriamente dito. se sintetiza, de igual modo, os sucessivos tratos feitos/desfeitos por que cada uma dessas figuras imaginárias de papel e tinta com direito a nome, apelido, profissão, estado civil e demais traços pessoais que os distinguem entre si. Referidos ainda meses e anos de nascimento, relações matrimoniais e extraconjugais, namoros, uniões de facto e separações, filiação política e convicções religiosas, notícia da sua morte e causas que a provocou. Não faltam as saídas de cena por assassinato, suicídio, doença ou velhice. Nada que não pudesse ocorrer em qualquer outra parte do mundo, que, segundo a entidade efabulativa, apresentava um claro movimento de desmoronamento da ordem até então vigente, revelando novas realidades a esconder males antigos.

Concluída a longa caminhada feita com palavras sobre o historial das duas amigas geniais, as que mudaram de nome ao casarem-se para de seguida o largarem ao separarem-se, da que ficou em Nápoles quanto a outra foi para Florença-Génova-Milão-Pisa para depois regressar às origens e voltar a partir, da que ao perder uma filha se perdeu completamente e desapareceu de cena para destino incerto e nunca revelado, após todo este corre-corre pelas quatro etapas da corrida, fica-se com a sensação de se estar na presença dum longo processo investigativo que cabe na tipologia genérica dum romance policial com desfecho imprevisível. Desconhece-se o paradeiro final da perita em informática, filha do sapateiro do bairro e ex-mulher dum bem-sucedido comerciante alegadamente ligado à Camorra local, mas percebe-se as razões pelas quais resolveu desaparecer da vista de todos aos 66 anos de idade. O ter podido concretizar essa sua recorrente paranoia de perder os contornos como se tratasse numa suave brisa desfeita inevitavelmente no ar. A única obra da emissora interna com direito a um título revelado, o conto «Uma amizade», funciona em toda a explanação como uma verdadeira síntese da obra monumental composta pela emissora externa. Um retrato muito fiel dum recanto muito particular da realidade italiana nascida no pós-guerra mundial a fazer a ligação com o nosso dia a dia globalizado.

 

EPÍGRAFE
«Se uma criatura de poucos anos morre, está morta, está morta, acabou, mais cedo ou mais tarde resignamo-nos. Mas se desaparece, se não se sabe mais nada dela, não há nada que fique no seu lugar, na sua vida. Nunca mais voltará, ou voltará? E quando voltar, volta viva ou morta? A cada momento te perguntas onde ela está. Anda pelas ruas feita cigana? Está em casa de gente rica sem filhos? Obrigam-na a fazer coisas terríveis e depois vendem as fotografias e os filmes? Esquartejaram-na e venderam por bom dinheiro o seu coração, para meter no peito de outra criança? os seus outros bocados estão debaixo de terra, queimaram-nos?  Ou está debaixo de terra inteira, porque morreu acidentalmente depois de a raptarem? E se nem a terra nem o fogo a receberam e ela está a crescer sabe-se lá onde, que aspeto tem agora, que aspeto terá depois, se a encontrarmos na rua reconhecemo-la? E se a reconhecermos, quem é que nos devolve tudo aquilo que perdemos dela, tudo aquilo que aconteceu quando não estávamos e ela, que era pequena, se sentiu abandonada?»
Elena Ferrante, História da menina perdida.

30 de dezembro de 2024

Elena Ferrante, histórias do tempo intermédio de quem vai e de quem fica

«Andarsene. Filar via definitivamente, lontano dalla vita che avevamo speri-mentato fin dalla nascita. Insediarsi in territori ben organizzati dove davvero tutto era possibile. Me l'ero battuta infatti. Ma solo per scoprire, nel decenno a venire, che mi ero sbagliata, che si trattava di una catena con anelli sempre più grandi: il rione rimandava alla città, la città all'italia, l'Italia all'europa, l'europa a tutto il pianeta. E oggi la vedo cosi: non è il rione a essere malato, non è Napoli, è il globo terrestre, è l'universo, o gli universi. E l'abilità consiste nel nascondere e nascondersi lo stato vero delle cose.»
Elena Ferrante, Storia di chi fugge e di chi resta (2013)

Na natureza, um rio inicia sempre o seu curso numa nascente e corre depois a maior ou menor velocidade para a foz. Tudo começa, regra geral, no alto duma montanha e termina invariavelmente numa zona baixa junto ao mar. Entre o partir e o chegar, vai ganhando caudal com os eventuais afluentes encontrados no caminho. Na literatura, os chamados romans fleuve também traçam percursos semelhantes, sobretudo naqueles em que se traça com todo o vagar disponível do mundo o nascimento-vida-morte duma personagem ou dum conjunto delas, ligadas entre si por um qualquer tipo de amizade, rivalidade ou camaradagem, em que os laços de sangue por vezes presentes desempenham um papel muito variado.

É o que se passa, de certo modo, com as duas amigas retratadas por Elena Ferrante na Tetralogia Napolitana. O grande rio narrativo formado pelos itinerários de Lila Cerrullo e de Lena Greco encontra no seu trajeto uma ou várias ilhas de permeio que o subdivide em dois braços discursivos autónomos, repartidos alternadamente por diversos capítulos. Tanto o caudal central como os laterais recebem outros riachos menores, constituídos pelas vidas individuais/coletivas dos vários núcleos familiares presentes na saga. Rios e afluentes surgem devagar na «infância» e «adolescência» das heroínas [vol. i], ampliam-se na «juventude» [vol. ii], particularizam-se no «tempo intermédio» [vol. iii] e caminham a passos largos para a «maturidade» e «velhice» [vol. iv]. Esse destino final, porém, só o conheceremos quando abrirmos a etapa final da saga, aquela em que a morte talvez visite uma das figuras nucleares, que só pode a da narrada, já que a narratária se terá de manter viva para manter a coerência realista até então seguida sem a atraiçoar.

Fiquemos, entretanto, na História de quem vai e de quem fica (2013), i.e., na história paralela da narradora-protagonista, que se mudou para Florença depois de casada, e na história da deuteragonista-narrada, que ficou em Nápoles nesta terceira fase da série. As suspeitas de se tratar duma espécie de autobiografia da autora avolumam-se a cada passo, ínvias de aferir, por se ignorar a sua identidade. Esta não ousa revelar as suas coordenadas pessoais, talvez por temer um confronto com os nomes/apelidos dados às personagens maiores/menores da ficção por si urdida, aquelas que, por definição, tanto lhes faria serem chamados dum modo ou doutro. Tão pouco se fica a saber de ciência segura em que bairro da periferia napolitano situou o núcleo central da ação. Dizem tratar-se de Rione Luzzatti, um subúrbio pouco turístico que não me recordo de ver referido no livro. Lapso meu, por certo, ou fantasia de alguns visitantes da cidade, prováveis exploradores do tal túnel-fronteira que o isolará decisivamente da restante teia urbana.

Intencionalmente ou não, Elena-Ferrante/Greco omite o título dos dois romances que a criadora interna da crónica napolitana compôs. Em contrapartida, não se coíbe de registar os ecos das críticas então tecidas a seu respeito, as elogiosas e as hostis, idênticas às que atualmente se veem registadas nos meios de comunicação com expressão global a propósito da obra que temos entre mãos. Uma autorreferência disfarçada volta a ser uma conjetura muito forte a ter em atenção. Pouco importa. O sucesso editorial dos dois corpos literários resulta uma realidade inquestionável, com caminho aberto à tradução e à divulgação fora das lindes italianas. Em literatura, tudo é simultaneamente um ser/não-ser indissociáveis em todas as linhas. Os resultados plasmados na receção duma obra depende de muitas subjetividades, entre as quais sobressaem as expressas pelos leitores, as únicas entidades capazes de transformar um bestseller numa obra-prima. Contemos com essa realidade.  
EPÍGRAFE
«Ir embora, isso sim. Pirarmo-nos dali para sempre, para longe da vida que havíamos vivido desde que nascêramos. Fixar-nos em  sítios bem organizados onde tudo fosse realmente possível. Eu conseguira pôr-me a andar. Mas viera a descobrir, nas décadas que se seguiram, que me enganara, que se tratava duma  corrente cujos elos eram cada vez maiores: o bairro remetia para a cidade, a cidade para a Itália, a Itália para a Europa, a Europa parta todo o planeta. E hoje vejo as coisas assim: não é o bairro que está doente, não é Nápoles, é o globo terrestre, é o universo, ou os universos.» 
Elena Ferrante, História de quem vai e de quem fica,. Lisboa, Relógio d'Água (19)

26 de novembro de 2024

Elena Ferrante, histórias da juventude e do novo nome da amiga napolitana

«Non abbiamo sbagliato niente, Lina, dobbiamo solo chiarire un po' di cose. Tu non ti chiami più Cerullo. Tu sei la signora Carracci e devi fare quello che ti dico io. Lo so, non sei pratica, non sai cos'è il commercio, ti pensi che i soldi li trovo per terra. Ma non è così. I soldi li devo far crescere. Hai disegnato le scarpe, tuo padre e tuo fratello sanno faticare bene, ma voi tre insieme non siete in grado di far crescere i soldi. I Solara sì, e allora - stammi bene a sentire - non me ne fotte niente se quella gente non ti piace. Marcello fa schifo pure a me, e quando ti guarda anche solo di sguincio, quando penso alle cose che ha detto di te, mi viene voglia di ficcarli un coltello nella pancia. Ma se mi serve per far crescere i soldi, allora diventa il migliore amico che ho.»
Elena Ferrante, Storia del nuovo cognome (2012)

E a saga das duas amigas continua. Quando Lila se casou com o primogénito de Dom Achille, o papão dos contos infantis que tinham povoado o seu imaginário meninil, adotou o apelido do marido. Trocou o Cerrullo paterno pelo Carracci conjugal. Assim se justifica o sentido dado por Elena Ferrante à História do novo nome (2012), o segundo ato da Tetralogia Napolitana, aquele que trata da juventude da narradora e da narratária internas do romance, coprotagonistas também elas do mesmo. Retomei a leitura desta dupla peregrinação biográfica pouco depois de ter atravessado os anos iniciais de amizade de Lenù e Lina, as figuras centrais retratadas. Fi-lo apesar dos reparos que me foram fazendo, a alertar-me para o facto de se tratar dum longo relato memorialista de grande sucesso editorial, assente numa linguagem do dia a dia, sem grandes créditos literários atestados. Registei os anticorpos tecidos a seu respeito e prossegui a minha viagem retrospetiva sem problemas de transcurso.

Catalogado desde logo como um bestseller, vertido para uma trintena de idiomas e publicado nos mais diversos quadrantes geográficos, dificilmente o podemos inserir no grupo cimeiro almejado por todos das obras-primas intemporais do engenho artístico feito com palavras. É que se os primeiros se leem de cabo a rabo numa assentada, quase sem conseguirmos parar para respirar, a leitura dos segundos faz-se também de ponta a ponta, muitas vezes mais por dever que por prazer. Nestes casos extremos, ficamos com a sensação do final se achar nos confins dum mundo ignoto, muito para além do horizonte dos eventos visíveis. Muito melhor será navegar nas águas cristalinas dos livros de referência pessoal, aqueles em que nos obrigamos a percorrer muito lentamente, para retardar a chegada inevitável ao termo, certos, porém, que, mais tarde ou mais cedo, voltaremos à sua companhia uma e várias vezes, na íntegra ou parcelarmenteO maior obstáculo reside no facto destes últimos serem difíceis de encontrar e quase nunca coincidirem com os mais vendidos ou louvados.

A hipotética aurea mediocritas horaciana, convocada pela misteriosa autora deste roteiro conexo de vidas napolitanas, remete-nos para um universo igual a tantos outros na sua diversidade. O fio condutor decorre entre o enlace/separação da amiga genial, a inspiradora do título desta segunda etapa da série novelesca, gizada com muitos acertos/desacertos intermédios, namoros encetados/terminados, em polifonia complementar com outras tantas uniões circunstanciais de cônjuges/amantes ocasionais ou permanentes, mescladas com um sem-número de traições-rancores-escaramuças, em paralelo com uma mão-cheia de amores/desamores cruzados, todos eles envoltos numa larga rede de mexericos, boatos e diz-que-disse, plasmados num bairro sem nome conhecido, subúrbio da cidade capital da Campânia e populosa metrópole da Itália. Nada de mais que um conjunto de existências não comporte em qualquer parte do mundo.

O teor dos oito cadernos contidos na caixa de metal confiada pela filha mal-casada do sapateiro à filha do porteiro da câmara municipal, acrescidos com algumas conversas e confidências avulso, bem como dos testemunhos presenciais, a entidade narrativa reconstrói com precisão milimétrica os eventos ocorridos na distante década de sessenta, assegurando, assim, o estatuto de revelação pessoal credível a tocar a omnisciência. No final da retrospetiva, a emissora interna confidencia ter escrito e publicado o seu primeiro romance, focado num episódio marcante da sua vida. Recorre então a uma voz de terceira pessoa, para afastar a subjetividade presente na série napolitana. A dúvida que se instala é a de saber até que ponto esta Elena Greco da ficção não esconde a verdadeira Elena Ferrante da capa do livro. Determinar se a realidade e a imaginação não andam mais uma vez de mãos dadas. Quem sabe se a continuação da leitura dos restantes tomos desta tetralogia que pretendo fazer ‒ malgrado a pretensa superficialidade argumentativa de que é acusada ‒ não me dará pistas para lhe dar cobertura, conquanto meramente especulativas.


«Não errámos nada, Lina, só temos de esclarecer algumas coisas. Tu já não te chamas Cerullo. És a senhora Carracci e deves fazer aquilo que eu te digo. Bem sei que não es prática, não sabes o que é o comércio, pensas que eu encontro o dinheiro no chão. Mas não é assim. O dinheiro tenho de ganhá-lo todos os dias, tenho de pô-lo onde possa crescer. Tu desenhaste os sapatos, o teu pai e o teu irmão sabem trabalhar bem, mas os três juntos não são capazes de fazer crescer o dinheiro. Os Solara sim, por isso - e ouve bem o que te digo - estou-me nas tintas se tu não gostas daquela gente. O Marcello também a mim mete nojo, e quando olha para ti, mesmo só de esguelha, quando penso nas coisas que ele disse de ti, dá-me vontade de lhe cravar uma faca na barriga. Mas se me é útil para fazer crescer o dinheiro, então passa a ser o melhor amigo que tenho.» (29-30)

30 de setembro de 2024

Elena Ferrante, história da infância e da adolescência napolitana da amiga genial

«Feci un risolino nervoso, poi dissi: “Grazie, ma a un certo punto le scuole finiscono”.
“Non per te: tu sei la mia amica geniale, devi diventare la più brava di tutti, maschi e femmine”.
Si alzò, si tolse mutande e reggiseno, disse: “Dài, aiutami, che sennò faccio tardi”».

Data de muito o meu conhecimento da existência de Elena Ferrante, nome enigmático ou pseudónimo de conveniência duma autora sem rosto visível, sem voz audível, sem corpo tangível. Os ecos discretos que até mim foram chegando diziam-me ser senhora duma escrita prodigiosa, duma vasta fluência discursiva, duma inesgotável capacidade criativa. Geradora dum número crescente de bestsellers traduzidos em inúmeros idiomas e países, ganhadora de prémios dentro e fora das fronteiras italianas, converteu-se a passos largos num dos grandes fenómenos literários ocidentais nascidos na mudança de século e de milénio. Por todas essas razões, resisti um pouco a escolher um livro seu, a lê-lo sem reservas de fio a pavio e a comentá-lo no final sem juízos de valor pré-concebidos. Resolvi-me a fazê-lo agora em tempo de férias de verão. Fui vencido por um impulso pouco habitual em mim. Dei com a A amiga genial (2011) a olhar-me de perfil numa bancada da Fnac local, ladeada por um conjunto de textos com a sua chancela, entre os quais se encontravam os comparsas da designada Tetralogia Napolitana. Fiquei-me pelo título inaugural da série. Os restantes ficarão de reserva à minha espera nessa livraria ou numa outra por onde os meus olhos os forem descortinando, à medida que a leitura me for motivando a prosseguir a viagem pelo seu interior.

O mergulho profundo no universo emblemático das sagas clássicas é imediato. Acontece num ápice mal abrimos o tomo inaugural da obra e nos deparamos com o completo Índice das Personagens que tudo leva a crer terão um papel decisivo na trama ainda por contar. Parece funcionar ao modo da indicação do elenco participante numa peça teatral ou como uma ajuda suplementar da entidade narrativa aos potenciais recetores externos. É sensato que não se percam num elenco constituído por meia centena de atores com direito a nome, apelido e um ou outro diminutivo, distribuídos por uma dezena de famílias, grupo de professores e outros figurantes secundários. Em termos didascálicos, as suas práticas laborais traçam-nos outrossim os cenários em que os dramas pessoais por si protagonizados se foram representando. Nesta enumeração exaustiva, encontra-se Elena Greco, a narradora de primeira pessoa, cuja centralidade na ação partilha com Raffaella Cerullo, a sua maior amiga. A história das duas, Lenuccia/Lenù e Lina/Lila, como também são chamadas, principia quando se cruzam na escola primária e tudo indica se manterá ativa pela vida fora.

A urdidura estrutural da tetralogia romanesca distribui-se por quatro largos atos ou ciclos existenciais (Infância-Adolescência, Juventude, Tempo Intermédio e Maturidade-Velhice), agregando cada um deles um grupo variável de cenas adicionais, devidamente ladeados por um prólogo e um epílogo devidos. Os núcleos familiares do sapateiro, porteiro, charcuteiro, mecânico, ferroviário-poeta, vendedor de fruta, barista-pasteleiro e farmacêutico, desenvolvem as suas atividades enquanto dão curso ao seu dia a dia quotidiano num bairro limítrofe de Nápoles, com algumas passagens pela grande cidade e uma incursão estival da relatora na ilha de Ischia. Entre o alfa e o ómega da primeira etapa, os intervenientes seguem os estudos académicos que o seu extrato social permite ou apetência intelectual exige, estabelecem relações de amizade/rivalidade próprias da idade, seguem/recusam os ofícios ancestrais dos progenitores, tentam singrar nos escolhos difíceis dum contexto geracional vizinho da segunda guerra mundial, crescem, amadurecem, estabelecem-se, namoram, casamNada de mais no quadro do neorrealismo italiano típico. Preparam, em suma, os novos desafios que a etapa adulta lhes propuser, tal como as parcelas seguintes da crónica coletiva onde se abrigam revelem na altura certa.

O desfile das pequenas/grandes sequências autobiográficas entram abruptamente em palco, quando o filho quarentão de Lila Cerullo telefona a Lenù Greco a informá-la do desaparecimento da mãe, havia já duas semanas, e a solicitar ajuda para a localizar. O pedido fica por satisfazer, dado o claro desinteresse da interpelada, que, ao invés, o aconselha a aprender a viver sozinho. Decide, então, recorrer às suas memórias antigas de sessenta anos para passar a escrito os principais momentos vitais que haviam traçado juntas, decidindo-se a revelar a razão pela qual a sua cúmplice expressara em dada ocasião a vontade de sumir de vez sem deixar rasto atrás de si. O leitmotiv efabulativo estava lançado para a tarefa de explicar esse desidério extremo. Ponto de partida também para lançar as pistas sobre a sua genuína identidade. No final do relato, fica-se na dúvida de saber de fonte segura quem é de entre as duas a amiga genial. Provavelmente ambas, na perspetiva cruzada tanto duma como doutra. A técnica do suspeição comum nos folhetins jornalísticos ou telenovelas televisivas fica no ar. Um incentivo para prosseguir as leituras desta primeira entrega ao domicílio dum texto feito à medida da literatura de cordel, mas com qualidade poética q.b. para merecer a pena a viagem de descoberta pelo seu interior.